O retorno da Deusa: Uma necessidade pessoal e ambiental



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O Retorno da Deusa - Uma necessidade pessoal e ambiental?


Maria de Lourdes de Campos Ribeiro


Este trabalho é o resumo de um outro, apresentado no Mestrado e Especialização em Ciências Ambientais, da Universidade Estácio de Sá, em 1996, o qual, por sua vez, já era uma parte adaptada da monografia que teria sido defendida no Instituto Junguiano do Rio de Janeiro. Portanto, algumas conclusões presentemente expostas, mas cujo desenvolvimento foi impossível de demonstrar em virtude do limite de 1.400 palavras, são frutos das pesquisas realizadas para a consecução dos dois trabalhos anteriores.


Resumo

Cientes de que não existe impacto ambiental, causado pela ação antrópica, que a Natureza não possa suportar, e de que quem não a suporta é o próprio Homem lançamos a hipótese de que a questão ecológica, na episteme ocidental, seja basicamente psicossocial, e derivada do recalque de um conjunto de representações referentes à Natureza e ao Feminino. Assim sendo, a problemática Homem versus Natureza, pode ser entendida como uma projeção da relação Homem versus Homem (a sociedade que criamos) e Homem versus si mesmo (nosso autodesconhecimento, nossa inconsciência).

A Ecologia como projeto de preservação da vida - não da vida da Terra, mas da nossa vida na Terra, pode ser vista como uma possibilidade de transformação de paradigmas. Estas transformações poderão nos levar a novas formas de vivenciar as relações intra e interpessoais, e do homem com a Natureza.

À Psicologia, cabe renovar o respeito à Natureza, resgatando a reverência pela Deusa interior no homem contemporâneo.

Com este trabalho, esperamos provocar uma profunda reflexão sobre qual o paradigma que tem sustentado nossas ações depredatórias, as intenções inconscientes que nos tem movido e a real efetividade das soluções que temos sido capazes de propor.


"a situação psicológica do homem moderno não é apenas um produto

dos tempos modernos, mas uma etapa dum processo de individuação

da civilização ocidental que se encontra frente a um impasse"1
Com a primazia do patriarcado, principalmente o judaico-cristão, a Natureza, matéria, associada à mulher e ao feminino foi reprimida e dominada. O Deus Uno condenou-a, ao mesmo tempo em que outorgou ao homem - como espécie e gênero, "sua imagem e semelhança" - o papel de Senhor do Mundo.

Vem desse tempo a cisão doentia que fundamenta a episteme ocidental contemporânea, tendo sido fortalecida pela filosofia cartesiana do século XVIII. Porém, consideramos esta Weltanschauung, unilateral e contrária à nossa noção de dignidade humana. Contudo, o Homem acreditou que o lugar de "Senhor do Mundo" fosse realmente seu, e baseado nesta idéia, tem agido. Divorciou-se de sua natureza interna e externa, passando a degradá-la.

Contrariamente à nossa suposição de primado da Razão, percebemos ser o preconceito religioso judaico-cristão que, em última instância, tem sido o paradigma que fundamenta o nosso "avanço" científico e nossa relação com a Natureza.

O planeta é um todo, um sistema vivo e organizado! E não é assim por nenhuma entidade que lhe seja transcendente, externa e/ou superior, mas pelo dinamismo que lhe é inerente e o põe em constante autoformação, reformulação.

Muito antes que passássemos a existir, a Natureza já havia sofrido o impacto de inúmeros fenômenos planetários infinitamente mais potentes que qualquer artifício destruidor que o Homem tenha conseguido inventar e, apesar de tudo, está aqui. Ela não evolui, nem involui. Como tudo que é vivo, está em constante mutação. Não existe um caráter teleológico na organização cósmica. As leis da Natureza não são morais, são naturais. A moralidade não é o seu domínio. Sua norma básica é a da vida: transformar-se continuamente. Simplesmente, isto.

O recente despertar da necessidade de preservação ecológica, parece-nos poder ser compreendida como uma maciça projeção de problemas psicossociais. Afinal, não há como extinguirmos a Natureza. Não temos tamanho poder. Portanto, supomos plausível também, que a ameaça de destruição ambiental seja uma projeção paranóide e megalomaníaca de nossos próprios problemas, de nosso profundo autodesconhecimento e dificuldades interpessoais.

