O sagrado feminino



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O SAGRADO FEMININO

DA PRÉ-HISTÓRIA À IDADE MÉDIA


Maria Zina Gonçalves de Abreu
O SAGRADO FEMININO

DA PRÉ-HISTÓRIA À IDADE MÉDIA


Edições Colibri

Biblioteca Nacional - Catalogação na Publicação
Abreu, Maria Zina Gonçalves de, 1947
O sagrado feminino : da Pré-História à Idade Média. (Extra-colecção)
ISBN 972-772-681-X
ISBN 978-972-772-681-3 i
CDU 2 316
Título: O Sagrado Feminino: Da Pré-História à Idade Média
Autor: Maria Zina Gonçalves de Abreu
Editor: Fernando Mão de Ferro
Capa: Ricardo Moita
Depósito legal n.° 249 897/06
Patrocínios

Universidade da Madeira

Departamento de Estudos Anglísticos e Germanísticos Secretaria Regional do Turismo e Cultura (DRAC) Regency Hotels and Resorts
Lisboa, Fevereiro de 2007

ÍNDICE
Nota Prévia 7

Abreviaturas dos Livros da Bíblia 9

Prefácio 13

Prólogo 17
I. A Mulher nas Religiões Pré-Cristãs 23

1. A Grande-Deusa ou Grande-Mãe 24

2. Hipóstases da Grande-Deusa na Mitologia Grega, Romana e Celta 32

2.1. Deusas 32

2.2. Profetisas e Sacerdotisas 48

3. Génese da Misoginia e Masculinização do Divino 51

3.1. O tabu da menstruação e do parto 51

3.2. O tabu da virgindade 60

3.3. Eva, Pandora e a sua descendência 63

II. A Mulher no Cristianismo Primitivo 75

1. A Mulher nos Evangelhos 81

1.1. A família física em Jesus 83

1.2. A família da fé em Jesus 90

2. A Mulher nos Actos dos Apóstolos 99

2.1. O ministério feminino: profetisas e pastoras 99

2.2. A casa dos crentes: matriz da Igreja Cristã 101

2.3. A mulher no corpus paulino 103

2.4. A família física em S. Paulo 105

Maria Zina Gonçalves de Abreu

2.5. A opção pelo celibato em S. Paulo 106

2.6. O casamento e o divórcio em S. Paulo 108

2.7. A família da Fé em S. Paulo 113

2.8. As colaboradoras de S. Paulo 121



3. A Androginização da Igreja Cristã 129

3.1. Ocultação da mulher na teologia dos Doutores da Igreja 129

3.2. Fim do ministério feminino 133

3.3. As mulheres nas primeiras seitas cristãs 135

3.4. Diaconisas e viúvas nos primeiros séculos da Era Cristã 137

III. A Mulher na Igreja Medieval 147



1. Religiosidade Feminina Ortodoxa 151

1.1. Opção pela vida de celibato 151

1.2. A santificação da virgindade 152

1.3. Fundação das comunidades monásticas 155

1.4. Liberdade e poder em clausura 159

1.5. Educação feminina nos conventos 161

1.6. Autoridade e liberdade suspensas 166

1.7. Interdição à educação superior 167

1.8. Recuperação de antigos tabus 169

1.9. A educação feminina elementar continua 171

1.10. Vida de êxtase: as místicas e visionárias 175

1.11. As exemplares: o culto mariano 181

1.12. Beguinas e Brigidinas 185

2. Religiosidade Feminina Dissidente 191

2.1. As mulheres nas heresias medievais 191

2.2. Os cultos populares 195

Epílogo 199

Conclusão 211

Bibliografia 221
7

NOTA PRÉVIA
O presente estudo é decorrente de questões que me foram surgindo, e que considerei importante investigar, no decurso da investigação que fiz sobre o papel da religião no estatuto social da mulher na cultura inglesa, nomeadamente o seu papel como agente activa e passiva nos Movimentos Religiosos em Inglaterra, da qual resultou a publicação da obra ”A Reforma da Igreja de Inglaterra: Acção Feminina, Protestantismo e Democratização Política e dos Sexos”.1 Trata-se de uma obra que abarca, lato sensu, aspectos ligados à teologia Protestante e às diferentes denominações que surgiram com a Reforma da Igreja de Inglaterra, bem como à influência desta no processo de democratização da sociedade inglesa.
