O que é Pós-Moderno



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Codificar e manipular o conhecimento e a informação na lógica 0/1 é vital para as sociedades pós-industria is, também chamadas sociedades programadas, onde cada serviço — banco, biblioteca, turismo — tem uma tela e um teclado com dígitos para você operar. A programação da produção, do consumo e da vida social significa projetar o comportamento (produtivo, consumidor e social) a partir de informações prévias. O objetivo é aumentar a performance, o desempenho (veja a diferença de rapidez entre a perfuração manual e a eletrônica dos cartões de loteria!). As sociedades


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pós-industriais são programadas e performatizadas pela tecnociência para produzir mais e mais rápido, em todos os setores, e com isso, presumivelmente, facilitar a vida das pessoas.

Assim, é mais importante descobrir um programa para computarizar um torno mecânico do que fabricar milhares de tornos mecânicos. O desenvolvimento é função da qualidade do conhecimento técnico-científico aplicado à produção. As novas indústrias dos anos 70 — química fina, eletrônica, aeroespacial, comunicações — estão fundadas integralmente na tecnociência. A grande vantagem é que não se precisa mais recorrer ao experimento físico. O conhecimento prévio resolve a questão. Basta levar um modelo teórico ao computador, previamente instruído com dados, e se tem uma simulação completa das soluções possíveis para o problema, com gráficos no vídeo ou simulacros em laser a três dimensões (hologramas). Poupam-se tempo e dinheiro. Edifícios em Londres e a invasão de Granada pelos EUA foram projetados assim.

Isso posto, temos que nas sociedades programadas a tecnociência atravessa de ponta a ponta a vida cotidiana. O ambiente pós-moderno é povoado pela cibernética, a robótica industrial (no Japão há 150 mil robôs nas indústrias), a biologia molecular, a medicina nuclear, a tecnologia de alimentos, as terapias psicológicas, a climatização, as técnicas de embelezamento, o trânsito computadorizado,


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junto com o walk-man, o videogame, o videocassete, o videodata (tv-computador-telefone), a TV por cabo (já em 40% dos lares nos EUA, com 6 mil empresas no setor) e os computadores domésticos. Essa revolução, em grande parte, se deve ao chip. Com milhares de microcircuitos em 1/2 cm2, ele reduziu a computação à escala individual.

Pois bem, depois que a matéria se desintegrou em energia (boom) e esta agora se sublima em informação (bit), assistimos na sociedade pós-industrial à desmaterialização da economia. O mundo se pulveriza em signos, o planeta é uma rede pensante, enquanto o sujeito fica um nó de células nervosas a processar mensagens fragmentárias. Eis por que falamos há pouco em desreferencialização do real e dessubstancialização do sujeito. O que foi processado em bit (real) é difundido em blip — pontos, retalhos, fragmentos de informações (para o sujeito). O individuo na condição pós-moderna é um sujeito blip, alguém submetido a um bombardeio maciço e aleatório de informações parcelares, que nunca formam um todo, e com importantes efeitos culturais, sociais e políticos. Pois a vida no ambiente pós-moderno é um show constante de estímulos desconexos onde as vedetes são o design, a moda, a publicidade, os meios de comunicação.

Projetando formas atraentes, embalagens apelativas, o design estetiza (embeleza) o cotidiano saturado por objetos. Eles viram informação


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estética com suas cores, suas superfícies lisas, suas linhas aerodinâmicas, e são verdadeiras iscas de sedução. Vai-se ao hipermercado, onde a mercadoria é o espetáculo, para passear, e comprar — gesto banal — torna-se um jogo de gratificação. A moda e a publicidade, por sua vez, têm por missão erotizar o dia-a-dia com fantasias e desejos de posse. Uma carga erótica deve envolver por igual pessoas e objetos para impactar o social, sugerindo ao indivíduo isolado um ideal de consumo personalizado, ao massagear seu narcisismo. A comunicação, desde as FM até os videoclips, agita-se para mantê-lo o tempo todo ligado, na base do “não se reprima”.

O circuito informação-estetização-erotização-personalização do cotidiano não é inocente. Com modelos e imagens nos mass-media, ele é o sangue dos sistemas pós-industriais. Cria a própria ambiência pós-moderna.

