O que é Pós-Moderno



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Pintando/esculpindo o sete no pedaço
Decretando uma comunicação direta, jovem, alegre na pintura e na escultura, a Arte Pop (termo proposto pelos críticos americanos Fiedler e Banhan em 1956) foi a primeira expressão pós-moderna nas artes plásticas. Objetos e imagens tiradas do consumo popular entram em cena. Sua origem, a rigor, é inglesa, pois foi em Londres que Richard Hamilton, ainda em 1955, produziu a sua estonteante colagem O que Faz os Lares Atuais tão Sedutores, painel de 3m x 3m saturado com TVs, poltronas, posters, mulher nua, halterofilista, secador de cabelo.

Em 1963, amplamente difundida pelo mundo, a arte Pop tem seu núcleo mais ativo em Nova York, cujas galerias, depois de rejeitá-los, passam a acolher os chamados “cinco grandes”, os quais transferem para a arte culta sua experiência com os mass media: Andy Warhol e Roy Litchtenstein


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foram publicitários; James Rosenquist trabalhou com cartazes; Claes Oldemburg foi ilustrador de revistas e Tom Wesselmann dedicou-se ao desenho animado. Exploremos Warhol, Litchtenstein e Rosenquist.

Warhol ficou famoso por circular no jet-set decretando em entrevistas a morte da arte. Mas sua fama veio mesmo por ter pintado em cores selvagens (amarelo, verde, rosa) latas de sopa Campbell e garrafas de Coca-Cola repetidas em série. Suas 50 Marilyns aproveitam foto publicitária da estrela no filme Niágara, serializando-a em amarelo, laranja e azul, cores do glamour de massa, mas o olho treinado no supermercado percebe pequenas variações de uma foto para outra. Warhol faz arte sobre a arte de massa (a foto publicitária) e o real, o referente Marilyn Monroe esfumou-se por trás do simulacro espetacular da sua imagem massificada.

A escala e o impacto do outdoor fizeram a glória do fantástico F-111, de James Rosenquist, mural com 30m x 3m onde um avião caça F-111 é fragmentado por preocupações correntes na vida americana: pneus de automóveis, cogumelo atômico, uma garotinha no secador de cabelo e um mar de espaguete enlatado. A idéia é simples: quem garante a sociedade de consumo é o poder (a aviação) militar. Rosenquist combina aqui o exagero (30 metros) com o fragmento, a vida feita em pedaços pelo consumo.


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Décadas atrás, ninguém imaginaria que o gibi acabaria em museu. Mas o humor Pop de Litchtenstein, recortando quadrinhos, ampliando-os com projetor e pintando-os com cores muito fortes, levou-os para lá. Esse mesmo método foi aplicado a um anúncio publicitário de lua-de-mel. A mulher de maiô, segurando uma bola na praia, está desenhada como num gibi e comunica uma felicidade oca, banalizada, massificada. Sua alegria vazia representa a dessubstancialização do sujeito ou mesmo a morte do sujeito de que falam os filósofos atuais.

No Brasil, a arte Pop vai encontrar em Duke Lee, Rubens Gerchman, Antonio Dias, Cláudio Tozzi, Carlos Vergara artistas atentos à transformação da paisagem urbana e social do pais após o golpe militar de 1964.

O real vira hiper-real


O hiper-realismo ou foto-realismo é uma forma de Arte Pop e pós-moderna, pois copia minuciosamente em tinta acrílica fotografias (simulacros) de automóveis, paisagens urbanas, fachadas, anúncios, que depois são apresentados em tamanho natural ou monumental (hiper, enorme). A tinta acrílica, lustrosa, deixa o real mais intenso, bonito; ou então o poliéster, na escultura, deixa a figura mais
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viva, vibrante, como se vista numa TV a cores. Novamente o pós-modernismo se apóia no simulacro.

Cláudio Bravo, Duane Hanson, Richard Smith estão entre os hiper-realistas aclamados internacionalmente, enquanto Gregório Correia, com quadros que surpreendem o Anhangabaú, em São Paulo, num abandono triste, morto, é o foto-realista brasileiro de maior notoriedade. Na escultura, as peças hiper vêm cobertas com materiais reais: roupas, óculos, celofane, etc.

