O que é Pós-Moderno



Baixar 286,22 Kb.
Página4/6
Encontro03.05.2017
Tamanho286,22 Kb.
1   2   3   4   5   6

No som, no corpo, na cena, no cinema


Embora menos freqüentes, o pós-modernismo tem feito visitas à música, à dança, ao teatro e
Pág 67

(Foto: Rainer Fetting, Dançarinos, ecletismo retrô: Matisse + expressionismo + primitivismo. (Movements in art since 1945, Edward Lucie-Smith, p. 273).

Foto: Poema-processo; surpresa, ironia, humor sobre os signos de massa. (Laser para Lazer, Joaquim Branco.)
Pág 68

ao cinema. Na música ele assume formas diversas. Está nas experiências que o revolucionário e imprevisível John Cage faz com o silêncio, como nas peças compostas por Steve Reich para mãos batendo descompassadas. Soa nos temas “minimalistas” de Philip Glass (frases tocadas em uníssono, repetidas à exaustão com pequenas variações de timbres) e no som tecnopop de Laurie Anderson — a voz humana, os instrumentos e os gêneros populares ou eruditos (mais o rock) sendo processados pela parafernália eletrônica. E de quebra temos ainda o rock punk e new wave, com letras brandas descontraídas ou então niilistas tipo A Gente Somos Inútil (do Ultraje).

Cortando o formalismo e o drama, a dança pós-moderna põe no tablado até mesmo o grotesco, a feiúra oferecida por dançarinas gorduchas. E a desestetização. Bailarinos podem ficar meia hora passando bolas de borracha uns para os outros, ou ainda, na linha “minimalista”, andarem de um lado para o outro repetindo gestos banais, como em Transit, de Steve Paxton. O grande nome, no entanto, é a alemã Pina Bausch, cujas coreografias, passando do belo ao horroroso, desdefinem a dança ao máximo. No teatro, as experiências mais chocantes começaram com o Living Theater de Julian Beck (a peça vira happening com a participação do público), para vir a dar atualmente nos transvanguardistas italianos do grupo Gaia Scienza, cuja peça Os Insetos Preferem as Urtigas não tem
Pág 69

texto nem enredo, só corpos a imitar no palco fenômenos biológicos: crisálidas, fetos, desabrochamentos.

No cinema, enfim, com altos efeitos especiais, corre solta a nostalgia acoplada à ficção científica. Reina o ecletismo (mistura de estilos) e o pastiche (imitação barata). Indiana Jones é a volta ao gibi, ao seriado. Guerra nas Estrelas leva para o cosmos as batalhas medievais, apoiando-se nó computador e no laser. Zelig, de Woody Allen, é o cinema do cinema. A nostalgia dos anos 20/30 é refilmada com base em documentários da época. Mesclado ao filme policial, o futuro espetacular da tecnociência é focalizado por Blade Runner. E analisando a condição pós-moderna, circularam Salve-se Quem Puder, de Godard (note o individualismo) e Paris-Texas, de Wim Wenders, dois passeios cruéis pelo deserto atual.

Bit balanço


Dizer Sim ou Não, 0 ou 1 para a antiarte pós-moderna? A discussão está em aberto. Muitos a vêem decadente. Das criações grandiosas de Picasso e Joyce às brincadeiras e paródias atuais, sem força intelectual, sem regras estéticas, houve queda ou fim de padrões. A arte agora é pastiche e ecletismo porque perdeu a originalidade, não sabe mais criar. Niilista, a desestetização levou à
Pág 70

morte da arte. É uma.

Mas outros sentem no pós-modernismo uma praga boa e saudável. Abala preconceitos, põe abaixo o muro entre arte culta e de massa, rompe as barreiras entre os gêneros, traz de volta o passado (os modernos só queriam o novo). Democratizando a produção, ele diz: que venham a diferença, a dispersão. A desordem é fértil. Pluralista, ele propõe a convivência de todos os estilos, de todas as épocas, sem hierarquias, num vale-tudo que acredita no seguinte: sendo o mercado um cardápio variado, e não havendo mais regras absolutas, cada um escolhe o prato que mais lhe agrada. Morte ou renovação, também na arte o pós-modernismo flutua no indecidível.

Pág 71


ADEUS ÀS ILUSÕES
O fliperama do nada
O pós-modernismo desembarcou na filosofia em fins dos anos 60 com uma mensagem demolidora na mochila: a Desconstrução do discurso filosófico ocidental, da maneira como o Ocidente pensa (e age). Discurso é fala, é o dito. Do grego Platão, no século 4 a.C., até o francês Sartre em nossos dias, os filósofos ocidentais disseram as coisas de determinado modo, com certas atitudes e pressupostos inconscientes. Desconstruir o discurso não é destruí-lo, nem mostrar como foi construído, mas pôr a nu o não-dito por trás do que foi dito, buscar o silenciado (reprimido) sob o que foi falado. Com os pensadores pós-modernos, a filosofia e a própria cultura ocidental caíram sob um fogo cerrado.
Pág 72

Rose, lá na fabulazinha, escrevia uma tese: Em Cena, a Decadência. O pós-modernismo está associado à decadência das grandes idéias, valores e instituições ocidentais — Deus, Ser, Razão, Sentido, Verdade, Totalidade, Ciência, Sujeito, Consciência, Produção, Estado, Revolução, Família. Pela desconstrução, a filosofia atual é uma reflexão sobre ou uma aceleração dessa queda no niilismo. Niilismo — da palavra latina nihil = nada — quer dizer desejo de nada, morte em vida, falta de valores para agir, descrença em um sentido para a existência. A desconstrução pretende revelar o que está por trás desses ideais maiúsculos, agora abalados, da cultura ocidental.

Desde a Grécia antiga, as filosofias são discursos globais, totalizantes, que procuram os primeiros princípios e os fins últimos para explicar ordenadamente o Universo, a Natureza, o Homem. A pós-modernidade entrou nessa: ela é a valsa do adeus ou o declínio das grandes filosofias explicativas, dos grandes textos esperançosos como o cristianismo (e sua fé na salvação), o Iluminismo (com sua crença na tecnociência e no progresso), o marxismo (com sua aposta numa sociedade comunista). Hoje, os discursos globais e totalizantes quase não atraem ninguém. Dá-se um adeus às ilusões.

Mas como é possível o niilismo irracional — a decadência — brotar nas sociedades pós-industriais dominadas pela tecnociência, pela programação,


Pág 73

que são a própria racionalidade na produção, no trabalho, na burocracia e até no cotidiano? Basta olhar para o mundo atual.

O choque entre a racionalidade produtiva e os valores morais e sociais já se esboçava no mundo moderno, o industrial. Na atualidade pós-moderna, ele ficou agudo, bandeiríssimo, porque a tecnociência invade o cotidiano com mil artefatos e serviços, mas não oferece nenhum valor moral além do hedonismo consumista. Ao mesmo tempo, tais sociedades fabricaram fantasmas alarmantes como a ameaça nuclear, o desastre ecológico, o terrorismo, a crise econômica, a corrupção política, os gastos militares, a neurose urbana, a insegurança psicológica. Elas têm meios racionais, mas só perseguem fins irracionais: lucro e poder.

Ora, o barato de alguns (não todos) filósofos pós-modernos é que eles não querem restaurar os valores antigos, mas desejam revelar sua falsidade e sua responsabilidade nos problemas atuais. Para isso, eles lutam em duas frentes:


1) Desconstrução dos princípios e concepções do pensamento ocidental — Razão, Sujeito, Ordem, Estado, Sociedade etc. — promovendo a critica da tecnociência e seu casamento com o poder político e econômico nas sociedades avançadas, que resultou no tão amaldiçoado Sistema.

2) Desenvolvimento e valorização de temas antes considerados menores ou marginais em filosofia:


Pág 74

desejo, loucura, sexualidade, linguagem, poesia, sociedades primitivas, jogo, cotidiano — elementos que abrem novas perspectivas para a liberação individual e aceleram a decadência dos valores ocidentais.

Para essa guerra, filósofos pós-modernos, tais como Jacques Derrida, Gilles Deleuze, François Lyotard, Jean Baudrillard, foram buscar armas em vários arsenais. Num pensador maldito — Nietzsche — o primeiro a desconstruir os valores ocidentais; na Semiologia, pois atacam as sociedades pós-industriais baseadas na informação, isto é, no signo; e no ecletismo Marx com Freud, fundindo aspectos pouco conhecidos de suas obras. Esse pim-pam-pum de idéias no fliperama digital do nada é interessante.

Viver não é sobreviver ou o profeta de Walk-man


Nietzsche entrou em moda nos anos 70 e continua no hit-parade. Pós-moderno já no fim do século XIX, ele foi fundo com o dedo na ferida atual: o niilismo, a desvalorização dos valores supremos, o desencanto com a vida. Por isso, Nietzsche agride a Razão, o Estado, a Ciência, a Organização social moderna por domesticarem o homem, anulando seu instinto e criatividade. Três conceitos e valores
Pág 75

ocidentais vão ser desmascarados por sua crítica desconstrutiva: Fim, Unidade, Verdade.

Para Nietzsche a própria criação de valores supremos significou niilismo, decadência, pois trocou-se a vida carnal, instintiva, concreta, por modelos ideais inatingíveis (O Belo, O Bom, O Justo). Mas vendo-se abandonado no universo, o homem ocidental projetou valores supremos que lhe acalmassem a angústia, lhe justificassem a existência. Fim (para garantir um sentido, um happy-end); Unidade (para assegurar que o universo é um todo conhecível pela ciência); e Verdade (para guiar-se pelo ser, pela real natureza das coisas).

Uma vez projetados, a História ocidental se encarregou de desvalorizar os valores suprem os, substituindo-os pela banalidade cotidiana, o conformismo, o pessimismo, a passividade, a falta de força moral. Quem se preocupa hoje com a verdade? Quem busca hoje a salvação eterna? Por que multidões viraram carneiros indo para o trabalho, o exército, o estádio?

Finalmente, acha Nietzsche que o niilismo será a fonte para uma transvaloração de todos os valores. Novos valores virão, em bases mais sólidas. A superação do niilismo será um rejuvenescimento cultural, culminando com a chegada do Super-homem e sua aposta na vida instintiva, na intensificação dos sentidos, do prazer. Não uma vida com ideais no Céu ou no Olimpo, mas aquela que flui
Pág 76

para todos os lados, sem rotinas, enraizada no presente e aberta ao devir, ao futuro.

Fim, Unidade e Verdade e sua valorização, desvalorização e transvaloração. Com isso, Nietzsche está abalando três pilares da cultura ocidental: cristianismo (Fim), o conhecimento científico (Unidade) e a Razão filosófica e moral (Verdade). A pós-modernidade é o momento em que tais valores, ainda atentos e fortes durante a modernidade industrial, entram em decadência acelerada. Se isso vai dar ou não na transvaloração, no Super-homem, é outro papo.

Mas voltando a Nietzsche, ao propor que uma outra vida, lá no Céu, seria o Fim do homem, o cristianismo negou a vida aqui na Terra e com ela negou o corpo, o prazer, a alegria, o presente. Além disso, um Deus punitivo plantou no coração do homem a culpa — sua flor mais nefasta.

A suposta Unidade do cosmos levou a ciência a opor o Homem (o conhecedor) à Natureza (o conhecido). Ao mesmo tempo, fragmentou a Natureza em campos de conhecimento (Física, Química, Biologia) e decretou, pela Matemática, a quantificação do mundo natural e social para tornar as coisas previsíveis, isto é, programáveis, matando assim a eterna novidade do futuro, o movimento sempre incerto com que jorra a vida.

Escravizando-se à Verdade, enfim, o homem ocidental quis governar sua existência só pela Razão, que supostamente mergulha no ser das


Pág 77

coisas, traça uma moral racional, quando na realidade a vida é também instinto e emoção, força e imaginação, prazer e desordem, paixão e tragédia. (Abra os jornais: todo dia tem gente matando ou glorificando-se por alguns desses impulsos, quase nunca pela Verdade ou pela Razão.)

Para superar o niilismo — que está pondo abaixo os valores supremos, alimenta o pessimismo e a fraqueza — a transvaloração de todos os valores perseguida por Nietzsche ergueria uma cultura voltada para o prazer na alegria, o corpo integrado à imaginação poética, à arte, em suma. Nem a religião, nem a ciência, nem a filosofia, mas a arte, com sua embriaguez dos sentidos, enraizada no presente mas aberta ao futuro, a arte seria o fio condutor para um novo estilo de vida.

