O pedófilo e o seu mundo Interno



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O Pedófilo e o seu mundo Interno
Considerações teóricas e clinicas sobre a análise de um paciente.
Franco De Masi

A característica fundamental do tratamento de pacientes pedófilos é a distância que separa analista e paciente. Por mais que o analista seja capaz de compreender e de ouvir empaticamente o paciente, o mundo da pedofilia lhe aparece, especialmente no inicio do tratamento, incompreensível e desoladamente distante.

Este trabalho descreve a terapia analítica de um paciente pedófilo.

A organização patológica que o domina é sustentada por um núcleo delirante no qual um objeto (uma criança ou um adolescente) idealizado e venerado como um ídolo, toma o lugar dos pais, prometendo um prazer sexualizado.

A evolução positiva desse caso nos leva a pensar que, se forem tratadas analiticamente, algumas formas de pedofilia podem ser passíveis de mudanças.
A única coisa respeitável de minha existência é meu nascimento. O resto não é adequado para ser publicado”.

Esta é a declaração feita ao seu biografo por Norman Douglas, um escritor inglês do século passado que viveu por longo tempo em Capri.

Douglas aludia à sua atração por rapazinhos e ao seu amor por um deles, com o qual conviveu por um longo período.

Uma outra declaração sua havia sido: “Circundados por crianças e rapazes: somente isto mantem a mente sempre jovem”.

Para o pedófilo (como Douglas) a criança, de fato, não é somente um ser sexualizado, mas também um objeto que traz consigo energia e vitalidade.
A pedofilia entre antigo e moderno
A verdadeira pedofilia parece, à primeira vista, distante da violência.

É sabido que em certas populações, em algumas épocas históricas, uma forma de pedofilia era permitida e podia até assumir um caráter ritualístico institucionalizado. Na Grécia era freqüente uma relação sexual entre homens adultos e adolescentes, dentro de uma experiência de crescimento espiritual e pedagógico. Enquanto o amor homossexual pelo adolescente era permitido, ao contrario era punida a homossexualidade promíscua com caráter pornográfico ou mercenário. Da mesma forma eram severamente punidas as relações sexuais com as crianças impúberes. De fato na relação amorosa a idade da criança não devia ser inferior aos 12 anos.

O fenômeno da pedofilia “aceita socialmente” acabou juntamente com o mundo grego e, atualmente, nos é completamente estranha em virtude da profunda transformação que houve, ao longo do tempo, na relação entre adulto e criança, especialmente por causa da mudança na concepção da sexualidade e da diferença entre gerações.

Para voltar ao problema da pedofilia como fato atual, é importante notar que o fenômeno novo, característico do mundo contemporâneo, é a organização social da pedofilia (e da perversão em geral) e não a estrutura mental que a sustenta.

O fato novo em nossos dias é o aspecto macroscópico que o fenômeno da pedofilia adquiriu. Na internet existem canais de oferta do produto, segundo os gostos e as preferências do cliente.

As organizações pedófilas, como está acontecendo para outras formas de perversão, aspiram sair da clandestinidade para poder se agregar e obter validação e consenso.

Este tipo de propaganda tem o objetivo de retirar a pedofilia da pratica solitária e, legitimando a escolha sexual dos adeptos, cancelar seu intento transgressivo e a culpa conseqüente.

Atualmente a pedofilia tornou-se um fenômeno difuso, com interesses comerciais e turísticos consolidados. O encontro entre o mundo industrial ocidental e a fome dos povos do terceiro mundo permite que a infância dos fracos seja violada sistematicamente em escala mundial. As imagens televisivas mostram meninas, vendidas pelos pais nos campos, ou meninos, prostitutos complacentes precocemente queimados na luta pela sobrevivência nas cidades, que oferecem seu corpo a grupos de ocidentais com os bolsos cheios de dinheiro.

Uma outra característica material da pedofilia é a quantidade de material erótico e pornográfico em circulação, que vai desde a editoria até a produção de vídeos.

A indiscutível visibilidade das condutas pedófilas e a maior atenção da mídia e da opinião publica ao problema (basta pensar nos fatos acontecidos na igreja católica dos Estados Unidos e, mais recentemente, na brasileira) deveriam levar, no futuro, a uma pesquisa de terapia analítica também para esse tipo de perturbação.

Este meu trabalho quer ser uma contribuição para possíveis experiências clínicas nesse campo.
Pedofilia e Psicanálise
Krafft-Ebing (1902) foi quem primeiro individuou a doença e cunhou o termo pedofilia erótica, subtraindo-a ao julgamento moral e ligando-a a uma predisposição mórbida.

O estatuto psicopatológico e o tratamento da pedofilia aparecem pouco na leitura psicanalítica.

Poucos são os trabalhos nos quais são descritas terapias de pacientes pedófilos (Karpman, 1950; Socarides, 1959; Glasser, 1988; Arundale, 1999).

Uma ampla panorâmica sobre a pedofilia está presente no volume monográfico do colega italiano Schinaia (2001) que discute amplamente as teorias psicanalíticas que podem estar ligadas à pedofilia e identifica suas expressões culturais presentes nos mitos, nas fabulas ou nas produções literárias.

Mais recentemente, um volume editado por Charles Socarides e Loreta Loeb (2004) aborda a terapia da pedofilia e traz casos de alguns pacientes que abusaram de crianças. Todavia, em alguns dos casos relatados, é difícil encontrar a configuração da verdadeira pedofilia. A principal característica de alguns pacientes parece ser uma estrutura mental simil-psicótica (um caso, inclusive, com uma internação psiquiátrica em virtude de um franco episódio psicótico) que foi colocada no centro do tratamento.

Freud parece ter pensado na pedofilia mais como um ato ocasional do que como uma verdadeira perversão.

Nos Três ensaios sobre a teoria sexual (1905) afirma que as crianças são objetos substitutivos para aqueles que não conseguem ter relações sexuais com outros parceiros, só excepcionalmente são o objeto sexual exclusivo. Todos seus primeiros casos clínicos estão repletos de episódios de sedução infantil realizada por empregados, babás ou parentes. Esta constatação pode tê-lo levado a pensar que a origem da neurose residia nos traumas sexuais infantis.

Uma das razões da reduzida literatura analítica sobre o assunto é que os pacientes pedófilos só raramente pedem espontaneamente uma terapia.

Também os tratamentos, prescritos na seqüência de medidas legais, são aceitos somente enquanto úteis alternativas à pena. Mas uma terapia não escolhida espontaneamente e que não permite uma inter-relação sistemática e profunda, freqüentemente mantém a área pedófila cindida e encapsulada. Portanto, também na presença de melhora de alguns aspectos da personalidade, tais terapias não garantem que a conduta pedófila não se repita.
Classificações
Em primeiro lugar, há o problema de como considerar a pedofilia.

