O hades Dourado



Baixar 1,04 Mb.
Página1/9
Encontro17.07.2018
Tamanho1,04 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9

Edgar Wallace

O Hades Dourado

Tradução de: Ayres Carlos de Souza

Introdução de: Paulo Mendes Campos

Capítulo 1



Frank Alwin ergueu as mãos, ligadas por algemas, com muita dificuldade, e arrancou o bigode postiço. Através do pesado telão ouvia-se vagamente o som da orquestra que tocava enquanto o público deixava o teatro.

O chefe da contra-regra entrou apressadamente no palco.

Sinto muito — desculpou-se ele — não sabia que já haviam baixado o pano. Esta noite parece que a peça terminou mais cedo.



Frank anuiu e ficou olhando o homem meter uma chave especial nas algemas, abri-las e guardá-las no seu bolso.

Há menos de cinco minutos atrás, Frank Alwin ainda estivera metido na pele do famigerado e mau Conde Larska, que é surpreendido ao assaltar um banco no Brasil, sendo preso pela corajosa e invencível polícia criminal.

Perdido em seus pensamentos, ele ainda ficou parado ali mesmo, por algum tempo. O pessoal de cena rearrumou o cenário, para o dia seguinte, e lentamente as luzes da ribalta foram apagadas. Quando finalmente ele entrou naquele aposento caiado de branco, de onde saía um longo corredor para os camarins dos artistas, viu que estava sendo esperado por uma mocinha, já vestida para sair. O pequeno papel que ela fazia na peça, já terminara há mais de uma hora. Ao vê-la, Frank não pensou em nada especial. A única coisa que lhe veio à mente, naquele instante, é que ele não devolvera ao chefe da contra-regra o grande maço de dinheiro que, no último ato da peça, roubara do cofre do banco, e que ainda se encontrava no seu bolso.

Ele sorriu para aquela mocinha de aparência tímida, hesitou um momento, depois meteu a mão no bolso. Tirou algumas cédulas do dinheiro, que dobrou cuidadosamente.



Marguerite — disse ele, como se ainda estivesse representando — isto é para você!

Ela olhou-o admirada, quase consternada, quando ele ele colocou-lhe aquelas cédulas na mão, mas ele apenas riu para si mesmo, enquanto subia a escada que ia dar no seu camarim, tomando sempre dois degraus de uma vez.

Somente quando ele chegara praticamente ao topo é que deu-se conta do que tinha arranjado. Como é que pudera esquecer-se disso!? Praguejando, correu novamente escada abaixo, mas a mocinha já desaparecera. Chateado, subiu novamente para o seu camarim, onde já o esperava seu amigo, Wilbur Smith. Sentado confortavelmente numa poltrona, este fumava um cigarro depois do outro, enchendo o ambiente de fumaça. Smith, ex-oficial militar, era agora agente de polícia da Polícia de New York.

  • Olá, Frank — disse Wilbur. — Que cara é essa? O que aconteceu?

  • Eu sou um idiota! — gemeu Alwin, deixando-se cair pesadamente na poltrona diante de sua mesa de maquilagem.

  • Em muitas circunstâncias posso até concordar com você, mas, por outro lado, você também é um excelente ator. Afinal, qual foi a besteira que fez?

Nada, é que essa garota...Smith sorriu, condescendente.

  • E daí? Que há de mal nisso? Quem é ela? Desculpe, não estou querendo meter-me nos seus assuntos particulares. Mas... desde quando você resolveu ter escrúpulos nesse sentido?

  • Não diga besteiras! — retrucou Frank, irritado. —Não é nada do que você está pensando. Ela é uma garota muito simpática, de nossa companhia... Bem, é claro que posso contar a você o que houve. O nome dela é Maisie Bishop e tem um pequeno papel na peça que está em cartaz

  • Wilbur fez que entendera

  • Eu já a vi no palco. Ela é realmente muito bonitinha. Mas o que é que você tem com ela?

  • Frank não respondeu logo.

  • Ela me procurou esta tarde — começou ele — eu já estava até pronto para entrar em cena. Pareceu-me muito preocupada, e contou-me que estava em grandes dificuldades. A família, parece, está passando um grande aperto, e ela pediu-me que lhe emprestasse algum dinheiro. Naquele momento, naturalmente, eu não tinha tempo para dar-lhe atenção, pois tinha que descer para esperar por minha deixa. Mas prometi que a ajudaria, e acabei esquecendo-me inteiramente disso.

  • Ora, por que não vai procurá-la? Tenho certeza que não vai ser difícil saber o seu endereço.

  • É claro que não. Mas olhe isso aqui! — ele meteu a mão no bolso e retirou o grande maço de cédulas, colocando-o em cima da mesinha. — Isto, naturalmente, é dinheiro falso, que nós usamos no palco, em cena.

Quando a vi esperando no vestíbulo, tive essa idéia tola — ou melhor, eu ainda estava um tanto absorvido pelo espetáculo que acabara naquele momento, e a nossa conversa — ou, se você quiser, nossa combinação, parecia completamente apagada de minha memória. Pensei apenas em fazer uma brincadeira com ela, e dei-lhe meia dúzia destas notas. Só queria era fazer um gracejo. Wilbur Smith riu.

— Ora, só por isso não precisa ficar de cabelos brancos... Basta ir procurá-la em sua casa. Mas mesmo se ela acabar presa por passar dinheiro falso, certamente terei meios de livrar você e ela de encrencas. Prometo. Portanto


0 risco não é tão grande assim — ele levantou-se e foi até a mesinha de maquilagem, onde pegou o alentado maço de cédulas bancárias. Os seus valores eram bastante altos.

É de espantar que vocês usem um papel-moeda tão bem impresso, em cena.

Frank estava justamente passando creme no rosto, para retirar a maquilagem. De repente estacou.



Pois é, eu também já notei isso. De qualquer modo, não é o dinheiro que normalmente usamos na peça. Parece até que se trata de dinheiro verdadeiro — limpou a mão numa toalha, pegou uma das notas, examinando-a atentamente. — A marca d'água parece exatamente igual à -de uma nota legítima. Gostaria de saber de onde vieram estas notas. Jamais vi cédulas tão fabulosamente imitadas. Receio apenas que alguém receba o dinheiro de Maisie como verdadeiro, e que só mais tarde se verifique o engano. Wilbur, você não poderia fazer-me o favor de ir procurá-la urgentemente, para falar com ela? Sei que mora num subúrbio conhecido. O porteiro da saída dos artistas poderá verificar o seu endereço correio.

  • Realmente muito curioso — disse Smith, esfregando uma das notas entre dois dedos. — Eu também nunca vi dinheiro falso tão bem-feito. Mas... santo Deus, o que é isso?

Ele virara a nota, e olhava horrorizado para o seu verso.

O que é que você tem? — perguntou Alwin, preocupado.



O agente criminal apontou para uma marca amarela, que fora impressa no verso da cédula.

O que é isso?

O que é que você acha? — perguntou Wilbur. Havia algo de estranho na sua voz.

-— Parece a imagem de algum ídolo.


.


Nisso você tem razão. É a imagem do Hades Dourado.

O quê? Não entendi! O que foi que você disse que era?



  • O Hades Dourado. Você nunca ouviu falar do Hades?

  • Claro — Frank sorriu. — É aquele lugar para onde mandamos as pessoas de quem não gostamos!

  • Exatamente... Em outras palavras, o inferno. Mas também o deus dos

infernos, ele mesmo, chama-se Hades

ensinou Smith. — Só que para os antigos romanos ele era Plutão.



  • Mas por que "dourado"?

  • Até agora tive apenas três oportunidades de ver marcas semelhantes carimbadas em dinheiro. Nos dois primeiros casos, o seu dourado era mais forte — Smith pegou as cédulas da mesa, contando-as cuidadosamente.

Aqui nós estamos com sessenta e nove mil dólares!

  • Mas você acha realmente que se trata de dinheiro legítimo? — perguntou Frank, um pouco ofegante.

  • Disso não tenho a menor dúvida — retrucou o agente de polícia. — As notas são verdadeiras. Onde foi que você as recebeu?

  • De quem as recebo sempre, do chefe da contra-regra.

  • Preciso falar com esse garotão. Pode mandar chamá-lo?

  • Se ainda não foi para casa — Frank falou com o porteiro pelo interfone. — Hainz já foi embora? Como? Está saindo, nesse instante? Por favor, peça-lhe o favor de dar um pulinho aqui no meu camarim.

  • Quando o chefe da contra-regra entrou no camarim, seu olhar imediatamente dirigiu-se ao dinheiro sobre a mesa, e tratou logo de se apoderar do mesmo

  • Eu sabia que tinha esquecido alguma coisa, quando lhe retirei as algemas, Mr. Alwin! Vou logo guardar esse dinheiro, pois...

  • Um momento — interveio Wilbur Smith — você me conhece bem, não, Hainz?

  • Claro — o homem sorriu amarelo. — Naturalmente nunca tive contato com o senhor, profissionalmente falando, mas ainda assim sei quem é.

  • Onde arranjou esse dinheiro?

  • O dinheiro? Quer dizer estas cédulas aqui?

  • Sim.

  • Onde o arranjei? — repetiu Hainz. — Bem,comprei-o na loja de artigos para o teatro, da qual adquirimos todos nossos objetos de cena. O dinheiro para a cena, que eu tinha disponível na contra-regra, não me pareceu mais suficiente, por isso tratei de comprar mais algum. Quando estive na loja, notei que estavam terminando um cartaz de propaganda do filme "Riqueza que Perverte", e pude ver que eles estavam utilizando este tipo de notas para emoldurar o cartaz.

  • E de onde o dono dessa loja tem esse dinheiro?

  • Não sei... de alguma outra firma, suponho.

  • Como posso falar com ele? Tem o seu endereço particular?

Tenho — Hainz tirou um livrinho de endereços do bolso, e procurou a direção. — E que, às vezes, preciso dele com urgência.

Depois que Hainz saiu, Wilbur Smith olhou, muito preocupado, para o seu amigo.



  • Tire logo essa maquilagem, para podermos sair à rua! Se você não se importa, vou ficar com este dinheiro. Termine logo com isso, para irmos até a cidade, jantar.

  • Que diabo significa tudo isso?

  • Durante o jantar eu lhe conto tudo — retrucou Wilbur Smith, evasivamente.

Capítulo 2

Meia hora mais tarde os dois amigos estavam sentados a uma mesa de restaurante, um diante do outro. Wilbur Smith não sabia muita coisa sobre as notas com aquelas marcas amarelas misteriosas, mas tudo que sabia contou a Frank Alwin.



Quando vi uma marca carimbada como esta pela primeira vez, ela realmente

era dourada. Havia sido aplicada no verso de uma nota de mil dólares, com uma espécie de purpurina dourada. Além disso, pintada em verde, lia-se, logo abaixo, a palavra "Hades". Esta cédula de mil dólares veio parar em minhas mãos de modo muito curioso. Num bairro afastado morava uma pobre mulher que trabalhava como camareira num hotel do Brooklyn. E ela contou-me uma história muito estranha. Quando certa noite estava voltando para casa, um homem aproximou-se dela, colocando várias notas de dinheiro em sua mão, e, sem dizer uma só palavra, seguiu adiante. Espantada, correu até sua casa, acendeu a luz, e examinou aquele presente. Ao contar as notas, verificou que se tratava de uma soma de cem mil dólares. Ela não quis acreditar no que via, e achou que alguém quisera divertir-se às suas custas. Achou, como você, que se tratava de dinheiro falso, colocou-o debaixo do seu travesseiro, decidindo no dia seguinte verificar se realmente se tratava de dinheiro legítimo. Entretanto naquela noite acordou, pois ouviu que havia alguém no seu quarto. Quis gritar por socorro, mas uma voz ordenou-lhe que ficasse quieta. Logo acenderam uma lanterna de bolso, e a mulher pôde ver três homens, com máscaras pretas, em volta de sua cama.

Frank franziu a testa e olhou o agente criminal, como que duvidando.

— Você não está querendo divertir-se às minhas custas, está?

Wilbur Smith sacudiu a cabeça.



  • Não, estou falando sério. Os homens perguntaram-lhe onde estava o dinheiro. Ela estava sem fala de tão assustada, ao ver o revólver que lhe era apontado, mas logo indicou o travesseiro. E desmaiou. Quando voltou a si o dinheiro sumira, menos uma única cédula, que os ladrões, na pressa, não deviam ter visto. No dia seguinte ela levou a nota à delegacia de polícia mais próxima, e contou sua estranha história. Meu chefe não acreditou nela. Achou que a nota devia ter sido roubada por ela no hotel, onde trabalhava, supondo que mais tarde sua consciência lhe doera, razão por que inventara aquela história, na esperança de escapar ao castigo.

  • E o que aconteceu então?

Fui encarregado da elucidação do caso, e fiz averiguações no hotel. Não faltava dinheiro algum, e a gerência garantia que se tratava de uma mulher honesta. Era muito pobre, sim, mas absolutamente confiável. A única coisa que pudemos fazer foi restituir-lhe aquela nota de mil dólares. Foi nessa ocasião que vi, pela primeira vez, a marca do Hades Dourado. Da segunda vez, aconteceu em circunstâncias parecidas, também muito estranhas. Encontramos cédulas com esta marca carimbada em poder de um certo Henry Laste, um jogador profissional. Um policial o detivera, devido ao seu estado de completa embriaguez, na rua,levando-o a delegacia. Por acaso, eu estava também chegando naquele momento. Quando revistamos os bolsos do homem, encontramos oito dessas notas, cada uma de mil dólares. Fizemos o possível para que ele ficasse sóbrio novamente, e então ele contou-nos uma história muito estranha, quase inacreditável. Disse que sua mulher encontrara estas cédulas entre as páginas de um livro, que adquirira em determinada livraria. Ele deu este depoimento mais ou menos às oito horas da manhã, e eu estive presente quando o mesmo foi levado a termo. Imediatamente fui até a casa dele, para inquirir a mulher. Eles moravam num apartamento alugado. Quando batemos na porta, não obtivemos resposta. Imaginei logo que alguma coisa devia ter acontecido, e me dirigi ao administrador do prédio, pedindo-lhe que abrisse a porta com sua chave-mestra.

A mulher estava em casa?



  • Sim, nós a encontramos, no apartamento, mas já estava morta. Fora atingida por uma bala disparada por uma pistola automática, bem no coração. Todos os quartos haviam sido revistados, com gavetas reviradas e armários
    escancarados. Casacos, calças e outras roupas estavam espalhados pelo chão...

  • Ah, você está falando do famoso caso de assassinato Higgins.

  • Sim, do famigerado caso Higgins.

  • E você descobriu outras cédulas no apartamento?

  • Não. Queríamos acusar formalmente o homem deter cometido o assassinato, mas não foi-lhe difícil apresentar um álibi. Ele estivera num inferninho, desses cassinos clandestinos, onde bebera demais. A uma hora da madrugada o policial o encontrara caído na rua, e, dez minutos depois das duas, foi cometido o homicídio. Excepcionalmente fora possível constatar a hora do crime com tanta
    exatidão. O tiro que matara a mulher fora disparado de curtíssima distância, e tivera tanta força que atravessara a mulher, indo bater num despertador, sobre a mesinha de cabeceira. Os ponteiros haviam parado às dez para as
    duas.

Os dois ficaram sentados, um diante do outro, por longo tempo, em silêncio. Nos seus ouvidos ecoavam as vozes indistintas das conversas das pessoas presentes no restaurante, e o ruído de talheres e pratos. De repente Frank Alwin deu-se conta de que também corria perigo.

  • Agora entendo — disse ele, devagar. — Todas as pessoas que entraram em contato com estas cédulas carimbadas foram...

Assaltadas — interrompeu-o Wilbur. — E por esta razão, Frank, esta noite você vai ser vigiado muito de perto por mim.

Eles eram amigos há muitos anos. O ator Frank Alwin tornara-se o astro do Teatro Coliseu-Magestíc, e o agente criminal Wilbur Smith tinha no seu currículo mais êxitos que a maioria dos outros representantes da Chefia de Polícia de New York.

Durante a guerra, Frank Alwin ficara no Serviço de Informações do Serviço Secreto, e se não fosse um ator tão importante, possuidor de uma fortuna apreciável, com certeza também teria se destacado na polícia tanto quanto o seu amigo.

  • Tudo isso me parece muito sinistro — disse Alwin,depois de algum tempo. — Afinal, quem foi esse tal Plutão?

  • O deus das profundezas. E eu fiquei sabendo que hoje em dia, realmente, ainda existem pessoas excêntricas que o adoram. Seria interessante estudar a literatura a este respeito, para ficarmos sabendo que papel ele teve real
    mente na mitologia antiga.

Neste momento um garção aproximou-se da mesa deles.

Mr. Aíwin, telefone para o senhor.



Frank levantou-se e Wilbur Smith fez menção de acompanhá-lo.

Pare com isso! — riu Frank. — Eles certamente não poderão dar-me um tiro pelo telefone. E de nenhuma maneira poderão apoderar-se do dinheiro, pois o mesmo está com você.



Passaram-se dois minutos e Frank Alwin não voltava. Depois de cinco minutos Wilbur ficou inquieto e fez sinal a um garção.

Por favor, vã até o vestíbulo e veja se Mr. Alwin ainda está na cabine telefônica.

O garção voltou logo depois.

Mr. Alwin não está lá.

Diabo, o que quer dizer isso? Ela não está lá? Wilbur Smith levantou-se rapidamente, empurrando a cadeira para o lado, e correu para o vestíbulo. O porteiro, a quem fez uma série de perguntas, não sabia dizer se Mr. Alwin havia saído.

Deixei o meu posto por uns cinco minutos. Antes de sair, entretanto, vi um carro parado diante da porta, e quando voltei o mesmo não estava mais ali.

Smith correu para a rua deserta, mas não havia ninguém, até onde podia ver. A entrada do clube era iluminada por duas grandes lâmpadas. Na beira da calçada Smith viu alguma coisa que lhe chamou a atenção, foi até 0 lugar, abaixou-se e apanhou o objeto. Um olhar foi suficiente — era o chapéu de Frank, amassado e úmido. Ele levou-o mais para perto da luz, e enfiou a mão por dentro. Ao retirá-la, estava vermelha de sangue.

Capítulo 3



Degraus — dois, três, quatro — e mais uma vez quatrro degraus. Patamar de escada. Virar. Um degrau — dois degraus — três degraus — quatro degraus — totalizando onze degraus — patamar — não, a escada terminara...

Uma chave girou na fechadura. O ruído de uma porta abrindo. Um golpe de ar frio, com cheiro de mofo, passou pelo seu rosto -— depois seguiram adiante.

Tudo isto viera lentamente ã consciência — ou pelo menos à semiconsciência de Frank Alwin, enquanto eles o carregavam escada abaixo. Sua cabeça ainda não trabalhava com muita precisão, caso contrário ele não teria começado a contar somente no segundo degrau. A cabeça doía-lhe terrivelmente, e havia alguma coisa colada,cobrindo-lhe o rosto, como se alguém o tivesse coberto de algum spray de borracha líquida. Quando quis se mexer, sentiu uma dor cortante no braço, que ia desde o pulso até 0 cotovelo. Mas a cabeça era o pior. As veias pulsavam-lhe nas têmporas, era como se lhe houvessem serrado o crânio ao meio, e as duas metades estivessem numa fricção constante. O suplício era quase insuportável. Gostaria de poder gritar alto, mas sentia instintivamente que devia manter-se em silêncio. Tinha a impressão de que os que o carregavam o faziam com o máximo de cuidado. Finalmente deitaram-no numa cama.

Colchão de molas, travesseiro úmido — constatou ele, automaticamente. Alguém acendeu uma lâmpada, e aquela luz branca, ofuscante, depois da escuridão, provocou-lhe uma dor de cabeça ainda pior. Ele gemeu, virou-se para o outro lado, e, ao fazê-lo, gemeu ainda mais alto.

Diabos! — disse alguém. — Olhe só meu paletó! Manchas de sangue não se consegue lavar. Vou ter que queimá-lo. Acho que foi uma bobeira golpear esse cara e depois arrastá-lo até aqui embaixo. Por que, afinal, não o deixamos simplesmente caído na rua?

Porque Rosie tem razão — respondeu uma voz, que parecia mais profunda e nada simpática.

Rosíe! — repetiu o primeiro, rindo zombeteiro.
Frank Alwin perguntou-se quem poderia ser Rosie. Apesar da violenta dor de cabeça, fez um esforço para lembrar-se.

E lembrou-se agora que saíra do restaurante, porque... porque... No momento não conseguia lembrar-se por que saíra para a rua, Só lhe ficara uma recordação muito indistinta dos acontecimentos. De qualquer modo, ele agora estava aqui, deitado nesta cama, e ainda vivia... o que já era alguma coisa. Mas esses dois há pouco falavam de Rosie...



  1   2   3   4   5   6   7   8   9


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal