O poder supremo II



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DIGITALIZADO E CORRIGIDO POR:

Aventino de Jesus Teixeira Gonçalves

Junho de 2004


A série “O Poder Supremo” é constituída pelos seguintes títulos:

1. O Círculo de Blackburn

2. As Forças do Oculto

3. A Fonte da Possessão

4. O Coração de Avalon

Nota do digitalizador


BADANA DA CAPA
O passado de Winter Musgrave perdeu-se quase por completo no desvão da sua memória. Winter parece possessa; os objetos estilhaçam-se à sua passagem; na soleira da porta aparecem cadáveres de animais. E tem a sensação aflitiva de que o passado esquecido encerra qualquer coisa horrível, cujas conseqüências a perseguem com fúria desenfreada.

Em busca de auxílio, Winter encontra Truth Jourdemayne (de “O Círculo de Blackburn”) e descobre que a chave de acesso às recordações perdidas reside nela própria e no círculo mágico de amigos dos seus tempos de estudante. Mas o círculo rompera-se há muito tempo. Winter terá de reconstruí-lo para salvar a vida.

“As Forças do Oculto” não é apenas a história de uma mulher à procura do seu passado perdido. É um romance poderoso que deveria apelar à nova era de leitores, aos fãs da fantasia e da ficção contemporâneas, e aos milhares de leitores que já descobriram a força e beleza dos romances de Marion Zimmer Bradley.


“Um fascinante conto de “magia” contemporânea e auto-descoberta, que conjuga o romanesco, a fantasia urbana e o horror. Com uma heroína forte e uma abordagem sofisticada da magia, esta novela entretém inteligentemente.”

Publishers Weekly

AS FORÇAS DO OCULTO

O PODER SUPREMO


MARION ZIMMER BRADLEY

Tradução


Rui Gabriel Viana Pereira

3ª edição

DIFEL

Difusão Editorial, S. A.



Título original: Witchlight

© 1996, Marion Zimmer Bradley

Publicado de acordo com o autor, c/ o BAROR INTERNATIONAL INC., Armonk,

New York, U.S.A.

Todos os direitos de publicação desta obra reservados para Portugal por:

DIFEL - Difusão Editorial, S.A.

Denominação Social - DIFEL 82 - Difusão Editorial, S.A.

Sede Social - Avenida das Túlipas, n.º 40-C – Miraflores - 1495 Algés - Portugal

- Telefs.: 4120848-4120849

- Fax: 4120850

- E-mail: Difel.SA@mail.telepac.pt

Capital Social - 60 000 000$00 (sessenta milhões de escudos)

Contribuinte n.º - 501378537

Matrícula n.º 8680 - Conservatória do Registo Comercial de Oeiras

Capa: Clementina Cabral

Revisão tipográfica: Frederico Sequeira

Fotocomposição: Espaço 2 Gráfico

Impressão e acabamento: Tipografia Guerra. Viseu, 1998

Depósito Legal n.º 127991/98

ISBN 972-29-0365-9 / Setembro 1998

Proibida a reprodução total ou parcial sem a prévia autorização do Editor

Um tipo de atividade de poltergeist é a manifestação física de uma força, não em torno de uma criança desadaptada ou histérica, mas sim de um adulto perfeitamente adaptado. Nestes casos estamos perante uma força física não resolvida e em ação; digamos que o Invisível vem ao encontro do indivíduo em questão, fato que, em termos estritos, não cabe no escopo desta obra.


Sobre as histórias descritas neste livro, consultar Carrington e Fodore, bem como a monografia de Margrave e Anstey - 1983, in The Journal of Unexpected Phenomena, reeditado por Silkie Press, San Francisco, sob o título The Natural History of the Poltergeist. The Inheritor.

CAPÍTULO UM

UM CONTO DE INVERNO
A sad tale’s best for Winter.

I have one of spirits and goblins.1

WILLIAM SHAKESPEARE
Chamava-se Greyangels. Fora construída nos derradeiros anos de vida da antiga colónia britânica e acrescentada nos primórdios da jovem nação. Estava rodeada de pomares, plantados no tempo em que todas aquelas terras ainda eram amanhadas; as árvores centenares, abandonadas, já não davam fruto, mas continuavam a cobrir-se de flores primaveris. O reinado da casa sobre vastos acres de milho e lagares e macieiras cercadas de arame farpado tinha cessado há muito tempo. Apenas restava a própria casa. O chão assoalhado, o estuque das paredes, os tectos baixos sustentados por vigas enegrecidas de fumo, as janelas estreitas com vidros toscos e ondulados, tudo estiolara progressivamente: o luxo inicial fanou-se, tornou-se excentricidade, descambou em desleixo, e por fim caiu no esquecimento, no completo abandono à mó do tempo e das intempéries.

Passaram os anos. A casa, moribunda, voltou a ser habitada; renovaram-na ao gosto de uma geração criada com água corrente e aquecimento central, uma geração que passava os verões longe da cidade. Mas gostos e modas continuaram a mudar e, um dia, os nova-iorquinos deixaram de sonhar com casas de verão nas margens do rio Hudson.

A casa passou de mão em mão, afastando-se cada vez mais do seu propósito inicial, à medida que os carros corriam mais rápidos e as estradas mais largas, e as urbanizações dos subúrbios galgavam cada vez mais para norte, até o Conselho de Dutchess se tornar um formigueiro de passageiros suburbanos e o de Amsterdam começar a transformar-se num mar de casas onde os habitantes da cidade procuravam a paz do que um dia fora campo ameno.

Mas a casa sobrevivia, com doze acres de terreno entre o caminho de ferro e o Hudson, tendo por vizinhos uma escola privada de reputação sinistra e uma comunidade de artistas que desejava acima de tudo permanecer anónima. Por mais algum tempo repousou a casa na sua quietude campestre, sem que nada viesse perturbar-lhe o sossego.



“Deve ser por isso que vim”, matutou Winter Musgrave consigo mesma, embora, na verdade, já nem se lembrasse dos motivos que a tinham levado a meter-se num avião para chegar ali, e a prudência, ou o medo, a impedisse de buscar razões no emaranhado da memória. Melhor seria não construir certezas sobre determinadas coisas, entre as quais a assustadora noção de que a memória, a partir de um momento incerto do seu passado, deixara de lhe obedecer, transformando-se em carcereiro sádico, sempre pronta a trazer-lhe novas e mais terríveis surpresas. Dia que não trouxesse surpresas desagradáveis era dia de festa.