É óbvio e inegável que a ação antrópica existe e é nefasta! O problema está em saber como este Homem vai se ver frente a este planeta que ele está tornando inviável e, talvez até, inabitável, para a sua e outras espécies. Suas ações são principalmente relevantes para si próprio. E mais, estão circunscritas ao seu tempo, que é ínfimo, se comparado ao tempo geológico.

Projetamos nossa auto-destrutividade no meio ambiente. Contudo, continuamos nos outorgando o lugar de detentores de um saber capaz de "descobrir" soluções. Então, estudamos ecologia, falamos de projetos avançados sobre gestão ambiental, globalização, centralização de conhecimentos, etc. As soluções propostas pelos "especialistas" afiguram-se como uma outra maneira, ainda mais "inflada", de dizer que continuaremos a explorar nosso meio, apenas ... Com mais cautela! Suas tecnologias estão orientadas pela mesma episteme fragmentária, comprometida e inconsciente que gerou a degradação do planeta. Este homem que inventa máquinas2 - que acopladas a determinados sistemas permitem comunicações internacionalizadas através da informática orbital -, permanece sozinho, isolado, impotente para comunicar-se com o seu próximo.

Se as relações humanas problematizaram-se a tal monta, chegando, às vezes, ao ponto de se tornarem inviáveis, como é que podemos continuar nos acreditando não, como os atuais provisórios representantes da espécie humana, mas como o produto final, pronto e acabado: "perfeito coroamento do processo evolutivo" ou "a imagem e semelhança de Deus, destinados a reinar sobre o universo" ?

Ao nos confrontarmos com a incomensurável força dos fenômenos naturais, chegamos a achar que a Natureza esteja reagindo, "magoada" conosco. Quão pretensiosos somos! Mas, se acreditamos que ela nos hostiliza é porque inconscientemente a humanizamos como Gaia, a Mãe Terra, a Divindade pré-cristã das sociedades matriarcais que o patriarcalismo rejeitou. Dizemos que somos científicos! Elegemos a ciência como "forma de penetrar na Natureza"3 mas, é ainda na estrutura de pensamento religiosa/patriarcal que atuamos.

Justamente por tê-la rejeitado como divindade pela consciência, o homem "científico" pôde tentar dominar a Natureza e, sob a racionalista explicação da necessidade de exploração de recursos tróficos4, começou a desrespeitá-la, degradá-la, pensou ser capaz de destruí-la e, depois, ameaçado, preocupou-se/preocupa-se com sua preservação.

Relegada às profundezas abissais da psique humana, essa Toda Poderosa Divindade Primordial perdura, mas, tendo sido vilipendiada, mostra-nos sua face terrível atemorizando aqueles que traíram suas leis. Se antes era adorada e reverenciada sobre a Terra, à luz da consciência, reina agora sob a Terra - Senhora absoluta das trevas, do inconsciente. Jung propõe que este substrato mais profundo da psique é universal e ilimitado, incluindo e circunscrevendo a consciência. Seus limites e poderes são desconhecidos e incognoscíveis.

A passagem da dominação para a predação de Gaia põe em ação a função compensatória da psique objetiva que, sombriamente, gera neste homo demens5, angústia e culpa. Ignorante de seu "outro" lado, ele projeta estes conteúdos e, assim sendo, o aspecto megalômano está diretamente ligado e é proporcional à intensidade da repressão e da valorização inconsciente atribuída à Grande Deusa. A necessidade de reparação advinda da culpa eclode com o que chamamos de "consciência ecológica".

É enorme o esforço exigido para que se dê uma mudança paradigmática. Romper com preconceitos religiosos e culturais há tanto tempo arraigados, demanda motivações fortes o bastante para que sirvam de sustentáculo ao longo do doloroso processo de "renascimento", com todas as perdas e ganhos implícitos neste simbolismo. Mas, uma consciência ampliada e uma identidade renovada poderá dar à luz um novo homem.

Lembremo-nos da bipedia6, que instaurou a primeira linhagem de primata em pé - primeiro e contundente passo rumo a hominização, e que teve por finalidade colocar os bebês nos colos de suas mães7. A passagem para a sedentarização, assim como inúmeras outras transformações fundamentais ao longo da existência do gênero "homo" e da espécie humana ocorreram em função da fêmea e mais tarde, da mulher. A Ecologia, na medida em que se constitui como um projeto preservacionista, sem sombra de dúvida, pertence ao universo "feminino".

