O quarto protocolo



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Este livro foi escaneado por Clodoaldo Verrissimo de Oliveira e corrigido por Edinaldo Celestino da Silva trata-se de uma edição dirigida as pessoas que sofrem algum tipo de deficiência visual sendo totalmente proibido a distribuição ao publico em geral, o que acarretara ao infrator as penalidades legais, segundo as leis vigentes sobre direitos autorais mo Brasil.

O QUARTO PROTOCOLO


Frederick Forsyth

FREDERICK FORSYTH

O QUARTO PROTOCOLO

Tradução de

A. B, PINHEIRO DE LEMOS

4º EDIÇÃO

EDITORA RECORD
Título original inglês

THE FOURTH PROTOCOL

Copyright (C) 1984 by Frederick Forsyth

0 contrato celebrado com o autor proíbe a exportação deste livro para Portugal e outros países de língua portuguesa.

Direitos de publicação exclusiva em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela

DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.

Rua Argentina 171 - 20921 Rio de Janeiro, RJ

que se reserva a propriedade literária desta tradução Para Shane Richard, de cinco anos,

sem cujo amor e atenção este livro seria escrito na metade do tempo.
Este livro foi impresso nas oficinas gráficas da

Editora Vozes Ltda.,

Rua Frei Luis, 100 Petrópolis, RJ,

com filmes e papel fornecidos pelo editor.


Para Shane Richard,

De cinco anos,

Sem cujo amor e atenção este livro

Seria escrito na metade de tempo.


Parte 1
Capítulo Um

O homem de cinza decidiu pegar os diamantes Glen à meia noite. Se ainda estivessem no cofre do apartamento e os ocupantes se ausentassem. O que precisava saber com certeza. Era por isso que observava e esperava. E às sete e meia foi recompensado.

A limusine enorme subiu da garagem subterrânea, poderosa e graciosa, como seu nome sugeria. Parou por um instante à saída da caverna, enquanto o motorista verificava o tráfego; depois saiu para a rua e seguiu para Hyde Park Corner.

Sentado no outro lado do luxuoso prédio de apartamentos, vestindo o uniforme de um motorista particular, ao volante de um Volvo Estate alugado, Jim Rawlings deixou escapar um suspiro de alivio. Observando despercebido do outro lado da rua de Belgravia, ele vira o que esperava; o marido estava ao volante, com a mulher ao lado. Já tinha o motor ligado e o aquecedor em funcionamento, protegendo-se do frio. Passando a mudança automática, ele saiu fila de carros estacionados e foi atrás do Daimler-Jaguar.

Era uma manhã fria e clara, uma claridade desbotada se despejando de leste sobre Green Park, os lampiões das ruas continuavam acesos. Rawlings estava de vigia desde as cinco horas da manhã; embora algumas pessoas passassem pela rua, ninguém lhe prestara qualquer atenção. Um motorista num carro grande em Belgravia, o mais rico dos bairros do West End de Londres, não atrai atenção, muito menos com quatro malas e um cesto atrás, na manhã de 31 de dezembro. Muitos ricos estariam se preparando para deixar a capital, a fim de comemorar a passagem de ano em suas casas de campo.

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Rawlings estava 50 metros atrás do Jaguar em Hyde Park Corner, deixando que um caminhão se interpusesse entre os dois carros. Subindo pela Park Lane, teve uma apreensão momentânea; havia ali uma sucursal do Coutts Bank e receou que o casal no Jaguar parasse ali pára deixar os diamantes num cofre particular.

Ele soltou um segundo suspiro de alívio em Marble Arch. A limusine a sua frente não fez a volta para pegar a outra pista da Park Lane e voltar até o banco. Avançou pela Great Cumberland Place, entrou na Gloucester Place e continuou a seguir para o norte. Portanto, os moradores do apartamento luxuoso no oitavo andar do Fontenoy House não deixariam os diamantes no Coutts; deviam estar no carro, acompanhando-os para o campo, ou então ficaram no apartamento. Rawlings esperava que fosse a segunda hipótese.

Ele seguiu o Jaguar até Hendon, observou-o percorrer rapidamente o último quilometro antes da auto estrada Ml, depois fez a volta para retornar ao centro de Londres. Era evidente, como ele previra, que o casal seguia ao encontro do irmão da esposa, o Duque de Sheffield, em sua propriedade no norte de Yorkshire, a seis horas de viagem de cano. Isso lhe daria um mínimo de 24 horas, mais do que precisava. Não tinha a menor dúvida de que poderia "tomar" o apartamento em Fontenoy House; afinal, era um dos melhores arrombadores de Londres.

Na metade da manhã, ele já devolvera o Volvo à agência de aluguel, o uniforme à loja e as malas vazias ao armário. Estava de volta a seu apartamento de cobertura, confortável e bem decorado, por cima de um depósito de chá convertido, em Wandsworth. Por mais que prosperasse, continuava a ser um londrino do South Side, nascido e criado ali; Wandsworth podia não ser um bairro tão elegante quanto Belgravia ou Mayfair, mas era o seu "domínio". E como todos de sua espécie, detestava deixar a segurança de seus domínios. Sentia-se ali relativamente seguro, embora fosse conhecido do submundo e da polícia local como um "boneco", a gíria para designar um criminoso.

Como todos os criminosos bem sucedidos, Rawlings se mantinha discreto em seus domínios, inclusive guiando um carro comum. A única indulgência era a elegância do apartamento. Cultivava uma indefinição deliberada, entre as camadas inferiores do submundo, sobre o que fazia exatamente. A polícia desconfiava acuradamente de sua especialidade, mas tinha uma ficha limpa, exceto pelos registros sem maiores conseqüências na juventude. O sucesso evidente e a

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indefinição sobre a maneira como o alcançara despertavam a reverência entre os jovens aspirantes ao oficio, que se mostravam felizes em prestar-lhe pequenos serviços. Até mesmo as quadrilhas da

pesada, que assaltavam o dinheiro de folhas de pagamento em plena luz do dia, com espingardas, deixavam-no em paz.

Como era necessário, ele tinha uma ocupação de "fachada" para explicar o dinheiro. Todos os "bonecos" bem sucedidos exerciam alguma espécie de atividade legítima. As prediletas sempre haviam sido os mimtáxis, como motoristas ou proprietários, mercearias, ferros-velhos, o comércio em geral. Todas essas fachadas permitiam muitos lucros ocultos, transações com dinheiro à vista, tempo de sobra, diversos esconderijos e as condições para se contratar uma dupla de capangas. Estes eram homens duros, de pouca inteligência, mas força considerável, que também precisavam de um emprego aparentemente legítimo para complementar a profissão habitual de "músculos de aluguel".

Rawlings era um negociante de ferro-velho, comprava carros avariados e irrecuperáveis. Isso lhe proporcionava acesso a uma oficina bem equipada, metais de todos os tipos, fiação elétrica, ácido de bateria e os dois rufiões corpulentos que empregava para trabalhar no ferro-velho e como apoio, caso entrasse em alguma "fria" com colegas de profissão.

Depois de tomar um banho de chuveiro e fazer a barba, Rawlings mexeu os torres de açúcar em seu segundo café da manhã e estudou novamente as plantas que Billy Rice lhe deixara.

Billy era seu aprendiz, um garoto de 23 anos, muito esperto, que um dia se tornaria bom no oficio, talvez mesmo um dos expoentes. Ainda começava, nos primeiros escalões do submundo, estava ansioso em prestar favores a um homem de prestígio, além das instruções valiosas que obteria no processo. Cerca de 24 horas antes, Billy batera à porta do apartamento do oitavo andar de Fontenoy House, levando um grande buquê, metido no uniforme de uma elegante loja de flores. O "acessório" lhe permitiria o ingresso fácil no saguão, onde registrara com exatidão a posição dos elevadores, o Compartimento do porteiro e o caminho para a escada.

Fora sua senhoria quem abrira a porta pessoalmente, o rosto se iluminando de surpresa e prazer à visão das flores. Vinham supostamente do comitê do Fundo Beneficente dos Veteranos Necessitados, do qual Lady Fiona era uma das patronesses e a cujo baile de gala deveria comparecer naquela mesma noite, 30 de dezembro de 1986. Rawlings calculara que ela poderia mencionar o buquê no baile a qualquer dos membros do comitê, mas este simplesmente presumiria que fora enviado por algum companheiro, em nome de todos.

