O que é Pós-Moderno



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O que é Pós-Moderno

Jair Ferreira dos Santos

Coleção Primeiros Passos 165

Editora Brasiliense


Contra capa

Coleção Primeiros Passos

Uma Enciclopédia Crítica

Que ligação existe entre o micro-computador e a sex-chop? Por que a massa consumista tem no rosto um misto de fascinação e melancolia? O que ocorreu nas artes com o fim das vanguardas? Por que o niilismo voltou à boca dos filósofos?

Há qualquer coisa nova, mas indefinível, no ar. Cabeças mais sensitivas a chamam de pós-modernismo, mescla de purpurina com circuito integrado, liberação dos costumes com pós-industrialismo. Um bem? Um mal? Quem viver verá...
Áreas de interesse: Artes, Comunicações

Brasiliense


Copyright by Jair Ferreira dos Santos, 1986
Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem autorização da editora.
Primeira Edição, 1986

22ª Impressão, 2004


Revisão: Rosana N. Morales e Newton T. L. Sodré

Capa: Carlos Matuck


Dados internacionais e Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Santos, Jair Ferreira dos

O que é pós-moderno/Jair Ferreira dos Santos. São Paulo: Brasiliense, 2004. – Coleção primeiros passos; 165)

22ª reimpr. da 1ª ed. de 1986.

ISBN 85-11-01165-X


1. Pós-modernismo I. Título. II. Série.

04-0163


CDD- 709.04
Índices para catálogo sistemático:

  1. Pós-modernismo 709.04

Editora brasiliense s.a.

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livraria brasiliense s.a.

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Índice


- Vem comigo que no caminho eu explico..07

- Do boom ao bit ao blip..20

- Do sacrossanto não ao zero patafísico..32

- Anartistas em nuliverso ..43

- Adeus às ilusões..71

- A massa fria com narciso no trono..86

- Demônio terminal e anjo anunciador..106

- Indicações para leitura..112

Para Érica Villa, no brilho dos seus dez anos e para Marilu Mártens, e Ruy e Arlene Sampaio
Todo livro nasce também da colaboração voluntária ou involuntária de amigos. Devo agradecer, portanto, a Carlos Alberto de Mattos, Eduardo Neiva Jr., Elvira Borges, Sônia Khède, Arthur Omar, Lúcia Mattos, Camilo Attie, Lina Soares, Carlos Deane, Maria Emilia Bender, Bruno Bonvini, Dráuzio Gonzaga e Antonio Fernando.

VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO


Caçando o fantasma
Há qualquer coisa no ar. Um fantasma circula entre nós nestes anos 80: o pós-modernismo. Uma vontade de participar e uma desconfiança geral. Jogging, sex-shops, mas gente dizendo: “Deus está morto, Marx também e eu não estou me sentindo muito bem.” Videogames em casa, auroras de laser na danceteria. Nietzsche e Boy George comandam o desencanto radical sob o guarda-chuva nuclear. Nessa geléia total, uns vêem um piquenique no jardim das delícias; outros, o último tango à beira do caos.

Pós-modernismo é o nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950, quando, por convenção,


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se encerra o modernismo (1900-1950). Ele nasce com a arquitetura e a computação nos anos 50. Toma corpo com a arte Pop nos anos 60. Cresce ao entrar pela filosofia, durante os anos 70, como crítica da cultura ocidental. E amadurece hoje, alastrando-se na moda, no cinema, na música e no cotidiano programado pela tecnociência (ciência + + tecnologia invadindo o cotidiano com desde alimentos processados até microcomputadores), sem que ninguém saiba se é decadência ou renascimento cultural.

Mas apertemos o cerco ao fantasma. Imaginemos uma fabulazinha onde o herói seja um certo urbanóide pós-moderno: você. Ao acordá-lo, o rádio-relógio digital dispara informações sobre o tempo e o trânsito. Ligando a FM, lá está o U-2. O vibromassageador amacia-lhe a nuca, enquanto o forno microondas descongela um sanduíche natural. No seu micro Apple II, sua agenda indica: REUNIÃO AGENCIA 10H! TENIS CLUBE 12H/ ALMOÇO! TROCAR CARTÃO MAGNETICO BANCO! TRABALHAR 15H/ PSICOTERAPIA 18H/ SHOPPING/ OPÇÕES: INDIANA JONES-BLADE RUNNER VIDEOCASSETE ROSE, SE LIGAR/ SE NÃO LIGAR, OPÇÕES: LER O NOME DA ROSA (ECO) — DALLAS NA TV —DORMIR COM SONIFEROS VITAMINADOS/.