Quiçá faça parte do mito futuro a coniunctio oppositorum onde masculino e feminino, homem e mulher, "poderiam ser o que realmente são: formas diferentes e complementares de existência" 8. Por certo, como nos adverte Jung, essa união possui uma imensa tensão interna. Mas, não é da tensão entre os opostos que pode surgir o novo? Apenas um novo homem poderá ver um mundo novo9: uma sociedade planetária harmoniosa!

Etimologicamente, Harmonia - Deusa, filha de Ares e Afrodite - significa "o acordo, a junção das partes"10.
"Ainda que os opostos fujam um do outro, contudo eles tendem a equilibrar-se, pois o estado de conflito é por demais avesso à vida e por isso não pode conservar-se de modo duradouro11
O hierósgamos da Deusa e do Deus parece-nos ser aquilo que poderá reconciliar, num todo organizado e harmônico, o que tem estado maniqueistamente cindido: Cultura e Natureza, Homem e Mulher, Masculino e Feminino, Eros e Logos, Emoção e Razão. No reencontro conosco e com nosso próximo, poderemos viver pacificamente nossa totalidade de seres bio/psico/sociais/cósmicos.

Um ser que possa produzir um saber científico, racional, intuitivo, emocional e ético, vinculado e honesto, não é fácil, mas é possível. Como chegarmos a isto?

Com o amadurecimento humano, poderá surgir um homem consciente e ético12. Um Homem avançado no processo de individuação: "problema geral da vida”, 13 do qual são partes essenciais o confronto com a sombra e a integração da contraparte sexual - Anima14.

Aquele que, mergulhando na pequenez da dimensão humana, puder reavaliar-se, redimensionar-se e relativizar-se no tempo/espaço do drama cósmico, terá atingido sua verdadeira medida. Tendo perdido a hýbris15, ganhará Humanidade e encontrará seu real significado.

Após a jornada ao inferno interior: Inteiro e Íntegro, encontrar-se-á e, um novo nascimento lhe será permitido, pois que dotado de uma renovada e ampliada consciência poderá tornar-se o Super-Homem16 aquele que, tal qual o Deus da Identidade17, poderia/poderá reatualizar o Mito da Criação.

Vale salientar a advertência de Jung acerca do esforço psicoterapêutico. Para ele, nosso trabalho é importante não só para o indivíduo, mas também,


"para o progresso moral e espiritual da humanidade como um todo [...]

Por menor que seja, é um "opus magnum" 18
À psicologia, também ela feminina, cabe auxiliar no resgate da Anima Mundi.
O Retorno da Deusa é uma necessidade pessoal e ambiental!

O Mito do Deus da Identidade19
O deus da Identidade, num determinado instante, disse :

"Eu Sou" e,

assim que o disse, teve medo. Então pensou: -

De que poderia eu ter medo se sou a única coisa que existe?

E assim que o disse, sentiu-se solitário, e quis que houvesse outro, ali.

Então, pela primeira vez, sentiu desejo.

Por isto cindiu-se; dividiu-se; fez-se dois, tornou-se macho e fêmea e originou o mundo.



Reprodução de algumas transparências.

Transparência 3.



Psicologia e Ecologia


O que uma têm a ver com a outra?

Tanto a Psicologia quanto a Ecologia são “ciências” novas. Ambas derivadas de palavras gregas Psiqué (alma) e Oikós (casa), que traduzem conceitos relacionados ao universo feminino.

Com o estabelecimento da supremacia do patriarcado, principalmente o judaico-cristão, a Natureza associada a mulher e ao feminino foi reprimida pelo deus Uno, dando início a cisão doentia, que com algumas variações, permanece em vigência até nossos dias, e que permite e valida a exploração tanto da mulher quanto da Natureza.

Quando o princípio feminino é excluído de uma cultura, quase sempre por motivos religiosos, tudo o que lhe é pertinente também o é, sendo privilegiados os valores do princípio oposto ao seu.


Tradicionalmente, Logos está associado ao masculino e Eros ao feminino. Razão e emoção foram de tal forma dissociados, que o que se pretendeu compreender como “ciência” até que a física do início do séc. XX viesse nos mostrar o engano, era algo unicamente racional e objetivo. No entanto, a representação social de ciência, permanece sendo esta.