O ato pedófilo pode ser único, um acontecimento excepcional que não tem nada a ver com a inteira personalidade de quem o realiza, ou deriva da estrutura da personalidade e tem tendência a se repetir?

O pedófilo pode ter relações sexuais também com adultos e conduzir uma vida conjugal aparentemente normal ou se dedica exclusivamente à relação erótica com a criança?

O ato do pedófilo de abuso sexual em relação ao menor implica sempre uma violência que, levada ao extremo, pode se transformar em agressividade criminosa? Ou, ao contrário, é necessário operar distinções entre criminalidade sexual sobre menores (da mesma forma com o que acontece para os crimes sexuais contra as mulheres) e verdadeira pedofilia que, por si só, está longe da violência?

O abuso sexual de menores não é sempre sinônimo de pedofilia, mas pode derivar de outras condições psicopatológicas (por exemplo, esquizofrenia e deterioramento mental). Fala-se, então, de pedofilia secundária.

Em uma pesquisa realizada junto ao Hospital Psiquiátrico de Castiglione delo Stivere (Jaria, 1969), dos 156 casos de pacientes abusadores, a metade era de deficientes mentais, seguiam os esquizofrênicos, depois os alcoólicos crônicos e, finalmente, pessoas com perturbações da idade evolutiva.

É claro que essas estatísticas levam em consideração pessoas que foram imputadas e condenadas e por tanto não são significativas para o problema do verdadeiro pedófilo que, hábil em evitar as conseqüências legais de seu ato, na maioria das vezes não chega a medidas judiciárias.

É importante, também, distinguir da verdadeira pedofilia, as violações sexuais que se realizam no interior da família.

Ainda que existam analogias profundas entre as duas condições (ambas anulam o tabu do incesto e a diferença entre gerações), o genitor que abusa da filha/o encontra-se, às vezes, em uma posição regressiva por causa de uma verdadeira doença psíquica.

Glasser (1988) observa justamente que o incesto comporta complexas dinâmicas intra-familiares que são completamente estranhas à pedofilia.


Podemos distinguir duas formas de pedofilia: a estruturada ou a ocasional.

Quando os objetos sexuais são unicamente crianças ou adolescentes falamos de pedofilia estruturada, que pode ser hetero ou homossexual.

Se o pedófilo conduz uma vida aparentemente normal e tem relações sexuais também com adultos trata-se de pedofilia ocasional, neste caso existe também certo grau de consciência e de culpa pelo ato pedófilo.

Todavia também nas formas ocasionais, tratadas em psicoterapia e na qual o ato sexual parece atuado em condições de estresse, podemos descobrir a existência de um imaginário pedófilo que trabalha sob a mascara de uma sexualidade aparentemente normal (Glasser,1988).

Socarides (1959) pensa que a pedofilia ocasional se manifesta mais facilmente na idade de meio ou no início da velhice, quando importantes mudanças psicológicas alteram as defesas contra os impulsos sexuais.

A Pedofilia pode se apresentar sozinha ou combinada com outras formas de perversão. A forma mais perigosa é a sádica.

Levando em conta esse último aspecto, eu distingo duas formas de pedofilia. a romântica e a cínica.

A pedofilia “romântica” se alimenta da figura idealizada e erotizada do menino/a. Norman Douglas, James Barrie, autor de “As aventuras de Peter Pan” e Lewis Caroll, que escreveu: “Alice no país da maravilhas” poderiam ser exemplos desse tipo de pedofilia. O mundo do pedófilo “romântico” está, de fato, centrado na vida dos menores seja no vértice afetivo seja no do imaginário erótico: o objeto de atração é mais frequentemente um adolescente, e não uma criança. Isso não significa que a pedofilia, nesses casos, se limite à sublimação da sexualidade: o seu resultado é sempre uma aproximação sexual concreta.

Um famoso exemplo literário de pedofilia “romântica” está presente no romance Lolita de Nabokov, no qual um professor universitário, bastante solitário e melancólico, se apaixona com um amor intenso pela adolescente Lolita. Ao descrever um encontro entre a dependência erótica do adulto e a esperteza da adolescente, Nabokov mantém ambíguo entre os protagonistas o papel de vítima. Lolita, uma moça rapidamente crescida em um mundo cínico e pequeno burguês, aparece muito mais couraçada do que o literato, completamente indefeso e submisso à sua paixão. Nessa forma de amor pedófilo, também o adulto pode terminar em uma na posição de vítima dominada.

Na pedofilia “cínica” a fantasia de base é sádica: O estado de excitação mental é alcançado somente imaginando possível maus tratos ou violências sobre a criança. O prazer não deriva do desejo sexual, mas de poder fazer tudo o que se quer sobre um objeto submisso. A criança, de fato, é mais adequada do que outros a se tornar o objeto da fantasia criminosa sádica. Frequentemente esse objetivo é alcançado utilizando fotos ou filmes do comércio ilegal pedo-pornográfico.

Podemos nos perguntar se, na pedofilia “cínica”, o sadismo representa um inconveniente que pode ser evitado ou se faz parte da dinâmica intrínseca da estrutura perversa da pedofilia. De um ponto de vista dinâmico, podemos intuir porque a sexualidade dirigida às crianças pode ser particularmente adequada para a instalação do sadismo. Se a criança é desejável porque submissa e psicologicamente indefesa, é possível, de fato, que a relação assimétrica (adulto-criança, dominante-dominado), que caracteriza a perversão pedófila, tenha um acréscimo em direção à excitação sádica.

Em todo caso, a pedofilia, mesmo sendo caracterizada pela assimetria da relação, qualidade que a aproxima do sadomasoquismo, não necessariamente leva ao prazer da violência sádica. É necessário operar, portanto, uma distinção entre as formas de criminalidade sexual sobre menores e a verdadeira pedofilia que, por si só, está distante da violência.

Mesmo que o ato sexual pedófilo constitua sempre um abuso, os pedófilos “românticos” mostram frequentemente aspectos altruístas ou capacidades educativas e criativas nas suas relações com os menores, em oposição aos “sádicos” que não tem nenhuma relação com as crianças e não sentem nenhum fascínio pelo mundo infantil.

Características do mundo pedófilo.
1) Na pedofilia a relação é “assimétrica”. O amor pedófilo pode ser considerado como uma defesa de uma relação com um objeto sentido como independente.

2) No pedófilo a idealização do corpo infantil ou adolescente se acompanha à aversão pelo aspecto físico e pelo mundo psíquico e emocional dos adultos. Tão logo aparecem no menor os caracteres sexuais secundários, a rápida e inesperada irrupção da corporeidade adulta destrói a idealização da beleza infantil.

3) O pedófilo quer ser um rapaz junto com outros rapazes no mundo das brincadeiras e da fantasia; como Peter Pan, quer parar o tempo e realizar o mito da eterna juventude.

