O que é Pós-Moderno



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jogo personalizado bens e serviços, do disco a laser ao horóscopo por telefone. O hedonismo — moral do prazer (não de valores) buscada na satisfação aqui e agora — é sua filosofia portátil. E a paixão por si mesmo, a glamurização da sua auto-imagem pelo cuidado com a aparência e a informação pessoal, o entregam a um narcisismo militante. É o neo-individualismo decorado pelo narcisismo.

Enquanto estilo extremamente individualista, o pós-modernismo prolonga o jeito de ser liberado e imaginoso vivido na boêmia pelas vanguardas artísticas modernistas. Ele é hoje a democratização, no cotidiano, daquilo que as vanguardas pretendiam com a arte: expressão pessoal, expansão da experiência, vida privada. (Isto parece se chocar com a sociedade programada, mas logo veremos como a questão é complicada e ambígua.)

Em contraste com o individualismo moderno, forjado pelo liberalismo econômico no século XVIII, e que era burguês, progressista, tenso, o neo-individualismo atual é consumista e descontraído, mantendo relações muito especiais com a sociedade pós-industrial, sua mãe dileta. Aparentemente ele consagra o Sistema, mas também lhe cria problemas. De que maneira?

As sociedades pós-industriais, planejadas pela tecnociência, programam a vida social nos seus menores detalhes, pois nelas tudo é mercadoria paga a uma empresa privada ou estatal, seja um telex em banco ou uma hidromassagem. Sendo
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economias muito ricas, que têm como única meta a elevação constante do nível de vida, elas deixam ao indivíduo a opção de consumir entre uma infinidade de artigos, mas não a opção de não consumir.

Além disso, há o apelo constante do novo. Viver é estar de mudança para a próxima novidade. Com uma gama enorme de bens e serviços, para todas as faixas e gostos, a seu alcance, só resta ao indivíduo escolher entre eles e combiná-los para marcar fortemente sua individualidade. Embora a produção seja massiva, o consumo é personalizado (vide o cheque “personalizado”). Assim, o sistema propõe, o indivíduo dispõe. É o pleno conformismo e o sistema parece triunfar de cabo a rabo.

Mas sua vitória não é tranqüila. Têm surgido contra o sistema efeitos bumerangues tipicamente pós-modernos. O individualismo exacerbado está conduzindo à desmobilização e à despolitização das sociedades avançadas. Saturada de informação e serviços, a massa começa a dar uma banana para as coisas públicas. Nascem aqui a famosa indiferença, o discutido desencanto das massas ante a sociedade tecnificada e informatizada. É a sua colorida apatia frente aos grandes problemas sociais e humanos.

Ora, com mil demônios, não é precisamente isso que interessa ao sistema, todo mundo consumindo e conformado? Até certo ponto, sim. Mas daí em diante é o tecido social que começa
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a se descoser, a se fazer em fiapos. O consumo apenas não segura a barra. Eis por que, para se legitimar, para se garantir, além da eficiência econômica, o sistema precisa manter em cena velhos valores e instituições como Pátria, Democracia, História, Família, Religião, Ética do trabalho, ainda que eles sejam puros simulacros. Prova disso são os discursos ultranacionalóides de Reagan (a Reaganóia) e a campanha na França para elevar a taxa de natalidade. Mas a moçada está resistindo.

Extravagantes e apáticos, vivendo em clip (ritmo apressado), os indivíduos que formam a massa pós-moderna estão criando uma paisagem social diferente daquela desenhada pela massa moderna. Vejamos que traços a desmobilização e a despolitização vêm esboçando nas sociedades pós-industriais.

A massa não é mais aquela


Até há pouco a massa moderna era industrial, proletária, com idéias e padrões rígidos. Procurava dar um sentido à História e lutava em bloco por melhores condições de vida e pelo poder político. Crente no futuro, mobilizava-se para grandes metas através de sindicatos e partidos ou apelos nacionais. Sua participação era profunda (basta lembrar as duas guerras mundiais).
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A massa pós-moderna, no entanto, é consumista, classe média, flexível nas idéias e nos costumes. Vive no conformismo em nações sem ideais e acha-se seduzida e atomizada (fragmentada) pelos mass media, querendo o espetáculo com bens e serviços no lugar do poder. Participa, sem envolvimento profundo, de pequenas causas inseridas no cotidiano — associações de bairro, defesa do consumidor, minorias raciais e sexuais, ecologia.

A esta mudança os sociólogos estão chamando deserção do social. É como tornar deserta uma região. Pela desmobilização e a despolitização, o neo-individualismo pós-moderno, que tende ao descompromisso, ao não tenho nada com isso, vem esvaziando as instituições sociais. História, política, ideologia, trabalho — instituições antes postas em xeque apenas pela vanguarda artística — já não orientam o comportamento individual, e seu enfraquecimento é contínuo nos países avançados. A deserção é uma sacação nova da massa. Ela não é orientada nem surge conscientemente, como também não visa à tomada do poder, mas pode abalar uma sociedade, ao afrouxar os laços sociais. Há dados para se avaliar esse esvaziamento, como igualmente há novas atitudes substituindo as tradicionais.

Deserção da História: Não houve desertores americanos na guerra da Coréia em 1950; na do Vietnã, finda em 1975, houve aos montes. A massa


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moderna acreditava que a História (e seus países) marchava pela revolução ou pelo progresso para situações mais democráticas e felizes. Esse otimismo não existe na massa pós-moderna, que perdeu o senso de continuidade histórica. Ela vive sem as tradições do passado e sem um projeto de futuro. Só o presente conta. Pátria, heróis e mitos colam muito pouco num tempo programado pela tecnociência. Além disso, o pesadelo nuclear, as crises econômicas e a velocidade de mudança estão armando, para o término do século, um clima apocalíptico, de fim da História.

Por outro lado, em vez de crer e atuar na História, os indivíduos estão se concentrando em si mesmos, hiperprivatizando suas vidas. Eles investem é em saúde, informação, lazer, aprimoramento pessoal. A massa moderna queria a História quente, combativa; a pós-moderna quer esfriar a História, congelá-la numa sucessão de instantes isolados e sem rumo. Veja, não houve uma só guerra entre países capitalistas avançados de 1945 para cá.

Deserção do político e do ideológico: Nos EUA, nas últimas eleições presidenciais, entre 40 e 45% dos eleitores não votaram. As greves políticas praticamente cessaram na Europa capitalista desde 1968. As eleições dependem mais da performance do candidato nos mass media que de suas idéias. E ninguém no planeta acredita que políticos e tecnocratas apinhados no Estado representam o povo ou possuam altos ideais. O trambique político


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é demasiado transparente. No plano ideológico, nos anos 70 o eurocomunismo abrandou a carranca do comunismo e as democracias sociais européias frearam a fúria capitalista. Ou seja, posições rígidas — o comunista, o fascista, o capitalismo selvagem — cedem lugar a posições flexíveis, pragmáticas, em busca da eficácia a curto prazo. Até a luta sindical perde vigor: na França, por exemplo, o índice de trabalhadores sindicalizados caiu de 50% em 1955 para 25% em 1985.

Essa descrença no político faz a massa pós-moderna dar as costas para as grandes causas. Ela cobra do sistema eficiência na administração e nos serviços tais como educação, transportes, saúde, mostrando-se essencial mente pragmática e não ideológica. Se a modernidade teve intensa mobilização política (duas guerras mundiais, revoluções, guerras anticoloniais), a pós-modernidade se interessa antes pelo transpolítico: liberação sexual, feminismo, educação permissiva, questões vividas no dia-a-dia. Normalmente o indivíduo pós-moderno evita a militância fogosa e disciplinada. Ele é frio, prefere movimentos com fins práticos, nos quais a participação é flutuante e personalizada. Nada de lutas prolongadas ou patrulhamento ideológico. Ele vai na onda, nas subculturas punk, metaleira, yuppie.

Deserção do trabalho: A massa pós-moderna não tem ilusões: sabe que trabalhará sempre para um sistema, capitalista, socialista, ou marciano. Por


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isso ela não crê no valor moral do trabalho nem vê na profissão a única via para a auto-realização. Inclinada ao lazer, ela falta muito ao trabalho (absenteísmo). A França levou dez anos para situar seu índice de absenteísmo em pouco abaixo dos 8,3% atingidos em 1974. E há filósofos defendendo a improdutividade.

Concentrado no setor de serviços (lojas, bancos, escritórios, administração, laboratórios), o trabalho pós-moderno é um jogo comunicativo entre pessoas. Sem a tensão da linha de montagem moderna, pede antes o sorriso, a descontração (a moça do Bradesco, por exemplo). É mais leve. Mesmo assim, as pessoas vivem correndo para o lazer, e não reivindicam tanto melhores salários como desejam uma semana de quatro dias. Os esportes individuais — asa delta, wind-surf, tênis, skate, ski, atletismo — disputam com as viagens, a informação, o aprendizado de línguas estrangeiras e de instrumentos musicais, a primazia no uso do tempo livre.

Deserção na família: Há bom tempo a família não é o foco da existência individual. Escola e mass media predominam na formação da personalidade. Sai-se cedo de casa, casa-se tarde, descasa-se com facilidade e, sobretudo, reproduz-se pouco. Nos EUA, pessoas morando sozinhas, casais sem filhos ou coabitando simplesmente somam 57% das casas. O lar afunda.

No lugar da família guardiã moral, apoio psicológico, a pós-modernidade propõe ligações abertas
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tipo amizade colorida. O swing é experiência válida e a educação evolui para o permissivo (ninguém expulsa a filha de casa só porque ela deu uma bimbadinha com o namorado). A pílula faz recuar o poder paterno. O rei pênis e seus dois assessores impõem menos o sexo genital ante a vaga homossexual e transexual em ascensão. Moral branda, amor descontraído. Sai o tango, entra o rock “amor sem preconceitos, sexo total”.

Deserção da religião: O pós-modernismo, já se disse, é o túmulo da fé. As religiões antigas cedem ante uma porção de pequenas seitas sem futuro, os indivíduos procuram credos menos coletivos, mais personalizados (meditações, zen-budismo, voga, esoterismo, astrologia), e a transcendência divina acabará fechando por falta de clientes: 45% dos franceses entre 15 e 35 anos não acreditam em Deus.

É que o homem pós-moderno não é religioso, é psicológico. Pensa mais na expansão da mente que na salvação da alma. Há toda uma cultura psi fazendo a cabeça da moçada: psicanálise, psicodrama, gestalt, bioenergética, biodança, grito primal e por aí vai. Para não falar no dilúvio de bolinhas e alucinógenos que rola. Nisso tudo, o bom é que a cultura religiosa era culpabilizante, enquanto a psi é liberadora. Ao sujeito pós-moderno interessa um ego sem fronteiras, não uma consciência vigilante.


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O vazio cintilante


Vimos que, desertos, enfraquecidos, os valores e instituições tradicionais, ainda conservados pela modernidade burguesa, vêm perdendo terreno na moldagem, motivação e controle dos indivíduos nas sociedades avançadas. Que mecanismos, então, exercem esses papéis? O consumo, os mass media e a tecnociência, claro. A resposta é boa mas parece de polichinelo. Não diz por que nem como. Vamos primeiro ao por quê.

As sociedades pós-industriais vivem saturadas pela informação. Vai-se ao consumo pela informação publicitária, consome-se informação no design, na embalagem, devora-se informação nos mass media e na parafernália ofertada pela tecnociência (micro, vídeo, etc.). O sujeito se converte assim num terminal de informação. Mas um terminal isolado de outros terminais, pois as mensagens não se destinam a um público reunido, mas a um público disperso (cada um em sua casa, seu carro, seu micro). Eis por que a massa pós-moderna é atomizada (ultrafragmentada). Enquanto a massa moderna era um bloco movido por interesses de classe e por idéias, na pós-modernidade ela é uma nebulosa de indivíduos atomizados, recebendo informação em separado. Ora, para motivar e controlar sujeitos atomizados, a autoridade e a polícia são secundárias. Basta bombardeá-los com mensagens que excitem seus desejos.


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Agora vamos ao como. De que maneira o consumo, os mass media e a tecnociência modelam, motivam e controlam a nebulosa pós-moderna pelo bombardeio informacional? As mensagens são lançadas ao acaso, mas não são boladas de qualquer jeito. Não apenas representando o real, mas sendo hoje o real, as mensagens são criadas visando à espetacularização da vida, à simulação do real e à sedução do sujeito. Assim as compreende o sociólogo francês Jean Baudrillard.

A espetacularização converte a vida em um show contínuo e as pessoas em espectadores permanentes. Antigamente os espetáculos — paradas, festas, jogos — eram ocasionais e à parte. Agora, a começar pela arquitetura monumental, eles reinam em pleno cotidiano. TV, vitrines, revistas, moda, ruas, na sociedade de consumo, geram um fluxo espetacular cuja função é embelezar e magnificar o dia-a-dia pelas cores e formas envolventes, o tamanho e o movimento de impacto. Tudo fica “incrível”, “fantástico”, “sensacional”.

O espectador é o que vê, mas também o que espera por novas imagens atraentes e fragmentárias para consumir. Ele se acha mergulhado na cultura blip — cultura do fragmento informacional, cintilações no vídeo. Assim, por um lado a espetacularização motiva e controla a nebulosa de espectadores mantendo-a continuamente à espera de novas imagens, bens e serviços; por outro, pela estetização, glamuriza e alivia a banalidade coti-


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diana. Procuramos nas ruas, nos rostos, o farto colorido das revistas e da TV.

Como isto é possível? Pela simulação, pelos simulacros. Em outras épocas, os simulacros (mapas, maquetes, estátuas, quadros) foram instrumentos ou obras de arte. Na pós-modernidade eles formam a própria ambiência diária. Materiais e processos simulantes trazidos pela tecnociência reproduzem com mágica perfeição o real. A fórmica simula o jacarandá. Um flavourizante põe sabor morango no chocolate. Batalhas siderais se travam no videogame e sintetizadores programáveis tocam flauta. O silicone recicla marmanjos em gatonas (vide La Close), enquanto vaginas eletro-masturbantes fabricam a cópula — a um! Pontos coloridos na TV avivam o mundo, ao mesmo tempo que computadores simulam na Terra pousos lunares.

Vimos lá atrás certa mamãe preferindo mostrar a filha na foto (no simulacro) a exibir a filha real. Temos aí a operação básica da pós-modernidade: a transformação da realidade em signo. Simulacro = signo. A fórmica é signo do jacarandá, o Monza na TV é signo do Monza na estrada. Mas e daí? Daí que, se o real é duro, intratável, o simulacro é dócil e maleável o suficiente para permitir a criação de uma hiper-realidade. Intensificado, estetizado, o simulacro faz o real parecer mais real, dá-lhe uma aparência desejável. A fórmica é mais lisa e lustrosa que o jacarandá, o Monza na


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TV surge mais ágil e nobre que na estrada. Esse hiper, esse mais agregado pela tecnociência aos simulacros resulta em espetáculo e em desreferencialização das coisas: temos mesa de jacarandá sem jacarandá, concerto de flauta sem flauta.

Parte-se então para se desejar os objetos segundo o código dos simulacros. É comum as donas-de-casa, ao prepararem um pudim industrializado, se sentirem frustradas porque ele não fica brilhante como o pudim da embalagem. Foi-se tempo em que havia separação clara entre real e imaginário, signo e coisa. Vive-se agora entre simulacros em espetáculo para seduzir o desejo.

A sedução pós-moderna diz de mil maneiras ao indivíduo: libere seus desejos, há bens e serviços só para você. A modernidade, produtora de energia, era dominada pela força (máquinas, armas, disciplina, polícia). A pós-modernidade, consumidora de informação, motiva e controla basicamente pela sedução (personalização, comunicação, erotismo, moda, humor).

Seduzir quer dizer atrair, encantar artificialmente. O cotidiano, hoje, é o espaço para o envio de mensagens encantatórias destinadas a fisgar o desejo e a fantasia, mediante a promessa da personalização exclusiva. Self-service para você escolher. Música 24 horas na FM para seu deleite. Esportes e massagens para seu corpo. À personalização aliam-se o erotismo, o humor e a moda, que não deixam espaços mortos no dia-a-dia, O teste é
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permanente. O erotismo vai dos anúncios ao surto pornô, passando pela cultura psi e seu convite ao desrecalque. O humor, outra sedução massiva pós-moderna, sabor dos tempos, descontrai e desdramatiza o social. Na arte moderna, ria-se com o absurdo, assunto sério. Atualmente, o lance é rir sem tensão, descrispar-se, desencucar-se. Slogans e manchetes recorrem ao trocadilho, à malícia (O fino que satisfaz). Cínico, vadio, Snoopy circula pelos jornais do mundo. Lojas recebem nomes gozados (Lelé da Cuca) e camisetas levam ditos divertidos. Sem calor, videogames e fliperamas forçam o relax. É normal locutores de rádio brincarem com os ouvintes e na TV noticiários são temperados com pitadas irônicas. Esse humor não é agressivo nem crítico. Busca um bem-estar cool (frio). “Não esquenta”, “fica frio” dão o tom pós-moderno.

Porém o mais doido e acelerado cavalo de batalha em ação é a moda. Moda e modismos em alta rotatividade ditam o ritmo social. Oposta ao bom gosto moderno, com seu corte solene, alta costura, hierarquias, a moda pós-moderna vai de extravagância e liberdade combinatória, com humor na fantasia. O casual comanda o mix total: camisão com colete, paletó com minissaia, gravata com tênis. O look deve ser jovem e sexy, a invenção, personalizada e informal. Jorrando cores, a moda anima a festa mercadológica que é o cotidiano, e para isso promove a convivência
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de todos os estilos: retrô com futurista, esporte com passeio, lã azul com lycra laranja. E faz alusão à vestimenta oriental, militar, circense. Também danças, gírias, produtos, complementos — tudo vai e volta sob a batuta do novo. A função da moda é manter o sujeito mergulhado no presente, e, para que ele tenha como horizonte apenas o cotidiano, não pára de botar brilho no vazio. Como dizia o Gil: “Quanto mais purpurina, melhor”.

A essa altura, inteligente, o leitor deve estar pensando: mas o ambiente pós-moderno é pura ilusão! Quase. Empresas e tecnocratas levam uma grana alta! Levam. É puro trambique e mistificação em cima de gente alienada! Seria. Para que fosse, seria preciso explicar um detalhe desagradável: a adesão maciça dos indivíduos ao consumo. E não quaisquer indivíduos, mas gente escolarizada, bem-informada, pagando altos impostos. Não dá para chamá-los de alienados porque, como vimos nas várias deserções, eles não querem o poder. Querem espetáculos e bons serviços. E, repetindo, sabem que no frigir dos ovos terão de trabalhar sem estar no poder em qualquer regime, dada a complexidade das sociedades atuais. O problema é outro. A riqueza pós-industrial é em grande parte financiada pelos países em desenvolvimento, pois o capitalismo avançado se fez multinacional. Vem para cá a indústria pesada e suja (aço, automóveis), ficam lá as leves e limpas
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(eletrônica, comunicações). Seu controle social pode ser soft (brando, pela sedução), mas o nosso tem de ser hard (moderno, duro, policial, na base do cassetete).

Eu me amo, eu me amo, eu não consigo viver sem mim
Se o neo-individualismo conduziu a massa fria, a nebulosa atomizada à desmobilização, o que está acontecendo ao indivíduo pós-moderno? Ele é o narcisista acossado pela dessubstancialização do sujeito. Vamos destrinchar isso.

Em 22/04/84, o jornal Le Monde publicou o retrato falado do novo egoísta em ação. “Pragmatismo e cinismo. Preocupações a curto prazo. Vida privada e lazer individual. Sem religião, apolítico, amoral, naturista. Narcisista. Na pós-modernidade, o narcisismo coincide com a deserção do indivíduo cidadão, que não mais adere aos mitos e ideais de sua sociedade.”

Esse esboço contraria da cabeça aos pés o indivíduo burguês e moderno. Antes, porém, uma banda filosófica. No ocidente, o sujeito humano, em oposição ao objeto, era até há pouco o senhor absoluto do conhecimento racional, da liberdade, da criação. Há décadas, no entanto, as Ciências Humanas vieram borrar essa imagem, ao descobrir
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seus condicionamentos e limites. A psicanálise revelou-o o escravo do seu inconsciente irracional. O marxismo deu-o como escravo da sua classe social e um átomo insignificante na massa. E a lingüística disse que seu pensamento criador era na verdade escravo das palavras. Falou-se então até na “morte do sujeito”.

Assim o indivíduo burguês, que supunha uma identidade fixa e uma liberdade total, aferrado ao dinheiro como capital tanto quanto a princípios morais e a valores sociais, esse sujeito dançou. Os modernos, na arte, começaram a caricaturar seu retrato, a expor sua falsidade. Os indivíduos pós-modernos na prática, vêm tendendo ao máximo à sua dissolução.

Na ambiência Pós-moderna, espetáculo simulação, sedução, constituem jogos com signos. A esse universo informacional, sem peso e desreferencializado, só pode corresponder um sujeito informatizado, leve e sem conteúdo. É o Narciso dessubstancializado. Narcisismo (amor desmedido pela própria imagem) e dessubstancialização (falta de identidade, sentimento de vazio) resumem o sujeito pós-moderno

Vimos na fabulazinha que o urbanóide pós-moderno podia ser uma criança radiosa, aquela dedicada ao hedonismo consumista, cultuando narcisicamente seu ego. O micro facilita-lhe a vida. Mil serviços trabalham sua aparência. A cultura psi lhe dá massagens mentais. Sempre na moda,
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seu gosto é eclético: vai de ET a Fassbinder no cinema, do poema pornô a Borges em literatura. Versátil, desenvolto, o sujeito blip — feito com fiapos de informação e vivências não tem ego estável nem princípios rígidos. Descontraído, mutante, seu ego flutua conforme os testes das circunstâncias. É um experimentador, um improvisador por excelência, pondo mais em. se na prática e na sedução que nas idéias. Narciso sem substância, a criança radiosa bem poderia ser a cantora Madonna — charme com raio laser.

Mas com essa criança glamurizada mora um outro — o andróide melancólico, também dessubstancializado e narcisista. Em sociedades movidas a informação acelerada, o sujeito também vira signo em alta rotação, sem substância por baixo. Os valores foram trocados pelos modismos, os ideais, pelo ritmo cotidiano. Saturado de consumo e informação, ele encosta no conformismo, refletindo a famosa apatia pós-moderna. Sem laços ou impressões fortes, sua apatia logo cai na depressão e na ansiedade, ambas melancólicas. A melancolia, sentimento frio, é o último grau da apatia — a doença da vontade — prevista por Nietzsche para o homem ocidental quando ele fosse o andróide programado pela tecnociência. Temendo a robotização, mas sem projetos, sua vida interior é sem substância. Absorvido em si e nostálgico, sempre a analisar-se como Narciso, sua sensação mais comum é de irrealidade. O
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andróide melancólico bem poderia ser Woody Allen, com seu desencanto humorado e frio.

Criança radiosa e andróide melancólico são modelos ideais que, em doses variadas, entram na sensibilidade dos indivíduos pós-modernos. Eles espelham ainda os dois niilismos da atualidade: o niilismo ativo da criança radiosa, que acelera a decadência em direção a um possível Renascimento; e o niilismo passivo, do andróide melancólico, desorientado pelo fim dos valores tradicionais, amedrontado pelo apocalipse — nuclear ou ecológico.

Agora, pondo na mesma cama Madona e Woody Allen, que criatura eles iriam gerar? Sem dúvida que Boy George. Fixem os vários visuais dele. Em todos ele aparece: homem e mulher/ colorido e branco/ infantil e programado/ desenvolto e apático/ permissivo e frio/ fascinante e melancólico/. Boy George não tem a unidade nem a identidade fixa do indivíduo burguês, moderno. Múltiplo, ele é o próprio sincretismo pós-moderno. O indivíduo atual é sincrético, isto é, sua natureza é confusa, indefinida, plural, feita com retalhos que não se fundem num todo. Por isso, nas definições da sensibilidade pós-moderna as palavras nunca batem: apatia desenvolta, desencanto extravagante, narcisismo melancólico. Tomemos a apatia desenvolta.



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