Nesse estilo, quanto aos Fins: nada de Deus nem de Estado, mas cada um vivendo sem sobreviver, realizando o melhor de si como obra de arte aqui e agora. Quanto à Unidade: nada de conhecimento científico, de programação, pois o cosmos, como a vida, é um jogo indefinido, aberto, sem direção e o pluralismo, isto é, a diversidade das formas, dos caminhos é a sua lei. Quanto à Verdade, nada de conceitos universais e eternos, mas a sabedoria do corpo, o valor do erro e da ilusão, a afirmação segundo a perspectiva de cada um. o sujeito deixando-se rolar pelo tempo guiado pelo pragmatismo dos instintos, num ego a flutuar


Pág 78

de experiência em experiência, sem se preocupar com uma identidade fixa.

Tanta lucidez e desejo de liberação levaram Nietzsche a morrer louco em 1900. Esse profeta, que pensava durante longas caminhadas, usaria hoje um walk-man sem som para melhor enxergar na confusão da nossa época.

Abaixo o Ocidente sem se preocupar


Na trilha aberta por Nietzsche,o filósofo Jacques Derrida, que inventou a palavra desconstrução, atacou a besta chamada Logocentrismo ocidental. O Ocidente, segundo ele, só sabe pensar pelo Logos, que em grego significa palavra, razão, espírito.

Paremos aqui e voltemos a fita um pouco. Derrida é pós-moderno porque pós-estruturalista. O estruturalismo nas ciências humanas é a corrente que, nos últimos 30 anos, recebeu grande impulso na Lingüística e na Semiologia. Ele analisa os fenômenos sociais e humanos como se fossem textos, discursos. A moda, o casamento, o sonho podem ser “lidos” como se fossem “frases” de uma língua, signos com um significante e um significado (no sonho as imagens são significantes cujo significado o analista descobre). Pois bem, na Antropologia, na Psicanálise, na Sociologia, o estrutu-


Pág 79

ralismo explicou cientificamente muita coisa no homem que antes era privilégio da Filosofia comentar. Assim, a Filosofia ficou meio desempregada, meio boca inútil. Após o estruturalismo, só lhe restou voltar-se sobre si mesma, pensar a sua própria história, investigar o seu próprio discurso.

É aí que entra Derrida com a desconstrução do Logocentrismo. No centro da cultura e da filosofia ocidentais está o Logos, isto é, o espírito racional que fala, discursa. E como? O Logos é a razão e a palavra falada, no sujeito humano, transformando as coisas em conceitos universais. O conceito cadeira, por exemplo, expresso pela palavra “cadeira”, produz um modelo universal para esse objeto, apagando as diferenças entre as cadeiras reais (de pau, de ferro, de palha). O conceito torna idênticas todas as cadeiras porque elimina as diferenças entre elas. O Logocentrismo acaba com as diferenças entre as coisas reais ao reduzi-las à identidade no conceito.

Mas isso não ficou apenas nas modestas cadeiras. É um jeito ocidental de pensar e agir. Os jesuítas convertiam as diferentes tribos brasileiras a uma idêntica religião: o cristianismo. Os brancos europeus submeteram vários povos, de diferentes raças, a uma idêntica economia: o capitalismo. A linha de montagem impôs a diferentes personalidades gestos idênticos. O ocidente sempre se deu mal com as diferenças: a do índio, do negro, do louco, do homossexual, da criança, da poesia


Pág 80

(expulsa da República por Platão).

Ora, embutida no Logos, Derrida descobre uma cadeia desses grandes conceitos universais que atravessa toda a cultura ocidental. Logos é Espírito, que dá em Razão, que faz Ciência, que promove a Consciência, que impõe a Lei, que estabelece a Ordem, que organiza a Produção. No entanto, a cadeia das maiúsculas só se promoveu reprimindo e silenciando como inferiores os termos de uma outra cadeia: corpo/ emoção/ poesia/ inconsciente/ desejo/ acaso/ invenção. Além de matar as diferenças em identidades, o Logos comete uma segunda violência: hierarquiza esses elementos, valoriza, torna uns superiores aos outros. Os primeiros — maiúsculos, superiores — reduzem o mundo a identidades, são sólidos, centrais, racionais, duradouros, programáveis. Os outros — minúsculos, inferiores — pulverizam o mundo em diferenças, são fugidios, sem centro, irracionais, breves, imprevisíveis.