Capitalistas e multinacionais, os sistemas pós-industriais (EUA, Japão, centros europeus) reúnem empresas e Estado — burocratizados, informatizados — para racionalizar a produção e a organização social pela tecnociência programadora. Buscam a constante elevação do nível de vida pelo consumo acelerado de bens e serviços, que são cada vez mais diversificados. Ricos, oferecem uma variada gama de mercadorias, de modo a fragmentar o social em faixas de mercado, e nelas visar o individuo, arrebanhá-lo para o consumo persona-


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lizado (videocassete, TV por cabo, walk-man, microcomputador, privatizam, isto é, personalizam o consumo da informação, por exemplo).

Tal como atende a vários gostos no nível material, o sistema comporta uma grande variedade de idéias e comportamentos. A sociedade se despolitiza ao se descontrair em mil jogos aquisitivos, em esportes, espetáculos, facilidades. A participação social, assim, se orienta para pequenos objetivos, pragmáticos e/ou personalizados, embutidos na micrologia (nos pequenos espaços) do cotidiano: hobbies, esportes, ecologia, feminismo, direitos do consumidor, macrobiótica. Um sujeito pós-moderno pode ser ao mesmo tempo programador, andrógino, zen-budista, vegetariano, integracionista, antinuclearista. São participações brandas, frouxas, sem estilo militante, com metas a curto prazo, e onde há expressão pessoal. Renuncia-se aos temas grandiosos como Revolução, Democracia Plena, Ordem Social — coisas da modernidade industrial. Na pós-modernidade, só há revolução no cotidiano.

O sistema pós-industrial tem-se mostrado resistente aos mecanismos de luta modernos — sindicato, partido. Ao mesmo tempo gigantesco e diferençado, ele não forma um todo e não possui centro. Tendo pulverizado a massa numa nebulosa de consumidores isolados, com interesses diferentes, ele absorve qualquer costume, qualquer idéia, revolucionários ou alternativos. Pois é flexível e variado o suficiente para nele conviverem os


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comportamentos e as idéias mais disparatadas. Para vingar, mesmo as idéias anti-sistema deveriam entrar pelos meios de massa, serem consumidas em grande escala de modo personalizado, mas isto significaria tornarem-se mais uma mercadoria do sistema. O próprio Estado, que poderia ser um centro mortal, é antes um investidor na economia e na pesquisa, um administrador de serviços, um encarregado da defesa externa, em vez de ser, fundamentalmente, um aparelho de repressão política.

Desse modo, o circuito informação-estetização-erotização-personalização realiza o controle social, agora na forma soft (branda, discursiva), em oposição à forma moderna hard (dura, policial). O consumo e atuação no cotidiano são os únicos horizontes oferecidos pelo sistema. Nesse contexto, surge o neo-individualismo pós-moderno, no qual o sujeito vive sem projetos, sem ideais, a não ser cultuar sua auto-imagem e buscar a satisfação aqui e agora. Narcisista e vazio, desenvolto e apático, ele está no centro da crise de valores pós-moderna.

Cá na Belindia


O Brasil, já se disse, é um misto de Bélgica com Índia, a Belíndia. Monza com miséria. Somos um país em vias de industrialização, mas mercadorias
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vedetes pós-industriais já pintam no eixo Rio-São Paulo: micros, os vídeo todos, etc. Existem aqui 200 mil computadores e 1000 empresas na área de informática, setor que cresceu 40% em 1984. Em 1982, havia 200 mil videocassetes, servidos por uma maré crescente de videoclubes. E o projeto Cirandão de telemática, com 477 bases de dados, está em andamento.

Mas se esse aparato é ainda pobre, os signos de pós-modernismo estão nas ruas, nos mass media. Óculos coloridos, cabelinhos new-wave, cintos metaleiros, rock punk, por ai vai. Mas recentemente fulgurou na Belíndia uma verdadeira diva pós-moderna: o travesti Roberta Close. Por que pós-moderna? Primeiro porque ela, para nós, e informação: só passou a existir depois de produzida pelos mass media. Depois, porque ela é um ardil bem-sucedido de simulação: a bioestética, com o silicone, fez dela uma hipermulher (repare como Close, um simulacro, é mais mulher que as mulheres), e o referente Luis Roberto dançou. E, finalmente, porque ela ampliou a liberação sexual na Belíndia machocêntrica, ao favorecer, pela banalização, pela frivolidade, a aceitação das minorias eróticas.

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DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO
Merda aos museus, abaixo o luar
Até aqui já deu para sacar o paralelismo entre sociedade industrial/modernismo e pós-industrial/ pós-modernismo. Vejamos que diferenças existem entre eles quanto à arte. A arte moderna, iniciada com os movimentos e manifestos futuristas no começo deste século, é um não ao passado, uma revolta ante o convencionalismo na arte. Contra regras antigas e castradoras, o novo em liberdade de experimentação. Era preciso destruir a estética tradicional (estética é o conjunto de normas e valores segundo os quais, numa dada época, o artista deve criar e o critico julgar). Essa estética tradicional impunha a Representação realista da realidade. Para ela, que dura do Renascimento até
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fins do século XIX, a arte devia ser uma ilusão perfeita do real.

As vanguardas modernistas — futurismo, cubismo, expressionismo — significarão a quebra do universo racional fornecido pela ciência e refletido pela estética por muito tempo. Nesse universo, a Representação realista (imitativa, ilusionista) supunha que a literatura ou a pintura espelhavam ponto por ponto o real. Mas a sociedade industrial, com o automóvel, o avião, a eletricidade, os conflitos sociais, a descoberta do inconsciente, iria colocá-la em xeque.

O modernismo é a Crise da Representação realista do mundo e do sujeito na arte. A estética tradicional fracassa ao captar um mundo cada vez mais confuso e um indivíduo cada vez mais fragmentado. Novas linguagens deveriam surgir para que um sujeito caótico pudesse não representar, mas interpretar livremente a realidade, segundo sua visão particular. Para isso, a nova estética modernista cavou um fosso entre arte e realidade. A arte fica autônoma, liberta-se da representação das coisas (a fotografia já o fazia muito melhor), decretando o fim da figuração, usando a deformação, a fragmentação, a abstração, o grotesco, a assimetria, a incongruência.

Linguagem nova quer dizer forma nova, não imitativa. Nascem ai o formalismo e o hermetismo da arte moderna, que é um jogo com formas inventadas. Pois ela não fala de um mundo exterior
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ao quadro, à escultura. Deformando ou banindo o referente (o real), ela cria formas novas e torna-se por isso auto-referencializada. Ela é seu próprio assunto: linhas, cores, volumes, composição. Basta comparar Da Vinci com Picasso. Reconheceríamos na rua a Mona Lisa, mas jamais encontraríamos fora da tela as cubistas Senhoritas d’Avignon, feitas em losangos, que abrem a pintura moderna em 1907.

Vanguarda quer dizer: militar à frente. De fato, os modernos não só estavam à frente como estavam contra o público burguês, conformista. Eram boêmios, bizarros, críticos. Queriam o escândalo. Criaram uma grande tensão entre a arte e o público. Levaram ao absoluto suas emoções, suas visões subjetivas e declararam-se anjos condutores da humanidade, a arte sendo um conhecimento superior da existência. Anunciaram a morte de Deus e o desespero do homem num mundo absurdo, já que a carnificina da Primeira Guerra Mundial provocara uma derrocada espiritual.

É nesse clima que, na pintura, os expressionistas explodem seus sentimentos em borrões, os surrealistas dão vida ao sonho com humor ou terror. Na poesia, Eliot, Pound, Mário de Andrade quebram a sintaxe, usam imagens irracionais, soltam as palavras em liberdade. No romance, Joyce, Kafka e Proust descem às camadas mais profundas da mente para desvendar segredos e dissolver o tempo, o personagem e o enredo realistas. Na música, em


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(Foto: Chip (aumentado dez vezes) por onde circula a alma pós-moderna. (National Geographic, vol. 162, nº 4, p. 427.))

(Foto: Oblíquas, curvas, imaginação, irracionalidade, humor, gosto popular. (The Language of post-modern Archietecture, Charles A. Jencks.))


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1910, Schoenberg e Stravinski injetam harmonias dissonantes, à primeira audição desagradáveis. É uma arte irracional, emotiva, humanista. Um caso à parte: na arquitetura, a Bauhaus, escola alemã fundada por Gropius em 1919, fará triunfar a racionalidade funcional contra o ornamento clássico, e assim projetar com ferro, concreto, vidro e ângulo reto as megalópoles atuais.

O alegre desbundar
Em meados dos anos 50, a revolta modernista tinha esgotado seu impulso criador. A sociedade industrial incorporara no design, na moda, nas artes gráficas não só a estética como o culto do novo pregado pelas vanguardas. Revistas e luminárias usavam a assimetria, desenhos abstratos decoravam papéis de parede. A interpretação individual, o hermetismo, os escândalos soavam ocos ante a sociedade de massa.

Foi contra o subjetivismo e o hermetismo modernos que surgiu a arte Pop, primeira bomba pós-moderna. Convertida em antiarte, a arte abandona os museus, as galerias, os teatros. É lançada nas ruas com outra linguagem, assimilável pelo público: os signos e objetos de massa. Dando valor artístico à banalidade cotidiana — anúncios, heróis de gibi, rótulos, sabonetes, fotos, stars de


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cinema, hamburguers —, a pintura/escultura Pop buscou a fusão da arte com a vida, aterrando o fosso aberto pelos modernistas. A antiarte pós-moderna não quer representar (realismo), nem interpretar (modernismo), mas apresentar a vida diretamente em seus objetos. Pedaço do real dentro do real (veja as garrafas reais penduradas num quadro), não um discurso à parte, a antiarte é a desestetização e a desdefinição da arte. Ela põe fim à “beleza”, à “forma”, ao valor “supremo e eterno” da arte (desestetização) e ataca a própria definição de arte ao abandonar o óleo, o bronze, o pedestal, a moldura, apelando para materiais não artísticos, do cotidiano, como plástico, latão, areia, cinza, papelão, fluorescente, banha, mel, cães e lebres, vivos ou mortos (desdefinição).

Isto só foi possível por duas razões. Primeiro porque o cotidiano se acha estetizado pelo design e, como vimos, os objetos em série são signos digitalizados e estilizados para a escolha do consumidor. Depois, porque nosso ambiente é todo ele constituído pelos mass media. Vivemos imersos num rio de signos estetizados. O artista Pop pode diluir a arte na vida porque a vida já está saturada de signos estéticos massificados. A antiarte trabalha sobre a arte dos ilustradores de revistas, publicitários e designers, e acaba sendo uma ponte entre a arte culta e a arte de massa; pela singularização do banal (quando Andy Warhol empilha caixas de sabão dentro de uma galeria e diz que é escultura)


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ou pela banalização do singular (quando Roy Litchtenstein repinta em amarelo e vermelho, cores de massa, a Mulher com o Chapéu Florido, de Picasso). Elite e massa se fundem na antiarte.

Ao trocar a arte abstrata, difícil, modernista, pela figuração acessível nos objetos e imagens de massa, a antiarte pós-moderna estava revivendo o dadaísmo, tendência modernista que durou pouco (1916/1921) e se dedicava a brincar com objetos no caos cotidiano. No dadaísmo, como na antiarte, o importante é o gesto, o processo inventivo, não a obra. Acabou-se também a contemplação fria e intelectual dos modernos. A antiarte é participativa, o público reagindo pelo envolvimento sensorial, corporal. (Brinca-se à vontade com as bolhas de plástico criadas aqui no Brasil por Lígia Clark.)

Pop, minimal, conceitual, hiper-realismo, processos, happenings, performances, transvanguarda, vídeo-arte — seja qual for o estilo, a antiarte pós-moderna se apóia nos objetos (não no homem), na matéria (não no espírito), no momento (não no eterno), no riso (não no sério). Ela é frívola, pouco crítica, não aponta nenhum valor ou futuro para o homem. Desestetizando-se, desdefinindo-se, tornando difícil saber-se o que é arte o que é realidade, ela tende ao niilismo, a zerar a própria arte. Pois na condição pós-moderna, se o NÃO modernista é inútil, dado o gigantismo dos sistemas, então vamos desbundar alegre e niilisticamente no ZERO PATAFÍSICO. (Oposta às soluções


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séries, a patafísica — segundo seu criador, o dadaísta Jarry — é a ciência das soluções imaginárias e ridículas.)

Escrituras exóticas, escribas excêntricos
Em literatura, particularmente na ficção, o pós-modernismo prolonga a liberdade de experimentação e invenção modernista, mas com diferenças importantes. Enquanto o modernismo lutava pelo máximo de forma e originalidade, os pós-modernistas querem a destruição da forma romance, como no noveau roman francês, ou então querem o pastiche, a paródia, o uso de formas gastas (romance histórico) e de massa (romance policial, ficção científica), como na meta ficção americana. Num e noutro caso, entretanto, está fora de cogitações a representação realista da realidade, o ilusionismo. Na literatura pós-moderna não é para se acreditar no que está sendo dito, não é um retrato da realidade, mas um jogo com a própria literatura, suas formas a serem destruídas, sua história a ser retomada de maneira irônica e alegre.

Há portanto uma desdefinição do romance. Existem meios para isso. O nouveau roman que começa nos anos 50, destrói a forma romance banindo o enredo, o assunto e o personagem.


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Nathalie Sarraute escreve romances sobre nada — apenas um buraco na porta, por exemplo. Certo conto de Nove Novena, do brasileiro Osman Lins, reduz os personagens a sinais gráficos. A fragmentação da narrativa é total, podendo-se misturar os narradores: em geral não sabemos quem está falando. Raramente o personagem tem psicologia ou posição social. Pode mudar de nome, cor ou idade, sem razões aparentes para isso. Os finais costumam ser múltiplos (John Fowles, em A Mulher do Tenente Francês, propõe dois finais diferentes). E são comuns as construções em abismo: uma história dentro de outra que está dentro de outra ... sem fim.

Por sua vez, a metaficção americana, que produz ficção a partir de ficção, entrega-se a paródias e a pastiches (imitações irônicas) de formas antigas, tais como o conto de fadas no romance Branca de Neve, de Donald Barthelme, em que a personagem infantil é convertida em ninfomaníaca; ou de formas populares, como a ficção científica em Giles, o Menino Bode, de John Barth, como a pornografia em O Almoço Nu, de William Burroughs. Surgem ainda gêneros indefinidos que misturam reportagem e ficção, com a atuação de pessoas reais, a exemplo de Dispatches, romance de Michael Herr sobre o Vietnã, enquanto outros embolam autobiografia com fantasia, igual na literatura brasileira atual. Temas como drogas, perversão, loucura, sexo,
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violência, pesadelo tecnológico, inclinam as narrativas para o grotesco, o escabroso, isto é, aproximam o homem da sua natureza animal, mas em clima cômico. Quase sempre os textos vêm recheados com citações, colagens (fotos, gráficos, anúncios) e referências à própria literatura. Isto e, a literatura pós-moderna é intertextual; para lê-la, é preciso conhecer outros textos.

To in, to out
Uma comparação final com o modernismo facilitará a caminhada pelo carnaval pós-moderno. Na ficção, como nas demais artes, a antiarte prolonga traços modernistas, mas às vezes acentuando-os até a extravagância. Antiilusionismo, experimentalismo permanecem. São de lei. A fragmentação do texto pode descambar para o acaso total, a leitura ficando sem rumo e sem fio condutor. A paródia e o pastiche, antes ocasionais, hoje em dia são quase regra. No entanto, embora sejam mais nítidas nas artes plásticas do que no romance ou no cinema, por exemplo, as diferenças é que servem de melhor guia.
Modernismo / Pôs-modernismo

Cultura elevada Cotidiano banalizado

Arte Antiarte
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Estetização Desestetização

Interpretação Apresentação

Obra/originalidade Processo/pastiche

Forma/abstração Conteúdo/figuração

Hermetismo Fácil compreensão

Conhecimento superior Jogo com a arte

Oposição ao público Participação do público

Crítica cultural Comentário cômico, social

Afirmação da arte Desvalorização obra/autor

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ANARTISTAS EM NULIVERSO


Desordem e Pangresso
Enquanto a arte moderna nasceu com estéticas bem claras e manifestos escandalosos, a antiarte pós-moderna não apresenta propostas definidas, nem coerência, nem linha evolutiva. Os estilos convivem sem choques, as tendências se sucedem com rapidez. Não há grupos ou movimentos unificados, o pluralismo e o ecletismo (mistura de estilos) são a norma. Também não existe mais vanguarda, porque o público já está vacinado contra o escândalo. Fala-se agora em transvanguarda: quer dizer, além da vanguarda — vale tanto um estilo retrô, para trás, quanto a vídeo-arte, para frente. Os anartistas pós-modernos só se sentem bem na desordem, na ausência de princípios, na criação sem fronteiras, pangredindo — caminhando — para todos os lados. Passemos em revista as principais manifestações artísticas que, na arquitetura, artes plásticas, literatura, cinema, música,
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teatro, dança, vieram desestetizando e desdefinindo a arte dos anos 50 para cá.

Pau na Bauhaus
Nas artes, o pós-modernismo apareceu primeiro na arquitetura, já nos anos 50. O inimigo mais visado foi o funcionalismo racional da Bauhaus e seu dogma modernista: a forma segue a função. Primeiro a finalidade, depois a beleza. E funcionalismo significava racionalidade com simplicidade, clareza, abstração, janelas em série, ângulo reto. Em suma, os espigões das selvas de pedra em que vivemos.

A reação pós-moderna começa com arquitetos italianos, depois com americanos e ingleses. Contra o estilo universal modernista, eles se voltam para o passado, pesquisam novos e velhos materiais, estudam o ambiente, a fim de criar uma arquitetura que fale a linguagem cultural das pessoas que vão utilizá-la. A função passou a obedecer à forma e à fantasia. Aos materiais oferecidos pela indústria moderna, eles acrescentam materiais abandonados (cascalho) ou bem recentes (fórmica e plexiglass). O ornamento é recuperado: até colunas gregas reaparecem. Os valores simbólicos (o pórtico senhorial) são prestigiados, junto com o retorno a estilos antigos como o barroco. Mas é ao orga-


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nizar o espaço que o espírito carnavalesco do pós-modernismo se declara. Às retas, racionais, opõem-se a emoção e o humor das curvas. Contra a pureza, o ecletismo: junta-se ornamento barroco com vidro fumê. No lugar da abstração, a fantasia (edifícios em forma de piano), e busca-se a vida com a volta da cor. Evita-se a série repetitiva, monótona. O humor é flagrante: no Hotel Bonaventura, em Los Angeles, além dos elevadores externos que caem com espalhafato num lago, o espaço interno é divertidamente complicado, sendo difícil achar-se o caminho para as lojas. Mas a marca típica da arquitetura pós-moderna é a combinatória linhas e formas curvas com linhas e formas oblíquas. Dá em desequilíbrio, decoração, movimento, bizarrice, fantasia, alegria (o oposto do modernismo).

Se deu a largada na arquitetura, só recentemente, no entanto, o pós-modernismo chegou ao design. E também para desancar a Bauhaus. No mobiliário, na decoração, onde o pioneirismo está com o Studio Menphis, de Milão, aparecem móveis com desenhos fantasiosos e revestimentos em cores berrantes. Portas a quatro cores se abrem para camas em forma de ringue, esculturas de neon piscam sobre poltronas cônicas pintadas como onça. O ecletismo rompe a fronteira entre o bom e o mau gosto. Exemplo brasileiro, divertido, é o bufê modelo Lampião: em forma de trapézio, com madeira folheada com plástico, pés de ferro ver-
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melho, puxadores de latão, tendo no topo um espelho em semicírculo, com estrelas, para lembrar um chapéu nordestino. Várias idéias pós-modernas estão aí: ecletismo de materiais, cultura popular (chapéu), combinação curva/oblíqua (semicírculo! trapézio), humor colorido contra o tédio imposto pelo bom tom e o rigor modernistas.



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