Transparência 4.
Gênesis

1 – As Origens


26 Então Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra”. 27 Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. 28 Deus os abençoou: “Frutificai disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. 29 Deus disse: “Eis que vos dou toda a erva que dá sementes sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento. 30 E a todos os animais da terra, e todas as aves dos céus, a tudo que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda a erva verde por alimento”. E assim se fez. 31 Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: Foi o sexto dia.

Transparência 5.



Ética Planetária.

“O Presidente, em Washington, informa que deseja comprar nossa terra. Mas como é possível comprar ou vender o céu, ou a terra? A idéia nos é estranha.

Se não possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como vocês poderão compra-los?

Cada parte desta terra é sagrada para o meu povo. Cada arbusto brilhante

do pinheiro, cada porção de praia, cada bruma na floresta escura, cada campina, cada inseto que zune. Todos são sagrados na memória e na Experiência do meu povo.

Conhecemos a seiva que circula nas árvores, como conhecemos o sangue que circula em nossas veias. Somos parte da terra, e ela é parte de nós, as flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o gamo e a grande águia são nossos irmãos. O topo das montanhas, o húmus das campinas, o calor do corpo do pônei, e o homem, pertencem todos à mesma família.

A água brilhante que se move nos rios e riachos não é apenas água, mas o sangue de nossos ancestrais. Se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão lembrar-se de que ela é sagrada. Cada reflexo espectral nas claras

águas dos lagos fala de eventos e memórias na vida do meu povo. O murmúrio da água é a voz do pai do me pai.

Os rios são nossos irmãos. Eles saciam nossa sede, conduzem nossas canoas e alimentam nossos filhos. Assim, é preciso dedicar aos rios a mesma

Se lhes vendermos nossa terra, lembrem-se de que o ar é precioso para nós, o ar partilha o seu espírito com toda a vida que ampara. O vento que deu ao nosso avô seu primeiro alento, também recebe seu último suspiro. O vento também dá às nossas crianças o espírito da vida. Assim, se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão mantê-la à parte e sagrada, como um lugar onde o homem possa ir apreciar o vento, adocicado pelas flores da campina.

Ensinarão vocês às suas crianças o que ensinamos às nossas? Que a terra é nossa mãe? O que acontece à terra acontece a todos os filhos da terra.

O que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça, à rede, fará a si mesmo.


Uma coisa sabemos: nosso deus é também o seu deus. A terra é preciosa para ele e magoa-la é acumular contrariedades sobre o seu criador.

O destino de vocês é um mistério para nós. O que acontecerá quando os búfalos forem todos sacrificados? Os cavalos selvagens, todos domados? O que acontecerá quando os cantos secretos da floresta forem ocupados pelo odor de muitos homens e a vista dos montes floridos for bloqueada pelos fios que falam? Onde estarão as matas? Sumiram! Onde estará a água? Desapareceu! E o que será dizer adeus ao pônei e à caça? Será o fim da vida e o início da sobrevivência.

Quando o último pele-vermelha desaparecer, junto com sua vastidão selvagem e a sua memória for apenas a sombra de uma nuvem se movendo sobre a planície ... estas praias e estas florestas ainda estarão ai? Alguma coisa do espírito do meu povo ainda restará?

Amamos esta terra como o recém-nascido ama as batidas do coração da mãe. Assim, se lhes vendermos nossa terra, amem-na como a temos amado. Cuidem dela como temos cuidado. Gravem em suas mentes a memória da terra tal como estiver quando a receberem. Preservem a terra para todas as crianças e amem-na, como Deus nos ama a todos.

Assim como somos parte da terra, vocês também são parte da terra. Esta terra é preciosa para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa sabemos: Existe apenas um Deus. Nenhum homem, vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal, somos irmãos.“



Carta do Chefe Seatle, 1852, in “O Poder do Mito”, Bill Moyers entrevista Joseph Campbell.
Transcrição da Palestra do dia 20 de Outubro de 2001.
Mesa coordenada por Cíntia Travassos.


De início existem alguns esclarecimentos importantes de serem feitos antes de começar a apresentação do trabalho propriamente dito.

Um deles é que este é um resumo e síntese de 2 outros trabalhos já feitos. Então algumas idéias vão ser lançadas e provavelmente vocês se perguntarão: - De onde é que ela tirou isso? Então me coloco a disposição de vocês para conversar depois, ou para enviar por e-mail, ou para lhes fornecer a bibliografia.