Menos é mais


Entre 1966 e 1969, a antiarte pós-moderna enveredou pela chamada Minimal Art, um gesto a mais na desestetização e na desdefinição da arte tradicional. A teoria minimal dizia o seguinte: vamos tirar os traços estéticos (forma, cor, composição, emoção) do objeto artístico e reduzi-lo a estruturas primárias, a apenas aquele mínimo que, de longe, lembra arte. Uma prancha de fiberglass ou um bloco de espuma plástica encostados ria parede são esculturas minimais. Pois apresentam materiais industriais na sua pureza, textura, peso, em suma, nas suas qualidades mínimas de matéria.

Carl André, Sol Le Witt, Donald Judd planejaram


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(e fábricas executaram) esculturas com módulos (padrões) que se repetem e se combinam segundo regras matemáticas, mudando de uma exposição para outra. Na mesma medida em que a Pop homenageia o consumo e os mass media, a minimal tece o elogio da tecnologia, dos seus materiais sintéticos. Sem mensagem, sem protesto.

Pensar, espectador, pensar
A Pop e a minimal desdefinem, desestetizam a arte, mas mantêm seu objeto (o quadro, a escultura). A arte conceitual dá um passo a mais em direção ao vazio pós-moderno: desmaterializa a arte ao dar sumiço em seu objeto. Grandes ou pequenas, boas ou más, pinturas e esculturas são supérfluas. Só interessa a idéia, a criação mental do artista registrada num esboço, esquema ou frase. Frases: se a arte é linguagem (forma para representar alguma coisa), ela pode ser reduzida a frases simples e diretas que valham por um objeto. Os conceptualistas foram muito influenciados pela filosofia da linguagem reinante na Inglaterra,e em 1968 Sol Le Witt escreveu: “Um trabalho artístico deve ser compreendido como um fio condutor da mente do artista para a mente do espectador”. Em vez de contemplar o objeto pronto, o público deve ativar a imaginação para
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visualizar o que está sendo proposto pelo artista numa frase, num diagrama.

Ambientes: assim na terra como no céu
A antiarte pós-moderna se desestetiza porque a vida se acha estetizada pelo design, a decoração. Os ambientes atuais já são arte e assim pintura e escultura podem se fundir com a arquitetura, a paisagem urbana, tornando-se fragmentos do real dentro do real. Desde os anos 60 até hoje, artistas como Allan Kaprow, Lucas Samarras, El Lissitsky, e os brasileiros Hélio Oiticica, Cildo Meireles têm produzido obras que incorporam todo o espaço ambiental. Objetos acumulados ou distribuídos ao acaso envolvem o espectador para que ele esteja não diante, mas dentro da obra, com os sentidos todos afetados. Misturam-se pintura, escultura, música, arquitetura. É o mixed-media, a fusão de meios.

É o ambiente Tropicália, sala com pássaros, plantas e música tropicais, montado por Hélio Oiticica no Rio em 1967. São os Penetráveis, de Jesus Soto — tubos plásticos pendentes do teto que, à nossa passagem, criam ondas visuais -- e os Labirintos, armados pelo GRAV — Grupo de Pesquisa de Arte Visual, sediado em Paris. É She — The Cathedral (Ela, a Catedral), uma enorme


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mulher deitada em posição de coito, medindo 30m x 10 m x 7m, pintada psicodelicamente, construída com tubos e linho em 1966 por Niki de Saint-Phalle, por cuja vagina, quando exposta em Estocolmo, passaram 80 mil pessoas.

A arte ambiental foi também para os espaços abertos. Houve a cortina de nylon laranja, com 4 toneladas e 400 metros, estendida em 1972 pelo búlgaro Jaraeff Christo sobre o vale Hogback, no Cobrado, e lá ficando como um pássaro flexível a levantar vôo na paisagem. E Hans Haacke mandaria a escultura pelos ares, literalmente, em 1967, com a sua Sky Line (Linha Celeste) — 100 balões cheios de hélio alinhavados por um fio formando um colar de pérolas dançante nos céus do Central Park, em Nova York.

Anartistas no agito — happenings, processos, performances


Desestetizada, desdefinida, desmaterializada, a obra sumiu, mas sobrou o artista. O happening (acontecimento) é a intervenção — preparada ou de surpresa — do artista no cotidiano, não através da obra, mas fazendo da intervenção uma obra. É o máximo de fusão arte/vida como querem os pós-modernos, pois utiliza a rua, a galeria, pessoas e objetos que estão na própria realidade para
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(Foto: Trabalho de Duane Hanson, Florida Shopper. Hiper-realismo, poliéster, o consumo, o colorido, a vida sem saídas. (Movements in art since 1945, Edward Lucie-Smith, p. 252.)