A porta, ela examinara o cartão, e exclamara "Oh, que coisa mais linda!", no sotaque cristalino de sua classe, depois pegara o buque. Billy estendera então o bloco de recebimento e a caneta

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esferográfica. Incapaz de se ajeitar com as três coisas ao mesmo tempo, Lady Fiona se retirara então para a sala de estar, a fim de largar o buque, deixando Billy sozinho no pequeno vestíbulo por vários segundos.

Com sua aparência infantil, cabelos louros, olhos azuis e um sorriso tímido, Billy era uma verdadeira dádiva. Achava que podia se insinuar junto a qualquer dona de casa de meia idade de Londres. Mas seus olhos de bebe não perdiam praticamente qualquer coisa.

Antes mesmo de apertar a campainha da porta, ele passara um minuto inteiro esquadrinhando a parte externa, a moldura e a área de parede ao redor, no corredor, procurando por uma campainha não maior que uma noz, um botão preto ou uma alavanca para desligar a campainha da porta. Só a tocara depois de convencido de que não havia nenhuma.

Sozinho no vestíbulo, ele fizera outra vez a mesma coisa, esquadrinhando o lado interno da porta, a moldura e as paredes, à procura de uma campainha ou interruptor. Também nada havia. Quando Lady Fiona voltara ao vestíbulo, a fim de assinar o recibo, Billy já sabia também que a porta estava equipada com uma fechadura especial, que identificara agradecido como uma Chubb, ao invés de uma Brahmah, que tinha a reputação de ser impossível de arrombar.

Lady Fiona pegara o bloco e a caneta, tentara assinar o recibo. Não havia a menor possibilidade. A carga da caneta esferográfica há muito que fora removida e qualquer tinta restante fora gasta num pedaço de papel em branco. Billy pedira desculpas profusamente. Com um sorriso afável, Lady Fiona lhe dissera que não importava, que tinha certeza de ter uma caneta em sua bolsa, retornando à sala de estar. Billy já notara o que procurava: a porta estava de fato ligada a um sistema de alarme.

Projetando-se na beira da porta aberta, no alto, ao

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lado das dobradiças, havia um pequeno embolo de contato. Oposto ao embolo, no batente da porta, havia um pequeno encaixe. E ele tinha certeza de que dentro deste encaixe. haveria um microinterruptor Pye. Com a porta fechada, o embolo penetraria no encaixe e faria o contato.

Com o sistema de alarme contra ladrões armado e acionado, o microinterruptor desencadearia o alarme se o contato fosse rompido, ou seja, se a porta fosse aberta. Billy levara menos de três segundos para pegar o tubo de super cola, esguichar uma gota no orifício em que ficava o microinterruptor e socar com uma pequena bola que era uma mistura de plasticiza e cola. Mais quatro segundos e estava duro como pedra, o microinterruptor sem qualquer possibilidade de fazer contato com o êmbolo na beira da porta.

Quando voltara com o recibo assinado, Lady Fiona encontrara o rapaz simpático encostado no batente da porta. Ele se empertigara com um sorriso de desculpas, removendo do polegar o que sobrara da bola. Posteriormente, Billy fornecera a Jim Rawlings uma descrição completa da entrada do prédio, a posição do compartimento do porteiro, a locação da escada e elevadores, o corredor até a porta do apartamento, o pequeno vestíbulo por trás da porta e o que pudera ver da sala de estar.

Ao tomar seu café, Rawlings sabia que, quatro horas antes, o dono do apartamento levara as malas para o corredor e depois voltara ao vestíbulo para ligar o alarme. Como sempre, não fizera qualquer barulho. Fechando a porta, ele teria girado a chave na fechadura especial, convencido de que o alarme estava ativado, em perfeitas condições de funcionamento. Normalmente, o embolo estaria em contato com o microinterruptor Pye. O giro da chave completaria o circuito, acionando todo o sistema. Mas, com o embolo isolado do microinterruptor, o sistema da porta pelo menos estaria inerte. Rawlings estava confiante de que poderia arrombar a porta em 30 minutos. Calculava que haveria outras armadilhas no interior do apartamento. E cuidaria delas quando as encontrasse.