Seu programa rolou fácil. Na rua divertiu-se pacas com a manifestação feminista pró-aborto que contava com um bloco só de freiras e, a


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metros dali, com a escultura que refazia a Pietá (aquela do Miguelangelo) com baconzitos e cartões perfurados. Rose ligou. Você embarcou no filme Indiana Jones sentado numa poltrona estilo Menphis — uma pirâmide laranja em vinil — desfiando piadas sobre a tese dela em filosofia: Em Cena, a Decadência. A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a próxima vez.

Ao trazê-lo de carro para casa, Rose, que esticaria até uma festa, veio tipo impacto: maquiagem teatral, brincos enormes e uma gravata prateada sobre o camisão lilás. Na cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em você. Sua vida se fragmenta desordenadamente em imagens, dígitos, signos — tudo leve e sem substância como um fantasma. Nenhuma revolta. Entre a apatia e a satisfação, você dorme.

A fabulazinha, claro, não tem moral nem permite conclusões, mas põe na bandeja os lugares por onde circula o fantasma pós-moderno.


1. Para começar, ele invadiu o cotidiano com a tecnologia eletrônica de massa e individual, visando à sua saturação com informações, diversões e serviços. Na Era da Informática, que é o tratamento computadorizado do conhecimento e da informação, lidamos mais com signos do que com coisas. O motor a explosão detonou a revolução moderna há um século; o chip, microprocessador
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com o tamanho de um confete, está causando o rebu pós-moderno, com a tecnologia programando cada vez mais o dia-a-dia.

2. Na economia, ele passeia pela ávida sociedade de consumo, agora na fase do consumo personalizado, que tenta a sedução do indivíduo isolado até arrebanhá-lo para sua moral hedonista — os valores calcados no prazer de usar bens e serviços. A fábrica, suja, feia, foi o templo moderno; o shopping, feérico em luzes e cores, é o altar pós-moderno.

3. Mas foi na arte que o fantasma pós-moderno, ainda nos anos 50, começou a correr mundo. Da arquitetura ele pulou para a pintura e a escultura, daí para o romance e o resto, sempre satírico, pasticheiro e sem esperança. Os modernistas (vejam Picasso) complicaram a arte por levá-la demasiado a sério. Os pós-modernistas querem rir levianamente de tudo.

4. Enfim, o pós-modernismo ameaça encarnar hoje estilos de vida e de filosofia nos quais viceja uma idéia, tida como arqui-sinistra: o niilismo, o nada, o vazio, a ausência de valores e de sentido para a vida. Mortos Deus e os grandes ideais do passado, o homem moderno valorizou a Arte, a História, o Desenvolvimento, a Consciência Social para se salvar. Dando adeus a essas ilusões, o homem pós-moderno já sabe que não existe Céu nem sentido para a História, e assim se entrega ao presente e ao prazer, ao consumo e ao indivi-
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dualismo. E aqui você pode escolher entre ser:

a) a criança radiosa — o indivíduo desenvolto, sedutor, hedonista integrado à tecnologia, narcisista com identidade móvel, flutuante, liberado sexualmente, conforme o incensam Lipovestsky, Fiedler e Toffler, alegres gurus que vamos visitar logo mais;

b) o andróide melancólico — o consumidor programado e sem história, indiferente, átomo estatístico na massa, boneco da tecnociência, segundo o abominam Nietzsche e Baudrillard, Lyotard, profetas do apocalipse cujo evangelho também vamos escutar.

Assim, tecnociência, consumo personalizado, arte e filosofia em torno de um homem emergente ou decadente são os campos onde o fantasma pós-moderno pode ser surpreendido. Ele ainda está bastante nebuloso, mas uma coisa é certa: o pós-modernismo é coisa típica das sociedades pós-industriais baseadas na Informação — EUA, Japão e centros europeus. A rigor nada tem a ver com o Brasil, embora já se assista a um trailer desse filme por aqui.