A natureza e âmbito do tema objecto do presente estudo implicaram o recurso a obras de outros investigadores, cuja dívida se encontra devidamente registada nas notas de rodapé e na bibliografia. Uma vez que a teologia não faz parte do meu domínio científico, importa sublinhar que as referências de âmbito teológico foram baseadas em estudos recentes de investigadores que se têm dedicado à exegese da Bíblia. Devo no entanto referir que, na análise dos pontos mais complexos, contámos sempre com o apoio do Professor João Soares Carvalho, especialista nesta matéria. Deixamos aqui registada a nossa mais profunda gratidão e admiração, como professor, investigador e amigo.
Em termos metodológicos é de referir que todas as citações de passos bíblicos em língua portuguesa são da Bíblia Sagrada, versão «A Boa Nova», Lisboa, Difusora Bíblica, 1993. As referências e citações bíblicas por contemporâneos da época que este estudo abarca serão reproduzidas tal qual, sendo mantidas as interpretações coevas sem que se tenha em consideração exegeses posteriores, nomeadamente a questão da autoria e da autenticidade de alguns dos textos
Publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2003.

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bíblicos. Nas notas de rodapé, serão indicadas, além das obras compulsadas, algumas sugestões de leitura consideradas de interesse para um estudo mais aprofundado do tema tratado. A experiência com o processamento de texto determinou a opção por um método de processar as notas que não implicasse uma eventual perda ou dificuldade de identificação das obras referidas, com a constante movimentação do texto. Nesse sentido, será sempre referido o sobrenome do autor ou do editor, seguido do título resumido da obra e da edição usada, dados que permitirão a identificação rápida e completa das fontes, numa consulta à lista bibliográfica, na parte final do livro.
Finalmente deixo aqui expressos os meus agradecimentos aos Professores João Soares Carvalho e Dominique Costa pela cuidada revisão do texto e comentários críticos. Agradeço ainda aos patrocinadores pelo apoio financeiro concedido, nomeadamente DRAC Direcção Regional de Assuntos Culturais (Região Autónoma da Madeira), Regency Hotels and Resorts e Universidade da Madeira, que permitiram viabilizar a publicação da presente obra, colaboração e apoios que se traduzem numa intervenção cultural activa, no sentido de que, assim, contribuem para dar maior visibilidade históricocultural às mulheres.
Um agradecimento muito especial ao casal Maria do Carmo e Tomaz da Cunha Santos pelo apoio financeiro, e não só, a esta iniciativa, entre muitas outras anteriores, e, sobretudo, pela sua Amizade e Carinho.

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ABREVIATURAS DOS LIVROS DA BÍBLIA


Antigo Testamento (cânone

alestiniano)

Abd Abdias

Js Josué



Ag Ageu

JzJuizes



Am Amos

Lm Lamentações

Ct Cântico dos Cânticos



Lv Levítico

l Cr Livro das Crónicas

Ml Malaquias

2 Cr 2.” Livro das Crónicas

Mq Miqueias

Dn Daniel

Na Naurn

Pt Deuteronómio

Ni Neemias

Ecl Eclesiastes

Nm Números

Esd Esdras

Os Oseias

Est Ester

Pr Provérbios

Ex Êxodo

l Rs L”Livro dos Reis

Ez Ezequiel

2 Rs 2.” Livro dos Reis

Gn Génesis

Rt Rute

Hab Habacuc

SI Salmos

Is Isaías

l Sm 1.” Livro de Samuel

Jr Jeremias



2 Sm 2. ° Livro de Samuel

Jb Job

Sf Sofonias

J] Joel



Zc Zacarias

Jn Jonas



Deuterocanónicos

Br Baruc

l Mac 1.” Livro dos Macabeus

Sir Ben Sira

2 Mac 2.” Livro dos Macabeus

CtJr Carta de Jeremias

Sb Sabedoria

Est gr Ester (grego)