A quietude do campo, com seus ritmos lentos e o prenúncio de primavera, foi-lhe benéfica. Winter tinha uma vaga noção de que não se encontrava ali há muito tempo; os últimos vestígios de neve ainda alvejavam sombras e buracos ao longo da estrada por onde chegara, ao volante do BMW, e agora os primeiros rebentos verdejantes começavam a suavizar a silhueta descarnada das árvores: vidoeiros, áceres, cornizos... e as macieiras enfileiradas que desciam, nodosas, até ao rio.

Winter não gostava de macieiras. Perturbavam-na, faziam-na sentir-se vagamente envergonhada, como se algo inconfessável e inefável tivesse acontecido um dia entre macieiras. O pomar erguia-se como um biombo entre Winter e o rio, que ela apenas conseguia lobrigar subindo ao quarto do andar superior.

Mas mesmo daí continuava a ver as macieiras, o que a levara a instalar-se no rés-do-chão, no minúsculo quartinho anexo à cozinha, que tinha a vantagem de ser quente e oculto do pomar.

Enquanto ninguém descobrisse onde ela se encontrava, estaria a salvo.

Habituara-se a esta ideia; habituara-se o suficiente para se permitir pensar nela.



“Por que não há de alguém saber onde eu estou?”

Winter pegou no pesado pisa-papéis de vidro colorido que estava em cima da mesa e ficou-se a olhar para a sua superfície iridescente, como se fosse uma bola de cristal pronta a dar-lhe respostas. Sentindo recrudescer a relutância e o medo, repôs apressadamente o pisa-papéis sobre a mesa e encetou nervoso vaivém.

Aquela saleta da frente tinha mobília escassa: a mesinha onde pousara o pisa-papéis ao lado do candeeiro, uma cadeira de balanço Windsor, de verga, e uma longa arca de espaldar junto da pedra da lareira. Um tapete artesanal, muito puído, escondia a usura das tábuas de carvalho do soalho e numa das paredes pintadas de branco pendia um espelho esverdeado de zebre e velhice, com moldura oval.

Winter parou em frente do espelho, como um autómato, e forçou-se a observar a própria imagem. Nada a magoava mais do que o aparecimento súbito daquele reflexo que acicatava o confronto entre a imagem e as recordações, todas elas feitas de pequenas humilhações e terrores diários.

Cabelo: perdido o vigor ondulado, decaído o tom acaju, caía fino, flácido e baço. Pálida a pele, de textura débil, colada aos ossos agudos, muito para além da fronteira entre a elegância e o aspecto doentio. Olhos de amêndoa cavados, pisados, baços; quem diria que em dias idos muitos admiradores juraram ter visto cintilar, no fundo desses olhos, reflexos de âmbar do Báltico? Boca crispada, pálida e envelhecida.

Nem se lembrava já da última vez que usara baton, nem sequer da cor preferida. Teria trazido baton? Não se lembrava; mas que importância tinha isso?



“Claro que tem... Jack passava a vida a dizer que eu devia carregar nas pinturas de guerra; fazia-os ficar nervosos...”

Estilhaços do passado espreitaram à flor da memória como peixes prateados, para logo desaparecerem nas profundezas; sacrificados à urgência da fuga.



“De quê?” A sensação de frustração quase a convenceu a trocar o risco da dor pela tentação de recordar. Incapaz de sossegar, Winter pôs-se às voltas no seu pequeno mundo: a sala de estar da frente, com lareira; a cozinha, virada para um jardim decrépito e uma fieira de pinheiros atarracados; o quarto do rés-do-chão, cheio de luz e acolhedor, com as colchas de retalhos sobre a cama de ferro e a chaleira de cobre em cima da salamandra bojuda; o átrio de entrada, com a porta para o mundo exterior e as escadas para o andar superior, aquele lugar tão aterrador. Da entrada podia ver o telheiro onde se amontoava a lenha de carvalho e pinho, ao lado do carro. Teria de ir buscar mais lenha daí a pouco, pois o aquecimento elétrico da quinta era fraco e incerto. Winter habituara-se a manter acesos os braseiros da salamandra, no quarto, e da lareira, na sala da frente, para expulsar o frio dos primeiros dias de primavera.

Mas para ir buscar mais lenha era forçoso sair de casa; caminhar ao ar livre.



“Há quanto tempo não saio?” Era pura teimosia continuar a pedir respostas à memória, mas por fim surgiu-lhe uma imagem: Winter a carregar malas... “... malas?” ... a patinhar no carreiro coberto de gelo enlameado e escorregadio da casa, a fugir...

Esteve a ponto de conseguir agarrar aquela imagem fugaz; mas afastou-a, sabendo que o equilíbrio entre o medo do conhecimento e o medo da ignorância em breve se inverteria e, então, Winter exigiria pelo menos esse fragmento do passado. Devia ter acontecido qualquer coisa terrível que a obrigara a refugiar-se ali, por detrás das persianas corridas, dos pesados reposteiros, como animal ferido no fundo da lura.



“Não saio desta casa há ... semanas”, concluiu, incerta.

Não lhe servia de muito saber que estava em abril; de certeza que era abril; os rebentos de folhas e os campos de narcisos que avistava da janela diziam-lhe que por força seria abril... fosse qual fosse a data em que chegara... março? Seria costume a neve subsistir na berma das estradas até março?

Talvez fevereiro...

Fosse quando fosse, já estava há demasiado tempo portas adentro. Mais do que suficiente. A primavera é estação de ressurgimento; chegava o momento de renascer.

De repente veio-lhe um sabor de cobre à boca, mas desta vez o medo mais parecia espicaçar que refrear a determinação.

Sem pensar duas vezes, Winter precipitou-se para o hall de entrada e abriu a porta da rua.

Inspirou o ar puro do campo, e sentiu o sol, a aragem na pele, como se fossem mensageiros do outro mundo. A terra revolvida ao longo das lajes do caminho era escura e exalava o cheiro da chuva recente; finos rebentos de erva despontavam entre os grãos de terra, destacando-se contra o fundo verde mais denso dos narcisos e íris, tulipas e lírios. O carreiro lajeado curvava para baixo e para a esquerda, ao encontro do caminho de saibro que levava da garagem ao exterior.

Não se avistava ninguém. A estrada não era perceptível daquele ponto, nem se ouviam ruídos de tráfego que viessem perturbar a ilusão de que o tempo se detivera desde a edificação da quinta.



“Não há problema. Não há problema nenhum. Não existe aqui nenhum perigo, nada que possa fazer-me mal”, disse Winter consigo mesma. Com determinação e coragem, avançou da casa para o caminho de gravilha.

Um passo, dois... À medida que emergia da sombra da casa, sentiu uma desorientação estonteante, a mesma vertigem de pânico impotente que sempre imaginara que sentiria se abrisse a jaula de um tigre. Pareceu-lhe que a paisagem bucólica, suavemente ondulada, se erguia à sua volta como um urso em fúria, preste a abater-se sobre ela, esmagando-a.



“É só imaginação! Eles avisaram-me que seria assim...” Foi surpreendida por este súbito rasgo de memória que surgia assim de rompante, sem aviso prévio.

Outra recordação de paisagem, mas esta calma e serena. O sol quente de outono sobre o terraço onde os pacientes, nos seus roupões garridos e desirmanados, contemplavam os terrenos à volta do sanatório.



“O sanatório... Sim! Lembro-me de Fall River. Terei escapado de...”

Mas não. A memória não registava as semanas de coragem desesperada: primeiro a recusa de tomar os medicamentos, depois a saída. Ela era uma mulher adulta, tinha-se internado de sua livre vontade; não podiam impedi-la de partir.



“Aos trinta e seis anos uma pessoa tem obrigação de saber o que lhe convém!”, pensou Winter com determinação. Por conseguinte, tinha abandonado o sanatório; por que? Teriam eles considerado que estava curada? Não deveria sentir-se melhor, naquele preciso momento, se a tivessem dado por curada e de boa saúde?

“Eles estavam a falar de mim...” Outra recordação arrancada a ferros, enquanto os passos trôpegos a levavam até à sombra do carvalho secular, para se sentar no banco construído à volta do tronco por um dos antigos proprietários.

Winter abateu-se no assento forrado de musgo e repousou o olhar na casa.

Falavam dela no sanatório. Diziam que era tudo imaginação, mas Winter sabia bem o quanto as histórias que eles atribuíam à sua fantasia perturbada e desequilibrada eram pura realidade.

“Não consegui o que queria.”

Fixou-se nessa verdade amarga, mas o esforço esgotou-a, sorveu-lhe o ânimo de se manter fora do refúgio. Retrocedeu, esforçando-se por retardar o passo, por não se render ao pânico cego, mas quando finalmente atravessou a porta de entrada e a fechou atrás de si, sentia a boca seca, o peito esmagado por correias de aço.

Diante de Winter, as escadas convidavam ao elusivo andar de cima. Por isso, pela recordação das malas de viagem, pela necessidade de afirmar algum triunfo que suavizasse o fracasso anterior, Winter agarrou o corrimão e pisou o primeiro degrau.

Quando chegou lá acima, Winter fez troça de si mesma:



“Não é assim tão difícil!”; e arriscou uma espreitadela, pela janela sobre o jardim. Avistavam-se dali as velhas lousas quebradas e descompostas do alpendre.

“Só mais três passos.”

O andar superior era menor que o rés-do-chão. Tinha dois quartos e uma casa de banho moderna, decorada em tons rosa e brancos, ao arrepio da simplicidade do resto da casa. O quarto maior era o das traseiras; espreitando pela porta, Winter viu duas malas Vuitton e um saco de couro inglês Coach Lexington dispersos sobre a cama.

Pronto, já podia voltar para baixo. Podia deixar aquela marca da sua identidade para outro dia, adiar o arrasador fardo de se identificar a si própria.

“Mas se não for eu a fazê-lo, ninguém o fará por mim.”

Não sabia donde surgira esta súbita certeza, não lhe custava nada ignorar aquela sensação de fito determinado, como se se tratasse de mais um dos seus enganadores sonhos acordados. Em Fall River, quando tentara falar deles, tinham-na mandado calar; por fim chegou a rezar para que aquele obsessivo espírito de missão a deixasse em paz; para que o tratamento e os remédios produzissem efeito, como acontecia aos outros que tinham vindo.



“Àquele privilegiado refúgio de vencedores vencidos”, troçou Winter. Mas não eram palavras suas. Quem as dissera?

“Não interessa, agora.” Era evidente que estava a tergiversar para fugir à acção; acabara por aprender a desmascarar esse truque. Retesando os ombros, Winter passou o limiar do quarto.

Aí estavam as malas que ela, ou alguém por ela, tinha feito quando partira para Fall River. Despejou sobre a colcha o conteúdo de ambas as Vuitton; roupas de trabalho, vestidos de noite; inexplicavelmente, também ali estava o seu passe do Arkham Miskatonic King. Winter ficou a olhar para a fotografia do cartão.

“Estou com ar de quem foi apanhada pelos faróis de uma locomotiva em movimento...” Mas aquele cartão simbolizava o seu grande orgulho pela conquista do acesso à Bolsa. Como corretora. Em Wall Street.

Assim, com pezinhos de lã, o passado irrompia subitamente.

Ela era Winter Musgrave, corretora da Arkham Miskatonic King, em Wall Street. Aí trabalhara durante dez anos, desde que a tinham ido buscar à Bear Stearns...

Lembrava-se de acordar cedo para ir trabalhar, durante a greve do metrô; lembrava-se do apartamento. Até sabia de cor o conteúdo da malinha que estava em cima da cama: o Wall Street Journal e um pacote de pastilhas para a garganta; um elefante de peluche cor-de-rosa (o seu amuleto da sorte) e uma T-shirt de muda; lápis...



“Enfim, a minha vida.”

Fora de Wall Street, não tivera qualquer espécie de vida.

Porque não quisera, aliás. Fizera orelhas moucas a todos os conselhos para se distrair, para se descontrair, para arranjar um passatempo, uma vida própria.

“Eu tinha a minha vida.”

Até o hiato entre passado e presente; o acontecimento que ainda não lhe viera à memória. Mas agora estava segura de que, a seu tempo, a recordação viria, esclarecendo, talvez, as razões daquela despropositada sensação de fim.

Winter abanou a cabeça e recolheu uma braçada de roupas. Se pretendia continuar a viver no rés-do-chão, melhor seria levar as roupas para baixo. Ao menos podia fingir que era normal.