Bye, bye, real


Tornemos mais concretas as coisas. Vejamos o
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que significa o ambiente pós-moderno. Saque essa. “Que criança linda” — disse a amiga à mãe da garota. — “Isto é porque você não viu a fotografia dela a cores” — respondeu a mãe! Cínica, a piada contém a essência da pós-modernidade: preferimos a imagem ao objeto, a cópia ao original, o simulacro (a reprodução técnica) ao real. E por quê? Porque desde a perspectiva renascentista até a televisão, que pega o fato ao vivo, a cultura ocidental foi uma corrida em busca do simulacro perfeito da realidade. Simular por imagens como na TV, que dá o mundo acontecendo, significa apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência. Fica apenas o simulacro passando por real. Mas o simulacro, tal qual a fotografia a cores, embeleza, intensifica o real. Ele fabrica um hiper-real, espetacular, um real mais real e mais interessante que a própria realidade.

Observe o videoclip que abre o programa de TV Fantástico, o Show da Vida, que já no título espetaculariza o viver. Uma pirâmide e um cone dourados evoluem na tela, fragmentam-se em anéis transformados em plataformas suspensas onde bailarinos em trajes ao mesmo tempo futuristas e antigos dançam uma peça musical executada por orquestra e sintetizador. Para quem não sabe, o balé foi filmado em palco normal no Maracanãzinho e um computador recortou toda a seqüência para imprimi-la sobre as plataformas aéreas, cujos movimentos também foram criados por computa-
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ção. O show na verdade não é nem a energia misteriosa simbolizada pela pirâmide (passado), nem a ciência sugerida pelo cone (futuro), mas a dança livre da matéria no espaço, a levitação simulada tecnologicamente. Aliada ao computador, a televisão simulou um espaço hiper-real, espetacular, que excita e alegra como um acrobata.

E daí? Daí que a levitação, em si desejável mas inviável na gravidade, parece ser possível na TV. O hiper-real simulado nos fascina porque é o real intensificado na cor, na forma, no tamanho, nas suas propriedades. É um quase sonho. Veja um dose do iogurte Danone em revistas ou na TV. Sua superfície é enorme, lustrosa, sedutora, tátil — dá água na boca. O Danone verdadeiro é um alimento mixuruca, mas seu simulacro hiper-realizado amplifica, satura sua realidade. Com isso, somos levados a exagerar nossas expectativas e modelamos nossa sensibilidade por imagens sedutoras.

O ambiente pós-moderno significa basicamente isso: entre nós e o mundo estão os meios tecnológicos de comunicação, ou seja, de simulação. Eles não nos informam sobre o mundo; eles o refazem à sua maneira, hiper-realizam o mundo, transformando-o num espetáculo. Uma reportagem a cores sobre os retirantes do Nordeste deve primeiro nos seduzir e fascinar para depois nos indignar. Caso contrário, mudamos de canal. Não reagimos fora do espetáculo.


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Breve babado teórico


Se o ambiente pós-moderno é dominado pela tecnociência aplicada à informação e à comunicação, este é o caminho para se encurralar o fantasma. Seja Reagan ou Brucutu das cavernas, o homem é Linguagem. Palavra, desenho, escrita, pintura, foto, imagem em movimento, são linguagens para a comunicação feitas com signos em códigos que, gerando mensagens (como esta frase em português), representam a realidade para o homem. Livro, jornal, cinema, rádio, tv, são meios que vieram ampliar o público e acelerar a circulação das mensagens. Só recentemente se reconheceu a importância desse Quarto Poder, mas há tempos existem ciências para estudá-lo: uma é a Semiologia (ciência dos signos), a outra é a Teoria da Comunicação.

O esqueminha a seguir é o famoso modelo de signo bolado pelos semiólogos ingleses Ogden e Richards e que, tendo muito a ver com a Lingüística, a Cibernética, a Estética e até a Filosofia, serve para explicar carradas de coisas na atualidade. Signo é toda palavra, número, imagem ou gesto que representa indiretamente um referente (uma cadeira) através de uma referência (a idéia da cadeira na nossa cabeça).