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desencadear um acontecimento criativo. É uma provocação com o público, mas amplia sua percepção do mundo onde vive. Essa prática se difundiu pelo mundo desde os anos 60, inclusive no bloco socialista. Irromper vestido como Batman numa galeria e ali soltar pássaros e borboletas, tocando uma sirene, é um happening. Haverá riso, pânico e choque emocional no público.

A performance (desempenho) é uma variedade do happening. Ela atrai a atenção para o artista e os materiais que ele utiliza para chocar o público sob algum aspecto. O alemão Joseph Beuys, escultor ligado em materiais pobres como a banha, é um teórico da arte sem limites. Sua tempestuosa performance Como Explicar Quadros a uma Lebre Morta realizou-se em 1965 em Dusseldorf. Beuys, o rosto coberto com banha e pó dourado, ficou horas e horas falando com uma lebre morta no colo. O grupo vienense formado por Hermann Nitsch também manipulou animais mortos, cujas vísceras eram arrancadas e mostradas ao público. Schwarzkogler, membro do grupo, matou-se em 1969 em nome da arte, mediante sucessivos atos de auto-mutilação.

Igual ao happening e à performance, a arte processual quer ampliar ao infinito os domínios da arte pela desdefinição. Objetos, animais, jornais, postais, alimentos, máquinas, fotos — tudo pode dar arte. Qualquer processo que intervenha sobre a realidade para modificá-la, desequilibrá-la de


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modo inventivo e gratuito é arte. Desenhar com giz uma piroquinha pequenininha sobre a enorme cueca Zorba num outdoor é arte processual. Escrever um poema numa vaca que pasta, como fez Herman Damen na Holanda, também é. Idem, idem, para o pão-poema-processo, com dez metros de comprimento, comido em praça pública no Recife, em 1970, por cinco mil pessoas.

Novos bichos — a Geração 80
Entre os anos 50 e 70, houve outras manifestações artísticas — op-art, arte cinética, arte pobre, arte da terra —, mas os movimentos que resumimos vieram com o essencial do pós-modernismo:

comunicação direta, fusão com a estética de massa, materiais não artísticos, objetividade, antiintelectualismo, anti-humanismo, superficial idade, efemeridade — fim da arte culta, emotiva, superior, eterna. Foi, digamos, o primeiro tempo pós-moderno.

Com a geração 80, cansada de tanta experimentação, fechada num beco sem saídas, porque a arte se desdefiniu e não tem mais para onde ir, inicia-se o segundo tempo. É como se o pós-modernismo enfrentasse cara a cara a sua verdade: a invenção parece esgotada. A solução, assim, é voltar ao passado pela paródia, o pastiche, o neo-expres-
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sionismo. Ou então atolar-se no presente, com imagens de TV, graffiti de rua e a tecnociência expressa na vídeo-arte, no neon-realismo.

É a Bad Painting (Má Pintura) representada pelo americano Philip Guston, que pinta grosseiramente, sem refinamento, como se fosse um cartunista. Guston é um pioneiro da Transvanguarda, liderada nos EUA por Julian Schnabel e seus quadros neo-expressionistas (figuras destorcidas, monstruosas, feitas com tinta e cacos de louça), seguida na Europa por jovens franceses e italianos. Estes se dedicam à paródia e ao pastiche de mestres modernistas como Picasso, De Chirico, Miró. Transvanguarda significa não só o fim das vanguardas, mas também a defesa do ecletismo total (misturam-se anjos barrocos e cenários Pop), e a ausência de compromisso social ou intelectual na arte.

Num ramo mais alegre, porém ainda eclético, encontramos o americano Kenny Scharf pondo o Gato Félix sobre um pedestal grego e os brasileiros Jorge Barrão, que pinta gibis em tubos de tv, e Carlos Matuck e Alex Vaulari, com grafites em homenagem a personagens de histórias em quadrinhos. Vindo das ruas para as galerias, o grafitismo exige no mínimo que o artista saiba desenhar ao criar seus moldes e usar o spray.