Explica-se assim a natural tendência do pedófilo para as profissões que favorecem uma contínua freqüência do mundo infantil e adolescente. No seu imaginário os pais não existem: a criança é um “puer beatus”, auto-gerado e capaz de total autosuficiência.

4) Freqüentemente, os pedófilos foram crianças isoladas, que se sentiram excluídas pelos colegas da mesma idade, dos quais invejaram a vitalidade. Como adultos, desejam possuir aquelas mesmas crianças que admiraram e invejaram. A relação amorosa e sexual com a criança ou o adolescente exprime também uma fantasia de recuperação da vitalidade perdida ou nunca possuída.

Quem não se lembra do escritor Aschenbach, às voltas com a crise da própria criatividade e atormentado pela idéia do envelhecimento que, em Morte em Veneza de Thomas Mann, se apaixona pelo adolescente Tadzio?

Os pedófilos “românticos”, mesmo declarando serem os únicos a compreender as crianças ou os adolescentes, compreendem mal o mundo infantil porque o sexualizam: a intimidade e o calor infantil frequentemente são mal entendidos, encarados como um convite em participar do mundo sexual.

No caso da pedofilia, a sexualização da realidade psíquica poderia depender de traumas ou abusos sexuais infantis.

Frequentemente, todavia, o futuro pedófilo não sofreu violências sexuais. Pode, ao contrario, ter gozado de privilégios ou ter sido objeto de pressões sedutoras por parte de um ou de ambos os pais.

Não raro, os pedófilos foram crianças inteligentes, sensíveis e privilegiadas, que tiveram uma infância de conto de fada da qual saíram de forma traumática, em seguida à perda da confiança nos pais. Por causa disso, se refugiaram em um mundo sexualizado, fonte contínua de excitação e de sustentação.

A experiência de um retiro sexualizado infantil determina, inconscientemente, a crença do pedófilo de que toda criança esteja “normalmente” desejosa de experiências sexuais.

O paciente descrito por Arundale (1999) declarava que o seu desejo principal era o de fazer as crianças felizes e imaginava um país abençoado no qual era permitido ter relações sexuais com elas.

Gostaria, agora, de fazer alguns breves comentários sobre a origem da perversão em geral e da pedofilia em particular.

Os comportamentos perversos têm sua origem na infância. Eles exprimem uma dependência de um estado de excitação mental que não deve ser absolutamente confundido com o exercício da sexualidade relacional.

A sexualização, presente na perversão pedófila, é sustentada por fantasias auto-criadas em um estado psíquico de retiro, que altera a percepção da realidade psíquica e emocional e que adquire o caráter de uma dependência drogada. Desta forma, o pedófilo vê na criança e no adolescente um sujeito que deseja a sexualidade e se propõe continuamente como objeto sexual.

Geralmente, o comportamento sexual desviado se origina na primeira infância de crianças abandonadas, carentes e isoladas. Essas crianças se refugiam em um mundo fantástico sexualizado.

É este estado mental que mais adiante, juntamente com a desilusão que deriva do mundo dos adultos e a recusa a crescer, irá sustentar a evolução em direção à pedofilia.

Uma terapia analítica

Falarei agora de um paciente pedófilo, homossexual, cujas fantasias pedófilas estão intimamente ligadas às sádicas e masoquistas. A terapia analítica, conduzida com quatro sessões semanais e iniciada há quatorze anos, caminha agora para a sua conclusão.

Neste trabalho, vou me concentrar principalmente sobre a natureza da estrutura patológica que sustenta a pedofilia do meu paciente e descrever as transformações que aconteceram na análise.

O ponto de vista que proponho destaca a especificidade do trabalho analítico com este tipo de paciente e procura identificar o que deve ser analisado em primeiro lugar. Com isto não quero fazer uma distinção artificial entre o verdadeiro tratamento analítico (que tem como base a dinâmica da transferência-contratransferência, a interpretação das fantasias ou das identificações projetivas, etc.) e o tratamento “do núcleo pedófilo”.

Como assinalei antes, considero o mundo da pedofilia como determinado por um núcleo sexualizado, cindido do resto da personalidade, que tenta seduzir continuamente a parte sadia do paciente.

Subtrair o paciente ao poder dessa estrutura patológica representa a principal tarefa analítica. Dentro do mundo sexualizado que sustenta a pedofilia, o analista pode ser envolvido constantemente nas fantasias e nos sonhos do paciente, representando transferencialmente, a cada vez, as figuras parentais do passado, os objetos internos do paciente ou uma nova figura que pode facilitar o desenvolvimento de sua parte sadia.

Michele, assim chamarei o paciente, é um homem de trinta anos que tem como objeto de atração sexual crianças ou jovens pré-púberes aos quais dedica, além de sua profissão (como educador), também a maior parte de seu tempo livre. Ele está realmente atraído pelo mundo das crianças e dos adolescentes e extrai da presença deles um prazer vivificante. Apesar da presença de fantasias perversas que têm como protagonistas adolescentes com os quais se identifica, a idealização do mundo infantil e adolescente faz pensar em Michele como um pedófilo mais “romântico” do que “cínico”. Considero, entretanto, que sem a ajuda da análise também a componente “romântica” de Michele teria cedido, mais cedo ou mais tarde, ao domínio da componente “cínica”.

As fantasias sadomasoquistas remetem à primeira infância.

Ele lembra como, desde pequeno, conseguia alcançar estados de orgasmo mental mediante fantasias que tinham como tema histórias de submissão, feridas e sofrimentos.

A homossexualidade afirmou-se na adolescência, época em que se sentiu atraído sexualmente por companheiros da mesma idade. Nunca teve uma verdadeira relação e, durante algumas tentativas de relação sexual, descobriu-se impotente.

A atração pela pedofilia constituiu, talvez, uma solução para a derrota sofrida: em torno dos vinte e cinco anos tentou seduzir sexualmente um irmãozinho pré-adolescente e se apaixonou por um menino de dez anos, filho de uma vizinha.

Na infância, uma relação privilegiada com a mãe o colocou em uma posição especial em relação aos outros irmãos (uma irmã maior e outros quatro menores, entre os quais dois homens).

Na adolescência, esta relação entrou em crise quando a mãe, ela também atraída pelo mundo adolescente, desenvolveu uma ligação idealizada com um companheiro do filho, percebido também pelo paciente como muito bonito e desejável.

A partir desse momento o paciente se afastou dela com raiva. As relações com o pai, naquela época, já eram muito perturbadas.

Depois da primeira infância, aparentemente sem conflitos, o pai havia tentado educá-lo de forma autoritária, conduzindo-o em direção a uma posição de submissão rebelde, com uma mistura de sentimentos de medo e de perseguição.

