O que é Pós-Moderno



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Apatia quer dizer insensibilidade, indiferença, falta de energia. Desenvolta significa desembaraço, inquietação, personalidade. Os dois termos são
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quase contraditórios, mas convivem lado a lado no indivíduo pós-moderno. São fruto da programação oferecida pelo sistema e da personalização buscada pelo sujeito, duas coisas meio em choque. Mas a apatia desenvolta — a agitação sem felicidade — salta aos olhos quando, no indivíduo, se juntam vazio e colorido na danceteria, tédio e curiosidade ante um filme pornô, frieza e fascinação ante os dígitos na tela de um computador, banalidade e excitação no shopping center.

Por que isso? Porque no mundo pós-moderno, objetos e informação, circulando em alta velocidade, são descartáveis. Da mesma forma, os sujeitos também produzem personalidades descartáveis (Bom? Mau? Indecidível, ninguém sabe). São simulacros espetaculares e sedutores de si mesmos. (Vide a importância da maquilagem. David Bowie, de baton, declarou: “quando me canso das minhas expressões, maneirismos, aparência, me dispo deles e visto uma nova personalidade”.)

Ao mesmo tempo, num mundo de máquinas frias igual ao computador, que só funciona em ambientes com temperatura inferior a 18°C, os sujeitos também espelham frieza, distância, indiferença. Assim, o ritmo agitado criado pelo descartável e o novo, aliado à frieza do ambiente tecnológico, bem podem explicar a apatia desenvolta e a dessubstancialização do Narciso.

O sujeito pós-moderno é a glorificação do ego no instante, sem esperança alguma no futuro.
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DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR


e, e, e, e, e, e, e,
Conseguimos dar corpo ao fantasma do pós-modernismo. Sob esse rótulo, em contraste com o modernismo, descrevemos as mudanças ocorridas nas sociedades pós-industriais desde os anos 50. Tais mudanças afetaram as ciências, a tecnologia, as artes, o pensamento, o social, o individual e começaram a delinear um ambiente e condição inéditos para o homem.

O ambiente pós-moderno, instalando-se como uma teia na paisagem moderna, é o cotidiano povoado pela tecnociência (micros, vídeos, laser, biotecnologia, medicina nuclear) e o diabo a quatro em bens e serviços para o indivíduo consumir num pique de liberação e personalização, onde é importante o papel dos modelos gerados pela publicidade e os mass media. É um ambiente mais para cool (frio), pois o chip é sem calor, enquanto


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(Foto: Desdefinição da arte levada a conseqüências extremas. (“Before ou after: Permutations”, 1972, Wegman, Traverses, nºs 33/34, pp.162-3.)


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O automóvel, deus moderno, é uma máquina hot (quente). Socialmente, ele se inclina para o soft (brando) pela informação, comunicação e sedução, contra o hard (duro) moderno, que privilegiava a indústria, a crítica, a luta de classes, a polícia, a tensão.

Quanto à condição pós-moderna, aí o buraco é mais embaixo. Condição quer dizer: como é que as pessoas sentem e representam para si mesmas o mundo onde vivem. Ora, a condição pós-moderna é precisamente a dificuldade de sentir e representar o mundo onde se vive. A sensação é de irrealidade, com vazio e confusão. Só se fala em desencanto, desordem, descrença, deserto. É como se a lógica e a imaginação humana falhassem ao representar a realidade, e alguma coisa estivesse se esvaziando, zerando. Olhemos o quadro abaixo. Sacamos que o pós continha vários des (princípio esvaziador). Outros des poderiam ser apontados. Com que soma algébrica, com que resultado?

Des — referencialização do Real

Des — materialização da Economia

Des — estetização da Arte

Des — construção da Filosofia

Des — politização da Sociedade

Des — substancialização do Sujeito

Des — ... ..........

Des ... ..........

Soma = ZERO da...


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Um minuto mais. Parece claro como água que esta série de des está esvaziando todas as ordenadas estáveis com que o Ocidente, até a modernidade, representou o mundo para si mesmo: o Real são os referentes (não os simulacros), a Economia é matéria feita energia (não informação), a Sociedade são os ideais políticos dos cidadãos e do Estado (não as causas minoritárias). Pois salve-se quem puder, porque essa representação está sendo esvaziada e, no limite, um dia poderá ser zerada.

Devagar com o andor. Para representar as coisas com clareza precisamos organizar e para organizar precisamos de identidades fixas e definidas, que permitam separar isto daquilo: preto ou branco, rico ou pobre, real ou imaginário. A representação clara, ordenada, funciona na base do OU, que é separação e exclusão. Até a modernidade, trabalhou-se assim: era-se capitalista ou socialista, normal ou louco, culto ou analfabeto.

Agora mergulhe na geléia geral pós-moderna. Pense na confusão mundial, cheia de ameaças. E no gigantismo, na complexidade inimagináveis dos sistemas. E nas mágicas da tecnociência: robôs japoneses que dançam valsas, e micros com 1 milhão de operações por segundo, e romances telemáticos para o leitor ler no vídeo, não seguindo o enredo, mas montando o seu enredo, e máquinas sutis capazes de registrar até 1 nanossegundo (0,000000001 s), proezas impossíveis para a mente humana. A tecnociência, inclusive com seus


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meios poderosos de simulação, como o som de f lauta que não vem de flauta, está alterando as formas humanas de pensamento, percepção, tempo e espaço.

E pense ainda em Boy George — o homem e mulher, e na moda unissex — masculina e feminina, e no vulcapiso — borracha e mármore, e na arquitetura — barroco e moderno e clássico, e na escultura com laser — massa e luz, e no sujeito blip — apatia e desenvoltura.

A imaginação e a inteligência broxam. Nada tem identidade definida. Não se distingue o verdadeiro do falso. Só há combinações, ecletismos. Está-se passando de uma lógica fundada no OU para uma lógica calcada no e. Com isso, não se pode separar nem ordenar, ou seja, representar. Aqueles des esvaziadores, no limite, darão como soma o ZERO DA REPRESENTAÇÃO. Na condição pós-moderna, num ambiente saturado com informações tão volumosas, tão rápidas e tão complexas, o sujeito humano não consegue mais representar o mundo em que vive. Ele se dissolve em blip num real desfeito em bit. Assim, todo o rebu pós-moderno passa por um paradoxo muito louco: NÃO SE PODE REPRESENTAR O FIM DA REPRESENTAÇÃO!

Sem identidade, hierarquias no chão, estilos misturados, a pós-modernidade é isto e aquilo, num presente aberto pelo e. A tecnociência avança, maravilhosa, programando tudo, mas sem rumo.
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O sujeito blip, sem perseguir uma identidade única, harmoniosa, vive a vida justapondo lado a lado suas vivências: e, e, e, e,. Vivências pequenas, fragmentárias, porque não se crê mais em totalidades ou valores maiúsculos tipo Céu, Pátria, Revolução, Trabalho, mas se prestigia a prática na micrologia do cotidiano. Assim posto, enfim, o pós-modernismo continua a flutuar no indecidível. Não há como decidir. Fim do moderno e começo do pós-moderno. E demônio terminal e anjo anunciador. Na condição pós-moderna, como já se disse, a vida não é um problema a ser resolvido, mas experiências em série para se fazer. Abertas ao infinito pelo pequenino e.


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INDICAÇÕES PARA LEITURA


Há pouquíssimos livros sobre pós-modernismo publicados em português. Mas você, caso entre numa, poderá se aprofundar no assunto encarando um tijolo de 500 páginas chamado A Terceira Onda, de Alvin Toffler (Ed. Record), best-seller importante sobre as sociedades pós-industriais. Trabalho dos mais inteligentes é A Máquina de Narciso, de Muniz Sodré (Ed, Achiamé), evidenciando os ardis pelos quais a televisão vem forjando o mundo de hoje como telerrealidade. Imperdível, inclusive pelo prazer da leitura, é A Viagem pela Irrealidade Cotidiana, de Umberto Eco (Ed. Nova Fronteira), um passeio intrigante e bem humorado pelas extravagâncias das sociedades pós-modernas. Igualmente proveitosa é a leitura de A Cultura do Narcisismo, de Cristopher Lasch (Ed. mago), estudo sobre o apego narcisista do indivíduo a si mesmo, com estilo meio contestador. Para checar os aspectos filosóficos e sociais das artes moderna e pós-moderna, especialmente na arquitetura, é bom abrir o compacto mas denso Da Vanguarda ao Pós-Moderno, de Eduardo Subirats (Ed. Nobel). Finalmente, se você nunca esteve com uma granada niilista nas mãos, vá correndo pegar o panfleto altamente explosivo (mas cerebral) do francês Jean Baudrillard intitulado À Sombra das Maiorias Silenciosas (Ed. Brasiliense).

Sobre o autor



Sou poeta, ficcionista e ensaísta. Nasci em 1946 em Cornélio Procópio, norte do Paraná. Desde 1971 resido no Rio de Janeiro, onde me formei em Comunicação e Editoração pela UFRJ, tendo em preparo atualmente dissertação de mestrado sobre Pés-modernismo. Sou autor do livro de contos Kafka na Cama (Civilização Brasileira — 1980) e do volume de poemas A Faca Serena (Achiamé — 1983), premiado pela Associação dos Críticos de Arte de São Paulo. Gosto de jazz, de futebol, de cinema e de longas caminhadas. Montale, Hart Crane, Wallace Stevens e Mário Faustino estão entre meus poetas preferidos. Osman Lins, Clarice Lispector, John Barth, John Updike, Kafka, Musil e Proust são os ficcionistas que mais admiro. Trabalho presentemente em novo livro de contos — Corações Gentis.

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