O outro esclarecimento tem a ver diretamente com o nome do trabalho. Como no original o título era bem maior, era O retorno da Deusa, o resgate do feminino ... Eu o modifiquei para essa apresentação, mas percebi que ficou uma lacuna em algo que acho fundamental falar.

A que estou me referindo quando falo de Deusa e feminino?

Quando falo de feminino, quando postulo o retorno do feminino, que aqui estou chamando de Deusa, estou falando de feminino mesmo, não de mulher.

Existe um problema terrível com que vira e mexe a gente esbarra é esta questão de confundir feminino com mulher. O feminino existe em homens e mulheres. Nós mulheres “supostamente” estamos mais próximas do feminino e diz-se que o representamos, mas foram principalmente os homens que mantiveram vivo e trouxeram o feminino através dos últimos tempos de vigência do patriarcado.

Para mostrar pra vocês, trouxe 2 lindas imagens de feminino, tomando como base um de seus aspectos: o de ligação. A primeira é bastante conhecida “O nascimento de Vênus”, de Boticelli, e a outra divindade extremamente feminina enquanto representativa de ligação é Hermes, o Trimegisto. Duas divindades muito importantes no nosso trabalho, já que em termos da alquimia, o casamento sagrado desses dois Deuses (Hermes e Afrodite) é frequentemente encontrado como metáfora para a união alquímica.(...) .20

A minha proposta é a de trabalhar com a questão da ecologia, dentro de uma visão psicológica. Tanto a palavra ecologia quanto psicologia são a união de palavras gregas psiqué e oikós a logos. (Transparência 3).

Bem, o que aconteceu? A Natureza existia, estava ai numa boa e derepente (...) com a sedimentação do patriarcado tardio, o judaico-cristão, a espiritualidade é privilegiada em detrimento da corporificação, da matéria. O Deus Uno patriarcal se divorcia da matéria, a rejeita e em função disto o feminino, e tudo aquilo que está ligado a ele é abolido da consciência humana.

Aqui (Transparência 4) nós temos um trecho do livro do Gênesis 1; 28, aonde lemos, Deus os abençoou: “Frutificai disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. Ele vem criando tudo e agora ordena ao Homem – Submetei e dominai.

Aqui (Transparência 5) encontramos uma carta do Chefe Seatle ao Presidente Americano em 1852, encontrada em O Poder do Mito, livro em que Bill Moyer entrevista Joseph Campbell e da qual quero sublinhar alguns trechos.

Somos parte da terra e ela é parte de nós ... Que a terra é nossa mãe? O que acontece à terra acontece a todos os filhos da terra. ... a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça, à rede, fará a si mesmo.

Aqui em baixo uma frase que eu acho fundamental: Será o fim da vida e o início da sobrevivência. ... Amamos esta terra como o recém-nascido ama as batidas do coração da mãe.

O que estou querendo demonstrar é que esses documentos representam 2 visões de mundo, 2 weltanschauung completamente diferentes e opostas. Qual, destas é a orientação que nós vimos seguindo?Nós nos sentimos pertencentes a esta Terra?- Não. O suporte epistemológico que permanece em vigência é o proposto no Livro do Gênesis. Nós somos como E.T. ‘s, fomos jogados aqui com a finalidade de dominar esta Terra.

Em função disso, o que aconteceu com o feminino - reprimido, rejeitado, refugado? - Tornou-se o maligno!

As 2 próximas transparências (6 e 7) trazem a Górgona Medusa (Goya), e a outra, uma imagem da visão patriarcal de Lilith, retirada de um livro de Eliphas Levi sobre Magia. Quanto a esta última é preciso que nos detenhamos um pouco nela. Uma figura absolutamente demoníaca, mas que traz no colo o caduceu, e na testa o pentagrama. Afinal, o inconsciente se faz presente mesmo sob a mais rígida repressão – O retorno do Jedy acontece!

Vimos então que o feminino em sua totalidade foi reprimido, e que no universo patriarcal, sua única possibilidade de expressão foi através do papel de Mãe (Transparência 8). O que será que justificou isso dentro de nós? O pensamento judaico-cristão.

Quando a gente pensa um pouco sobre o tema Eficiência e/ou Transformação, nos perguntamos o que diz a Eficiência no âmbito da Ecologia?

Uma parte dessa exposição vem da dissertação de conclusão do MECA – Mestrado e Especialização em Ciências Ambientais. Este curso não existe mais (e isso foi em 1996, há 5 anos atrás), agora chama-se MEGA – Mestrado e Especialização em Gestão Ambiental.