“Mas os loucos consideram-se sempre normais. Não é assim que eles costumam começar?”

Não. Tudo isto começara com o esgotamento que a levara a Fall River, e agora estava fora de Fall River, mas não por ter melhorado...



“Encara as coisas de frente ... Encara-as.”

Winter correu pelas escadas abaixo; não ia a fugir, mas sim ao encontro da última coisa que ainda a assustava: a origem daquele estado de fuga permanente.

As roupas que reunira caíram pelo caminho, como folhas de outono. Precipitou-se através da serena sala de estar em direção à cozinha. Lá estavam as portas para o jardim; para o pomar; para o rio. Atravessou a porta de supetão para logo retroceder com um grito de horror, embora já antes tivesse visto o que ali se encontrava; aliás, ainda naquela manhã vira...

A criatura era difícil de identificar, mas pelo tamanho parecia ter sido um esquilo. Estava reduzida a um punhado de pêlos cinzentos donde espreitavam pedaços de carne rasgada e esquírolas brancas de osso despedaçado.



“Como todos os outros. Tal e qual.”

Começara com os pombos. Pombos, esquilos e ratos; onde quer que fosse, encontrava sempre os pequenos corpos exangues, e cada novo encontro perturbava-a para além dos limites do suportável. Quando fora para Fall River, as pequenas vítimas tinham andado ausentes durante algum tempo, mas depois recomeçaram a aparecer; e quando jurou que nada tinha a ver com as mortes, o Dr. Atheling acreditou-a, mas os outros não; afirmavam que era ela a responsável, que ela própria apanhava os animais, os torturava e matava...

Por isso tivera de fugir, na esperança de, fugindo, fugindo sempre, conseguir despistar tão ameaçadora sombra. E durante algum tempo julgou ter conseguido.

Até àquele dia.

Winter permaneceu inquieta todo o dia, como se o aparecimento do pequeno corpo esfacelado tivesse dado voz a um apelo insistente. Passou a noite em branco, frente à lareira, alimentando-a até ao último toro.

Quando a madrugada chegou, tinha concluído pela impossibilidade de continuar a esconder-se naquela casa. Se estava no seu perfeito juízo, havia que pô-lo à prova no exterior. Se não...



“Não agüento voltar para o sanatório”, ponderou Winter, embora Fall River não fosse um lugar desagradável; ao contrário doutros, de que ouvira falar, onde a malícia se disfarçava de afeição e o sadismo de solicitude.

“As pessoas vão a Fall River em busca de auxílio... mas a mim ninguém pode ajudar.”

Mesmo desconhecendo a base de tal convicção, Winter confiou nela, apesar de já não acreditar em si própria.



“Acho que o mundo, e eu, teremos de nos entregar à sorte.”

A manhã decorreu em tarefas e minudências. Embora todas elas lhe fortificassem a confiança na capacidade de sobreviver fora do refúgio da quinta, eram também uma forma de adiar as conseqüências da sua decisão. Lavou a louça, fez uma lista de compras, trouxe o resto das roupas para o rés-do-chão, arrumou-as no roupeiro de cedro vermelho do quartinho anexo à cozinha, e até desfez a malinha e a sacola, divertindo-se e surpreendendo-se com o que lá encontrou, incluindo um maço de balancetes mensais, endereçados para Fall River pelo contabilista que lhe tratava das contas. Winter examinou por alto um dos balancetes, mas a fieira de números, transferências e débitos pareceu-lhe indecifrável.

Mais interessantes eram os maços de notas de 20 e 50, suficientes para fazer face a qualquer despesa imediata, amontoados no fundo da mala, a esmo, como se fosse dinheiro de brincar.

“Dinheiro de brincar. É o que ele representava para nós. Comportávamo-nos como crianças a jogarem monopólio... não levávamos nada daquilo a sério”, pensou Winter, abraçando o pequeno elefante cor-de-rosa que encontrara no fundo da malinha Lexington, ao lado do Wall Street Journal com data do ano passado e de um emaranhado de objetos que mal reconhecia. Os anos passados na Arkham Miskatonic King eram consistentes, mas curiosamente distantes, como se tivessem sido lidos e colhidos de um livro particularmente vívido. Tivera uma carreira fulgurante, vivera bem, comprara os bens do costume e pagara as brincadeiras usuais, mas, fosse por que fosse, não sentia apego a nenhuma dessas coisas. Fora um tipo de vida comum a milhares de negociantes; descaracterizada como a de zangão em colmeia.

“E achávamo-nos fora de série, embora não passássemos de máquinas de fazer dinheiro. Dessem-nos um bocadinho de corda, que nunca mais parávamos de negociar, e negociar, e negociar, até...”

Mas Winter ainda não sabia o que a levara dos recintos do New York Stock Exchange para Fall River e daí para Greyangels. Talvez se tivesse pura e simplesmente... esgotado?

Podia acontecer a qualquer um. Verdade era que a maioria das pessoas se retirava de Wall Street por esgotamento.

Mas não fora esse o motivo de Winter. Embora não conhecesse as razões verdadeiras, sabia que não fora essa.

Por fim deu-se conta de que estava a evitar a saída para o mundo exterior. Trocou os jeans enxovalhados e a camisola puída por outra roupa mais apresentável na cidade.

“Embora Glastonbury não seja grande cidade, tanto quanto me lembro.”

A mulher dispendiosa e elegantemente vestida de camisola cinzenta de caxemira e saia escocesa que Winter via reflectida no espelho da casa de banho tinha um aspecto doentio e olheirento. Winter aplicou-se a pintar a ilusão de saúde com cosméticos Chanel e Dior. Acessórios caros de uma vida que cultivara com todo o empenho e que lhe parecia agora mera tonteira dispendiosa. Mas o rouge, os brincos Paloma Picasso e o sutil fulgor dos diamantes Elsa Peretti ajudavam a disfarçar as noites de insónia e terror.

‘ Desta vez Winter percorreu todo o caminho até ao telheiro, embora o espaço ao ar livre fosse assustadoramente vasto e o céu parecesse preste a cair e esmagá-la. Entrou no telheiro com um pequeno grito de triunfo e apoiou a testa no tejadilho branco do carro.

“Talvez Chicken Little tivesse razão. É uma hipótese.”

Sentia o coração a bater desenfreadamente e, por instantes, esteve tentada a voltar para trás; já fizera muito num só dia, ninguém lhe podia exigir mais...



