O que os jovens têm a nos dizer sobre a escola? Uma pesquisa exploratória com jovens do ensino médio de londrina-pr



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ISBN 978-85-7846-455-4

O QUE OS JOVENS TÊM A NOS DIZER SOBRE A ESCOLA? UMA

PESQUISA EXPLORATÓRIA COM JOVENS DO ENSINO MÉDIO DE

LONDRINA-PR

Franciele Rodrigues1

Universidade Estadual de Londrina

r_franciele@hotmail.com

Eixo 1: Formação e Ação Docente



Resumo: Este trabalho pretende refletir sobre como os jovens relacionam-se com a instituição escolar e os conhecimentos. À vista desse exercício, propomos o que denominamos de “troca de óculos” na medida em que dialogando com as contribuições da “Sociologia da Reprodução”, buscamos desenvolver uma abordagem orientada pela “Sociologia da Sujeito”. Diante disso, ouvimos sete estudantes do ensino médio que participaram das ocupações das escolas estaduais na cidade de Londrina-PR em 2016 a fim de conhecer o que eles têm a nos falar sobre os espaços escolares: Por que eles vão para as escolas? Por que permanecem nesses locais? Por que ocuparam suas escolas? Essas são as principais inquietações que nos guiam nesse ensaio. Percebemos que os jovens conferem diferentes significados aos saberes e as suas frequências nos ambientes escolares, estabelecendo, assim, experiências singulares com essa esfera social. Além disso, observamos que a despeito da ideia pré-concebida de que os alunos não querem estudar, que não desejam estar na escola, por meio das ocupações eles demonstraram que querem as instituições escolares, que almejam um novo modelo de escola.

Palavras-chave: Juventudes, Saberes, Escola.

Introdução

Porque os jovens vão para a escola? Por que continuam indo para a escola todos os dias? O que faz com que os jovens continuem investindo seu tempo na instituição escolar? Essas foram algumas das principais motivações que nos levaram a ouvir estudantes do ensino médio da rede estadual de ensino. Buscamos, portanto, compreender quais os sentidos que eles atribuem a frequentar a escola e, sobretudo, a permanecer nela.

À vista disso, no dia 04 de julho de 2017 realizamos um grupo de debate com sete alunos do ensino médio da rede estadual de ensino de Londrina-PR, nas dependências do Centro de Letras e Ciências Humanas (CLCH) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O encontro compôs as atividades planejadas para a disciplina “Os jovens e o saber: fundamentos sócio antropológicos da noção de relação com o saber”, ministrada pela professora Dra. Ileizi Fiorelli Silva aos discentes do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UEL.

A escolha dos estudantes ocorreu de maneira aleatória, no entanto, priorizamos convidar para a conversa aqueles que participaram das ocupações das escolas durante o ano de 20162, movimento que surgiu como resposta aos ataques dirigidos a educação pública no país, como a PEC 55 que congela os investimentos em serviços sociais pelos próximos vinte anos, a reforma do ensino médio e o Programa Escola “sem” Partido. As identidades dos alunos serão resguardadas.

Então, como o arcabouço teórico-metodológico das Ciências Sociais pode nos auxiliar a compreender esses fenômenos? Como é sabido, entre as décadas de 1960 e 1970, a Sociologia da Educação de origem francesa, dedicou seus esforços em entender as possíveis correspondências entre o sucesso ou o fracasso escolar e os pertencimentos sociais dos estudantes, ou seja, tal perspectiva procurou apreender as interferências das posições sociais dos pais nas situações escolares dos filhos.

Assim, estudiosos como Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, Christian Baudelot buscaram compreender o quanto as condições de classes sociais dos indivíduos podem influenciar em suas trajetórias escolares. Para isso, utilizaram técnicas de pesquisas quantitativas, sobretudo, as análises estatísticas, desenvolveram estudos amplos que focalizaram, entre outros aspectos, as relações dos sistemas escolares com as outras esferas da sociedade, especialmente, no que refere-se ao papel da escola frente as desigualdades sociais. Em síntese, as constatações dos três autores apontaram que os desequilíbrios sociais são reproduzidos dentro das escolas, uma vez que, alunos oriundos das camadas populares encontram mais dificuldades de adaptação e êxito nas escolas que acabam por valorizar a cultura dominante.

Entretanto, como nos explica Charlot (2000) o fracasso escolar, compreendido como a reprovação em alguma série ou a não aquisição de determinados conhecimentos ou habilidades, transformou-se em uma espécie de resposta imediata a análise dos caminhos escolares das classes sociais mais pauperizadas. Tornou-se, então, um instrumento ideológico que tende a associar o baixo desempenho escolar a periferia, a pobreza e acaba por escamotear a complexidade que envolve tal problema social.

Contudo, as abordagens das “Sociologias das diferenças” deixaram de fora outros elementos importantes como: as histórias individuais dos alunos, as formas como as atividades de ensino são construídas a fim da transmissão dos saberes, também as orientações dadas as políticas educacionais pelos sistemas de ensino, a prática do professor em sala de aula, entre outros aspectos. Com base neste entendimento, percebemos que não há um determinismo entre as classes sociais dos estudantes e os seus desempenhos escolares. Dito de outro modo, apenas a posição econômica é insuficiente para explicar os casos de sucesso ou fracasso escolar, pois se fosse o bastante como explicar as exceções estatísticas, isto é, como compreender o sucesso escolar entre as classes populares, tal como nos apresenta Bernard Lahire em sua obra: “Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável” (1997)?

Não obstante, Lahire (2002) também propôs um diálogo crítico com as teorias sociológicas generalistas que buscam indicar comportamentos, esquemas de pensamento de grandes grupos para todos os indivíduos. Com isso, o autor compreende que a Sociologia não cabe estudar apenas os aspectos macrossociais, a coletividade, os grandes grupos, mas também as unidades em suas particularidades, o ínfimo, o indivíduo enquanto produto das totalidades sociais, haja vista que as realidades individuais são essencialmente sociais.

Notemos que Lahire (2002) não nega a abordagem macrossocial dos estudos sociológicos, todavia, o pesquisador também nos sugere o que denominamos de “troca de óculos” ao observarmos os fenômenos sociais de maneira mais minuciosa, atentando-se as singularidades.

Sabemos que as contribuições das pesquisas de larga escala são extremamente importantes para compreendermos as trajetórias escolares dos diferentes sujeitos, é conhecido que a posição social, ou seja, a posse de capital econômico, de capital cultural exerce grande influência nos percursos dos alunos. Isto posto, o que propomos nesse trabalho é um novo exercício: “trocar os óculos” para que possamos olhar mais detalhadamente para as interações estabelecidas pelos jovens e a escola, com os saberes, ou seja, ambicionamos pensar sobre as suas experiências escolares. O que não equivale dizer que perderemos de vista as questões macrossociais, ao contrário disso, buscaremos dialogar com elas, esforçando-nos a observá-las mais de perto ou como nos recomendou Lahire (1997) procurando heterogeneizar o que nos é dado como homogêneo. Partimos, então, de uma “Sociologia do sujeito”, nesse caso, do jovem enquanto um ser social e um ser singular que age sobre o mundo (CHARLOT, 2000).

Em O Pensamento Selvagem, Levi-Strauss (1989) elabora a desnaturalização da visão dicotômica e valorativa entre o pensamento “selvagem” e o conhecimento ocidental. Para tanto, o autor compara o pensamento dos povos “selvagens” com o conhecimento científico. Segundo ele, o pensamento dos grupos tribais é mais concreto enquanto o conhecimento moderno é mais abstrato. A desmistificação que Levi-Strauss (1989) promove acerca da falsa incipiência dos saberes nas sociedades tradicionais também nos é inspiradora, pois nos auxilia a conceber os jovens como sujeitos históricos, que elaboram suas interpretações de mundo, atribuem significados as suas vivências, que ocupam suas próprias posições sociais (que podem ou não ser as mesmas de seus pais), que constroem relações com os outros indivíduos. Logo, o que propomos com essa reflexão é, primordialmente, ouvir os jovens! Conhecer suas histórias e o que eles têm a nos dizer sobre as suas escolas!






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