Supl Dn Suplementos de Daniel

Jdt Judite

Tb Tobias

10 Maria Zina Gonçalves de Abreu

Novo Testamento

Act Actos dos Apóstolos

Jd Carta de Judas

Ap Apocalipse

Lc Evangelho de Lucas

Cl Carta aos Colossenses



Mi Evangelho de Marcos

l Cor Carta aos Coríntios

Mt Evangelho de Mateus

2 Cor 2.”Carta aos Coríntios

l Pe Carta de Pedro

Ef Carta aos Efésios

F2Pe 2.” Carta de Pedro

Fim Carta a Filémon

Rm Carta aos Romanos

FJ Cartas aos Filipenses



Its 1.” Carta aos Tessalonicenses

Gl Cartas aos Galatas

2Ts l 2.” Carta aos Tessalonicenses

Heb Carta aos Hebreus

Tg Carta de Tiago

Jo Evangelho de João

l Tm 1.” Carta a Timóteo

l Jo J.” Carta de João

2 Tm 2.”Carta a Timóteo

2Jo 2.” Carta de João

Tt Carta a Tito

3Jo 3.” Carta de João
Nota: Dado que aparecem muitas referências bíblicas no corpo deste trabalho, achámos conveniente fornecer esta lista de abreviaturas.
À minha mãe, em sua memória
PREFÁCIO
Senti-me deveras honrado quando a Professora Doutora Maria Zina Gonçalves de Abreu me convidou para escrever o Prefácio deste seu livro sobre a extraordinária acção de tantas e tão destemidas mulheres que ao longo dos séculos têm lutado pelo reconhecimento da sua dignidade como seres humanos, sempre olhadas com reservas em praticamente todos os regimes dominados pela antiquíssima mentalidade patriarcal.
Primeiro entre os pagãos da Antiguidade Pré-Clássica e Clássica, que nela não puderam deixar de ver a incarnação ou personificação da Mãe-Terra, a Tellus Mater latina, a divina Gaia, aliás Gcea ou helénica. Por alguma razão, a que hoje chamaríamos complexo freudiano, ela foi exaltada e até temida como o primeiro ser divino que saiu do Caos, o espaço infinito e vazio, pois era impossível e contrariava toda a lógica pensar na criação e na evolução do kosmos sem conceber na sua origem uma mãe divina. A Mitologia, na posse de uma imprescindível mãe, fê-la gerar no seu ventre o Céu ou Urano, em grego oúpavóç [uranos], deus do Céu e do mundo subterrâneo.
O Cristianismo, numa linha de continuidade da necessidade de uma mãe que gera Deus, assumindo uma interessante exegese do Antigo Testamento, principalmente Isaías, revelou o nascimento miraculoso do Menino Deus no ventre de uma virgem chamada Maria, por muitos teólogos denominada Teotokos, palavra grega (GeotÓKOç), que significa a que dá Deus à luz ou parideira de Deus, a Deípara.
O Judaísmo tudo fez ao longo dos séculos para não permitir que a mulher gozasse de um estatuto social ou religioso igual ou semelhante ao do homem, embora no início de Génesis se diga que ”O Senhor Deus disse: - Não é conveniente que o homem (Adão) esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele”. Auxiliar semelhante a ele, parecida com ele, da mesma natureza dele - mas auxiliar dele.
No Médio Oriente a mulher não tinha personalidade jurídica, como confirmam as leis dos Hebreus. Por exemplo, na versão do Decálogo de Ex 2017 a mulher é incluída na lista de propriedades do

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homem: Não desejarás a casa do teu próximo, nem desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu burro, nem coisa alguma do teu próximo. A última frase é bastante esclarecedora: nem coisa alguma do teu próximo: A mulher era propriedade do homem.


No entanto, na Mesopotâmia, como ficou claramente expresso no Código de Hamurabi, a mulher podia ser proprietária de terras e habitações e negociar com homens, sob protecção da lei vigente. Em Roma, a posição jurídica da mulher teve um reconhecimento bastante aceitável e, embora não fosse total, era de longe muito mais digno do que no Oriente.
Na literatura sapiencial, bastante misógina, a mulher é acusada de todas as indignidades: sedutora, adúltera, queixosa, litigiosa, faladora, enganadora, invejosa, bêbeda, desonesta, responsável pela entrada do pecado no mundo. A literatura rabínica é ainda mais misógina. Há, no entanto, opiniões em Provérbios e Eclesiástico que classificam a mulher como um dom de lave, uma coroa para o marido, sendo enumeradas as suas virtudes e qualidades: beleza, inteligência, silêncio, disciplina, modéstia, etc.
Muhammad, o fundador do Islamismo, deve ter ouvido ler esses textos, porque a sua posição em relação à mulher é bastante misógina, como lemos nas suras 2 e 4 : Os homens são superiores às mulheres pelas qualidades com que Deus os elevou acima delas e porque os homens gastam os seus bens a dotá-las. As mulheres virtuosas são obedientes e conservam cuidadosamente durante a ausência de seus maridos o que Deus lhes confiou. Deveis repreender as que dão sinais de desobediência; podeis pô-las em camas à parte e bater-lhes, mas desde que obedeçam não procurareis mais motivos de querela. Deus é excelso e grande.
Diz também que entre os prodígios de Deus está o de ter criado para os homens esposas saídas deles, para que possam repousar junto delas (30 ). E em 43 7 diz-se que a mulher é um ser que cresce entre bagatelas e está sempre em disputa sem causa. Em 419, afirma que, se uma mulher cometer adultério, o seu marido deve chamar quatro testemunhas contra ela, fechando-a em casa até que a morte a leve ou que Deus lhe conceda um meio de salvação.
Ainda hoje, na mesquita, as mulheres não podem estar junto dos homens mas num lugar à parte que lhes está reservado.

O Sagrado Feminino: da Pré-História à Idade Média 15

Poucas são as mulheres referidas pelo seu nome no Antigo Testamento. Por exemplo, Lot, sobrinho de Abraão, era casado, mas a sua mulher é referida como a mulher de Lot. Mas algumas não puderam ser censuradas. É o caso de Miriam ou Maria, irmã de Moisés, chamada profetisa em Ex 1520, que marchou com um grupo de mulheres todas tocando pandeiretas e dançando, enquanto ela entoava um cântico de louvor aos guerreiros hebreus que venceram os Egípcios: Cantai ao Senhor que é verdadeiramente grande. Ele lançou no mar cavalo e cavaleiro. Outra figura feminina do AT é Ana, mãe do profeta Samuel, que entoou um cântico de júbilo ao Senhor: O meu coração exulta de júbilo no Senhor, Nele se ergue a minha fronte, a minha boca desafia os meus adversários, porque me alegro na tua salvação, etc. A linguagem litúrgica de Ana é muito semelhante à usada pela Mãe de Jesus, no seu cântico conhecido por Magnificai: A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, etc.
Outras famosas mulheres referidas no AT são Agar, escrava de Sara e mãe de Ismael, pai dos Árabes, Débora, ama de Rebeca, Juíza de Israel, autora do cântico que começa assim: Louvai o Senhor, pois em Israel os chefes comandam e o povo espontaneamente se ofereceu, Ester e Judite, heroínas dos livros que têm o seu nome, Lia e Raquel, filhas de Labão, primeira e segunda mulheres do patriarca Jacob, Rebeca, esposa do patriarca Isaac, Rute, protagonista do livro com o seu nome, uma gentil moabita que correspondia à mulher ideal dos Israelitas, antepassada de famosos reis, Sara, mulher de Abraão, mãe de Isaac.
A posição de muitos Judeus convertidos ao Cristianismo pela mensagem evangélica de Jesus modificou-se surpreendentemente, ao observarem o respeito com que Jesus tratava a mulher, quer directamente - a filha de Jairo, a cananeia, a viúva de Naim, Marta e Maria, Madalena, a samaritana, nunca as considerando como seres inferiores, quer nas suas parábolas: a do fermento, a da dracma perdida, a da viúva importuna, a das virgens numa boda, etc.
No início da Igreja Cristã, as mulheres tomavam parte activa como auxiliares dos apóstolos, embora a sua formação judaica e a necessidade de pregar o evangelho aos outros Judeus não lhes permitisse conceder à mulher funções sacerdotais. No entanto, São Paulo, na Carta aos Romanos, regista grandes elogios a muitas mulheres que com ele colaboraram no seu ministério evangélico.
Embora a Igreja Católica Romana continue a considerar a mulher incapaz de exercer o sacerdócio, outras igrejas cristãs já conseguiram

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ultrapassar esse histórico tabu, ordenando mulheres ao Diaconato, ao Presbiterado e até ao Episcopado.
Este livro da Professora Maria Zina é uma nova e brilhante luz para esclarecimento da posição da mulher no mundo moderno, onde a sua presença e actividade é cada vez mais necessária para o seu progresso. O meu sincero desejo é que apareçam mais Zinas, capazes de nos iluminar o espírito para que caminhemos cada vez melhor para um mundo mais digno, mais respeitoso, mais honesto.