Em guerra com a tradição ocidental, ao desconstruir seu discurso para trazer à tona o reprimido, Derrida e outros filósofos pós-modernos querem injetar vida nova nas diferenças contra a identidade, na desordem contra a hierarquia, na poesia contra a lógica. Eles pensam contra as manias mentais ocidentais, um pensar sem centro e sem fim, mais para literatura que para filosofia. Vinculado a pequenas causas, é um meditar minoritário tendo como objeto o corpo, a prostituição,


Pág 81

a loucura, o cotidiano, contra o Espírito, a Família, a Normalidade e a Grande Revolução Final.

Marx & Freud Ilimitada
Eclético por excelência, o pensamento pós-moderno andou cruzando, em várias posições, Marx com Freud, marxismo e psicanálise, para desmantelar algumas ficções ocidentais. Em 1972, o filósofo Gilles Deleuze e o psicanalista Felix Guattari bagunçaram as idéias contemporâneas com um petardo chamado O Anti-Édipo. O livro metia a noção marxista de produção nos porões do inconsciente freudiano. Este deixava de ser o cenário das imagens e emoções recalcadas para virar máquina desejante, energia produtora de desejos. A idéia de máquina desejante era filha do cruzamento da sociedade capitalista (Marx/ máquina) com o inconsciente individual (Freud! desejo). Sociedade e individuo eram uma coisa só: máquinas desejantes.

Só que, entoava o Anti-Édipo, essas máquinas estavam com suas energias domesticadas, dirigidas para outros fins que não a liberdade e o prazer. No indivíduo: para ser sujeito, ter uma identidade, todo mundo passa pelo complexo de Édipo (o desejo de matar o pai e trepar com a mãe). Se a criança supera essa fase, entre os 3 e 4 anos, a educação terá sucesso em programar sua identi-


Pág 82

dade: o sujeito será cidadão normal, consumidor, trepará bonitinho (pênis in vagina) com sua mulher, obedecerá os horários, etc. (Se não supera, se rejeita a programação social, a criança fica esquizofrênica). Na sociedade capitalista: dinheiro, luz elétrica, transportes, mercadorias, trabalho humano, lazer, são energias dominadas pela programação racional da produção e destinadas ao lucro. Nos dois casos há repressão, as máquinas desejantes estão com sua produção desvirtuada, sem gozo pleno. Para derrotar o sistema, e liberar o desejo em sua plenitude, a duplinha Deleuze-Guattari só vê uma saída: promover o Anti-Édipo, o esquizofrênico, a pura máquina desejante que o Complexo de Édipo, isto é, a família não programou.

Desprogramado, o esquizofrênico usa suas energias como lhe dá na telha. Não come ou come quando quer, não caga ou caga onde está, não respeita horários nem patrões, goza com todas as saliências e buracos. Mas atenção: conforme disse Guattari numa entrevista, ele não é o psicótico que está fora da realidade. Liberado em seu desejo, deixando suas energias fluírem e se conectarem com outras máquinas desejantes como mais lhe agradar, o esquizofrênico é o modelo para o revolucionário de nossos dias. Ele desmonta ponto por ponto a programação capitalista na fábrica, na família, nos serviços, no sexo, ao liberar os fluxos de energia que, correndo livremente, acoplarão e desacoplarão boca e pênis, ânus e seio,
Pág 83

tal as máquinas.

Isso, claro, é uma utopia às avessas. Mas Deleuze e Guattari sabem que Estados, países, burocracias, empresas, partidos, sindicatos, escolas, são máquinas enormes onde as energias seguem programações repressivas e assim a única liberação possível é pela Revolução Molecular: fragmentar o Sistema, desconstruir os grandes organismos na aula, em casa, no hospício, no banco, no trânsito, na praça, até reduzi-lo às suas menores moléculas. A Revolução não virá mais da massa reunida no Partido ou no Sindicato, grandes totalidades. Ela se fará por despedaçamento, anarquia, evitando-se as unidades maiores, as normas, os centros de comando. Dai que a Revolução Molecular se bate pelo feminismo, a droga, a antieducação, a antipsiquiatria, o trabalho improdutivo. Ela não berra: “Proletários de todo o mundo, uni-vos.” Mas faz correr de boca em boca: “Morte ao Todo, viva a Partícula”.