“Exceto eu. Eu posso exigir mais de mim própria...” E o tempo urgia.

Era uma ideia estranha, inexplicável, mas que levou Winter a abrir o carro e sentar-se ao volante. Quando meteu a chave na ignição, sentiu uma pontada de angústia: e se o carro não funcionasse?, se acontecesse qualquer coisa terrível?, mas fez por ignorá-la. Tinha de saber se era capaz de sobreviver fora do refúgio. Se não conseguisse dar conta do simples recado de ir às compras, mais valia telefonar para Fall River e pedir que fossem buscá-la.

Tinha de aprender a viver com as mortes imprevisíveis e terrificantes.

Entrou na estrada e, ao acaso, virou à esquerda; se Glastonbury não fosse naquela direcção bastava-lhe retroceder. Apontou o BMW para o topo da colina, onde as tabuletas de sinalização do cruzamento indicavam “Amsterdam County 4” e “Glastonbury: 6”.

Enquanto guiava, avistando de quando em quando o rio, Winter teve novos lampejos de memória. Glastonbury, estado de Nova Iorque, cidadezinha de nome grandioso, criada no século XIX para serventia da universidade local, à semelhança de outras vilas do distrito de Amsterdam. Tinha supermercado, posto de correios e até uma pequena sala de cinema, embora a maior parte das pessoas preferisse deslocar-se aos cinemas dos centros comerciais situados mais a sul.

Tudo isto eram informações acessíveis a qualquer pessoa, especialmente se tivesse alugado uma quinta e aí residisse algum tempo; a capacidade de relembrar estes pormenores reconfortou-a. Tinha conseguido vestir-se e guiar um carro; se realmente estivesse... doente... não seria capaz de fazer tudo isso, pois não?

À entrada de Glastonbury, a cidade pareceu-lhe familiar, como se já lá tivesse estado, mas as recordações eram vagas. A estrada municipal n.º 4 desembocava na rua principal, onde Winter, enquanto conduzia, foi lendo alguns cartazes: LIVRE ARBÍTRIO - UMA NOITE DE SHAKESPEARE E CANÇÕES PELO GRUPO DRAMÁTICO DE TAGHKANIC.

Nesta época do ano os estudantes da universidade encontravam-se por todo o lado; Winter reconheceu-os facilmente pela idade, pelas mochilas, pelos brincos nas orelhas e pelo estilo deliberadamente grunge, embora indiferente à moda, e não se sentiu minimamente identificada com eles. Parada num sinal vermelho, Winter observou com alguma nostalgia um casal que subia a rua de mãos dadas. O rapaz usava cabelo comprido, a cair sobre os ombros; a rapariga tinha a cabeça rapada à moicano; vestiam-se de forma idêntica, com botas industriais e sobretudos onze números acima da sua medida, e era óbvio que estavam apaixonados. Winter ficou a observá-los até virarem a esquina; depois concentrou-se no semáforo e no trânsito.

Este passeio era um teste de sobrevivência. Não podia dar-se ao luxo de sonhar acordada.

O supermercado ficava na rua principal; Winter estacionou com uma sensação de alívio e triunfo. Saiu do carro, sem se esquecer de trancá-lo, e ficou de pé, ao sol da tarde, a consultar a lista de compras que tinha na mão.



“Primeiro as mercearias. Depois... o talho, a padaria, a drogaria...”, pensou Winter, um pouco atarantada.

Talvez fosse um pouco disparatado comprar pão industrial no supermercado, quando tinha uma padaria de produtos biológicos ao virar da esquina. Meia hora depois, cumprida metade das tarefas que se impusera, Winter arrumou as compras no porta-bagagens do carro: sopas instantâneas, comida enlatada, fruta e sumos, e diversos produtos para limpeza e lida da casa que foi descobrindo nos armários da loja, embora não se tivesse dado conta da sua necessidade quando elaborara o rol das compras. Sentindo-se cada vez mais desembaraçada, fechou a mala do carro e dirigiu-se à padaria; a loja ficava logo a seguir à esquina, conforme lhe dissera o empregado da caixa registadora; como se fosse perfeitamente normal pedir tais informações; como se não se passasse nada de especial.

Num impulso, Winter deteve-se numa loja de bebidas, hesitando entre um Bordeaux e um Nouvelle Beaujolais. Finalmente optou por uma garrafa de Burgundy branco e outra de Califórnia Zinfandel e seguiu rua acima com os embrulhos debaixo do braço. Não teve dificuldade em encontrar a padaria, onde comprou uma dúzia de scones com passas e um pão redondo de sete cereais, com aspecto de conter vitaminas suficientes para alimentar um batalhão de fuzileiros. À medida que fazia as compras, as recordações da sua antiga vida, da sua vida de mulher independente, reforçavam-lhe a vontade de cumprir os seus planos na íntegra. Estava tudo a correr bem. Havia de fazer por se desembaraçar bem até ao fim.

Ao sair da padaria foi atraída por um letreiro luminoso do outro lado da rua. Na montra, três ânforas de vidro transparente com pés metálicos, contendo líquidos de cores vivas: azuis, vermelhos, verdes: era uma ervanária, com as montras cheias de mezinhas antigas e produtos farmacêuticos.

Winter deixou-se ficar em frente das vitrinas, a observar.

Era espantoso o que as pessoas podiam comprar sem receita médica na viragem do século: ópio, morfina, cocaína, acondicionados em garrafinhas azuis ou ocres, ou em caixinhas com etiquetas escritas em caligrafia arcaica. Extrato de cannabis. Tintura de arsénico. Assa-fétida. Cianeto.

Winter desviou a atenção das mezinhas bizarras para as prateleiras mais recuadas, repletas de derivados químicos modernos. Dirigiu-se hesitantemente para a porta. Haveria alguma droga que a curasse dos medos e dos pesadelos; que lhe permitisse dormir a sono solto e regressar à sua vida normal em Nova Iorque?

Não. Winter abanou a cabeça, desanimada. Nenhum daqueles produtos lhe serviria de ajuda; se os comprimidos brancos e pretos que lhe tinham receitado (e que a deixaram desorientada e confusa dias a fio quando deixara de tomá-los) não tinham servido de nada, para que serviriam aspirinas e Sominex?

Mesmo o Seconal e o Thorazine não tinham impedido as mortes...