João Soares Carvalho
PRÓLOGO
Ao decidir levar a cabo o presente estudo, foi nossa intenção juntarmo-nos ao grupo de investigadores, maioritariamente do sexo feminino, que, num vasto leque de áreas científicas, se esforçam por dar visibilidade à mulher como sujeito do discurso e agente na História da humanidade. Inúmeros são, com efeito, os investigadores que se têm debruçado sobre o estudo da vida das mulheres, sobretudo a partir da década de 1970, num esforço de traçar as origens e evolução do sistema social patriarcal que definiu, e ainda define, a Cultura Ocidental, com ênfase especial na forma como moldou o estatuto social, religioso, político e económico das mulheres.
Gerda Lerner1 e Joan Kelly,2 por exemplo, chamam a atenção para os dois importantes modos como os historiadores distorceram o passado, ao, por um lado, excluírem as mulheres das narrativas históricas e, por outro, ao estruturarem a História de tal forma que se tornou impossível inclui-las.
Essa distorção do passado histórico-cultural parece ter sido igualmente preocupação do escritor Dan Brown, em cuja obra O Código Da Vinci (2003) há um questionamento claro de ’verdades’ longamente estabelecidas, resolvidas e consolidadas na Cultura Ocidental. Não obstante tratar-se de uma abordagem ficcionada, esse ’levantar de véu’ do nosso passado histórico-cultural inquietou os leitores e abalou algumas estruturas da sociedade contemporânea. O sucesso espectacular da obra O Código Da Vinci deve-se, a nosso ver, em boa parte às questões polémicas que levantou, especialmente a questão do sagrado feminino - o poder religioso que a Igreja obliterou, na sua luta para estabelecer uma religião exclusivamente masculina e que urge desocultar das brumas da história a que foi consignado.
1 Lerner, The Majority Finds its Past: Placing Woinen in History, passim; Cf. ibid, The Creaíion ofPatriarchy, passim.

2 Kelly, Women, History and Theory: The Essays ofJoan Kelly, passim.


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com efeito, nos diferentes períodos históricos, o que encontramos são sobretudo as experiências dos homens. As das mulheres foram, regra geral, julgadas sem importância e liminarmente omitidas. O objectivo do presente estudo é, por conseguinte, o de contribuir para esse esforço comum de resgate histórico-cultural, pela análise da forma como as religiões subjacentes à Cultura Ocidental, nas suas diferentes expressões: pagã, judaica e cristã, foram responsáveis pela (de)formação do carácter e definição do perfil sócio-religioso da mulher europeia, até ao final da Idade Média.


Nesse sentido, dedicamos o Capítulo I à análise do estatuto sócio-religioso das mulheres nas civilizações pré-Cristãs, com o objectivo de aferir as relações das mulheres dessas sociedades com o divino e a expressão das suas experiências religiosas nas culturas que deixaram. Pretendemos com isso ilustrar o papel das diferentes religiões pagãs na génese e desenvolvimento da sociedade patriarcal e da misoginia, e a forma como as mulheres foram progressivamente perdendo todo o poder, independência e autonomia que nalgumas dessas civilizações detinham. Assinalamos, nomeadamente, a masculinização da religião com o derrube das todo-poderosas Deusas e da expressiva galeria de divindades femininas e sacerdotisas pagãs, bem como a concepção do estereótipo da ’mulher impura’, contaminada pela menstruação e pelo parto, o culto da virgindade, e a concepção de arquétipos femininos, como Eva e Pandora, as inimigas da Humanidade. Analisamos igualmente a forma como essa nova ordem sócio-religiosa deu lugar ao surgimento, ascensão e estabelecimento de uma cultura de formato andrógino.
Conhecida esta evolução primordial, dedicamos o Capítulo II ao estudo do papel activo e passivo das mulheres no Cristianismo Primitivo, no qual estabelecemos um paralelo entre o estatuto sócio-religioso das mulheres judias e o das companheiras de Jesus. Sublinhamos, sobretudo, a preocupação de Jesus, e mais tarde também de S. Paulo, em redefinir as convenções e atitudes dominantes em relação às mulheres, e em moldar as gerações futuras, bem como o facto de, na nova Família da Fé’ cristã, as mulheres terem encontrado alternativas de vida mais activa, libertadora e paritária. São ainda estudados alguns aspectos específicos da experiência religiosa feminina na Igreja Primitiva e nas primeiras seitas cristãs.
No Capítulo III, focamos a nossa atenção na experiência religiosa feminina no seio da Sé de Roma, após a oficialização do Cristianismo como Fé do Império Romano. Assinalamos, nomeadamente, a