Mesmo sendo uma pessoa adulta, capaz de desenvolver um papel intelectual e uma função de tipo social, Michele não tem contatos significativos com os adultos. Busca constantemente o encontro com crianças e adolescentes (sempre do sexo masculino) e se dedica a formar grupos de jogo, propondo-se como animador: são essas mesmas crianças ou rapazes que, depois, povoam suas fantasias sexualizadas.


A percepção de seu isolamento e o medo de ficar totalmente dominado pelas fantasias pedófilas e sadomasoquistas o levaram a pedir ajuda analítica.

Lembro o primeiro sonho de análise: “Um menino é raptado e levado para os bordéis do sudeste asiático. Quando volta está transformado: parece um idiota, uma criança-down.”

O conteúdo do sonho evidencia a angústia do paciente de não poder mais controlar a excitação sexualizada (o prostíbulo), percebido como um acontecimento perigoso e irreversivelmente destrutivo para a mente.

Por um longo período de análise, as sessões são dominadas pelas fantasias sexuais sadomasoquistas e pedófilas, descritas repetidamente e com minúcia de detalhes.

Uma fantasia típica, com muitas variantes, é aquela em que uma relação homossexual entre um adulto e um rapazinho se transforma em uma relação sadomasoquista na qual o paciente, identificado com ambos os parceiros, usufrui da complacência ativa do rapaz e das iniciativas sádicas do parceiro.

Fantasias desse mesmo tipo, sem nenhum disfarce, aparecem também nos sonhos, que parecem não ser muito diferentes das construções que o paciente faz no estados de vigília.

Por longos períodos, a sala de análise é literalmente invadida por sonhos que têm como ambiente antros escuros nos quais irrompem figuras monstruosas. Animais primitivos são cavalgados em uma crescente excitação, enquanto crianças são freneticamente despidas, penetradas ou sadicizadas.

É neste primeiro período que Michele desenvolve comigo uma transferência polemica e agressiva.

Especialmente, sou objeto de projeções maldosas e juízos ferinos sobre minha incapacidade de pensar ou sobre minha arrogância de adulto narcisista.

Se eu quisesse enquadrar a relação analítica dos primeiros anos de análise na ótica da transferência perversa, poderia dizer que Michele se inspira em uma técnica consolidada que consiste em projetar no interlocutor irritação e raiva até chegar a provocar neste uma reação contra-agressiva. Quando percebe ter alcançado o objetivo, ele se torna frio e racional e do alto de sua torre de marfim pode estigmatizar o comportamento do outro.

Na sua relação agressiva, ele sempre encontra alguém a quem atribuir toda responsabilidade e culpa. Na transferência o analista, no passado os pais, na vida cotidiana pessoas com as quais entra continuamente em conflito e que adquirem, quando representam a autoridade, o papel de perseguidores odiados e provocados com ostensiva inocência.

Ao longo da sessão demonstra uma especial capacidade em separar do contexto uma frase minha que, assim isolada e distorcida, aparece aos seus olhos particularmente oclusiva da compreensão, estúpida ou ofensiva.

Após ter identificado, desta forma, um evidente elemento de ofensa de minha parte, ele pode dar vazão a toda a sua polemica de vítima analítica, pode me atacar e me atingir sem piedade.

Como é fácil supor, este nó contratransferêncial não sempre é fácil de ser atravessado.

Michele parece possuir uma capacidade especial de criar, entre si mesmo e o outro, um clima de irritada desconfiança. A percepção da resposta silenciosa ou defensiva do interlocutor torna-se o ponto de partida para um novo ataque.

Devo dizer que, entre todos os pacientes que tive, este é um dos que colocou a dura prova a minha contratransferência.

Para dar um breve exemplo da forma perversa com a qual Michele transforma o outro em um objeto ruim, colocando-se na posição da vitima inocente, quero relatar sua resposta em seguida a uma comunicação minha quanto à necessidade de desmarcarmos uma sessão.

Por nada chateado com a minha comunicação, Michele pergunta as razões dessa mudança. Eu as forneço (trata-se de trabalhos de marcenaria que necessitam ser efetuados na sala ao lado da sala de análise e que tornam impossível a sessão por causa do transporte de material, além do barulho em si), mas ele se declara insatisfeito e insiste para que eu o informe sobre detalhes da operação. Quando lhe digo que me parece ter fornecido suficientes informações, ele se insurge me atacando e me acusando de lhe impedir o conhecimento ou de querer inibir sua curiosidade.

A escolha da resposta é um problema delicado da análise de Michele: a compreensão de seu estado mental deve conter uma posição firme que impeça a sua imposição arrogante sobre os outros (e, na transferência, sobre mim) e, ao mesmo tempo, analise o contínuo ataque a uma possível dependência boa de um objeto humano.

Mesmo sendo uma repetição da traumática experiência do passado, o rancor e o desprezo na transferência constituem também um ataque às figuras dos pais enquanto tais.

Em outras palavras, servem para a manter a idéia, própria da perversão e da pedofilia, de que os pais não existem ou, quando existem, são objetos denegridos e degradados (Chaseguet-Smirgel, 1985).

Os ataques aos pais (e ao analista na transferência) têm o objetivo de justificar e de exaltar o mundo pedófilo, superior a qualquer outro. Apesar da raiva consciente pela traição e pela pouca confiabilidade da mãe, o paciente está imerso no mesmo imaginário; assim como ela, está fascinado pelo mundo adolescente masculino, é atraído sexualmente por ele e, como ela, gostaria de seduzir adolescentes bonitos.

Michele, porém, absolutamente não está disposto a considerar o fato evidente da sua identificação com a mãe: qualquer interpretação nesse sentido provoca irritação e raiva.

A sexualização

A sexualização colore constantemente os sonhos e os relatos analíticos do paciente.

Em um sonho do terceiro ano de análise o paciente está junto com uma criança. Eles estão abraçados e rolam na neve. O paciente sente um prazer sexual: a condescendência da criança o excita e o prazer nasce de um sentimento de total acordo e capacidade de adaptação do objeto.

A frieza (a neve) e a condescendência certamente são uma referencia à ausência de emoções na compenetração corporal.

Assim o sonho alude à possibilidade de penetrar e de anular, esmagando o objeto embaixo de si mesmo: isto excita o paciente.

A “condescendência” psicológica do parceiro criança confirma ao paciente a sua superioridade e o seu triunfo sobre um objeto submisso e dominável.

Em uma sessão sucessiva, Michele fala de Nino, um menino com qual está fazendo uma brincadeira e que quer mostrar a sua habilidade no jogo.

Aos olhos do paciente, ao contrario, Nino tenta se exibir homossexualmente como objeto de prazer. Um esbarrar das mãos leve e casual torna-se, para ele, uma implícita solicitação homossexual; ele tem que retribuir, o rapaz não deve sofrer uma desilusão.

Para o paciente, Nino é uma reserva de prazer e felicidade. A homossexualidade pedófila surge como uma verdade revelada: é a verdadeira dimensão da vida.

Descrevi essa seqüência para destacar o quanto a dimensão pedofilia adquire, para Michele, o caráter de revelação estática.

O paciente fala do grupo de adolescentes como de uma entidade autosuficiente, uma mônada cheia de equilíbrio e sabedoria na qual, além do mais, o exercício da sexualidade não necessita de estranhos. Os rapazes, sábios e cheios de todas as boas qualidades, se masturbam e fazem sexo entre eles.

No estado mental sexualizado, o rapaz se torna um objeto que emana continuamente prazer. É equiparado ao seu pênis que está sempre à sua disposição e que se excita prontamente quando é estimulado.

O pênis ereto do rapaz pode ser chupado à vontade: todos os homossexuais o disputam.

É a excitação do mundo sexual-oral infantil, da avidez que permite vislumbrar a existência do país da alegria, da gratificação absoluta e inexaurível.

Para manter viva a excitação e alimentar o prazer, qualquer inclinação à bondade e ajuda ao objeto deve ser eliminada e sacrificada ao gozo do triunfo e da posse. A excitação nasce da certeza de possuir o objeto de prazer de forma exclusiva, dos sentimentos de domínio em poder usá-lo, incluindo uma cota de sadismo ao tocá-lo, beliscá-lo, atormentá-lo, senti-lo pronto aos seus comandos.

Para poder usufruir da sua fantasia, ele precisa se afastar do mundo e da presença dos pais e do analista; a existência destes diminui o nível do envolvimento mental e a vivacidade da fantasia perversa.

O caráter delirante do retiro pedófilo (“a outra realidade”) aparece em alguns sonhos que são verdadeiras construções psicopatológicas.

Em um sonho, por exemplo, aparece o irmão Antonio que o paciente tenta seduzir eroticamente. Antonio se afasta e se defende, então ele “materializa” um tapete voador no qual o convida a subir. O irmão sobe e torna-se imóvel e passivo, o paciente então chupa seu pênis ereto.

A transformação, que o paciente realiza através do “tapete voador”, coloca o objeto no mundo “outro” da sexualização e leva o paciente para uma dimensão acima da realidade.

Neste sonho (como em outros do mesmo paciente) o aspecto delirante e especifico da pedofilia é representado justamente pela transformação da figura do irmão que, representado inicialmente como uma pessoa viva e separada, torna-se um objeto passivo e sexualizado. A mudança acontece através da utilização do instrumento onipotente da fantasia (o tapete mágico que permite desafiar o princípio da realidade e voar).

Do meu ponto de vista, o sonho mostra também como opera a sexualização apagando a vitalidade e a autonomia do objeto e do próprio paciente.

Transformações em análise
Primeira Fase

Fazem parte deste período a contínua pressão propagandista para afirmar sobre mim a superioridade de seu mundo perverso assim como os momentos mais difíceis de um ponto de vista contratransferencial. O paciente me ataca também porque vê em mim um possível antagonista que pode privá-lo de seu mundo fantástico e excitado que o leva ao gozo do triunfo e da posse.

Para evitar o risco de ser também arrastado no circuito sadomasoquista, tento, nestes momentos, lembrar que Michele foi, desde a infância, uma criança sofrida e doente.

Como disse antes, a primeira parte da análise está constantemente dominada pelo poder excitante das fantasias pedófilas sadomasoquistas que aparecem tanto nas fantasias a olhos abertos quanto nos sonhos.

Logo que a análise começa, Michele pára de se masturbar, hábito que no passado havia alcançado formas de compulsão exasperada e que esteve presente desde a primeira infância.

Durante todo o primeiro período, entretanto, ele utiliza o sonho noturno para entrar na mesma dimensão masturbatória que ele se impede durante a vigília.

Nesse período o sonho não é um “sonhar” mas um “agir”.

Geralmente o “sonho” reproduz uma cena perverso-pedófila e se conclui com uma ejaculação noturna.

Como é fácil compreender, sonhos desse tipo não remetem simbolicamente a uma outra coisa: são verdadeiros acting.

Entretanto, também esses sonhos são importantes porque lançam uma luz sobre seu mundo interno, me permitem descrever ao paciente seus processos mentais: especialmente os conflitos, as seduções ou o prevalecer da parte perversa sobre aquela sadia do self.

Neste sentido, mesmo que o paciente geralmente ofereça poucas associações ao sonho, a sua produção onírica permite uma constante visualização de seu funcionamento mental e, mais adiante, torna-se um importante meio de comunicação que focaliza a função do analista no seu mundo interno ou, às vezes, esclarece a natureza de suas mudanças de perspectiva e de seus processos evolutivos.
De vez em quando emergem testemunhos de um self dilacerado pela crueldade.

Por exemplo, em um sonho deste período há um tubarão branco, capturado por um pescador. Do corpo dilacerado do peixe saem as espinhas, mas o pescador se recusa a matá-lo definitivamente porque quer levá-lo para casa vivo para comê-lo fresco1.

Através das associações emerge que o tubarão representa o self libídico, sadio e voraz. O sadismo pertence ao homem que se excita com a idéia de devorar carne viva.

Diferente do que acontece quando Michele entra no estado mental perverso, neste sonho ele exprime angustia e medo pelo seu self exposto à brutalidade sádica. A distinção entre perseguidor (o pescador) e vitima (o tubarão) torna-o sensível às emoções dolorosas e à percepção da crueldade.

O contato emocional, ao contrario, é eliminado quando prevalece a colonização perversa.

Sonha que: “Dois rapazes estão lutando. No final, um dos dois diz em voz alta que agora tem que se desinchar, referindo-se ao fato que precisa descansar; declara que irá chupar o seu próprio pênis ereto. O paciente se sente excitado, como se reconhecesse algo seu nas palavras do rapaz. Ao lado está o professor da academia que não intervém, considerando a declaração do rapaz algo de menor importância”.

Faço a hipótese que no sonho o rapaz represente a parte sexualizada que o excita e o conquista. O instrutor que não intervém representa um pai (o analista) emocionalmente ausente e indiferente ao perigo do retiro sexualizado.

Em uma sessão do quinto ano de análise, Michele descreve o quanto se sentiu marginalizado na casa de seus pais onde esteve nas férias, anulado pela comparação com os outros irmãos e irmãs que estavam com os relativos parceiros.

De noite, ele se refugia no banheiro e com uma fotografia que retrata adolescentes constrói uma fantasia excitada na qual um sátiro seduz o rapazinho.

O mundo muda e a realidade é só sexualizada: este mundo o captura e o conquista.

Nos dias seguintes essa mistura excitante ira acompanhá-lo, inflamando a sua mente e ele não será mais livre.

Durante a sessão o paciente lamenta ter dado início, mais uma vez, à experiência pedófila perversa.

Está desarmado: tem a impressão de ser como um organismo alérgico que encontra no ambiente um polém capaz de criar uma reação explosiva. Ele pode somente tentar evitar o agente alérgico, mas uma vez que o contato aconteceu, não pode combatê-lo.
Este último material caracteriza uma fase da análise em que começa a se tornar evidente o desejo do paciente de se subtrair ao poder do núcleo sexualizado pedófilo.

Neste período ele começa a entrever a existência de um rapaz que não se masturba, que não permanece em atividades orgiásticas e que mantém a sua mente aberta ao contato com o mundo. Em outras palavras, começa a surgir um self perceptivo que observa e que entra em conflito com a parte sexualizada.

Quando o paciente se subtrai ao fascínio da parte perversa pedófila, a evidência da sua loucura masturbatória o coloca em um estado de desespero.

Contemporaneamente, também o clima da relação analítica muda. Os ataques e as polemicas diminuem: o paciente parece estar menos colonizado pelo mundo da perversão e transferêncialmente menos impulsionado à polemica com as figuras parentais.


Segunda fase

No segundo período da análise (a partir do sexto ano) emerge uma nova configuração da fantasia pedófila.

Para ilustrá-la apresento uma sessão que antecede uma separação analítica de verão.

Michele fala do adolescente Mario que lhe pareceu evasivo e fugidio no momento se separar para as férias de verão.

Teve um sonho cheio de angustia: “Ele está sobre os joelhos desse adolescente em uma atmosfera de intimidade erótica e brincalhona. Aos poucos Mario se afasta dele e desaparece. O paciente se sente sozinho e desesperado”.

O paciente declara que a responsabilidade do desaparecimento do rapaz é dele: deveria ter-se ocupado mais dele, dedicado todas as suas energias para mantê-lo consigo.

Mario, diz o paciente, é sábio, conhece o segredo de viver e de ser alegre, a sua presença o teria tornado feliz; ele, o paciente, tem necessidade da sua constante proximidade.

A sua culpa reside no fato de não ter conseguido fazer todo o possível para mantê-lo consigo. O desaparecimento do rapaz aconteceu por sua responsabilidade.

Ouvindo o paciente me pergunto se ele não representou, no sonho, a angustia pela próxima separação analítica. Mas, dentro de mim, considero pouco plausível uma interpretação deste tipo.

Neste período da análise sei que Michele pode estar irritado pela separação de verão, pode traduzir sua ira em uma polemica lateral, mas não está angustiado.

Então faço a hipótese que a angústia presente no sonho não se refere à próxima separação analítica mas, ao contrario, descreve a experiência de uma criança que não tem mais condições de sustentar sua ilusão de possuir um seio alucinado que o nutre. A angústia deriva do desaparecimento do objeto de ilusão e da contemporânea ausência do objeto real.

É o rapaz que, no sonho, permite momentaneamente ao paciente uma boa experiência de acolhimento materno. Quando, porém, a experiência de suporte afetivo e de tenro contato físico acaba, Michele encontra a depressão primária.

O sonho parece remeter à fusão com um objeto ideal. Aqui a união não é erotizada, mas representa uma necessidade de suporte do self que impede a queda no desespero sem nome.

Intuo que o sonho descreve o mundo interno de Michele e fala da sua dependência de um objeto idealizado na fantasia.

No sonho, portanto, o objeto ideal perdido (ou, se preferirmos, o objeto-self) não é um substituto simbólico materno, mas um objeto de fantasia que está no lugar da mãe.

Digo ao paciente que ele deseja viver uma relação recíproca e significativa: isto o ajudaria a não se sentir tão terrivelmente inexistente para o outro.

No sonho há uma parte dele, criança não sustentada, que se refugia nos braços de Mario. Quem guia o outro ou quem tem necessidade de quem, e de quais necessidades se trata, torna-se muito confuso. Digo-lhe também que estar junto com o rapazinho em um retiro idealizado lhe impede de viver a relação comigo e de colocar a questão, antes que aconteça o afastamento de mim, se posso ser eu o objeto capaz de entender suas necessidades e de estar com ele durante a separação analítica.

No sonho, a ilusão de ser auto-suficiente e feliz na veneração do ídolo-rapaz decai e ele se sente acusado pelo objeto idealizado de ser a causa da sua desgraça.

O ídolo, diz o sonho, exige submissão e dedicação total, se você o perde cai na infelicidade e é culpado.

Terceira fase

Também neste período o paciente continua passando quase todo o seu tempo livre com o grupo de adolescentes de sexo masculino, compartilha com eles a vida e quer ser um deles. A necessidade de estar inserido no grupo dos rapazes é continua, a sua ausência desvitalizante.

Também me dou conta que a busca de uma relação exclusiva com os rapazes lhe serve contemporaneamente para reforçar a sua identidade masculina. De fato, na adolescência Michele tinha-se auto-excluído do grupo dos meninos da mesma idade e tinha ficado em contato somente com figuras femininas (a mãe e algumas colegas da escola). Em suas palavras, havia-se “feminilizado”.

Além disso, a convivência com os rapazes, nos quais são evidentes os conflitos, incertezas ou crenças ingênuas, contribui para diminuir sua idealização do mundo adolescente.

Neste período, a relação analítica se reforça: cada vez mais freqüentemente o paciente se dirige a mim como alguém que pode ajudá-lo a se entender e a entender o mundo.

A fantasia sexualizada aparece novamente em relação às vicissitudes da transferência e nos momentos de conflito.

Por exemplo, durante uma minha breve e imprevista ausência, sonha que “pega uma varinha chinesa e bate no seu pênis, enquanto o analista aparece com uma expressão confusa”. Mas, logo depois “procura sites pedófilos na Internet, mas aparece o analista que o protege, enquanto vislumbra uma pequena chama que ilumina a sala”.

No primeiro sonho, o retiro sexualizado aparece novamente como defesa onipotente que deveria apagar a percepção da falta do analista, que é equiparado a um pai desatento e confuso. No segundo, a presença do analista no mundo pedófilo testemunha que o retiro masturbatório tem uma maior permeabilidade e permite um certo grau de consciência. Neste período é muito mais fácil que Michele perceba quanto o retorno do fascínio da relação pedófila é sustentado pela identificação patológica com a mãe (coisa que no inicio da terapia ele rechaçava com força).

O retorno da fantasia perversa aparece também em outras situações de frustração. Por exemplo, entrando em conflito com um adolescente filho de amigos, constrói uma fantasia na qual este rapaz está deitado em um porão, pronto para ser abusado por adultos.

O elemento novo, que começa a entrar nas sessões, é representado pelo fato que a fantasia perversa pode ser gradualmente compreendida e privada de seu poder invasivo durante a própria hora analítica.

A saída definitiva do mundo da pedofilia coincide com o seu apaixonamento por um objeto real e vivo, um rapaz de dezoito anos.