Desde a Antiguidade os filósofos olharam, quando olharam, com desconfiança para a Linguagem. Os idealistas explicavam a matéria pelo
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(Observação: Juliano, aqui tem um esquema em forma de pirâmide, onde no ápice está escrito: Espírito; Idéia; Sujeito; Referência. Na base, do lado esquerdo está: Signo; Linguagem; Simulacro; Espetáculo. Na base direita: Referente; Objeto; Realidade, Matéria.)


espírito, os materialistas caíam na explicação inversa, mas quase ninguém foi fundo na questão dos signos. Ora, descobriu-se há alguns anos, com a Lingüística, a Antropologia, a Psicanálise, que, para o homem, não há pensamento, nem mundo (nem mesmo homem), sem linguagem, sem algum tipo de Representação. Mais: a linguagem dos meios de comunicação dá forma tanto ao nosso mundo (referente, objeto), quanto ao nosso pensamento (referência, sujeito). Para serem alguma coisa, sujeito e objeto passam ambos pelo signo. A pós-modernidade é também uma Semiurgia, um mundo super-recriado pelos signos.

Quando nosso urbanóide, na fabulazinha, se sente irreal, o ego e o mundo surgindo-lhe vagos como um fantasma, é porque ele manipula cada vez mais signos em vez de coisas. Sua sensibilidade é frágil, sua identidade, evanescente. Na pós-modernidade, matéria e espírito se esfumam em


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imagens, em dígitos num fluxo acelerado. A isso os filósofos estão chamando desreferencialização do real e dessubstancialização do sujeito, ou seja, o referente (a realidade) se degrada em fantasmagoria e o sujeito (o individuo) perde a substância interior, sente-se vazio.

Há exemplos chocantes disso. Quanto ao referente: compra-se um Monza não tanto por suas qualidades técnicas, mas por seu design, seu nome nobre, seus signos na publicidade, que compõem uma imagem de status e bom gosto europeizados. Compra-se um discurso sobre o Monza. Quanto ao sujeito: a falta de substância está na extrema diferenciação que as pessoas procuram através da moda, personalizando-se pela aparência e o narcisismo levado à extravagância; ou então, imitando modelos exóticos.

Para encerrar, uma distinção importante. Os signos podem ser digitais ou analógicos. Números, letras, línguas, são digitais porque são descontínuos e arbitrários: o número 470 tem os dígitos separados e é arbitrário com relação, por exemplo, ao ônibus que identifica. Já os analógicos são contínuos e se assemelham ao objeto representado: fotos, gráficos se parecem com aquilo que representam, seja uma criança, seja a alta dos preços.

O digital permite escolher, o analógico, reconhecer ou compreender. Com a invasão da computação digital no cotidiano (calculadoras, painéis eletrônicos), estamos assistindo à digitalização do social.
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Teclados e vídeos com letras e números surgem por toda parte, na cozinha como nos bancos, nas lojas como nos automóveis. E a própria imagem, que é analógica, está funcionando digitalizada: nas vitrines, cada liquidificador é um signo analógico dos modelos à venda, mas acha-se desenhado com traços que funcionam digitalmente para diferençá-los das outras marcas. Assim são as cores nas embalagens de sabonetes, por exemplo. Isto acelera a escolha na base do SIM/NÃO, oposição igual ao 0/1 — o bit, dígito binário. O bit é a base lógica do computador e constitui, atualmente, o gargalo binário por onde o social está sendo forçado a passar. Na pós-modernidade, o indivíduo vive banhado num rio de testes permanente. Digitalizados, os signos pedem escolha. Não uma decisão profunda, existencial, mas uma resposta rápida, impulsiva, boa para o consumo.

O pós contém um des
Sublinhamos até aqui palavras que são verdadeiras senhas para invocar o fantasma pós-moderno: chip, saturação, sedução, niilismo, simulacro, hiper-real, digital, desreferencialização, etc. Dificilmente elas serviriam para descrever o mundo de 30 ou 40 anos atrás, o mundo moderno, quando se falava em energia, máquina, produção, prole-
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tariado, revolução, sentido, autenticidade. Mas se a pós-modernidade significa mudanças com relação à modernidade, o fato é que não se pode dispensar o aço, a fábrica, o automóvel, a arquitetura funcional, a luz elétrica — conquistas associadas ao modernismo. Assim, no fundo, o pós-modernismo é um fantasma que passeia por castelos modernos.