Outra postura pós-moderna é a escultura com neon, o neon-realismo. Não só casas mas também túneis, passarelas, colunas, estão sendo decoradas,
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nos EUA, com pássaros, vaqueiros, nuvens em esculturas lineares, elétricas, coloridas, desenhadas no estilo comercial que ilumina a noite em Las Vegas. Mas é o chip que vem provocando a novidade maior. A video-arte casa computador com videogame. Programando-se um micro, ele preenche a tela com figuras que podem deslocar-se, mudar de forma ou de cor, ficar tridimensionais, em suma, pintar o diabo a quatro em forma de blips.

O bode entrópico
Estados Unidos e França desde os anos 60 e, mais recentemente, a Itália são os centros irradiadores da literatura pós-moderna, representada sobretudo pela ficção. Nosso urbanóide, lá atrás, lia O Nome da Rosa, do italiano Umberto Eco. É um romance histórico, escrito como narrativa policial, situado na Itália medieval, contando os crimes, a violência sexual e a destruição de um mosteiro em 1327. É um livro sobre outro livro — a parte perdida da Poética (inacabada), do filósofo Aristóteles.

Muita coisa é pós-moderna aí. Uma delas bem antimoderna: a volta ao passado. Outra: o recurso a uma forma antiga e gasta — o romance histórico. E o uso da narrativa policial — um gênero de massa. A intertextualidade, tanto pela referência a essas formas literárias, quanto pelo fato de ser um livro


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sobre outro livro (a Poética). O ecletismo, ao misturar o sério (histórico e documental) com o divertimento (o policial, a fantasia). E trata-se de uma paródia, um pastiche do romance histórico, pois não faz sentido escrever-se hoje, a sério, um romance sobre a Idade Média. Só por jogo e divertimento.

Mas há outro elemento pós-moderno importantíssimo em O Nome da Rosa. É a progressiva desordem reinante no mosteiro (lugar fechado, metáfora dos sistemas isolados, que só podem receber energia de fora), até culminar na sua destruição. Isto espelha a situação atual: decadência de valores, ausência de sentido para a vida e a História, ameaça de destruição atômica. Mas reflete também uma idéia que está no coração da pós-modernidade: a entropia. Entropia significa a perda crescente de energia pelo Universo (um sistema isolado, pois além dele só há o nada e ele não tem, assim, como receber energia de fora), até sua desagregação no caos, na máxima desordem. Essa idéia migrou da física e foi pousar na sociologia. Nas sociedades atuais, tudo parece rolar para a confusão, sem valores sólidos, sem ordem que segure a barra.

Pois bem, a literatura pós-moderna trata desse bode entrópico, seja na forma (a destruição do romance), seja no conteúdo (a destruição do mundo e dos valores), mas sem desespero: com riso ou frieza. Tanto a metaficção americana,


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quanto o nouveau roman francês vêm promovendo esse quebra-quebra. São os anartistas do nuliverso (anarquistas + artistas do nulo + universo).

Absurdetes americanas ou “Foda-se o Dia das Mães”
Filhos da bomba atômica com o pesadelo tecnológico pós-industrial, os escritores americanos são os que mais têm vivido o drama do absurdo social. Veremos como Kurt Vonnegut, John Barth, Thomas Pynchon, entre outros, responderam comicamente, às vezes cinicamente, a esse drama, desde os anos 60.

Em 1963, Kurt Vonnegut publicou nos EUA Cat’s Cradle (Cama de Gato), um romance curto, em capítulos curtinhos, com personagens super-engraçados. Só que a situação é apocalíptica. Políticos, cientistas, religiosos, empresários, estão correndo atrás do Gelo-9, substância cujas gotas podem congelar mares inteiros. E congelam, decretando o fim do mundo. Um pouco antes, Vonnegut faz um americano típico, convertido ao bokononismo, uma religião patafísica e niilista, exclamar: “Foda-se o Dia das Mães”. É a família em apuros. Com humor cínico, Vonnegut reduz a pó a tecnociência e a religião enquanto guias para o


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homem num mundo irracional. O romance é pós-moderno, entre outras coisas, porque funde arte culta com ficção científica (forma de massa) e sua mensagem é patafísica: só rindo do caos em que vivemos.