Terminando o café, ele pegou a pasta de recortes de jornais. Como todos os ladrões de jóias, Rawlings acompanhava atentamente as colunas sociais. Aquela pasta em particular registrava todos os aparecimentos sociais de Lady Fiona, noticiando inclusive o conjunto de diamantes perfeitos com que ela se apresentara no baile de gala da noite

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anterior - e que usara pela última vez, segundo as intenções de Jim Rawlings.


Mil e 500 quilometres a leste, o velho de pé à janela da sala de estar, no apartamento de frente, no terceiro andar na Prospekt Mira, 111, também pensava na meia-noite. Anunciaria o dia 1o de janeiro de 1987, seu 75° aniversário.

Já passava de meio-dia, mas ele ainda estava de chambre; havia bem pouco motivo para se levantar cedo atualmente ou se arrumar e ir para o escritório. Não havia mais escritório para ir. A esposa russa, Erita, 30 anos mais moça, saíra com os dois meninos para patinar nas pistas inundadas e congeladas do Parque Gorki. Assim, ele estava sozinho no apartamento.

Percebeu o seu reflexo num espelho na parede e a perspectiva não lhe trouxe mais alegria do que contemplar a sua vida ou o que restava dela. O rosto, sempre vincado, estava agora enrugado

profundamente. Os cabelos, outrora abundantes e pretos, estavam agora brancos como a neve, ralos e mortiços. A pele, depois de uma vida inteira de beber sem parar e fumar um cigano atrás de outro, estava inchada e manchada. Os olhos fitaram-no desconsolados. Ele tornou a se virar para a janela e olhou para a rua coberta pela neve. Umas poucas habushkas (velhinhas; literalmente, avozinhas) encapotadas removiam a neve, que tornaria a cair naquela noite.

Já se passara muito tempo, meditou ele, quase que exatamente 24 anos, desde que deixara o seu exílio sem emprego e inútil em Beirute para vir a Moscou. Não havia mais sentido em ficar. Nick Elliot e o resto da "Firma" já sabiam de tudo àquela altura; ele próprio acabara por admitir. E por isso partira, deixando a mulher e os filhos para irem ao seu encontro depois, se assim desejassem.

A princípio, pensara estar indo para casa, para um lar espiritual e moral. Lançara-se com fervor à vida nova, acreditava sinceramente na filosofia e seu triunfo eventual. Por que não? Dedicara 27 anos a servi-la. Sentira-se feliz e realizado naqueles primeiros anos da década de 60. Como não podia deixar de ser, houvera muitas sessões de informações. Mas ele era reverenciado no Comitê de Segurança do Estado. Afinal, fora um dos Cinco

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Astros, o maior de todos, juntamente com Burgess, Maclean, Blunt e Blake, os homens que haviam penetrado fundo, até o núcleo central do sistema britânico, fornecendo todas as informações.

Burgess, bebendo e se entregando à sodomia, em seu caminho para a sepultura prematura, já estava lá quando chegara. Maclean perdera as ilusões primeiro, mas também se encontrava em Moscou desde 1951. Em 1963, ele estava amargurado e ranzinza, descarregando em Melinda, que resolvera finalmente vir ao seu encontro, para aquele mesmo apartamento. Maclean conseguira de alguma forma continuar, desiludido e ressentido, até que o câncer o pegara irremediavelmente, quando já odiava os anfitriões e era também odiado por eles. Blunt fora "explodido" e desgraçado na Inglaterra. Com isso, só restavam ele e Blake, pensou o velho. De certo modo, ele invejava Blake, completamente assimilado, absolutamente contente, que o convidara e a Erita para a comemoração de Ano Novo. Blake tinha origens cosmopolitas, mãe holandesa, pai judeu.

Mas não podia haver assimilação para ele, pessoalmente; compreendera isso depois dos cinco anos iniciais. A esta altura, já conhecia o russo fluentemente, falado e escrito, mas ainda mantinha um sotaque britânico acentuado. Tirando isso, porém, passara a odiar a sociedade. Era uma completa, irreversível e inalteravelmente estranha sociedade.