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exclusão das mulheres de todas as funções eclesiásticas na nova Igreja, após o que apenas lhes restou a reclusão em mosteiros e conventos, alguns dos quais fundaram, como alternativa para o exercício activo da sua religiosidade. Sublinhamos o elevado nível de erudição que algumas reclusas adquiriram e as capacidades de gestão de poderosas abadessas, factos que, aliados ao poder espiritual das místicas e visionárias, foram vistos como uma ameaça à hegemonia da Igreja, que logo tratou de lhes impor o seu controlo e domínio.
Ainda neste mesmo Capítulo, vemos como, paralelamente à prática religiosa ortodoxa, muitas mulheres participaram activamente nos movimentos periódicos de revivalismo religioso, que questionavam o distanciamento da Igreja do modelo Apostólico, e como rapidamente foram esquecidas pelos respectivos líderes, a quem empenhadamente apoiaram, com risco da própria vida.
Os cultos populares, que preservaram vestígios dos cultos pagãos das sociedades pré-Cristãs, são igualmente objecto da nossa atenção, uma vez que foi neles que se perpetuou o poder sobrenatural que as mulheres detinham nas sociedades pagãs, o qual a Igreja satanizou, criando a figura da bruxa, a quem a Inquisição purificou nas suas ’santas fogueiras’.
Paralelamente, esboçamos o desenvolvimento de ideias-chave, símbolos e metáforas pelas quais as relações de género patriarcais foram sendo incorporadas na Cultura Ocidental, isolando e identificando algumas das formas como as diferenças de género foram sendo construídas. Analisamos, por exemplo, as doutrinas que nos ensinam que o homem é a ’imagem de Deus’ e a mulher uma ’forma humana inferior’, imagens essas que atravessam todo o tecido da Cultura Ocidental, numa tentativa de esclarecer o modo como as mulheres foram psicologicamente induzidas a interiorizar a ideia da sua alegada ’inferioridade natural’, divinamente ordenada. Será ainda objecto da nossa atenção a análise dos arquétipos antitéticos de Eva-Maria, que estão na base da divisão das mulheres em categorias antagónicas: ’Mulher Casta’ e ’Mulher da Vida’; ’Mulher Anjo’ e ’Mulher Satânica’. Num certo sentido, essas formas representam artefactos históricos, dos quais é possível depreender a realidade social que deu azo à ideia ou à metáfora.
Por fim e a título de Epílogo, assinalamos o modo como o crescente distanciamento da Igreja do modelo Apostólico e os excessos do seu clero se reflectiram na qualidade de vida espiritual nas comunidades monásticas, e fora delas, e como, embora continuasse a manter o