Mas as relações entre os dois são ambíguas. Há mais diferenças que semelhanças, menos prolongamentos que rupturas. O individualismo atual nasceu com o modernismo, mas o seu exagero narcisista é um acréscimo pós-moderno. Um, filho da civilização industrial, mobilizava as massas para a luta política; o outro, florescente na sociedade pós-industrial, dedica-se às minorias — sexuais, raciais, culturais —, atuando na micrologia do cotidiano.

Por ora, contentemo-nos com saber que o pós contém um des — um princípio esvaziador, diluidor. O pós-modernismo desenche, desfaz princípios, regras, valores, práticas, realidades. A des-referencialização do real e a des-substancialização do sujeito, motivadas pela saturação do cotidiano pelos signos, foram os primeiros exemplos. Muitos outros virão.

Entendamos ainda que o pós-modernismo é um ecletismo, isto é, mistura várias tendências e estilos sob o mesmo nome. Ele não tem unidade; é aberto, plural e muda de aspecto se passamos da tecnociência para as artes plásticas, da sociedade
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para a filosofia. Inacabado, sem definição precisa, eis por que as melhores cabeças estão se batendo para saber se a “condição pós-moderna” — mescla de purpurina com circuito integrado — é decadência fatal ou renascimento hesitante, agonia ou êxtase. Ambiente? Estilo? Modismo? Charme? Para dor dos corações dogmáticos, o pós-modernismo por enquanto flutua no indecidível.


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DO BOOM AO BIT AO BLIP


Apocalipse, Uau!
Simbolicamente o pós-modernismo nasceu às 8 horas e 15 minutos do dia 6 de agosto de 1945, quando a bomba atômica fez boooom sobre Hiroxima. Ali a modernidade — equivalente à civilização industrial — encerrou seu capítulo no livro da História, ao superar seu poder criador pela sua força destruidora. Desde então, o Apocalipse ficou mais próximo.

Historicamente o pós-modernismo foi gerado por volta de 1955, para vir à luz lá pelos anos 60. Nesse período, realizações decisivas irromperam na arte, na ciência e na sociedade. Perplexos, sociólogos americanos batizaram a época de pós-moderna, usando termo empregado pelo historiador Toynbee em 1947.


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Em 1955, arquitetos italianos abrem as baterias contra o internacionalismo na arquitetura moderna, propondo uma revalorização do passado e da cor local. O pintor Jaspers Johns, um pioneiro Pop, ironiza a América com sua bandeira americana sobre a tela. E John Barth publica nos EUA um romance amoral e cínico: The Floating Opera (A Ópera Flutuante). A crítica aplaude seu humor apocalíptico.

Um pouco antes, em 1953, a descoberta do DNA, o código da vida, impulsionaria o salto para a biologia molecular, hoje tão cortejada. O desenho do chip, em 1957, permitirá a redução dos computadores-dinossauros aos micros abelhas atuais. Nesse mesmo ano, o sputinik soviético revoluciona a astronáutica e as telecomunicações. O self-service, acoplado ao marketing e à publicidade em alta rotação, consagra o consumo massivo. A pílula, o rock, o motel, a minissaia — liberadores que emergem nos anos 60 — preparam a paisagem desolada da civilização industrial para a quermesse eletrônica pós-industrial.

A dama de ferro


Capitalista ou socialista, a sociedade industrial descende da máquina, produtora de artigos em série padronizados. Sua canção é uma só; boom
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— explodir, expandir. No século XVIII, essa dama de ferro celebra as núpcias da Ciência com a Liberdade individual do burguês capitalista para gerar o Progresso, e cria o chamado Projeto Iluminista da modernidade: o desenvolvimento material e moral do homem pelo Conhecimento.

A essa dama pode ser creditado o imenso progresso das nações capitalistas nos séculos XIX e XX, progresso fundado nas grandes fábricas, ferrovias, navegação e, claro, na exploração. Com ela vieram o automóvel e o avião; o telégrafo, o telefone, o rádio, a TV; o petróleo e a eletricidade; o crédito ao consumidor e a publicidade; o indivíduo burguês, sujeito livre, empreendedor, e seu arquiinimigo, o operário revolucionário; junto com macroempresas burocratizadas, rotinizando a vida, ela promoveu o Estado nacional, que cuida dos serviços (saúde, transporte, ensino) e exerceu, modernamente, o controle social e político (exército, polícia).

Completando o cenário moderno, com a dama de ferro expandiram-se também as metrópoles industriais, as classes médias consumidoras de moda e lazer; surgiu a família nuclear (marido-mulher-filhos isolados no ap) e a cultura de massa (revista, filme, romance policial, novela de TV). Dando a vitória à Razão técnico-científica, inspirada no Iluminismo, a máquina fez recuar a tradição, a religião, a moral e ditou novos valores — mais livres, urbanos, mas sempre atrelados ao


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progresso social. Por fim, ela gerou a massa industrial, combativa, e o indivíduo mecanizado, solitário na multidão das grandes cidades, desumanizado, tema tão explorado pela arte moderna.

Essa imagem da civilização moderna industrial, assentada na produção e na máquina, iria se modificar desde os anos 50, ao rumar para a sociedade pós-industrial, mobilizada pelo consumo e a informação.

Rede pensante, gandaia global


O que há de comum entre um empréstimo noturno ao Brasil por um banco de Tóquio e o penteado simulado por um computador gráfico num cabelereiro em Nova York? Há o seguinte: 1) são serviços; 2) são informação e comunicação, dependendo de tecnologias avançadas como o computador, o satélite (há 1000 deles no cosmos); 3) chegaram com a sociedade pós-industrial e a multinacional; 4) significam a desmaterialização da economia pela informação; 5) constituem o próprio cenário pós-moderno.

No ano 2000, diz relatório da empresa de consultoria Rand Corporation, 2% da força de trabalho produzirão todos os bens necessários à sociedade americana, O resto estará manipulando signos nos setores de serviços e técnico-científicos.


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(Observação: Tabela – Esquema de mudança social de Daniel Bell (adaptado)

Pré-industrial

Regiões: Ásia, África, América Latina

Setores: Primário – caça, pesca, agric. estração

Ocupação: Agricultor, mineiro n/ especializado

Tecnologia: Matérias-primas

Projeto: Jogo c/ natureza

Metodologia: Senso comum, exper.

Perspectiva: Passado/repetição

Princípio: Tradição/terra
Industrial

Regiões: Europa Ocid., Oriental

Setores: Secundário - Industrial

Ocupação: Operário especializado, engenheiro

Tecnologia: Energia

Projeto: Jogo c/ máquina

Metodologia: Empirismo, experim.

Perspectiva: Presente/adaptação

Princípio: Expansão econômica
Pós-industrial

Regiões: EUA, Japão, Centros europeus

Setores: Terciário – serviços, saúde, consumo, educação, pesquisa, comunicação

Ocupação: Técnicos e cientistas

Tecnologia: Informação

Projeto: Jogo entre pessoas

Metodologia: Teoria, modelos, sistemas, simulação, comput.

Perspectiva: Futuro/programação

Princípio: Centralização, codificação do conhecimento
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Isto será possível pela automação quase completa da produção industrial. Essa automação é resultado da segunda revolução industrial ora em marcha, capitaneada pela tecnociência, em especial a informática.

No esquema proposto pelo sociólogo americano Daniel Bell, vemos que a sociedade industrial produz bens materiais, enquanto a pós-industrial consome serviços, isto é, mensagens entre pessoas. Comércio, finanças, lazer, ensino, pesquisa científica não exigem fábricas com linha de montagem, mas pedem um aceleradíssimo sistema de informação. Da balística dos mísseis ao ticket de metrô, tudo é signo processado, passado pela lógica 0/1 do computador. Eis por que o boom se faz bit, e as grandes fábricas convivem, superadas em número, com pequenas empresas de serviços tendo menos de 300 funcionários.



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