O que é gestão ambiental? - Uma maneira extremamente mais inflada de dizer que nós vamos continuar fazendo a mesma coisa – Sabendo usar não vai faltar – A Terra é nossa, mas Ela está dando problemas, então temos que mudar nossa conduta. Vamos Usa-la, apenas com cuidado. Gestão ambiental é a manutenção da mesma episteme.

Não dá mais! É preciso que haja uma Transformação!

Não dá pra haver Eficiência, e aqui não me refiro àquela definição citada ontem pela palestrante Sonia Carvalho, mas sim ao sentido corrente e vulgar da palavra, como cotidianamente nós a compreendemos. Assim, Eficiência é gestão ambiental, é a continuação da mesma atitude desrespeitosa com relação à Terra.

Tentando fechar, o que então precisa acontecer?

A minha postura é a de que, nesta área, não há possibilidade de ser Eficiente. Precisamos de Transformação! Precisamos do retorno do feminino, do retorno de Eros, do retorno da ligação, do retorno da Deusa, que tentei representar nesta montagem (transparência 9) com a Minóica Deusa das Serpentes surgindo do centro do planeta Terra.

Porque?

A quem cabe buscar soluções?

Pra encurtar eu vou logo dizendo que somos nós psicólogos e analistas junguianos. Porque?

No desenvolvimento do nosso trabalho, seja ele no setting analítico como terapeutas, seja ele no trabalho sobre nós mesmos, de antemão já sabemos de alguns embates que temos a enfrentar: O confronto com a sombra e com a contraparte sexual (anima/animus) que precisa ser integrada.

A Natureza é sábia. Eu nunca vi mulher sozinha gerar filhos. Só Deusas! E nem tampouco homens. Ou seja, precisam 2 para fazer um filho, são necessários 2 para criar um novo, por que precisam 2 na nossa cabeça, precisam 2 no nosso coração, precisam 2 na nossa alma. Essa Deusa precisa voltar!

Mas quem sabe disso?

Em todas as culturas, como nos diz Jung no vol. VII, aquele que se sobressai da massa, aquele que primeiro toma consciência de algo é quem tem a responsabilidade de “carregar” os outros. Nós, como junguianos, devemos saber que precisamos integrar nosso outro interior. Então cabe a nós denunciar a unilateralidade em que vimos vivendo, cabe a nós empreender o confronto com esse feminino que se tornou sombrio dentro do universo patriarcal, cabe a nós resgatar a Anima Mundi – Nossa, Coletiva.

Como? Isso é outro papo!

Essa é uma questão que eu deixo pra vocês. Minha intenção com esta apresentação, não era e não é a de trazer respostas. Eu, particularmente, cheguei a algumas, mas nenhuma em nível coletivo. Acho que essa busca é algo que deve ficar para todos os que estão aqui, para todos nós. Meu desejo era o de trazer a vocês uma grande pergunta, que gostaria que se constituísse numa abertura dentro da profissão. Nós psicólogos e analistas junguianos temos a obrigação de nos inserir nesta área, talvez para que possamos chegar naquilo que esta imagem representa (transparência 10), uma coniunctio. Esta imagem nos mostra vários níveis de coniunctio – Cá em cima, a união de homem e mulher, mediados pela versão romana do Deus Eros, o Cupido, e nos 2 extremos do quadro duas figuras “masculinas”, que por um lado são completamente opostas, e por outro semelhantes – Hefestos, o Deus das forjas, e Hermes o Deus mensageiro, com o caduceu na mão e abraçando Pégasus. Entre eles e pouco abaixo as 9 musas, que reunidas abrangem todas as manifestações artísticas.

Que essa coniunctio, essa re-união possa acontecer, pois é o casamento sagrado do Rei e da Rainha que pode trazer para nós uma ciência com consciência. Por que ciência é só saber, enquanto que consciência implica num saber e num saber-se em semelhante medida e intensidade. A consciência é fruto de uma reflexão – um inclinar-se para trás, olhar um lado e outro, reavaliar, reavaliar-se e fundamentados nisso, tomarmos uma decisão. Essa decisão nascida da reflexão, fruto da consciência é algo que segue o rumo da individuação, e sempre é contra, está fora do caminho do senso comum. Senso comum aqui não serve pra nada.