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controlo da autoridade eclesiástica e dos dogmas, a Igreja não conseguiu deter a Reforma Protestante, que finalmente pôs termo à uniformidade religiosa na Europa ocidental. Assinalamos igualmente que, nesta fase final do período em estudo, a generalidade das mulheres já havia interiorizado o culto católico, bem como as virtudes da castidade e o estigma de Eva, e que a sua exclusão dos assuntos da Igreja resultou numa religiosidade feminina alienada, materializada e convencional, que explica a adesão de grande número de mulheres à nova Fé Protestante, cujos líderes lhes acenavam com novos ideais e motivações.
Embora acreditemos que os pressupostos aqui avançados tenham ampla aplicabilidade, e que as fontes usadas possam ser consideradas exíguas ou inconclusivas, sobretudo as respeitantes à época da pré-História, ainda assim cremos haver nelas indícios suficientes para fazer com que os escassos exemplos que apresentamos tenham um interesse especial para o presente estudo. Mesmo durante a Idade Média, os vestígios históricos das vidas das mulheres continuam a ser raros. Poucas eram alfabetizadas e as suas oportunidades de registar os seus pensamentos, sentimentos e experiências continuavam extremamente limitadas; os escritos medievais são lato sensu de autoria masculina. No entanto, a literatura do século XII ficaria empobrecida em interesse pessoal e no seu conteúdo humano e intelectual se mulheres como Héloise e Hildegard não nos tivessem deixado os seus escritos.
Não obstante as experiências femininas registadas se limitarem sobretudo às de mulheres que influenciaram aqueles que as rodeavam, como é o caso das grandes abadessas medievais, as experiências que conseguimos inferir de outras fontes em relação às mulheres que escaparam ao mercado do casamento para serem freiras ou que combinaram o casamento com a profecia ou a heresia, integrando-se em movimentos heréticos, ou ainda em relação a mulheres enigmáticas como as bruxas, videntes e curandeiras, constituem no seu todo importantes instrumentos de reconstrução da História das Mulheres, para a qual esperamos que o nosso esforço de análise da influência das religiões na definição do estatuto sócio-religioso das mulheres na Cultura Ocidental seja um modesto contributo. Esperamos também que este estudo constitua fonte de estímulo para que a busca da identidade histórico-cultural feminina continue.
A MULHER NAS RELIGIÕES PRÉ-CRISTÃS
O estatuto sócio-religioso da mulher europeia no final da Idade Média é o produto de um conjunto de influências de diversa procedência e complexidade, cujas raízes mais remotas se encontram nas civilizações pré-Cristãs, cuja apreciação requer uma incursão, ainda que sinóptica, por essas civilizações, que constituíram as matrizes da Cultura Ocidental.
É nosso objectivo neste capítulo ilustrar algumas das primeiras manifestações do surgimento das sociedades patriarcais e como as mesmas determinaram a (de)formação da imagem da mulher até ao advento de Cristo, analisando as relações de género predominantes, nomeadamente ao nível sócio-religioso, tomando como base de estudo as recentes descobertas arqueológicas, os escritos sagrados e a literatura pré-Cristã.
Os progressos feitos no campo da arqueologia revelaram que foram as civilizações micénica e cretense que formaram as primeiras comunidades-estado encontradas na área geográfica actualmente ocupada pela Europa.1 A análise das provas arqueológicas obtidas com as escavações feitas nessas regiões no início do século vinte pelo arqueólogo inglês Sir Arthur Evans (1851-1941), que deu sequência ao trabalho de Heinrich Schliemann, iniciado em 1886, bem como a dos documentos escritos encontrados - muitos dos quais permanecem indecifrados2 - não permitiu fundamentar de forma conclusiva o estatuto religioso da mulher micénica e cretense ou as suas relações sociais, em especial com o homem. No entanto, algumas das tabui-
1 Anderson and Zinsser, A History ofTheir Own, vol. I, p. 7.

2 Em escrita Linear A, escrita silábica ainda não decifrada, usada em Creta entre os séculos XVHI-XV a.C.


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nhas micénicas em escrita Linear B,3 que conseguiram ser decifradas,4 revelaram que as mulheres que laboravam nos palácios da Grécia micénica recebiam rações iguais às dos homens e que se encontravam paritariamente representadas entre os indivíduos que ocupavam funções religiosas.5


Segundo Junito Brandão, é todavia possível reconstituir o panteão creto-micénico, fazendo um estudo comparado, embora cauteloso, entre as informações que nos são fornecidas nas tabuinhas de argila Linear B, os poemas homéricos e as descobertas arqueológicas, que nos permitirá resgatar, com alguma fidelidade, o perfil sócio-religioso da mulher nessas sociedades pré-Cristãs, que passamos a reconstituir.6

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