Mas isso ainda não era o pior; com sete anos, perdera as últimas ilusões políticas: Era tudo uma mentira e ele fora bastante esperto para percebe-lo. Passara a juventude e boa parte da vida adulta servindo a uma mentira, mentindo pela mentira, traindo pela mentira, abandonando aquela "terra verde e aprazível" - e tudo por uma mentira.

Por muitos anos, suprido de todas as revistas e jornais ingleses, acompanhara os resultados das partidas de críquete, ao mesmo tempo em que aconselhava a inspiração de greves; contemplara os antigos lugares familiares nas revistas, ao mesmo tempo em que preparava as desinformações visando a provocar a ruína de tudo; acomodara-se discretamente num banco no National, a fim de escutar os ingleses conversarem e gracejarem em sua língua, enquanto bebiam, ao mesmo tempo que aconselhava a cúpula do KGB, inclusive o próprio diretor, sobre a melhor maneira de subverter aquela pequena ilha. E durante todo o tempo, ao longo dos últimos 15 anos, havia lá

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no fundo um grande vazio de desespero, que nem mesmo a bebida e muitas mulheres foram capazes de preencher. Era tarde demais; nunca poderia voltar, disse a si mesmo. E, no entanto, no entanto...

A campainha da porta tocou. O que o deixou perplexo. A Prospekt Mira, 111, fica num quarteirão pertencente ao KGB, numa sossegada rua transversal no centro de Moscou. Os moradores eram quase todos do KGB e alguns funcionários do Ministério do Exterior.

Um visitante teria de passar pela portaria e se identificar, sua presença sendo comunicada. E não podia ser Erita, pois ela possuía a chave.

Ele abriu a porta e deparou com um homem parado ah, sozinho.

Era jovem e parecia em esplendida forma, envolto por um sobretudo bem cortado, com um shapka de pele, sem qualquer insígnia. O rosto era friamente impassível, mas não da temperatura enregelante lá fora, pois os sapatos indicavam que saíra de um carro devidamente

aquecido para um prédio aquecido, ao invés de avançar pela neve gelada. Olhos azuis vazios fitaram o velho sem amizade nem hostilidade.

- Camarada Coronel Philby?

Philby ficou surpreso. Os amigos íntimos, os Blakes e meia dúzia de outros chamavam-no de Kim. Para os demais, vivia sob um pseudônimo, há muitos e muitos anos. Somente uns poucos, na

própria cúpula, conheciam-no como Philby, um coronel do KGB na relação dos reformados.

- Sou eu mesmo.

- Sou o Major Pavlov, da Nona Diretoria, do staff pessoal do secretário geral do PCUS.

Philby conhecia a Nona Diretoria do KGB. Proporcionava os guardas para todos os membros dos altos escalões do Partido, assim como para os prédios em que trabalhavam e residiam. De uniforme, atualmente restrito ao interior dos prédios do Partido e às cerimônias oficiais, eles ostentavam as características faixas azuis nos quepes, ombreiras e lapelas. Eram conhecidos como os Guardas do Kremlin. Servindo como guardas pessoais, usavam roupas à paisana de corte impecável; também se mantinham permanentemente em forma perfeita, eram altamente treinados, friamente leais e só andavam armados.

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- Pois não? - disse Philby.

- Vim lhe entregar isto, Camarada Coronel.

O major estendeu um envelope comprido, de papel da melhor qualidade. Philby pegou-o.

- E isto também.

O Major. Pavlov estendeu um pequeno cartão com um telefone. - Obrigado.

Sem dizer mais nada, o major inclinou a cabeça rapidamente, virou-se e voltou pelo corredor. Segundos depois, de sua janela, Philby observou a limusine preta Chaika, com suas placas distintivas do Comitê Central, começando com as letras MOC, sair pela entrada lateral do prédio.

Jim Rawlings examinou a fotografia na coluna social da revista com uma lente de aumento. Ali estava a mulher que ele vira seguindo para o norte, saindo de Londres, naquela manhã, em companhia do marido, embora tivesse sido tirada um ano antes. Estava parada numa fila de apresentação, enquanto a mulher ao seu lado cumprimentava a Princesa Alexandra. E usava os diamantes. Rawlings, que estudava por meses antes de dar um golpe, conhecia a proveniência das pedras melhor do que a própria data de seu nascimento.

Em 1905, o jovem Conde de Margate voltara da África do Sul com quatro pedras magníficas, mas não lapidadas. Ao casar, em 1912, mandara a Cartier de Londres cortar e engastar as pedras, como um presente para a jovem esposa. Cartier enviara as pedras para a Aascher's, de Amsterdã, que ainda eram considerados como os melhores lapidadores do mundo, depois de seu triunfo no corte do enorme diamante Cullinan. As quatro pedras originais emergiram como dois pares iguais de diamantes em formato de pára, de 58 facetas, cada pedra de um par pesando 10 quilates, as outras tendo 20 quilates.

Os diamantes voltando a Londres, Cartier os engastara em ouro branco, cercado por 40 pedras menores, criando um conjunto de tiara, um dos diamantes maiores em formato de pêra como peça central, um pingente com o outro a se destacar, e dois brincos. Antes que as jóias ficassem prontas, morrera o pai do conde, o sétimo Duque de Sheffield. O conde herdara o título. As pedras tornaram-se conhecidas como Diamantes Glen, o nome da família da Casa de Sheffield.

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O oitavo duque deixara os diamantes, ao morrer, em 1936, para o filho, que por sua vez tivera uma filha, nascida em 1944, e um filho, nascido em 1949. Era essa filha, agora com 42 anos, cuja imagem aparecia sob a lente de aumento de Jim Rawlings.

- Nunca mais tornará a usá-los, minha cara - murmurou Rawlings, para si mesmo.

E, depois, ele começou a verificar mais uma vez o seu equipamento para aquela noite.

Harold Philby abriu o envelope com uma faca de cozinha, tirou a carta e abriu-a sobre a mesa da sala de estar. Ficou impressionado; era do próprio secretário geral do PCUS, escrita à mão, com a letra impecável do líder soviético, em russo, como não podia deixar de ser.

O papel era da melhor qualidade, como o envelope. Não tinha cabeçalho. Ele devia ter escrito em seu apartamento pessoal, na Kutuzovsky Prospekt, 26, o enorme bloco de apartamentos que desde o tempo de Stalin abrigava, em seus aposentos suntuosos, os hierarcas mais altos do Partido.

No canto superior direito estavam as seguintes palavras: Manhã de Quarta Feira, 31 de Dezembro de 1986.0 texto estava por baixo e dizia:


Prezado Philby:

Minha atenção foi atraída para um comentário que

você fez recentemente num jantar em Moscou. A saber, que "a estabilidade política da Grã-Bretanha é constantemente superestimada aqui em Moscou e nunca tanto quanto neste momento".

Eu ficaria agradecido se pudesse me fornecer uma

expansão e esclarecimento desse comentário. Faça-o por escrito e encaminhe a mim pessoalmente, sem cópias e sem usar secretárias.

Quando estiver pronto, ligue para o telefone que o

Major Pavlov forneceu, peça para falar com ele pessoal mente. O major irá buscar em seu apartamento.

Meus parabéns por seu aniversário amanhã.

Cordialmente...

A carta terminava com a assinatura.


Philby deixou o ar escapar lentamente dos pulmões. Portanto, o jantar de Kryuchkov, no dia 26, para altas autoridades do KGB, fora mesmo grampeado. Ele

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já desconfiara. Como primeiro vice-diretor do KGB e chefe da Primeira Diretoria, Vladimir Alexandrovitch Kryuchkov era um homem do secretário geral, de corpo e alma. Embora tivesse o posto de general de exército, Kryuchkov não era militar e muito menos um agente de informações profissional; era um apparatchik do Partido da cabeça aos pés, um dos homens elevados pelo atual líder soviético, quando se tornara diretor do KGB.

Philby tornou a ler a carta, depois empurrou-a para um lado. O estilo do velho líder não mudara, pensou ele. Lacônico ao ponto de ser árido, objetivo e conciso, desprovido de cortesias requintadas, sem convidar a qualquer contradição. Mesmo a referencia ao aniversário de Philby era breve o bastante para indicar que consultara a ficha e pouco mais.



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