Niilista-gozador genial, John Barth escreve romances enormes e admira muito Machado de Assis. Seu livro mais interessante — Giles Goat-Boy (Giles, o Menino Bode) narra em 810 páginas as aventuras de Giles para chegar a ser o Grande Chefe dos estudantes no Campus Universitário Oeste, regido pelo poderoso e maléfico computador WESCAC, há anos em guerra aberta com LESCAC, o computador do Leste. Giles é filho de WESCAC com uma mulher, mas, por erro na programação, saiu parecido com um bode. Ele passará a vida tentando provar que é homem e herói predestinado. Para isso, Gimes enganará ministros, tecnocratas, cientistas e o próprio WESCAC, seu pai, em cuja presença pratica um belo 69 com sua mãe, Anastácia, num incesto à moda de Édipo (o grego que mata o pai e come a mãe). No final, sem convencer que nasceu para herói, um pilantra rouba-lhe a Grande Chefia.

Giles, o Menino Bode é uma sátira divertidíssima do conhecimento e da História, desde a teologia à matemática, dos mitos gregos à guerra fria. O livro é muito complexo e pode ser lido, ao mesmo tempo, como paródia da Bíblia, do mito


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de Édipo, como romance picaresco e de ficção científica. No fundo, é patafísico: os homens perderam a cabeça, caíram no ridículo deixando o computador programar seus fins, e nada há a fazer, a não ser rir.

Outro autor de grande calibre é Thomas Pynchon. Físico por formação, lida diretamente com a entropia em The Crying of Lot 49 (O Leilão do Lote 49) de 1966. Ali ele mostra a desintegração mental de Oedipa Maas que, em contato com um bando de malucos, inclusive os roqueiros The Paranoids, acaba destruída pelo excesso de informações desordenadas, ao tentar penetrar no mistério de uma organização de correios secreta na Califórnia. Qualquer semelhança com nossa época hiper-informada e superconfusa não é mera coincidência.

Outras absurdetes poderiam engrossar esse time. O hippie Richard Brautingan escreve fábulas bonitas e trágicas situadas no Oeste americano. Ronald Sukenick é um pornógrafo muito inteligente. E Robert Coover reconta a morte do casal Rosemberg na cadeira elétrica nos anos 50 em seu romance The Public Burning (A Execução Pública), tendo como narrador advinhe quem? O doce Richard Nixon.


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Cerebráticos franceses ou o romance morto pela masturbação


Faz 30 anos que o nouveau roman (novo romance) vem tentando matar o romance. Para isso ele recusa o realismo (o parecer verdadeiro), recusa o enredo com começo, meio e fim, o herói metido em aventuras, o retrato psicológico e social, a mensagem política ou moral. Contra o modernismo, ele abandona o psicologismo e a literatura como conhecimento superior. Por outro lado, ele quer valorizar os objetos, que são analisados pelo olhar como por uma câmara cinematográfica. Usa vários narradores simultaneamente. Mistura realidade, sonho, delírio, para criar clima de incerteza. Embaralha a ordem espacial e temporal dos acontecimentos, numa extrema fragmentação. E privilegia o texto, o ato de escrever. Com isso, os cerebráticos franceses, porque existe aqui muito de masturbação mental, pretendem dizer que a realidade atual é impenetrável, desordenada, um verdadeiro bode entrópico.

Nathalie Sarraute, Michel Butor, Alain Robe-Grillet, Phillipe Sollers, Jean Pierre Faye e Maurice Roche são os nomes significativos dessa vertente da literatura pós-moderna, que realça sobretudo a técnica de construção/destruição do romance, em detrimento do conteúdo.

Em La Maison de Rendez-Vous (no Brasil, Encontro em Hong-Kong), Robe-Grillet começa e
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recomeça indefinidamente a contar sempre a mesma história: um tiro num prostíbulo onde, num número de streap-tease, um cachorro vai rasgando as roupas de uma adolescente. Tudo é dúvida e fragmentação. Não entendemos o que veio antes ou depois, os fatos se modificam a cada versão, e não sabemos quem os relata: se Manneret, que muda de nome e aparência ao longo do texto; se Lady Ava, a dona do prostíbulo; se é o papo entre dois desconhecidos num bar. Robe-Grillet usou o mesmo estilo no filme O Ano Passado em Mariembad para mostrar o seguinte: o real não existe, ele é sempre a versão fragmentária, parcial, de alguém. Temos aqui, também, a famosa desreferencialização do real pós-moderna, junto com a paródia do romance policial, cujas características — realismo, aventura, interesse, desvendamento do crime — o autor quer destruir.

Outro nome importante no nouveau roman e Michel Butor. Seu romance mais festejado — A Modificação — conta a viagem por trem, entre Paris e Roma, de um homem que abandonou a família pela amante. Mas, à medida que o trem avança para o futuro, ele corre para o passado, para suas lembranças, e aos poucos vai modificando sua decisão. A novidade é que o romance é narrado na segunda pessoa do singular: Tu estás sentado... Tu contemplas a planície... É como se o autor falasse com o personagem, mas porque, durante a leitura, nos identificamos com ele, o autor passa
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a falar conosco, e assim vivemos por tabela uma aventura amorosa.

Phillipe Sollers é o mais badalado entre os escritores da Revista-Grupo Tel Quel, que nos anos 70 exerceu forte influência na França, na Europa e no Brasil. Seu Drame (Drama — 1965) põe em cena um autor às voltas com um romance que deseja escrever, mas não sabe sobre o quê. O verdadeiro “drama” são as dúvidas, os suores, as angústias e hesitações do autor ante o ato de escrever. Seu penúltimo livro — Femmes (Mulheres — 1983) — deixa essa torre de marfim para mergulhar no feminismo atual. Erotismo, sedução, contestação, retratam a ascensão feminina na pós-modernidade.

Em literatura, como nas demais artes, o pós-modernismo é um monte de estilos (pluralismo) convivendo sem briga no mesmo saco. Não há mais hierarquia, este não é melhor nem preferível àquele. E, claro, não há fórmula única. Por isso jóias pós-modernas pintam, bem diferentes umas das outras, por toda parte. Na Itália, com Italo Calvino (Cosmicomics, Se um Viajante numa Noite de Inverno); na Alemanha, com Günter Grass (O Tambor, O Linguado); na América Latina, com Jorge Luis Borges, que muitos dizem ser o avó do pós-modernismo com seus textos baseados em outros textos, reais ou imaginários; Júlio Cortázar (O Jogo da Amarelinha); e Gabriel Garcia Marques (Cem Anos de Solidão).


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No Brasil, onde o modernismo foi um movimento cultural muito forte e influencia a literatura até hoje, o pós-modernismo apresenta na ficção, aqui e ali, apenas traços superficiais. Osman Lins, em Avalovara, está muito próximo do nouveau roman por seu cerebralismo. Em A Festa, Ivan Ângelo montou um quebra-cabeças político, social, cronológico, dos mais intrigantes. Rubem Fonseca, em O Cobrador, dá um tratamento hiper-realista (ele carrega nas tintas) ao sexo e à violência. Os três, no entanto, se acham demasiado presos ao realismo, ao compromisso social, enquanto o pós-modernismo exige fantasia, exagero, humor, carnaval, paródia, destruição. Victor Giudice, com seu fantasioso romance Bolero, e Sérgio Sant’Anna, nos contos com pessoas reais de O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, aproximam-se do pós-moderno, embora por caminhos diversos.

Foi a poesia que, nos tristes e repressivos anos 70, rompeu o compromisso com a realidade, com o intelectualismo e o hermetismo modernistas, e partiu para ser marginal, diluidora, anticultural, pós-moderna. Brotaram a poesia do mimeógrafo, a lixeratura, o poema pornô, com Chacal, Samaral, Cacaso, Fred, Chico Alvin, Leila Mícolis, Ana Cristina César. São poemas espontâneos, mal-acabados, irônicos, em linguagem coloquial, que falam do mundo imediato do próprio poeta,


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zombam da cultura, escarnecem a própria literatura. Seu campo é a banalidade cotidiana, o corpo, o consumo, mas com um estilo solto, frio, frívolo, sem paixão nem grandes imagens.

Ainda na poesia, mais duas correntes cruzaram a fronteira pós-moderna: o poema-processo e a arte postal. Mobilizando o espaço visual da página, régua e compasso na mão, os poetas-processo montam painéis com palavras e todo tipo de imagem: foto, diagramas, rótulos, anúncios. Para eles, o poema precisa assimilar a imagem, a publicidade, os signos do cotidiano, abolindo o verso. Um cheque ouro do Banco do Brasil, carimbado com a suástica nazista, era um poema processo na época da ditadura. Wlademir Dias Pino, Joaquim Branco, Ronaldo Werneck e Álvaro Sá formam a linha de frente dessa corrente. A arte postal é basicamente o poema-processo enviado pelo correio. À margem do livro e das editoras, utiliza o postal, o cartaz, o carimbo, a xerox. O poema consiste em criações em cima de mensagens já veiculadas. O resultado é quase sempre humor, ironia, mas em tom frio, pós-moderno.



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