Outra fusão Marx com Freud foi tentada pelo filósofo francês Jean François Lyotard. Ele criou uma economia libidinal (libido é a energia sexual freudiana) que também visa à liberação do desejo na micropolítica do cotidiano (na cama, no hospital, no supermercado), onde quer que pinte repressão. A contribuição mais importante de Lyotard, no entanto, está no livro A Condição Pós-moderna (1979). Ali ele expõe como a tecnociência, hoje coração integrado das sociedades pós-industriais e da pós-modernidade, não procura mais, como a


Pág 84

Ciência moderna, a Verdade. Concentrada em áreas ligadas à linguagem — comunicação, cibernética, informática, telemática — ela busca a performance, o melhor resultado.

Nestes ramos, associada ao poder econômico e político, a tecnociência não visa mais a conhecer o real, espelhando-o em números e leis, mas tende antes a acelerar informações para a indústria e os serviços produzirem novas realidades a um ritmo mais rápido e a um custo mais baixo. A tecnociência tornou-se performativa (performance = desempenho, resultado). As sucessivas gerações de computadores, com capacidade lógica e de processamento sempre maiores, não descobrem novas verdades, mas ampliam a performatividade.

Foi assim que, após semanas processando dados, um computador permitiu ao ciclista Francesco Moser quebrar seu próprio recorde mundial, ao percorrer 51,151 km em uma hora. Técnicos em medicina, biologia, informática coletaram dados e prepararam o evento. O computador combinou as medidas coletadas até estabelecer os momentos mais favoráveis à aceleração e ao descanso, otimizando a performance do corredor. A máquina calculou melhor que o homem os momentos ideais para decisões humanas. Mas como disse uma vendedora de vibradores no Macy’s em Nova York: “Se funciona aleluia”.

Mais para cabaré do que para capela, a cena filosófica pós-moderna tem no palco a tecnociên-
Pág 85

cia em contradança com o niilismo. Lyotard, e outros, que desejam acelerar o niilismo, a decadência, se bate por uma ciência pós-moderna, não performativa, mas permissiva, uma ciência do instável, do contraditório, do paradoxal (tudo isso é anti-ocidental), tal como surge na teoria das catástrofes de René Thon ou na da comunicação paradoxal de Watzlawick, que permite entender melhor os esquizofrênicos. Dessa idéia estão perto Feyerabend, um cientista que avacalha a ciência em favor da liberdade humana, e o físico russo, exilado na Bélgica, Ilya Prigogine, para quem a desordem não é o caos, mas parteira de estruturas racionais e práticas (certos insetos constroem belíssimas arquiteturas juntando materiais ao acaso).

Outros querem deter a avalanche niilista. O americano Daniel Bell, sociólogo mais para a direita, só vê a saída num retorno à religião. Já Jurgen Habbermas, filósofo alemão herdeiro atual da famosa Escola de Frankfurt,e portanto um esquerdista, pensa que a saída, na era da informação, está na comunicação autêntica, recrutando em Marx e Freud armas para combater os efeitos maléficos da comunicação de massa, diluidora, anti-humana. Outros ainda, como Gilles Lipovetsky, autor do livro L’Ére du Vide (A Era do Vazio), acham o niilismo um barato, pois libera o indivíduo das velharias e alimenta seu desejo de personalização e responsabilidade por si mesmo, num mundo sem Deus nem o Diabo.

Pág 86


A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO
Clip-extravagância
Nestes anos 80 o pós-modernismo chegou aos jornais e revistas, caiu na boca da massa. Um novo estilo de vida com modismos e idéias, gostos e atitudes nunca dantes badalados, em geral coloridos pela extravagância e o humor (vide o Planeta Diário), brota por toda parte. Micro, videogame, vídeo-bar, FM, moda eclética, maquilagem pesada, new wave, ecologia, pacifismo, esportivismo, pornô, astrologia, terapias, apatia social e sentimento de vazio — estes elementos povoam a galáxia cotidiana pós-moderna, que gira em torno de um só eixo: o indivíduo em suas três apoteoses — consumista, hedonista, narcisista.

O individuo pós-moderno consome como um



1   2   3   4   5   6


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal