O homem Espiritual



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A Carne



1. A carne e a salvação


A palavra «carne» é basar em hebreu e sarx em grego. É usada com freqüência na Bíblia e de diversas maneiras. O sentido mais significativo, observado e esclarecido nos escritos do Paulo, faz referência à pessoa não regenerada. Falando de seu velho «eu» diz em Romanos 7: «sou carnal» (v.14). Não simplesmente é carnal sua natureza ou uma determinada parte de seu ser. O «eu» — todo o ser de Paulo — é carnal. Reforça este pensamento no versículo 18 ao afirmar: «dentro de mim, quer dizer, em minha carne». Se deduz claramente que «carne» na Bíblia assinala a tudo o que é uma pessoa não regenerada. Em relação a este uso de «carne» temos que recordar que no princípio o homem foi feito espírito, alma e corpo. Como é a sede da personalidade e da consciência do homem, a alma está relacionada com o mundo espiritual por meio do espírito do homem. A alma deve decidir se tem que obedecer ao espírito, e por conseguinte estar unido a Deus e à sua vontade, ou se tem que ceder diante do corpo e de todas as tentações do mundo material. Na queda do homem, a alma se opôs à autoridade do espírito e ficou escravizada ao corpo e suas paixões. Deste modo o homem se converteu em um homem carnal, não em um homem espiritual. O espírito do homem foi despojado de sua nobre posição e foi rebaixado à de um prisioneiro.

Posto que agora a alma está sob o poder da carne, a Bíblia considera que o homem é carnal. Tudo o que é anímico se tornou carnal.

Além de usar «carne» para designar a tudo o que é uma pessoa não regenerada, às vezes também se usa para denotar a parte branda do corpo humano como distinta do sangue e dos ossos. Também pode ser usada para referir-se ao corpo humano. Pode ser usada em outras ocasiões significando a totalidade da humanidade. Estes quatro significados estão estreitamente relacionados.

Assim, deveríamos destacar brevemente estas três outras maneiras de usar «carne» na Bíblia.

Primeira, «carne» referindo-se à parte branda do corpo humano. Sabemos que um corpo humano é composto de carne, ossos e sangue. A carne é a parte do corpo por meio da qual percebemos o mundo que nos rodeia. Por conseguinte uma pessoa carnal é uma que segue ao mundo. Vai ter simplesmente carne, vai atrás da sensação de sua carne.

Segunda, «carne» referindo-se ao corpo humano. Em termos muito amplos significa o corpo humano tanto vivo como morto. Segundo a última parte de Romanos 7, o pecado da carne está relacionado com o corpo humano: «vejo em meus membros outra lei em guerra com a lei de minha mente que faz-me cativo da lei do pecado que vive em meus membros» (v. 23). Em seguida, o apóstolo continua no capítulo 8 explicando que se queremos vencer a carne devemos «dar morte às ações do corpo» por meio do Espírito (v. 13). Por isso a Bíblia usa a palavra sarx para indicar não só a carne psíquica mas também a carne física.

Terceira, «carne» referindo-se à totalidade da humanidade. Todos os homens deste mundo são nascidos da carne, e em conseqüência todos são carnais. Sem nenhuma exceção, a Bíblia considera todos os homens carne. Todo homem é controlado pela composição da alma e do corpo que chamamos carne, e vai atrás dos pecados de seu corpo e do eu de sua alma. Por isso sempre que a Bíblia fala de todos os homens, sua frase característica é «toda carne». Em conseqüência, basar ou sarx se referem aos seres humanos em sua totalidade.

Como o homem se torna carne?


«O que nasce da carne é carne.» Assim o afirmou Jesus a Nicodemos faz muito tempo (Jo. 3:6).

Há três perguntas que ficam respondidas com esta concisa afirmação:

1) o que é a carne;

2) como o homem se torna carne; e

3) qual é sua categoria ou natureza.

1) O que é a carne?


«O que nasce da carne é carne.» O que nasce da carne? O homem. Por conseguinte o homem é carne, e tudo o que o homem herda de seus pais pertence à carne.

Não se faz distinção de se o homem for mau, ímpio, estúpido, inútil e cruel. O homem é carne. Todo o que o homem tem ao nascer pertence à carne e se encontra dentro desse mundo. Tudo aquilo com que nascemos e o que desenvolvemos posteriormente fica incluído na carne.


2) Como o homem se torna carne?


«Todo o que nasce da carne é carne.» O homem não se torna carnal aprendendo a ser mau com uma prática progressiva do pecado, nem entregando-se a atos licenciosos, ávido de seguir o desejo de seu corpo e de sua mente até que finalmente todo ele é vencido e controlado pelas más paixões de seu corpo. O Senhor Jesus afirmou com ênfase que uma pessoa é carnal assim que nasce. Isto não é determinado nem por sua conduta nem por seu caráter. Há uma coisa que é decisiva neste ponto: de quem nasceu? Todo homem deste mundo foi engendrado de pais humanos e por conseguinte Deus o considera que é da carne (Gn. 6:3). Como pode alguém que nasce da carne não ser carne? Segundo a palavra de nosso Senhor, um homem é carne porque nasce do sangue, da vontade da carne e da vontade do homem (Jo. 1:13) e não pela maneira que viva ele ou seus pais.

3) Qual é a natureza da carne?


«O que nasce da carne é carne.» Não existe nenhuma exceção nem distinção. Nem a educação, nem as melhoras, nem a cultura, nem a moralidade ou a religião podem fazer que o homem deixe de ser carnal. Nenhuma ação ou poder humano pode modificá-lo. Se não for regenerado da carne, permanecerá como carne. Nenhum sistema humano pode fazer que deixe de ser o que era ao nascer. O Senhor Jesus disse «é», pelo que esse assunto ficou decidido para sempre. A carnalidade de um homem não vai ser determinada por ele mesmo, mas sim por seu nascimento. Se nascer da carne, todos os planos para sua transformação serão infrutíferos. Não importa como mude externamente; seja através de uma mudança diária ou de mudanças bruscas, o homem continua sendo carne tão firmemente como sempre.

O homem não regenerado


O Senhor Jesus afirmou que qualquer pessoa não regenerada que só tenha nascido uma vez (ou seja, nascida só de homem) é carne e por conseguinte vive no mundo da carne. Quando não éramos ainda regenerados, vivíamos «nas paixões de nossa carne, seguindo os desejos do corpo e da mente, e fomos por natureza filhos da ira, como o resto da humanidade», porque «não são os filhos da carne que são filhos de Deus» (Ef. 2:3; Rm. 9:8). Um homem cuja alma pode ceder às paixões do corpo e cometer muitos pecados indescritíveis pode estar tão morto para Deus (Ef.2:1) — «mortos nos vossos delitos e na incircuncisão da vossa carne» (Cl. 2:13) — que pode não ter consciência de sua pecaminosidade. Ao contrário, pode inclusive estar orgulhoso, considerando-se melhor que outros. Falando francamente, «enquanto vivíamos na carne, nossas paixões pecaminosas, despertadas pela lei, trabalhavam em nossos membros para gerar fruto para morte» pela simples razão de que fomos «carnais, ligados ao pecado». Por isso com nossa carne «servíamos à lei do pecado» (Rm. 7:5,14, 25).

Embora a carne seja extremamente forte pecando e seguindo o desejo egoísta, é extremamente fraca em relação à vontade de Deus. O homem não regenerado é incapaz de cumprir a vontade de Deus, sendo «debilitado pela carne». E a carne é «hostil a Deus; não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser» (Rm. 8:3, 7).

Entretanto, isto não quer dizer que a carne é alheia por completo às coisas de Deus. Ocasionalmente os carnais fazem todo o esforço possível para observar a lei. Além disso, a Bíblia nunca fala dos carnais como sinônimos de infratores da lei. Simplesmente determina que «pelas obras da lei nenhuma carne será justificada» (Gl. 2:16). É obvio que para os carnais o não observar a lei não é nada insólito. Simplesmente prova que são da carne. Mas agora que Deus decretou que o homem não será justificado pelas obras da lei mas sim pela fé no Senhor Jesus (Rm. 3:28), os que tentam seguir a lei só revelam sua desobediência a Deus, procurando estabelecer sua própria justiça em lugar da justiça de Deus (Rm. 10:3). Além disso, isto revela que pertencem à carne. Para resumir, «os que estão na carne não podem agradar a Deus» (Rm. 8:8), e este «não podem» sela o destino dos carnais.

Deus considera a carne totalmente corrompida. Está tão estreitamente ligada com as paixões, que a Bíblia freqüentemente se refere às paixões da carne» (2:18). Embora Seu poder seja grande, mesmo assim Deus não pode transformar a natureza da carne em algo que lhe agrade. O próprio Deus afirma: «Meu Espírito não permanecerá para sempre no homem, porquanto ele é carne» (Gn. 6:3).

A corrupção da carne é tal que inclusive o Espírito Santo de Deus não pode, por muito que lute contra a carne, conseguir que deixe de ser carnal. O que nasce da carne é carne. Desgraçadamente, o homem não compreende a Palavra de Deus e por isso tenta continuamente melhorar e reformar sua carne. Entretanto, a Palavra de Deus permanece para sempre. Por causa da tremenda corrupção da carne, Deus adverte seus santos que odeiem «inclusive a túnica manchada pela carne» (Jd. 23).

Como Deus sabe avaliar a autêntica condição da carne, declara que é imutável. Qualquer pessoa que tenta melhorá-la com atos de humilhação pessoal ou tratamento severo ao corpo fracassará por completo. Deus reconhece a impossibilidade de que a carne seja trocada ou melhorada. Por isso, ao salvar ao mundo não tenta modificar a carne do homem. Em lugar disso dá ao homem uma vida nova para ajudá-lo a dar morte à carne. A carne tem que morrer. Esta é a salvação.


A salvação de Deus


O apóstolo afirma que «Deus tem feito o que a lei, debilitada pela carne, não podia fazer: enviando o seu próprio Filho na semelhança da carne de pecado, e no concernente ao pecado, condenou o pecado na carne» (Rm. 8:3). Isto revela a situação real da classe moral de quão carnais sejam, possivelmente estão muito resolvidos a observar a lei. É verdade que podem estar observando alguns de seus pontos. No entanto, debilitados pela carne, não podem observar toda a lei.* Porque a lei deixa muito claro que «o que fizer estas coisas, por elas viverá» (Gl. 3:12 mencionando Lv. 18:5) ou senão será condenado à perdição.

Alguém pode perguntar: Quanto da lei, tem que se observar? Toda a lei, porque «o que observa toda a lei, mas falha em um ponto, faz-se culpado de toda» (Tg. 2:10). «Porque nenhum ser humano será justificado a seus olhos pelas obras da lei, posto que da lei vem o conhecimento do pecado» (Rm. 3:20). quanto mais se deseja observar a lei, mais se descobre quão pecador é e quão impossível é observá-la.

A reação de Deus à pecaminosidade de todos os homens é ocupar-se Ele mesmo da tarefa da salvação. Seu método é «enviar a seu próprio Filho à semelhança da carne pecaminosa». Seu Filho é sem pecado, por isso é o único qualificado para nos salvar. A expressão: «À semelhança da carne pecaminosa» descreve sua encarnação: como toma um corpo humano e se une com a humanidade. O único Filho de Deus é mencionado em outro ponto como «o Verbo» que «se fez carne» (Jo. 1:14). Sua vinda à semelhança da carne pecaminosa é o «se fez carne» desse versículo. Por isso nosso versículo em Romanos 8:3 nos explica também de que maneira a Palavra se fez carne. A ênfase, aqui, é que Ele é o Filho de Deus, e portanto é sem pecado. Inclusive quando vem na carne, o Filho de Deus não se faz «carne pecaminosa». Só vem à semelhança da carne pecaminosa». Enquanto viveu na carne, permaneceu como Filho de Deus e sem pecado. Entretanto, como possui a semelhança da carne pecaminosa, está estreitamente unido aos pecadores do mundo que vivem na carne.

Então qual é o propósito de sua encarnação? A explicação que nos dá a Bíblia é «o sacrifício pelos pecados» (At. 10:12), e esta é a obra da cruz. O Filho de Deus tem que expiar nossos pecados. Todos os carnais pecam contra a lei, não podem estabelecer a justiça de Deus e estão condenados à perdição e ao castigo. Mas o Senhor Jesus, ao vir ao mundo, toma esta semelhança da carne pecaminosa e se une tão completamente aos carnais, que estes são castigados por seu pecado na morte de Cristo na cruz. Ele não tem que sofrer, porque é sem pecado, mas sofre porque tem a semelhança da carne pecaminosa. Na posição de uma nova cabeça corporativa, o Senhor Jesus inclui a todos os pecadores em seu sofrimento. Isto explica o castigo pelo pecado.

Como sacrifício pelo pecado, Cristo sofre por todos os que estão na carne. Mas e o poder do pecado que enche os carnais? «Condenou ao pecado na carne.» O, que é sem pecado, é feito pecado por nós para que morra pelo pecado. Ele é «morto na carne» (1 Pe. 3:18). Ao morrer na carne leva à cruz o pecado na carne. Isto é o que quer dizer a frase «condenou o pecado na carne». Condenar é julgar ou impor um castigo. O julgamento e o castigo do pecado é a morte. Por isso o Senhor Jesus dá morte ao pecado em sua carne. Por conseguinte, podemos ver em sua morte que não só são julgados nossos pecados mas também inclusive é julgado o próprio pecado. Assim, o pecado já não tem nenhum poder sobre os que se uniram à morte do Senhor e em conseqüência têm o pecado condenado em sua carne.

A regeneração


A libertação do castigo e do poder do pecado, que Deus dá, se realiza na cruz de seu Filho. Agora põe esta salvação diante de todos os homens para que todo o que queira aceitá-la seja salvo.

Deus sabe que no homem não há nada bom. Nenhuma carne pode lhe agradar. Está corrompida sem possibilidade de reparação. Posto que é tão irremediável, como pode o homem agradar a Deus depois de ter acreditado, se Ele mesmo não lhe dá algo novo? Graças a Deus que outorgou uma vida nova, sua vida não criada, aos que acreditam na salvação do Senhor Jesus e O recebem como seu Salvador pessoal. Isto se chama «regeneração» ou «novo nascimento». Embora Deus não possa modificar nossa carne, nos dá sua vida. A carne do homem permanece tão corrupta nos que nasceram de novo como nos outros. A carne de um santo é tal e qual a de um pecador. Na regeneração, a carne não se transforma. O novo nascimento não exerce nenhuma influência sobre a carne. Permanece tal como é.

Deus não nos transmite sua vida para educar ou adestrar à carne. Ao contrário, a dá a nós para vencer a carne.

Na regeneração o homem passa a estar vinculado a Deus pelo novo nascimento. A regeneração significa nascer de Deus. De maneira que, nossa vida carnal nasce de nossos pais, nossa vida espiritual nasce de Deus. O significado do nascimento é «transmitir vida». Quando dizemos que nascemos de Deus, significa que recebemos uma nova vida dEle. O que recebemos é uma vida autêntica.

Vimos anteriormente de que maneira nós, seres humanos, somos carnais. Nosso espírito está morto e nossa alma dirige totalmente todo o ser. Andamos segundo as paixões do corpo. Não há nada bom em nós. Ao vir nos libertar, Deus deve primeiro restaurar a posição do espírito para que possamos tornar a ter comunhão com Ele. Isto acontece quando cremos no Senhor Jesus. Deus põe sua vida em nosso espírito, e deste modo o ressuscita da morte. Agora o Senhor Jesus afirma que «o que nasce do Espírito é espírito» (Jo. 3:6). Nesse momento a vida de Deus, que é o Espírito, entra em nosso espírito humano e o restaura à sua posição original.

O Espírito Santo se instala no espírito humano e desta maneira o homem é transferido ao mundo espiritual. Nosso espírito é avivado e torna a prevalecer. O «espírito novo» mencionado em Ezequiel 36:26 é a vida nova que recebemos na regeneração.

O homem não é regenerado por fazer algo especial, mas sim por acreditar no Senhor Jesus como seu Salvador: «a todos os que O receberam, aos que acreditaram em Seu nome, deu-lhes poder de serem feitos filhos de Deus; os que nasceram não de sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus» (Jo. 1:12, 13). Os que acreditam no Senhor Jesus Cristo como seu Salvador, nascem de Deus e como conseqüência são filhos dele.

A regeneração é um mínimo na vida espiritual. É a base sobre a qual posteriormente se edificará.

Ninguém pode falar de vida espiritual nem esperar crescer espiritualmente se não for regenerado, posto que não tem vida em seu espírito. Da mesma maneira que ninguém pode construir um castelo no ar, tampouco podemos edificar os que não estão regenerados. Se tentarmos ensinar a um não regenerado a fazer o bem e adorar a Deus, estaremos ensinando a um morto. Ao tentar reformar a carne, estamos tentando fazer o que Deus não pode fazer. É vital que cada crente saiba sem dúvidas que já foi regenerado e que recebeu uma vida nova. Deve ver claramente que o novo nascimento não é tentar pôr remendos à velha carne ou transformá-la em vida espiritual. Ao contrário, é receber uma vida que nunca teve antes. Quem não nasce de novo não pode ver o reino de Deus. Não pode perceber os mistérios espirituais, nem saborear a doçura celestial do reino de Deus. Seu destino só é o de esperar a morte e o julgamento. Para ele não há nada mais.

Como uma pessoa pode saber que foi regenerada? João nos diz que o homem nasce de novo ao crer no nome do Filho de Deus e ao recebê-lo (1:12). O Filho de Deus se chama «Jesus», que significa «salvará o povo de seus pecados» (Mt. 1:21). Assim, crer no nome do Filho de Deus equivale a acreditar nele como Salvador, acreditar que morreu na cruz por nossos pecados para nos libertar do castigo e do poder do pecado. Acreditar nisso é recebê-lo como Salvador. Se alguém deseja saber se está regenerado ou não, só tem que fazer uma pergunta: fui à cruz como um pecador necessitado e recebi ao Senhor Jesus como Salvador? Se responder afirmativamente, está regenerado. Todo o que crê no Senhor Jesus nasce de novo.


O conflito entre o novo e o velho


É essencial a uma pessoa regenerada que compreenda o que obteve com o novo nascimento e o que persiste de seus dotes naturais. Esse conhecimento a ajudará em sua peregrinação espiritual. Neste ponto pode ser útil explicar tudo o que é entendido da carne do homem e também a maneira com que o Senhor Jesus trata com os componentes dessa carne, em sua redenção. Em outras palavras, o que herda um crente na regeneração?

Uma leitura de vários versículos de Romanos 7 pode deixar claro que os componentes da carne são principalmente «o pecado» e «o eu»: «o pecado que vive em mim..., quer dizer, em minha carne» (vs. 14,17,18). O «pecado», aqui, é o poder do pecado, e o «minha» é o que reconhecemos normalmente como «o eu». Se um crente quer compreender a vida espiritual, não deve estar desorientado a respeito destes dois elementos da carne.

Sabemos que o Senhor Jesus tratou com o pecado de nossa carne em sua cruz. E a Palavra nos informa que «nosso velho eu foi crucificado com Ele» (Rm. 6:6). Em nenhuma parte da Bíblia nos diz que temos que ser crucificados, posto que isto Cristo já o sofreu de uma maneira perfeita.

Em relação ao assunto do pecado, ao homem não se exige que faça nada. Só tem que considerar isto como um fato consumado (Rm. 6:11) e colherá a eficácia da morte de Jesus sendo totalmente libertado do poder do pecado (Rm. 6:14).

A Bíblia jamais nos diz que temos que ser crucificados pelo pecado, é verdade. Entretanto, nos exorta sim, que levemos a cruz para negar o eu. O Senhor Jesus em muitas ocasiões nos manda que neguemos a nós mesmos e levemos a cruz e O sigamos. A explicação disto é que a forma como o Senhor Jesus trata nossos pecados e trata a nós mesmos é muito distinta Para conquistar o pecado por completo o crente só necessita um instante. Para negar seu eu necessita toda a vida. Jesus só levou nossos pecados na cruz, mas se negou a si mesmo durante toda sua vida. Nós devemos fazer igual.

A carta de Paulo aos Gálatas descreve a relação entre a carne e o crente. Por um lado nos diz que «os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne com suas paixões e desejos» (5:24). No mesmo dia em que uma pessoa se identifica com o Senhor Jesus, sua carne também é crucificada.

Agora bem, alguém poderia pensar, sem a instrução do Espírito Santo, que sua carne já não existe, pois acaso não foi crucificada? Mas, por outro lado, a carta nos diz «andem no Espírito e não satisfaçam os desejos da carne. Porque os desejos da carne se opõem ao Espírito, e os desejos do Espírito se opõem à carne» (5:16, 17). Aqui nos diz claramente que o que pertence a Cristo Jesus e que já tem o Espírito Santo vivendo nele, ainda tem a carne nele. E não é somente que a carne existe; também nos diz que é singularmente poderosa.

O que podemos dizer? São contraditórios estes dois textos bíblicos? Não. O versículo 24 põe ênfase no pecado da carne, enquanto que o versículo 17 o põe no eu da carne. A cruz de Cristo trata com o pecado, e o Espírito Santo trata com o eu por meio da cruz. Cristo liberta por completo o crente do poder do pecado por meio da cruz, para que o pecado não torne a reinar, mas Cristo, por meio do Espírito Santo que vive no crente, capacita-o para vencer o eu dia após dia e para que obedeça a Ele por completo. A libertação do pecado é um fato consumado. A negação do eu tem que ser uma experiência diária.

Se um crente pudesse compreender toda a transcendência da cruz ao nascer de novo, se livraria totalmente do pecado e teria uma vida nova. É realmente lamentável que muitos obreiros cristãos não apresentam essa salvação completa aos pecadores, e com isso, estes só acreditam na metade da salvação de Deus. Isto os deixa nessa situação: seus pecados estão perdoados, mas falta-lhes a força para deixar de pecar. Por outra parte, mesmo nas ocasiões em que se lhes apresenta a salvação em sua totalidade, os pecadores só desejam que seus pecados lhes sejam perdoados, porque não esperam sinceramente ser libertados do poder do pecado.

Se uma pessoa crê e recebe uma salvação plena desde o começo, terá menos fracassos lutando com o pecado e mais êxito lutando com o eu. É raro encontrar esse tipo de crentes. A maioria só têm a metade de sua salvação. Por isso a maioria de seus conflitos são com o pecado. E alguns nem sequer sabem o que é o eu. Quanto a isto, a condição pessoal do crente até usa uma parte antes da regeneração. Muitos tendem a fazer o bem inclusive antes de acreditar. É obvio que não possuem o poder para fazer o bem nem tampouco podem ser bons. Mas sua consciência parece estar relativamente iluminada, embora sua força para fazer o bem seja débil. Têm o que se costuma chamar de conflito entre a razão e as paixões. Quando se inteiram da salvação completa de Deus aceitam ofegantes a graça para a libertação do pecado no mesmo momento em que recebem a graça para o perdão do pecado.

Outros, entretanto, antes de acreditar, têm a consciência negra, pecam terrivelmente e jamais tentam fazer o bem. Ao conhecer a salvação completa de Deus se agarram à graça do perdão e descuidam (não rejeitam) a graça para a libertação do pecado. No futuro enfrentarão muitas lutas com o pecado da carne.

E por que será assim? Porque um homem assim nascido de novo possui uma vida nova que lhe exige que vença o domínio da carne e obedeça a ela em seu lugar. A vida de Deus é absoluta. Tem que obter o domínio total sobre o homem. Assim que esta vida entra no espírito humano exige do homem que abandone a seu antigo amo, o pecado, e se submeta por completo ao Espírito Santo. Mesmo assim, o pecado está muito enraizado neste homem em particular. Embora sua vontade seja renovada em parte através da vida regenerada, ainda está apegado ao pecado e ao eu. Em muitas ocasiões se inclina ao pecado.

Inevitavelmente surgirá um grande conflito entre a vida nova e a carne. Posto que são muitíssimas as pessoas que se encontram nesta situação, lhes prestaremos uma atenção especial. Entretanto, permitam que recorde a meus leitores quão desnecessário é ter lutas e fracassos contínuos com o pecado (não com o eu, pois isto é diferente).

A carne exige soberania absoluta, igualmente a vida espiritual. A carne deseja ter o homem sujeito para sempre a ela mesma, enquanto que a vida espiritual quer ter o homem completamente sujeito ao Espírito Santo. A carne e a vida espiritual diferem por completo. A natureza da carne é a do primeiro Adão, enquanto que a natureza da vida espiritual pertence ao último Adão. O mover da primeira é terrestre, mas o da segunda é celestial. A carne centra todas as coisas no eu; a vida espiritual centra tudo em Cristo. A carne deseja levar o homem ao pecado, mas a vida espiritual deseja levá-lo à justiça. Posto que estas duas são tão essencialmente opostas, como uma pessoa pode evitar se chocar continuamente com a carne?

O crente estará em constante luta se não compreender toda a salvação de Cristo.

Quando os crentes jovens entram nestes conflitos ficam estupefatos. Alguns se desesperam em querer crescer espiritualmente, pensando que são muito maus. Outros começam a duvidar de que estejam realmente regenerados, sem ver que a própria regeneração suporta esta confrontação. Antes, quando a carne governava sem interferências (porque o espírito estava morto), podiam pecar terrivelmente sem ter nenhum sentimento de culpa. Agora surgiu a nova vida, e com ela a natureza, o desejo, a luz e o pensamento celestiais. Quando esta nova luz penetra no homem põe a descoberto imediatamente a corrupção que há dentro. O novo crente não quer permanecer em um estado semelhante e deseja seguir a vontade de Deus. A carne começa a lutar com a vida espiritual. Esta batalha dá a impressão ao crente de que em seu interior há duas pessoas. Cada uma tem sua própria idéia e força. Cada uma busca a vitória. Quando domina a vida espiritual, o crente se sente muito feliz, mas quando começa a dominar a carne, se entristece. As experiências deste tipo confirmam que essas pessoas foram regeneradas.

O propósito de Deus não é, nem será jamais, reformar a carne mas sim destruí-la. O eu na carne deve ser destruído com a vida de Deus que o crente recebe na regeneração. Certamente, a vida que Deus transmite ao homem é muito poderosa, mas a pessoa regenerada ainda é um bebê recém-nascido e muito fraco. A carne teve as rédeas durante muito tempo e seu poder é tremendo. Além disso, o regenerado ainda não aprendeu a receber por fé a completa salvação de Deus. Embora esteja salvo, ainda está na carne durante este período. Ser carnal significa estar sendo governado pela carne. O mais lamentável é que um crente, iluminado pela luz celestial para conhecer a maldade da carne e para desejar com todo o coração vencê-la, encontre-se muito fraco para obtê-lo. É quando derrama muitas lágrimas de tristeza. Como não vai estar zangado consigo mesmo se, embora abrigue um novo desejo de destruir o pecado e agradar a Deus, sua vontade não é bastante firme para dominar o corpo de pecado?

Poucas são as vitórias, e muitas as derrotas.

Em Romanos 7 Paulo expressa a angústia deste conflito:

«Pois o que faço, não o entendo; porque o que quero, isso não pratico; mas o que aborreço, isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Agora, porém, não sou mais eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros.» (vs. 15-23).

Muitos se identificarão com seu brado de quase total desespero:

«Miserável homem que sou! Quem me libertará deste corpo de morte?» (v. 24).

Qual é o significado desta confrontação? É uma das maneiras com que o Espírito Santo nos disciplina. Deus proporcionou uma salvação total para o homem. Quem não sabe que a tem não poderá desfrutar dela, nem tampouco poderá experimentá-la se não a desejar. Deus só pode dar algo aos que acreditam, recebem e pedem. Por isso quando o homem pede o perdão e a regeneração Deus o concede, sem dúvida. E Deus usará o conflito para levar o crente a procurar e a conseguir o triunfo total em Cristo. O que antes era ignorante agora desejará saber, e então o Espírito Santo terá uma oportunidade de lhe revelar o que Cristo fez com seu velho homem na cruz para que agora possa acreditar e possuir este triunfo. E o que não possuía porque não procurava, descobrirá por meio desta luta que toda a verdade que ele tinha só era mental e, por conseguinte, inútil. Isto lhe fará desejar experimentar a verdade que só tinha conhecido mentalmente.

As lutas aumentam dia a dia. Se os crentes se mantiverem fiéis sem se desesperar, passarão por conflitos mais duros até o momento em que sejam libertados.




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