Eu gostaria de dizer-lhes que nós temos direito a uma nova primavera, a um novo começo (transparência 11). Por que senão, cairíamos ou cairemos na maldição dos Buendía, como nos diz Garcia Márquez em Cem anos de Solidão: - “Por que as estirpes condenadas a cem anos de solidão não terão uma segunda oportunidade sobre a Terra”. E eu gostaria que tivéssemos. Quero que os netos da minha neta possam viver esse mundo, e porque creio que a “plenificacão” precisa se cumprir. Mas precisamos de mais tempo para crescer como espécie e chegarmos a alteridade, exatamente a esse ponto que a imagem da transparência 12 nos mostra. Vemos no mito grego, que de um par pitorescamente paradoxal, Ares, o sanguinário Deus da Guerra e Afrodite, a Deusa do Amor e da Beleza, têm Harmonia como um de seus 4 filhos.

Harmonia é junção entre as partes, é um e, uma soma (ou é exclusão). Precisamos dela para que possamos realmente ter uma segunda oportunidade sobre a Terra.

Bruegel (transparência 13) na Idade Média, pinta esse quadro muito interessante e que suponho mostre exatamente aquilo de que venho falando. Aqui, no lado esquerdo, todos velhinhos. Reparem neste aqui, vem carregadinho nos ombros de um outro também velho, e com imensas dificuldades vão entrando, capenguinhas, na piscina/fonte, nesse grande útero da mãe Terra, que tem bem no centro a fonte mercurial, figura 1 do Rosarium Phillosophorum, e de repente, olhem só, do meio pra lá vão ficando jovenzinhos. Os já velhos vão passando para a envelhecência, chegam a adolescência e se encaminham para um grande sympósium, como nós hoje aqui reatualizamos.

Eu gostaria de terminar essa apresentação com uma frase muito importante que aprendi com um professor da minha época de Ginásio. Frase tão fundamental que hoje, passados mais de 30 anos, ela é viva e vivida no meu cotidiano. É uma frase de Confúcio: ”É melhor acender uma pequena vela do que maldizer a escuridão”.

Eu espero que esta exposição possa ter despertado em vocês a curiosidade, o desejo de saber e o desejo de entender qual o papel da psicologia analítica na questão ecológica, e que a frase de Confúcio possa nos levar, depois de uma profunda reflexão, a agir.

Muito obrigada.


1 Bonaventure, L - Prefácio de Memórias, Sonhos e Reflexões, C. G. Jung, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira.

2 Macros e micros computadores, e outras engenhocas mais.

3 Lenoble, R. - História da Idéia de Natureza

4 Alimentares

5 Proposta de Edgar Morin para designar o Homem atual- Amor Poesia Sabedoria, Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil, 1998, p.27

6 Ocorrida há aproximadamente 8 ou 9 milhões de anos.

7 Fisher, H. - La Stratégie du Sexe, Calmann-Lévy, 1983 In, Badinter, E. - Um é o Outro, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1986

8 Ribeiro, M.L.C., Psicologia como Feminino - A Visão de Uma Mulher, Propsi, número 12, ano 3, 1986.

9 Como o apregoou Giordano Bruno

10 Brandão, J. S. - Mitologia Grega - Dicionário Mítico-Etimológico, Petrópolis, Ed. Vozes, 1991, p.480.

11 Jung, C. G. - Mysterium Coniunctionis, C.W. XIV, Petrópolis, Ed. Vozes, 1985, par. 301

12 Dinâmica cósmica, ápice do processo de individuação.

13 Jung, C.G. - Psicologia e Alquimia, Petrópolis, Ed. Vozes, 1991, par. 163

14 No caso do presente trabalho, tanto a Anima individual quanto a Anima Mundi, já que "A anima é o arquétipo da própria vida”, Jung, C.G. - Psicologia e Alquimia, Petrópolis, Ed. Vozes, 1991, par. 163

15 Orgulho, descomedimento.

16 Referência à idéia proposta por F. Nietzsche, em Assim falou Zaratustra, São Paulo, Círculo do Livro, s/d.

17 Referência a um mito cosmogônico contato por Campbell, J. - O Poder do Mito, São Paulo, Ed. Palas Athena, 1990, p. 53.

18 Jung, C.G. - A Prática da Psicoterapia, Petrópolis, Ed. Vozes, 1985, par. 449

19 Campbell, Joseph - O Poder do Mito, São Paulo, Ed. Palas Athena, 1990, p.53.

20 Incompreensível na gravação.




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