Pela primeira vez em sua vida Michele vive uma relação amorosa, sem fantasias sexualizadas, dirigida a um objeto separado e real.

Este seu primeiro apaixonar-se, cultivado em segredo, o expõe porém a tempestades emocionais desestabilizadoras.

A perda do rapaz, que em certo momento se afasta dele, determina um prolongado período de dor psíquica, agudo sofrimento somático (insônia e anorexia), depressão e pânico.

A experiência do sofrimento e da desilusão, compartilhada na relação analítica, leva Michele a uma maior emancipação do mundo dos rapazes.

Daquele momento em diante, de fato, começa a valorizar a relação com os adultos, considerados mais confiáveis e menos decepcionantes que os adolescentes.

Nas amizades com pessoas de sua idade começam a aparecer também algumas figuras femininas.

A ligação com este jovem, que constituiu para o paciente uma experiência inédita, ajuda o paciente a reconhecer a existência de um mundo afetivo antes negado em todos os níveis.

Ele continuará a pensar nessa relação como em algo que pode ser mantido na lembrança de forma estável e pode constituir a chave para compreender o significado da experiência amorosa antes incompreensível porque desconhecida.
Poderíamos afirmar que, atualmente, o terreno pedófilo foi bonificado. O rosto do rapaz, que antes sugeria confiança, ternura e amor, também sexual, não desaperta mais fantasias deste tipo.

Para o paciente tornou-se mais remuneradora a relação com os adultos da sua idade.

Na relação analítica a dependência emocional de mim é estável e não é mais negada pela fantasia de fusão com o adolescente. Mesmo não tendo sido completamente eliminado, o poder do mundo pedófilo diminuiu muito. Agora o paciente é capaz, quando a fantasia pedófila novamente aparece, de ligá-la ao objeto e à constelação emocional que a gerou, compreendendo seu significado defensivo ou agressivo.

O mundo pedófilo permanece como um resíduo do passado, que não é possível remover da memória e que poderia ainda tornar-se atual, mas está bem balanceado e contido pelas partes conscientes que se desenvolveram.

O paciente afirma que ele se potencializaria somente na presença de “professores ruins”, isso é, se ele abolisse novamente as ligações da mente com a realidade emocional. Então, poderia ser novamente aprisionado no mundo claustrofóbico da pedofilia.

Mas não crê mais no poeta medieval que proclama que estar no “castelo com Ganimede” é um privilegio em relação à sexualidade normal.


Considerações
Creio que a pedofilia possa ser considerada uma perversão sexual com caracteres específicos.

As perversões são caracterizadas por um retiro psíquico onde uma fantasia sexual é central para alcançar o prazer masturbatório.

A fantasia de base e a forma de realizá-la podem ser diferentes (no sadomasoquismo, no exibicionismo, no travestitismo, no fetichismo, na pedofilia etc.), mas o objetivo excitatório e masturbatório permanece o mesmo.

A fantasia sexualizada, que se instala precocemente na infância do futuro perverso, bloqueia o desenvolvimento da parte sadia da personalidade atirando-a na experiência do prazer drogado (De Mais, 1999).

Do meu ponto de vista, a perversão pedófila é sustentada por um especifico núcleo delirante, uma misconception (Money Kyrle, 1951), uma organização patológica do mundo interno, em que um objeto altamente idealizado, venerado e tratado como um ídolo, toma o lugar dos pais.

Este núcleo, cindido do resto da personalidade, se apresenta como única fonte de gratificação e exerce um fortíssimo poder sobre o paciente, orientando e colorindo qualquer manifestação de sua vida.

A cisão entre retiro sexualizado e o resto da personalidade é bem descrita no caso apresentado por Socarides (1959).

O seu paciente, gravemente traumatizado na infância, vivia duas vidas separadas. Em uma, que denominaremos A, percebia-se como uma pessoa gentil e capaz de relações. Quando era invadido pela angustia, transformava-se em B, cujo único objetivo era o de possuir sexualmente uma criança. No desempenho sexual o parceiro deveria permanecer imóvel e não sentir nenhum prazer. Quando se tornava B, o paciente era completamente inconsciente da existência de A.

A cisão entre as duas partes lhe permitia de conduzir o acting pedófilo de forma a nunca entrar em conflito com ele.

Também no caso relatado por Glasser (1988) o paciente tinha duas modalidades de experiência pedófila. A primeira, centrada na beleza do adolescente, o levava a venerar a figura do rapaz. A segunda, completamente sexualizada, lhe indicava a penetração anal do rapaz como a forma de alcançar um orgasmo permanente.

Também o meu paciente apresentava uma cisão análoga entre aspectos idealizados e sexualizados.

Mas, no meu caso, a fantasia pedófila não intervinha para aplacar a angústia, mas fazia parte de uma sofisticada e complexa construção da ilusão.

No curso da análise, a crença (misconception ) da existência de um bem estar absoluto no mundo da “rapazidade”, foi defendida pelo meu paciente com implacável determinação e esteve no centro de acaloradas polêmicas comigo.

O paciente queria ter, em mim, alguém que acreditasse e se entusiasmasse por este mundo que se apresentava inefável e rodeado por uma atmosfera de prazer em todos os níveis. Para sustentar a realidade da sua construção delirante eu tinha que compartilhar a sua mesma ilusão.


Poderíamos nos perguntar qual pode ter sido o impacto negativo que o levou para a idealização do mundo infantil, que adquiriu para ele um caráter de ilusão tão intensa.

Algumas concatenações familiares traumáticas podem tê-lo levado ao mundo da pedofilia.

A mãe, que na infância tinha estimulado as expectativas narcísicas de Michele, depois o havia traído na adolescência, apaixonando-se por um rapaz da mesma idade do filho.

Na análise, o paciente tinha se tornado aos poucos consciente de que a traição materna estava na base da orientação homossexual e da sua aversão pelo mundo feminino.

Juntamente com o mundo feminino materno tinha sido desvalorizado também aquele masculino paterno.

Michele lembrava de um pai que exigia submissão e que o submetia a sistemáticos castigos. O ódio pelo o pai, talvez, era ainda mais profundo daquele nutrido pela mãe.

O único mundo que sobreviveu e foi idealizado foi o infantil-adolescente.

Era o mundo feliz da sua infância, das brincadeiras e das fantasias. Este mundo único tinha sido rigidamente contraposto ao mundo adulto.

O rapaz era imediatamente considerado perdido e afastado quando crescia e quando em sua fala começavam a surgir as garotas. Michele não entedia porque, atraído por figuras femininas, o rapaz se afastasse do grupo monossexual de adolescentes.

Destaquei várias vezes o fato de existir, na área da pedofilia de Michele, um elemento (romântico) que nascia da idealização do mundo infantil. De fato, era possível captar neste âmbito alguns aspectos bons-idelizados da sua inclinação para o mundo infantil, ainda que esses mesmos elementos implicassem em uma percepção alterada da realidade psíquica.