“Não sei como é que ela faz aquilo.” Recordava a voz irritada das duas enfermeiras metidas à conversa na sala de estar da suíte de Winter em Fall River. Talvez elas não soubessem que ela estava no quarto, com a porta aberta. Ou talvez soubessem e não se ralassem com isso.

— Encontraste outro? — indagou a outra voz.

— Encontro-os por tudo quanto é sítio; o Dr. Luty dá-lhe doses cavalares de calmantes, mas mesmo assim ela consegue levantar-se durante a noite.

— Achas que sim?

— Não vejo outra hipótese. E eu sei muito bem que ela não foge a tomar os medicamentos. Ainda por cima somos nós que temos de limpar a sujeira; bolas, não é a Luty nem a Atheling. A cabra devia ter mais consideração por nós.

— Pois é. Ela diverte-se à nossa custa.

Os lampejos de memória diluíram-se, deixando Winter a tremer. Ainda sentia o estômago enovelado pelo desprezo das duas mulheres, das quais nunca chegou a saber os nomes.

Não fizera nada para provocar tanto ódio.

Nada de que conseguisse lembrar-se, pelo menos.

Sempre a tremer, Winter apertou com força os sacos das compras e percebeu que tinha sobrestimado a sua própria resistência e estabilidade emocionais; seria melhor regressar ao carro e fugir dali enquanto ainda estava em condições de guiar até a casa.

Olhou para o ponto donde viera, avaliando a distância.

Era muito longe, mas se descesse a rua a direito havia de ir dar ao parque de estacionamento do supermercado.

Mas, seguindo em frente, tinha apenas meio quarteirão e depois a rua virava em cotovelo para outra rua, deixando-a ainda mais longe do carro. Sentiu-se doentia, enjoada, como se tivesse estado ao sol demasiado tempo, mas o sol primaveril não podia ter causado semelhante mal-estar. Winter olhou à volta, procurando reconhecer alguma coisa que lhe fosse familiar ou pelo menos encontrar um sítio onde pudesse descansar alguns minutos.

Por fim embrenhou-se no âmago da pequena cidade ribeirinha, afastando-se da rua principal. Encontrou ruas mais estreitas, com pitorescas lojas antigas; as fachadas dos armazéns alternavam com casas de habitação vitorianas reconstruídas e transformadas em espaços comerciais. Tinham um ar convidativo, mas tudo lhe parecia constituir um labirinto hostil destinado a afastá-la do conforto do carro e da casa.

Inspirou profundamente, procurando acalmar o crescendo de agonia e pânico. A solução mais simples seria pedir a alguém que lhe indicasse o caminho de regresso à rua principal.

Dirigiu-se à loja mais próxima. A tabuleta pendurada na fachada era de madeira gravada e pintada: uma lua cheia dourada a cavalgar um torvelinho de nuvens carmesins polvilhadas de estrelas. À esquerda da lua cheia tinham gravado, em letra gótica, “Inquire Within”. A montra também tinha um crescente rodeado de estrelas douradas; por baixo, num armário forrado de cetim vermelho, uma bola de cristal sobre estante carregada de arabescos, um tubo longo cheio de brilhantes, com uma minúscula estrela holográfica numa das pontas, e ainda um monte de brochuras coloridas com títulos do tipo “Como Fazer Magia Branca” e “O Domínio da Mente sobre a Matéria”. Uma livraria das organizações Nova Era.

Winter recuou como se tivesse visto um monstro saído do mais negro pesadelo. A sensação de enjoo que tinha estado a tentar abafar recrudesceu. Sentiu gotas de suor a escorrerem-lhe pela testa e teve de engolir em seco a náusea.

A tabuleta pendurada começou a dançar como se um vendaval a tivesse enlouquecido e, no entanto, o ar primaveril permanecia quente e quedo.

Winter desviou-se da tabuleta da loja, estarrecida e trémula.

O anúncio de sanduíches da loja ao lado estatelou-se no passeio, com um estampido. Winter gritou de medo, raiva e desespero. O pão e as garrafas fugiram-lhe dos braços, atingindo o chão com inaudita força.

As garrafas de vinho desintegraram-se em miríades de vidrinhos que, juntamente com o vinho, espalharam no passeio uma larga mancha brilhante. A vitrina da loja de sanduíches entrou em vibração por simpatia, com um som agudo que penetrou toda a rua.

Winter desatou a fugir.

Sem saber como, conseguiu encontrar o carro, mas quando lá chegou estava banhada em suores frios e tremia tanto que as chaves começaram a tilintar contra a porta do carro. Bailavam-lhe na vista manchas vermelhas e negras, a pele arrepiava-se em ondas de gelo e calor. O coração, desenfreado, martelava no peito.

— A senhora precisa de ajuda?

Winter rodopiou sobre si própria, com um gritinho.

— Afaste-se de mim! — gritou ela, empunhando as chaves como se fossem um crucifixo.

O chaveiro escorregou-lhe das mãos e caiu aos pés do rapaz, que vestia jeans coçados e uma camisola da Universidade de TAGHKANIC.

“Estou a ficar doida. Oh, meu Deus, estou a perder o controle...”

Começou a afastar-se, hesitou, e por fim pôs-se a olhar para as chaves caídas no chão.

— Eu só queria... — começou o rapaz a dizer.

— Vá-se embora! — gritou Winter.



“Antes que aconteça alguma coisa.” Sentia-se afogar em ondas de náusea; o coração pulsava com tanta força que lhe fazia bater os dentes; teve a impressão de estar à beira de uma apoplexia. Agarrou-se à maçaneta da porta do carro, esforçando-se por não desmaiar.

Tinha de sair dali antes que houvesse mais desastres, pois mesmo que Winter Musgrave fosse vítima inocente, tudo à sua volta era vitimado...

O rapaz retrocedeu, olhando-a com certo receio, e Winter deu um passo em frente para colher as chaves, mas desequilibrou-se e caiu de joelhos no asfalto; no mesmo instante viu que os letreiros da rua principal começavam a balouçar.

“Não... não... Não aqui; não outra vez... Eu tinha prometido...”

poderou-se dela um terror maior que o medo. Agarrou nas chaves com tanta força que as arestas de metal lhe sangraram a palma da mão; titubeante, ergueu-se pela força do desespero.

A chave traçou longo risco na pintura do carro antes de encontrar a fechadura, mas ela forçou-a a entrar, a dar a volta, e a porta, salvação e refúgio, abriu-se.

Winter atirou-se para o assento e fechou a porta do carro, balbuciando lamúrias.



“Salva... salva... salva...”, gaguejava um escaninho idiota do seu cérebro, mas era demasiado tarde, ela fora longe demais; no momento em que apoiou o dedo no botão do trinco da porta, o painel dos mostradores do carro explodiu em mil fagulhas.

Três horas mais tarde Winter encontrava-se ao lado dos restos carbonizados do carro, olhando desafiadoramente para os patetas, enquanto o camião dos bombeiros saía do parque de estacionamento e subia a rua. Ainda lhe doíam as mãos das pancadas que dera contra os vidros fechados do automóvel e tinha a garganta dorida de tanto gritar.

Alguém, provavelmente o rapaz que ela escorraçara, tinha chamado a Polícia; quando o xerife chegou, viu o fumo a sair da capota e do painel do BMW, e Winter, histérica, presa lá dentro. Todos os sistemas elétricos do carro, incluindo as trancas automáticas das portas e janelas estavam bloqueados; Winter encontrava-se encerrada dentro daquele compartimento estanque e progressivamente cheio de gases venenosos. O polícia rebentou o vidro à cacetada e puxou Winter para fora através da janela. Depois chegaram os bombeiros, que aspergiram tudo aquilo, substituindo o cheiro a borracha e couro queimados pelo pivete do pó químico.

Perante os rogos insistentes do polícia para que fosse ao hospital a fim de ser observada, Winter conseguiu recuperar certo auto-domínio. A simples ideia de ser levada para o hospital e, por conseqüência, de volta para Fall River bastou para lhe quebrar a espiral crescente de histeria e lançá-la num estado de pasmo emocional. Winter tinha a vaga noção de que aquele torpor era muito mais perigoso do que os gritos e as lágrimas, mas dominou-se e despediu os polícias, os bombeiros, os maqueiros, com os seus assustadores guarda-pós laranja e brancos, e por fim todos se foram.

O rugido de um motor potentíssimo, acompanhado do clangor de molinetes e correntes, despertou-a. Era um reboque azul e branco enorme, com um anúncio pintado de lado, a arco-íris, a dizer KELLY - GARAGEM E REBOQUE, que dava entrada no parque de estacionamento.

— Foi a senhora que chamou o reboque? — gritou o condutor por cima do ruído da máquina.

Winter ficou atónita a olhar para ele, depois virou-se para os restos do BMW, e só então se lembrou que tinha o porta-bagagens cheio de mercearias. O polícia nem se dera ao trabalho de consultá-la antes de chamar o reboque.

Sem esperar que Winter lhe respondesse, o condutor manobrou o reboque para a frente do BMW, parou e saltou cá para fora.

— Que aconteceu? — o homem vestia um fato-macaco cinzento, com uma placa de identificação a dizer DAVE, e tinha um ar comunicativo e amigável.

— O meu carro explodiu.

Winter estava à beira de se desfazer em lágrimas de exaustão, mas se não se controlasse deitaria tudo a perder; ora, ela abominava o falhanço tanto quanto os teólogos abominam a morte e o inferno.

Dave olhou para o carro.

— Um BMW? — disse ele, perplexo. — Nem sei se existe algum concessionário deste lado do rio... Ah, eu chamo-me Dave Kelly; sou eu o dono da garagem — e estendeu-lhe a mão, a cumprimentá-la.

Winter, vazia de reação, ficou imóvel por um instante, até despertar e lhe apertar a mão.

— Winter Musgrave. Vivo fora da cidade; as minhas compras estão todas dentro da mala do carro...

— Já sei, é a senhora que está a viver em Greyangels, não é? Não quer vir comigo até à garagem? Pode ser que o seu carro não esteja em tão mau estado como parece; mas se estiver mesmo mal, eu dou uma telefonadela ao Timmy Sulivan; ele e a irmã têm um serviço de táxis.

— Está bem. Faça como achar melhor — respondeu Winter.

Dave ajudou-a a subir para a cabina do trator. Ela afundou-se no assento e recostou a cabeça para trás, de olhos fechados, enquanto o mecânico prendia o guincho ao carro e o suspendia pela parte da frente. Winter estava desejosa de se recolher à segurança da quinta, de se fechar ao mundo, de regressar ao oblívio indiferente em que vivera.

Mas não podia fazê-lo. Era uma armadilha enganadora.

“Não há tempo...” Não podia ficar indefesa contra o que quer que fosse que andava a matar os animais.

Quer se tratasse de Winter, quer de outra coisa. Winter fechou os olhos.

— Nunca tinha visto uma coisa assim — disse Dave, ao subir para a cabina. — Até parece que o carro foi atingido por um relâmpago: as velas fundiram-se dentro do motor; não sei como é que vou tirá-las dali. — Olhou para Winter. — A senhora sente-se bem?

Winter abriu os olhos a custo.

— Sim, estou bem.

“Não estou nada bem...”

A garagem de Dave Kelly ficava na periferia da cidade; era um edifício branco, cúbico; uma espécie de combinação de ferro-velho com bomba de gasolina. Nas traseiras tinha uma grande área repleta de carros: uns velhos, outros novos, além de pneus soltos, capotas, portas... Habilmente, Dave Kelly manobrou o reboque de forma a pôr o carro onde pretendia; depois soltou-o do guincho e desligou o motor.

— Parece-me que devíamos tirar as suas coisas do porta-bagagens e tratarmos de telefonar ao Tim. Vou levar um dia ou dois a avaliar os estragos do seu carro. Digo-lhe já que é melhor contactar o seguro... mas não me pergunte o que é que lhes há de dizer.

Winter acordou na sua própria cama várias horas mais tarde, faminta e estonteada. A casa estava escura; pela janela entrava o pipilar das aves noturnas. Winter, lamurienta, rolou na cama e estendeu o braço para acender a luz. As reconfortantes paredes apaineladas a carvalho revelaram a sua presença sólida. Retraindo os músculos entorpecidos, Winter pôs-se em pé e foi fechar a janela. Percebeu, pelo resmonear imperativo do estômago, que voltar para a cama e dormir não seria a melhor opção.



“Tenho de fazer qualquer coisa que se coma.”

Este pensamento despoletou outro.



“As minhas compras. Que lhes terá acontecido?”

Lembrava-se de ter chegado à garagem e da sua teimosia em não ir ao hospital, mas tudo o mais se perdia numa névoa parda. De alguma forma teria chegado a casa, mas com ou sem compras?

Cautelosamente, Winter vistoriou a casa, tremendo de frio. O aquecimento elétrico levaria uma eternidade a temperar as salas; tinha de arranjar ânimo para pôr a salamandra a funcionar e acender a lareira.

A origem do frio reinante dentro de casa revelou-se parcialmente quando ela chegou ao átrio: a porta da frente estava aberta, deixando entrar o luar juntamente com torvelinhos de folhas do jardim. Winter fechou a porta e correu o ferrolho. Por sorte não tinham aparecido intrusos, nem ladrões nem guaxinins, que ainda são mais destrutivos.

As mercearias que Winter comprara, havia uma eternidade, estavam na sala de entrada, como sentinelas adormecidas dentro de sacos de papel esfarrapados.

Irreflectidamente, Winter levantou um dos sacos; o resultado foi que o fundo do saco, já muito empapado, deixou cair todo o conteúdo, que rebolou e se espalhou por toda a sala. “Como conseguiram eles...?”

Não se lembrava de os ter carregado no táxi. Para dizer a verdade, nem se lembrava do táxi.

Vasculhou os sacos até encontrar um frasco de compota. Rodou a tampa, tirou um bocado com os dedos e provou. A doçura da fruta despoletou-lhe um formigueiro de sofreguidão por todo o corpo. Sem largar o frasco de compota, entrou a correr na cozinha, agarrou numa colher, atacou desalmadamente a compota e só começou a acalmar-se quando o frasco já ia em meio. Depois foi à torneira passar os dedos melados por água e voltou à sala de entrada, em busca de outro pitéu.

A maior parte da comida que comprara era enlatada; havia alguns congelados, mas esses já se tinham estragado. Despejou a massa empapada dos restos descongelados para dentro de um saco do lixo e foi guardar os restantes produtos na cozinha.

Feito isto, pegou numa lata de carne guisada e pô-la ao lume.



“O pão havia de me saber bem com isto. E o vinho.”

Sobressaltou-se interiormente com a recordação da ida a Glastonbury. Tinha esperança de que as conseqüências da excursão não excedessem a perda de uns quantos sacos de mercearias e o incêndio do carro. Imaginou uma turba de gente a entrar pela casa dentro, exigindo-lhe que regressasse a Fall River, se não a pior lugar, importunando-a, obrigando-a a expulsá-los furiosamente de casa. Ela nunca regressaria ao hospital; não, não queria! Não tinha feito nada de mal...

Mas que tinha ela feito? Ao certo, que acontecera? Tudo se passara havia poucas horas, mas Winter não tinha uma idéia clara dos acontecimentos. Tinha-se perdido e...

“Entrei em pânico”, confessou Winter a si própria, sem rodeios. “Foi o que aconteceu.”

“E o carro?”

“Foi uma coincidência”, respondeu Winter a si mesma.

Mas não fora.

Winter foi ao telheiro buscar mais lenha. Uma a uma, amontoou as achas na sala; depois acendeu a lareira. Quando os madeiros pegaram fogo, foi ao quarto carregar e acender a salamandra, comeu o guisado e até conseguiu descobrir um gole de brandy para pôr no café instantâneo: uma velha garrafa esquecida no fundo da despensa. Sentou-se em frente da lareira, a sorver golinhos da bebida quente, e ficou a ver as chamas bailarem, meio adormecida... as tabuletas das lojas a balançarem, os vidros das montras a tinirem...

“Não!” Despertou em sobressalto. Não podia dormir, não podia correr o risco de acordar e descobrir que acontecera qualquer coisa na quinta. Arrepiou-se com a recordação do esquilo. Se adormecesse de novo, sabe-se lá o que encontraria na manhã seguinte.

Porque era ela a responsável. Tinha de ter a coragem de admiti-lo. Não havia ali mais ninguém a quem deitar as culpas.

Nenhum ser humano poderia tê-la seguido de Manhattan para Massachusetts, para Glastonbury, sempre a matar animais e a depositar-lhe os corpos trucidados no limiar da porta. Era ela.

Era ela a autora de tudo aquilo.

Sentiu-se submergir numa onda de depressão e alívio, ao mesmo tempo.

“Aceita a culpa”, murmurava uma voz interior.

“É culpa tua, é tudo culpa tua. Não tentes encontrar explicações. Limita-te a aceitar a culpa...”

Winter soltou um longo, tremente suspiro de amargura.

Pois muito bem. Ela aceitaria a culpa; seria esse o primeiro passo na senda da cura, não é verdade? Mea maldita culpa!

Mas se era ela a causa, também podia ser ela a cura.

Ou não podia?

Na mesma busca que desvendara a garrafa de brandy, Winter tinha encontrado o que necessitava agora; por qualquer razão misteriosa, alguém armazenara 10 metros de corda de algodão na despensa da quinta; tinha sido uma idéia abençoada. Com a corda numa das mãos e a tesoura de cozinha na outra, Winter dirigiu-se ao quarto.

Como tinha acendido a salamandra na mesma altura em que ateara a lareira, o quarto já estava confortavelmente aquecido. Começou por mudar os lençóis da cama de ferro, optando por outros de flanela; ajeitou o cobertor e cobriu-o com a manta.

Depois virou-se para o rolo de corda.



“Não fui eu. Não fui.”

Mas não havia nem outra hipótese, nem mais ninguém por perto. Cortou um troço de corda e atou-a a um dos pilares da cama, apertando e voltando a apertar os nós até não haver forma de os desfazer. Pousou o resto do rolo na cadeira de balanço e enfiou cuidadosamente a tesoura por baixo do colchão. Depois deitou-se na cama.



“Pelo menos esta noite não vai acontecer nada.”

Corando de vergonha, embora ninguém estivesse a observá-la, Winter pegou na outra ponta da corda e atou-a à volta do pulso, com voltas e nós tão seguros como os que aplicara na cama. Puxou por ela, a confirmar a solidez. Não rompia nem desatava. Aliás, esperava-a uma esforçada sessão de ginástica na manhã seguinte, pois para sair da cama teria de alcançar a tesoura que estava debaixo do colchão, coisa impossível de fazer a dormir.

Se porventura caminhava durante o sono, e outra possibilidade não via, não o faria essa noite. Aliviada, Winter apagou a luz e adormeceu.



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