O elemento mais propriamente perverso da pedofilia estava em estreita conexão com o retiro sexualizado da infância e incluía a fantasia sadomasoquista em que um objeto submisso participava ativamente do prazer do parceiro.

Uma das fantasias mais freqüentes deste período era a de poder cavalgar um cavalo que no fim caía pelo cansaço, imolando-se ao seu poder e ao seu comando. Desta submissão altruística do animal, que ficava exaurido pelos comandos do dono, o paciente extraia um enorme prazer sensual.

Esta série de fantasias infantis, alimentadas ao longo do tempo e constantemente remodeladas e enriquecidas nos anos sucessivos, explicam o afirmar-se da perversão sadomasoquista da idade adulta.

Tecnicamente, pareceu-me muito importante manter separados e distintos os dois aspectos, o perverso e o idealizante, reconhecendo neste último alguns elementos relacionais passíveis de desenvolvimento.

À medida que o processo analítico avançou, a relação entre a parte sexualizada e a ideal foi se modificando em favor da segunda.

Do primeiro período, caracterizado pela excitação drogada sadomasoquista, chegamos ao segundo, no qual prevaleceu a idealização e a independência fusional do mundo infantil (em parte usado com função anti-analítica), para chegarmos no terceiro, no qual o paciente adentrou de forma estável no mundo psíquico e emocional.

Creio que essa transformação foi possível pelo fato de eu me colocar constantemente ao lado do paciente para investigar suas fantasias perversas para ajudá-lo, sessão após sessão, a distinguir entre partes sadias a serem desenvolvidas e partes sexualizadas a serem contidas e transformadas. Esta minha posição coincidiu com uma constante preocupação de minha parte pelas áreas confusionais, que deviam ser constantemente e repetidamente analisadas.

O risco der ser identificado com um genitor ausente e confuso (assim estou representado no penúltimo sonho descrito) estava sempre presente e podia tornar-se concreto na presença de respostas analíticas pouco descriminantes.

Lembro que em uma sessão Michele havia trazido a fotografia de um time de adolescentes que estava se preparando para um jogo de futebol. Dois desses rapazes apareciam com as mãos diante dos genitais e esta posição era para o paciente a prova de que todos adolescentes se masturbam entre si. A veemência polêmica do paciente em relação a mim (eu era equiparado a um interlocutor que negava essa sua afirmação) tinha sido, naquela sessão, de tal ordem a ponto de inibir meu pensamento.

Banalizei a questão até observar, en passant, que aquela posição podia ser completamente casual.

No dia seguinte Michele voltou à sessão ainda mais bravo. Atacou-me dizendo que eu havia sustentado que era normal se masturbar, que todos os rapazes o faziam, que eu era como sua mãe que o convidava a se masturbar (na realidade a mãe, quando ele tentava explicar-lhe o prazer que sentia com a masturbação, lhe respondia que masturbar-se era normal para todas as crianças).

Creio que nesse caso o paciente tivesse razão em me atacar. Eu não tinha entendido o problema da sessão anterior e havia me comportado como uma mãe distraída e que confunde. Havia lhe fornecido uma resposta banal que tinha sido tomada por ele como um convite à masturbação, enquanto ele tinha necessidade de me sentir completamente como um pai que entende a experiência da criança, mas não apóia sua visão sexualizada.

Este fragmento clínico mostra como foi importante dar ao paciente uma experiência na qual a boa e a má sexualidade são separadas de forma clara.

Devo observar também que, enquanto na primeira sessão o paciente tenta me colonizar com sua propaganda sexualizada (daí a minha reação contratransferêncial inadequada), na sessão seguinte se apresenta com a parte sadia que se contrapõe à parte sexualizada que foi projetada, com sucesso, em mim.

Os dois aspectos estão cindidos e em ambas as sessões eu represento uma das duas partes, (ou a sexualizada, ou a sadia), projetadas fora dele.

Neste sentido considero que, paralelamente à crença de poder prescindir da dependência analítica porque possuidor do objeto idealizado (como aparece no sonho do adolescente Mario), Michele havia desenvolvido, desde o início, uma enorme dependência psicológica de mim, que pode ser explicada como a necessidade extrema de se libertar de zonas de confusão, vividas inconscientemente como perigosas produtoras de loucura (neste sentido, o primeiro sonho da análise é muito significativo).

Foram necessários longos anos de trabalho para permitir ao paciente de se subtrair ao poder da área sexualizada e de se abrir ao crescimento emocional no interior da relação analítica.

Quando isso aconteceu, me dei conta de como o estado de retiro sexualizado tivesse realmente despojado a sua mente, tornando-lhe difícil percorrer o mundo das relações afetivas.

De fato, essa passagem o encontrou completamente despreparado e o expôs a tempestades emocionais desequilibrantes.
Conclusão
Por causa do poder toxicômano do núcleo sexualizado, a terapia das perversões pedófilas é longa e trabalhosa. A característica fundamental desse tratamento é a distancia inicial que divide os dois protagonistas.

Por quanto o analista possa estar disponível a entender e a ouvir empaticamente o paciente, o mundo da pedofilia lhe aparece, no inicio, incompreensível e desoladamente distante.

Para fazer com que a esperança de uma possível transformação não seja anulada pelo cinismo e pela prevaricação com a qual o paciente defende sua posição, o analista precisa conservar, por longo, tempo um equilíbrio e um interesse constante pelos mistérios e pela particularidade do mundo pedófilo.

Nós não estamos completamente desarmados, na terapia da pedofilia, se conseguimos “entendê-la” bem.

A evolução desse caso levaria a pensar que, se tratadas analiticamente, algumas formas de pedofilia podem ser passiveis de mudanças.

Devo também destacar, entretanto, que no caso de Michele a atração em direção ao mundo da pedofilia se acompanhava, desde o início, com a angustia de vir a ser totalmente colonizado por essa atração e de se perder. Este elemento, que considerei um prognóstico positivo, pode não estar presente em outros casos de perversão pedófila.


Nesta contribuição, tentei focar a relação analítica e a evolução do núcleo pedófilo do paciente, sem poder descrever detalhadamente o trabalho analítico dedicado à estrutura da sua personalidade, das suas angustias psicóticas e da sua inclinação para relações sadomasoquistas, que impregnaram a transferência analítica por longo tempo.

Uma atenção especial foi dada à sua forma especifica de homossexualidade, que implicava uma recusa e um ódio absoluto pela figura feminina.

Por outro lado, não creio que estes aspectos sejam específicos da pedofilia, que pode se inscrever em estruturas de personalidade muito diferentes, como aparece na literatura sobre o assunto e como notei em outros casos que pude observar.

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1 Este sonho está relatado também na pág. 111-112 do meu livro “ A perversão sadomasoquiosta. O objeto e as teorias” (1999) .






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