O grêmio das Violetas, a Cruz Vermelha Paranaense e as discussões sobre a saúde infantil



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O GRÊMIO DAS VIOLETAS, A CRUZ VERMELHA PARANAENSE E AS DISCUSSÕES SOBRE A SAÚDE INFANTIL PARA A ORGANIZAÇÃO DO HOSPITAL DE CRIANÇAS DE CURITIBA
Claudinéia Maria Vischi Avanzini1

Universidade Federal do Paraná



clauvischi@gmail.com
Palavras - chave: Saúde; Educação; Higienização

Eixo temático: História das Instituições e Práticas Educativas

Introdução
Neste artigo foram analisados aspectos do processo que resultou na organização do Hospital de Crianças de Curitiba no inicio do século XX. A opção pelo estudo das ideias e ações que resultaram na organização deste Hospital (micro) acaba por auxiliar o entendimento do macrocosmo (sociedade curitibana) e, por sua vez, auxilia a compreensão da forma como a saúde infantil era percebida nas primeiras décadas do novecentos na capital do estado do Paraná. Portanto, através desta pesquisa, teve-se a intenção de investigar o processo múltiplo que resultou na organização do Hospital de Crianças, percebendo como se explicitava a preocupação com a saúde infantil (de médicos e outros membros da sociedade), quais as ideias que permeavam os debates sobre o tema, quais as instituições que precederam e colaboraram para o delineamento da organização do Hospital de Crianças e, principalmente, qual o ideário educacional que marcou esse processo relacionado ao cuidado com a saúde infantil.

Como fontes para este estudo foram utilizados relatórios de atividades (em tópicos de 1922 a 1995 e resumos de 1917 a 1956), gráficos temporais/anuais das atividades desenvolvidas pelo Hospital; dois históricos da instituição escrito por médico do Hospital, um livro comemorativo publicado em 1978 e notícias publicadas em jornais diários. Metodologicamente, esse trabalho, que procura resgatar e discutir historicamente os começos plurais do Hospital de Crianças optou pelos caminhos historiográficos proporcionados pela história social, quer em sua matriz da Escola dos Annales, passando pela revisão feita pela chamada Nova História, assim como pela obra de Edward P. Thompson.


A Higiene e a saúde de Crianças
No final de século XIX e início do século XX uma nova sociedade brasileira despontava, a imigração apresenta-se como necessária ao Brasil, pois dentre as preocupações do período havia a necessidade da povoação do território nacional. Desta forma, os imigrantes foram sendo instalados nas diversas regiões do Brasil. Nas regiões sul e sudeste do país, eles foram instalados em pequenas propriedades onde introduziam “novas e produtivas técnicas agrícolas” ensinando “aos habitantes da terra as virtudes do trabalho” (ANDREAZZA & NADALIN, 2000, p. 30).

Segundo Klein (1999, p.25) o Brasil recebeu 2,9 milhões de imigrantes europeus entre 1880 e 1914, no início da Primeira Guerra Mundial. A corrente imigratória de finais do século XIX e início do século XX era composta por italianos, portugueses, poloneses, espanhóis, alemães, habitantes do Império Austro-Húngaro, russos, britânicos, irlandeses e escandinavos.

Segundo Pereira (1996, p. 59) na metade do século XIX dos 6791 habitantes de Curitiba, 4624 eram brancos, 1293 eram classificados como pardos e apenas 874 eram pretos2, o que equivalia a aproximadamente 13% da população da época. “Na Mensagem de 1901, o chefe do Executivo apresentou o seguinte balanço: 53.047 imigrantes teriam chegado ao Paraná entre 1889 e 1900” (OLIVEIRA, 2009, p. 226).

Entretanto, esta grande quantidade de pessoas entrando no país de forma acelerada concorre para agravar problemas sanitários e epidêmicos nas cidades do país nas quais esses homens e mulheres se concentravam. Algumas doenças como a varíola e a febre amarela que já castigavam os brasileiros, se difundiam entre imigrantes que ficavam aglutinados nas colônias ou ocupavam cortiços das cidades (TELAROLLI JUNIOR, 1996, p. 270).

Assim, com o apoio da sociedade, a perspectiva de um projeto de nação pautado na higienização se constitui no socorro às pessoas e principalmente às crianças expostas a doença ou falta de higiene.

A construção da identidade nacional e do ideal de nação são ideais que foram se estruturando neste período e relacionavam-se com a educação e a saúde das pessoas. Essa educação era influenciada pelos discursos da higiene3, do saneamento, da eugenia4 dentre outros. Segundo Carvalho (1998, p. 145), o Brasil era caracterizado por um “processo de degenerescência” ou por um “amorfismo invertebrado”. Assim, o desenvolvimento da educação e da saúde se apresentam como mecanismos de organização do país.

Segundo Benvenutti (2004, p. 9), em Curitiba, nas duas primeiras décadas do século XX “as preocupações higiênicas, sanitárias e de reorganização dos espaços urbanos são inerentes ao próprio crescimento das cidades”. Desta forma, as mudanças que ocorreram na cidade “suscitaram inúmeras preocupações pertinentes à higiene, à salubridade e à eficiência da estrutura urbana” (Ibidem, p. 15).

Acabam sendo destacados nos jornais, gravíssimos problemas com relação aos serviços de abastecimento de água, esgoto, limpeza (Diário da Tarde 31/10/17, p. 2; 05/03/1917, p. 1) e transportes. É possível perceber que, em Curitiba, há enchentes frequentes atingindo não somente os bairros mais afastados, mas também o centro, a falta de água para todos é constante, a quantidade de lixo observada pelas ruas e a falta de um sistema de esgoto (Diário da Tarde 21/01/1917, p. 1) são alguns dos problemas apresentados para a sociedade da época.

Entre as doenças que assolavam a capital do Paraná nos primeiros anos do século XX, a tuberculose, crupe, varicela e a escarlatina acometeram a população de Curitiba e preocuparam os médicos. Desta forma, a preocupação destes médicos com as questões sanitárias da cidade é cada vez mais freqüente, sendo que seus discursos apontavam hábitos “anti-higiênicos, os perigos das aglomerações, germes, moléstias, contágios, odores, a necessidade de isolamento dos doentes, o medo da peste e a necessidade de uma autoridade forte para impor regras de higiene” como elementos fundamentais para a obtenção de melhorias à cidade (BENVENUTTI, 2004, p. 81).

Há uma crescente preocupação de vários segmentos da sociedade quanto a questões de higiene das pessoas nos diferentes espaços urbanos, pois em diversos âmbitos aparecem discussões sobre medidas sanitárias necessárias à população em geral, desde os documentos oficiais do governo até os jornais que trazem artigos como o discurso de “expurgar e desinfetar” (Gazeta do Povo 12/02/1920, p. 1 e 3)5 tanto espaços públicos como residências privadas.

Este tipo de discurso sinaliza a existência de “uma vasta rede institucional de controle da população (...) sendo constituída” com “intelectuais de diferentes áreas como médicos, “sociólogos”, filantropos e juristas” somando esforço para “instaurar a ordem civilizatória brasileira” (MARQUES, 1992, p. II). Esta ordem, por sua vez acaba se relacionando aos princípios da higiene que se investe do “poder de gerir também a esfera do privado” (Ibidem, 1992, p. 2). No caso do Paraná esta rede é formada pelos médicos que atuavam ministrando aulas na Faculdade de Medicina do Paraná e/ou trabalhando nos hospitais, como a Santa Casa de Misericórdia, a Maternidade de Curitiba, Hospital de Alienados, Instituto Pasteur de Curitiba, entre outros e até mesmo nos jornais, onde escreviam “conselhos sanitários“ à população6 (Diário da Tarde 06/01/1917, p. 1), por políticos que se encontravam na gestão municipal e estadual e ali criavam algumas leis como o “estatuto sanitário” e por personalidades da sociedade que se uniam em prol dos necessitados e desempenhavam atividades filantrópicas de assistência.

Segundo Áries (1981), na Idade Média, o cuidado com as crianças era mínimo se comparado com o que acontecia nos séculos seguintes, e o grande número de mortalidade infantil se justificava cada vez mais em decorrência do pós-natal e das péssimas condições de saúde e higiene de toda a população e principalmente das crianças que nem chegavam a completar 10 anos. Havia uma aceitação social desta condição de perda que se dava muito facilmente e que estava posta, afinal muitas crianças morriam, isto não significava frieza, falta de sofrimento dos pais, ou falta de amor pelas crianças. Gélis (1991, p. 315) apresenta alguns exemplos de sofrimento e luta pela manutenção da vida dos filhos que podem ser observados na crescente “vontade de salvar as crianças” ao longo dos séculos XIV a XVII desencadeando um “novo sentimento de infância” incentivado também pelo discurso médico.

A partir do século XVIII a criança havia deixado de ser apenas depositária e transmissora do sangue e do nome da família (MARTINS, 2008, p. 138), e no início do século XIX observa-se uma grande sensibilização com os filhos que podem ser observada de forma destacada em textos médicos.

De acordo com Kuhlmann Jr e Fernandes (2004, p. 15), a infância deve ser compreendida como “a concepção ou a representação que os adultos fazem sobre o período inicial da vida, ou como o próprio período vivido pela criança” que acaba recebendo uma atenção bastante forte no final dos séculos XIX e XX através de múltiplas propostas e ações destinadas às elas “nas legislações, nas políticas públicas, na educação e na saúde, no mercado, etc.” (KUHLMANN JR e FERNANDES, 2004, p.18).

Assim a criança vai ocupando um lugar central para a família e para a sociedade na medida em que passa a ser vista como um indivíduo que necessita de cuidados diferenciados, momentos específicos, lugares próprios e tempo apropriado para sua educação (ARIÈS, 1981). Segundo Key (1945) o século XX, pode ser considerado o século da criança, que a partir de então, passa a ser um sujeito mais individualizado e estudado.

Os saberes sobre a criança na virada do século XX sofrem influência da psicologia, o que se traduziu no controle sobre os corpos infantis, nas medições e nos testes. Cada vez mais a criança vai receber este tipo de atenção emergindo expectativas novas com relação a ela.

Apesar das políticas de proteção à maternidade e à infância no Brasil serem políticas públicas das décadas de 1930/1940, a preocupação com a maternidade e a infância não é um fenômeno recente, pois o discurso médico já tratava de temas como a alimentação de crianças e a mortalidade infantil e discutia os hábitos culturais presentes na criação e na educação dos filhos (LEITE FILHO, 2008. p. 25).

No estado do Paraná é possível perceber nas primeiras décadas do século XX, um discurso de preocupação com a “infância desvalida e moralmente abandonada” e com o fato de que “o equilíbrio moral das gerações futuras assenta na defesa social da infância desprotegida” (PARANÁ, 1920, p. 35). Estes fragmentos da Mensagem do Presidente do Estado Affonso Alves de Camargo de 1920 apresentam a criança como um ser frágil que necessitava de proteção da sociedade de forma organizada e sistemática, o que suscita medidas assistenciais de proteção que podem ser observadas também em outras partes do Brasil.

Idéias diferentes sobre criança permeiam as ações implementadas, o que nos leva a considerações sobre a classificação das idades da vida e, consequentemente das crianças, que variou ao longo dos séculos e que “passaram a ser associadas não apenas a etapas biológicas, mas também a funções sociais [, a chamada infância]” (FERREIRA & GONDRA, 2007, p. 129). No século XIX, uma das mais marcantes classificações das etapas da vida é a de Hallé7, segundo a qual a primeira infância compreende as idades de 1 a 7 anos e a segunda infância (puerícia) as idades de 7 a 15 anos para os meninos e de 7 a 13 anos para as meninas. A. Becquerel8, por sua vez, indica como primeira fase a época do nascimento, como segunda fase ou primeira infância, o período que vai de zero aos dois anos, e como terceira fase ou segunda infância, dos 2 aos 12/15 anos. Segundo Monarca (2001, p. 1), entre o final século do XIX e início do XX a infância compreendia e o período de zero aos sete anos e era caracterizada por “um período da vida humana em que a criança é incapaz de falar de si mesma e de discernir, encontrando-se totalmente dependente do adulto.” A infância é, portanto, uma “construção de ordem social e cultural, eficaz e significativa[...]” (MONARCA, 2001, p. 2).

Na Curitiba das primeiras décadas do século XX, a mortalidade de crianças ainda era marcada principalmente pela falta de cuidados direcionados aos recém-nascidos e perturbações digestivas, além dos acidentes ou doenças relacionadas ao nascimento9.

A faixa etária que merecia atenção quando a questão era saúde da criança era entre 0 (zero) aos 13 (treze) anos (Associação Hospitalar de proteção à Infância Dr. Raul Carneiro. (mimeo.), 1993).

Os temas alimentação, higiene e mortalidade apresentam-se no artigo da primeira página do jornal Diário da Tarde em janeiro de 1917. “Cuidado com vossos filhos, ó mães!” era a chamada do jornal que tratava de questões relativas à mortalidade infantil. Apenas em um dia, 9 de janeiro, das 12 pessoas que morreram na cidade 9 eram crianças com menos de nove anos. O artigo conclui:


Apenas nós com o nosso fraco esforço, nos levantamos, e ouvindo a palavra autorisada de scientistas procuramos conselhos médicos que viessem orientar as mães de famílias e evitar que seus lares sejam também invadidos pela desgraça (Diário da Tarde, 12/01/1917, p. 1).
A grande quantidade de crianças que faleceu em 1917 em Curitiba é denunciada pelo artigo que recorre a conselhos especializados, ou seja, dos médicos que, afirmavam que os problemas intestinais que haviam ocasionado muitas mortes poderiam ser causados por conta da falta de higiene do leite, da água e da alimentação das crianças. Estes produtos poderiam estar contaminados, sujos ou estragados.

Estes conselhos, diferenciando-se do conhecimento leigo ou popular, eram considerados “científicos”, pois se baseavam nos conhecimentos médicos, difundidos através do “olhar do médico”. Este olhar reconhecido como sofisticado, especializado, erudito se construía muitas vezes contrariamente ao olhar popular. Assim, este conhecimento era considerado “acadêmico, mais sistematizado e elaborado” (FIGUEIREDO, 2005, p. 65). As mães deveriam, portanto, “ser guiadas pela racionalidade científica da medicina e dos especialistas”, educando seus filhos com métodos, pensando como cientistas ou enfermeiras. Enfim, “o método científico para criar filhos” estava pautado na regularidade, na disciplina e no controle das emoções (MARTINS, 2008, p. 142).

Na década anterior, entre 1903 e 1909, aproximadamente 45% dos óbitos no Paraná, eram de crianças abaixo de 5 anos. Em 1903 morreram 2922 pessoas no Estado, sendo que 1397 eram crianças (47,8% dos mortos), em 1904, 3448 pessoas morreram sendo 1483 crianças (43%), em 1905, 3496 mortos sendo 1577 crianças (45,1%), em 1908 foram 3965 mortes com 1874 crianças (47,2%) e em 1909 morreram 4271, sendo 1889 crianças10 (44,2%).

Em Curitiba isto praticamente se repetia, e no final dos 1900 e primeiros anos da década de 1910 a mortalidade infantil era significativa. Em 1908 faleceram 828 pessoas, das quais 444 (53,6%) eram crianças; em 1909, dos 931 mortos, 413 (44,3%) eram crianças; em 1910, das 1069 pessoas que chegaram a óbito, 560 (52,4%) eram crianças, em 1911, 957 óbitos, sendo 506 de crianças ou 52,9%, em 1912, 1320 óbitos dos quais 55,3% ou 730 de crianças e finalmente em 1913, dos 1168 óbitos, 633 ou 54,2% eram de crianças. Mesmo considerando que os dados estão incompletos, inclusive com a falta dos índices de óbitos de alguns anos, o alto índice de mortalidade de crianças na sociedade curitibana do início do século XX é evidente, como evidente também era a preocupação com tal situação nos relatórios dos Presidentes do Estado, nos jornais e nos discursos médicos. O foco da discussão era a necessidade de salvar as crianças e imprimir-lhes futuro.

Em 1917 o relatório apresentado ao Presidente do Estado do Paraná, Affonso Alves de Carvalho pelo Secretário de Negócios do Interior, Justiça e Instrução Pública Doutor Enéas Marques dos Santos destaca que
diversas providencias têm sido adoptadas em bem da saúde publica, estando o governo resolvido a fornecer gratuitamente á população pobre desta Capital os medicamentos de que necessitar para o tratamento de doentes atacados de dysenteria e de outras moléstias que actualmente predominam causando a mortalidade infantil (PARANÁ, 1917, p. 8).
Dia 16 de janeiro de 1917, o jornal Diário da Tarde também denunciava como causa da mortalidade de crianças, a “dysenteria e outras moléstias”, associando-as de forma explícita a pobreza.
Estamos certos de que o illustre dr. Trajano Reis, chefe do Serviço Sanitário do Estado, não deixaria de tomar em consideração o grito de alarme do “Diario da Tarde”, diante da terrível mortalidade infantil em Coritiba.

S. ex., segundo as noticias hontem publicadas mandou buscar, com urgência, no Rio, uma provisão de soro anti-dysinterico e anti-diphterico para ser distribuído pela sua secretaria e pela pobreza. (...)

De facto, as molestias a que s. ex. vãe dar combate energico é a que tem mais contribuído para levar ao tumulo, nestes ultimos tempos, centenas de creanças. (Diário da Tarde, 16/01/1917, p. 1)

A mortalidade das crianças continuava a assustar, pois há uma rotina de mortes constante e os enterros de crianças não passa despercebida para grande parte da população. Em fevereiro de 1917, o doutor Manoel Carrão, inspetor sanitário do Estado era questionado sobre a mortalidade infantil em Curitiba:


-Que nos diz o dr. da excessiva mortalidade em nossa capital?

-O accrescimo da mortalidade infantil nestes mezes quentes é um phenomeno normal. O calor é favoravel ás fermentações microbianas que se acentam de preferência nos intestinos. Nos meses frios o mesmo phenomeno se reproduz, mas ahi são as moléstias do apparelho respiratório!... (Diário da Tarde, 09/02/1917, p. 1)


Na tentativa de justificar a morte de crianças, o doutor Carrão apela para o calor, combinando considerações sobre o clima com conhecimento macrobiológico, e conclui apontando a necessidade de maior ação médica.
(...) o sr. não imagina a miseria que anda por ahi. As mães se alimentam mal e o aleitamento dos filhos se resente desse facto. O leite, ou se acaba, ou é pouco, ou é fraco. Os remedios estão carisimos, carissimos!! E quantas vezes não temos nós os medicos de, com a receita, fornecer tambem o remedio! A assistencia á infancia seria um complemento da maternidade, seria a unica providencia efficaz. (Diário da Tarde, 09/02/1917, p. 1)
Poucas semanas antes da entrevista do inspetor sanitário do Estado, outro médico, o doutor Gabriel Nowicki11 indicava três causas para o alto índice da mortalidade em Curitiba nos dois últimos meses de 1916. A primeira causa seriam as epidemias de coqueluche e sarampo que acometeram a população curitibana no período, outra causa seriam as “inflamações intestinais agudas e crônicas” que se propagavam durante os meses mais quentes. A terceira causa seria a sífilis hereditária. O médico ainda acusava a procura tardia dos pacientes por socorro médico, os únicos adequados, e acusava as pessoas de recorrerem a curandeiros e conselhos de vizinhos, prática considerada nociva, motivada por ignorância. Para prevenção da mortalidade de crianças, uma grande preocupação, Nowichi apontava que, juntamente com o serviço sanitário, era indispensável
1º a diffusão mais larga possível das noções elementares sobre hygiene infantil principalmente para creanças de peito, como também sobre as molestias infecciosas mais communs e suas complicações; sobre a propagação e prophylaxia dessas molestias. (...)

2º Prevenir a população contras os curandeiro e espíritas.

3º Apontar ao povo a necessidade de tratar a syphilis dos paes e a das creanças que a herdaram. (Diário da Tarde, 08/01/1917, p. 1).
Assim, mães e crianças, aos poucos passam a ser os “alvos prioritários da medicina” (MARQUES, 2000, p. 28). A importância do aleitamento materno é preconizada da mesma forma como é recomendado o estabelecimento de regras para este aleitamento. As mães precisavam ser aconselhadas, instruídas sobre como deveriam criar seus filhos. Esses aconselhamentos médicos se referiam não somente à alimentação despendida às crianças, mas também aos hábitos de higiene necessários no cuidado com elas, suas roupas e comportamentos (MARTINS, 2008, p. 135). Este aconselhamento às mães pode ser encontrado em manuais escritos pelos médicos ou em notícias de jornal. (Diário da Tarde 12/01/1917, p. 1; Gazeta do Povo 15/11/1921, p. 1; 11/01/1922, p.1; 25/08/1924, p. 1).

No mês de fevereiro de 1917, doutor. Gabriel Nowicki ficou durante vários dias seguidos explicando, dentre outras coisas, como deve ser a alimentação das crianças e sob o que deve recair a preocupação das mães com relação aos cuidados com esta alimentação, num dos jornais diários de maior circulação em Curitiba.


Indicaremos essas regras, na ordem, não só das edades das crianças, mas ainda na ordem da importancia respectiva, passando, em seguida, a detalhes sobre o assumpto, para melhor elucidar e instruir ás mães na pratica de actos mais conduccentes à boas saúde de seus adoraveis filhos.

“A criança deve mamar leite materno sempre que uma causa imperiosa qualquer o não obste.” (Diário da Tarde, 14/02/1917, p. 1).


O Grêmio das Violetas
Além de médicos, autoridades, governamentais e parte significativa da imprensa, diversas agremiações que atuavam na sociedade curitibana no início do século XIX (TRINDADE, 1996) se dedicavam a ações filantrópicas. Várias tinham nomes de flores, como Grêmio das Violetas, das Magnólias, dos Miosótis, das Glicínias, das Camélias, Grêmio Souvenir, Bouquet. Esses grêmios acabavam se constituíam no lugar de convivência social de mulheres pertencentes em geral, a um nível socioeconômico mais abastado. Um lugar no qual podiam se reunir para tomar chá, realizar bailes, matines dançantes, festivais musicais, saraus, soirées, etc.12, além de desenvolver também atividades filantrópicas.

O Grêmio das Violetas, fundado ainda no século XIX foi notícia no jornal Gazeta do Povo de 22 de dezembro de 1920, pois no dia 24 de dezembro completaria 26 anos e seria realizada uma comemoração no Hotel Moderno precedida por uma sessão magna de posse da nova diretoria, assim constituída:


Presidente, d. Yayá Junqueira França (reeleita); vice-presidente, D. Stella Macedo P. Lima; secretaria, Alice Grillo (reeleita); 2ª secretária, Fernandina Marques (reeleita); thesoureira, Cecy Murray (reeleita) 2ª thesoureira, Stella do Amaral; orador, Dr. Eduardo Fernandes Chaves13.
Algumas notícias de jornais apresentam atividades de cunho cultural do Grêmio das Violetas, como a realização de bailes ou “festas eminentemente artísticas” (Gazeta do Povo, 22/04/1919, p. 4). Segundo artigo da Gazeta do Povo, “o fidalgo grêmio muito tem concorrido para a educação de muito bom gosto e para o desembaraço de nossas graciosas senhoritas” (Gazeta do Povo, 15/02/1919, p. 1). Como escreveu D’Incao (2008, p. 228), a partir do século XIX, as mulheres de elite “tiveram de aprender a comportar-se em público, a conviver de maneira educada”.

Trindade lembra que:


Embora os grêmios do início do século voltem-se, preferencialmente, para as atividades recreativas, não se furtam à doação eventual de bens materiais, com a intenção de atender às diversas formas de indigências ou socorrer as entidades assistenciais (1996, p.256).
A filantropia foi uma das formas de atuação mais incisiva das mulheres nas questões sociais, pois “a prática da filantropia acaba por superar a caridade pura e simples” (TRINDADE, 1996. p.254). Afinal, a caridade constitui-se somente numa troca de consolo que engrandece o doador, mas a filantropia resume-se em “novas modalidades de atribuição de socorros, na busca de um procedimento que permita, ao mesmo tempo, discriminar o ‘indigente factício’ da ‘verdadeira pobreza’ e introduzir na assistência a exigência de sua necessária supressão no futuro” (DONZELOT, 1986, p. 55 a 68).
A Cruz Vermelha Paranaense
Em 1917 o Grêmio das Violetas, com apoio do Grêmio Bouquet, implementou ações que resultaram na organização da Associação da Cruz Vermelha Paranaense.

A preocupação com ajuda humanitária aos combatentes da Guerra Mundial, na qual o Brasil se engajava14 e a população civil da área do conflito motivou a criação da filial em terras paranaense. Entretanto, desde os primeiros dias entre seus objetivos estava a construção do Hospital de Crianças de Curitiba (MACEDO, 1978, p. 7). O jornal Gazeta do Povo afirmava anos depois em artigo: “(...) além de proporcionar a nossa sociedade festivaes de pura arte, o gentil Grêmio [das Violetas] cuida também de amparar instituições nobilíssimas, taes como a Cruz Vermelha (...)” (Gazeta do Povo, 30/04/1919, p. 2).

Foi nesse contexto de ajuda filantrópica, que a Associação da Cruz Vermelha Paranaense foi fundada em Curitiba no dia 22 de abril de 1917 sendo a senhora Judith Costa a secretária da instituição (Diário da Tarde, 30/04/1917, p. 2) que contava entre seus membros com as consulesas da França, Inglaterra e Itália, senhoras Laforge, Goom e Goffredo respectivamente (Diário da Tarde, 28/04/1917, p. 3). Segundo Macedo:
A Cruz Vermelha Paranaense (...) nasceu entre flores; iniciativa do Grêmio das Violetas, teve apoio imediato do Grêmio Bouquet. (...)

Por proposta da Senhorinha Stella Dória foi aclamada a primeira Diretoria que teve como presidente a senhora Viúva Leão Júnior. Na sua ausência presidiu a sessão fundamental da Cruz Vermelha a Senhora Margarida Laforge (1978, p. 7).


A Cruz Vermelha mundial foi organizada depois das guerras que resultaram nas transformações profundas do mapa político da Europa no século XIX (Cf. HOBSBAWM, 1995). Voluntários socorriam as vítimas dos combates, o que motivou a organização, em 1863 do Comitê Internacional de Socorro a Feridos com apoio de 16 países. Em 1864 foi criado o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, com apoio decisivo do governo suíço. Nascia assim a instituição conhecida por prestar assistência e socorro aos feridos em conflitos e catástrofes (GUMPERT, 1944). Ao saudar a iniciativa da organização da filial curitibana, o jornal Diário da Tarde afirmava:

A Cruz Vermelha pressupõe a imminencia do perigo, a véspera do soffrimento, o despojo de todos os bens, o sacrificio de todos os affectos, o lucto d’alma, a resignação do martyrio.

E, assim, as damas de todas as nações em guerra vão se irmanando às mais humildes, na resignação a todas as privações, na resitencia a todos os esforços. (...)

Não ha escolher para as nossas caras patricias do que preferirem o humilde trabalho, o vestir modesto, a desprezo da fartura, a dadiva do superfluo, o esforço uniforme, o trabalho collectivo, a operosidade do lar, a confeccção utilitaria, a pratica da assistencia, a previdencia para o infortunio (...) (Diário da Tarde, 09/05/1917, p. 1).


No Paraná, as iniciativas de instituição da Cruz Vermelha seguiram esta premissa de atendimento aos necessitados. Como dizia artigo do Diário da Tarde: “a missão mais urgente da Cruz Vermelha será, pois, acautelar recursos contra a fome” (Diário da Tarde, 09/05/1917, p. 1). Como em outras partes do Brasil e do mundo, a atuação feminina na instituição foi relevante:
Em todo o Estado, a população se agita impulsionada pelo mais exagerado sentimento patriótico sobressaindo nesse movimento a dedicação da mulher paranaense que, na imminencia de coparticiparmos da lucta que devasta a Europa, prepara-se para attenuar os flagellos da guerra que talvez muito logo venham pesar sobre os filhos de nossa terra. (Diário da Tarde, 07/05/1917, p. 1).
A organização da Cruz Vermelha Paranaense contaria entre seus membros, além das chamadas “damas de caridade”, com intelectuais como Mariana Coelho, escritora, feminista, professora (Cf. BUENO, 2010).
A Cruz Vermelha Paranaense surgiu como que para coroar o grande e justamente admirado movimento associativo desta capital; e surgindo no tão delicado momento que a patria atravessa, realizou a feliz idéia de vir ao encontro da melhor opportunidade que se lhe podia deparar. (Diário da Tarde de 02/06/1917, p. 1).
Em junho de 1917, no discurso de despedida da diretoria provisória, Mariana Coelho, em tom ufanista, afirmava:
(...) dos seus deveres de solidariedade no alheio infortúnio, apresentando-se onde a sua benefica acção for reclamada; - isto, sabemos, conforme indicação dos poderes competentes, que se devem informar onde ha necessidade de conforto moral e physico – inquirindo de todos os recantos onde occultam a miseria e a dôr sobre todas as suas negras e variadas formas. E os enviados da Cruz Vermelha – emissários do bem e do amor, irão então qual bando alado batendo as niveas azas protectoras, em promissora revoada, levar aos infelizes o obulo sublime da caridade – quer elle se traduza na doçura reconfortante da palavra carinhosa, quer na espontaneidade de um meticulosa assistência; irão, em summa, levar a todos os desesperados na dolorosa travessia terrena, o “ramo da oliveira” de uma vida nova ou melhorada. (Diário da Tarde de 02/06/1917, p. 1).
Realizando suas primeiras reuniões nas dependências do Club Curitibano, local de reuniões da elite política e financeira da cidade, a Cruz Vermelha Paranaense iniciou suas atividades com destacada atuação feminina. Entretanto, poucas semanas depois da criação oficial da instituição, nota no Diário da Tarde de 7 de maio de 1917 afirmava :
O fim dessa reunião é se proceder a eleição de uma directoria composta de cavalheiros, por isso que os Estatutos da Cruz Vermelha Brasileira, á que a nossa esta filiada, exigem uma directoria composta de senhoras e uma de cavalheiros. (Diário da Tarde, 07/05/1917, p. 2).
Esta atuação masculina começa a se articular dentro da Cruz Vermelha Paranaense no momento que chega da Capital Federal o Estatuto Internacional da Cruz Vermelha que prevê a participação de ambos os sexos na direção da instituição. No discurso de despedida da comissão provisória, Mariana Coelho, que fazia parte desta comissão, evidencia que a Cruz Vermelha no Paraná foi fundada e organizada somente com mulheres “mas sinceramente predispostas, é claro, a corrigir as deficiencias que naturalmente deviam existir em virtude da alludida falta, logo que os Estatutos chegassem (...)” (Diário da Tarde de 02/06/1917, p. 1).

A reunião para a eleição da diretoria definitiva foi convocada para o dia 7 de maio de 1917. Neste dia foi apresentada uma comissão executiva composta por 50 pessoas, 25 mulheres e 25 homens. Mas os trabalhos para a eleição foram interrompidos pelo doutor Benjamim Lins que, pedindo a palavra, afirmou que


(...) a eleição para a directoria não podia ser feita porque a sociedade ainda não estava legalmente constituida, pois não havia, até então, sócios effectivos, e sim, tão somente, socio honorários (Diário da Tarde de 07/05/1917, p. 1).

O doutor Menezes Doria discordou do colega de profissão. Para ele, mesmo sem sócios efetivos, a Cruz Vermelha Paranaense estava constituída e, portanto poderia ser realizada a eleição para a diretoria definitiva. O doutor Lins contestou, dizendo que Estatutos da Cruz Vermelha internacional consideravam sócios honorários os médicos, farmacêutico, advogados, etc., em geral, o que, portanto, não significava que a Cruz Vermelha Paranaense estivesse constituída e com número suficiente de sócios para sua manutenção. Depois de muita discussão, ficou combinado que a eleição somente seria realizada em outra data, depois que fossem angariados, pela direção provisória, novos sócios efetivos para a instituição. Todos os presentes na reunião, ao assinar a ata, tornariam-se sócios efetivos.

Durante o mês de maio foram publicadas nos jornais de Curitiba apelos para a filiação a Cruz Vermelha Paranaense e listas dos sócios efetivos da instituição. Pelos nomes publicados nos periódicos pode-se concluir que estes sócios são médicos, advogados, escritores, policiais, políticos, suas esposas e algumas personalidades paranaenses como Dr. Benjamim Lins, desembargador Bevilaqua, Dario Veloso, tenente Julio Xavier, Moreira Garcez, dr. Adriano Goulin, d. Rosa Goulin, dentre outros. No final do mês eram sócios 102 mulheres e 133 homens.

O Conselho Diretor da Cruz Vermelha Paranaense, que escolheu a Diretoria definitiva, foi eleito no dia 28 de maio de 1917, composto de 15 senhoras e 15 cavalheiros.


Exmas, sras Elvira de Mattos, Zilla Ticoulat, Judith Costa, Joanita Marques, Mercedes Fontana, Maria Lyrio, Isabel Gomm, Emilia Rego Barros, Alcina Camargo, Noêmia Lima, Esther Menssing, Ismênia de Alencar, Elisa Gonçalves, Lulu Reis, Josephina Rocha.

Srs. dr. Candido de Abreu, dr. Victor do Amaral, dr. Espindola, dr. Benjamin Lins, dr. Reinaldo Machado, dr. Petit Carneiro, dr. Leal Ferreira, dr. Enéas Marques, desembargador Vieira Cavalcanti, monsenhor Celso, dr. João Antonio Xavier Filho, Augusto Loureiro, dr. Santa Ritta, Julio Theodorico Guimarães, desembargador Euclides Bevilaqua. (Diário da Tarde de 29/05/1917, p. 2)


No dia 1º de junho deste mesmo ano, foi eleita a primeira Diretoria efetiva que dirigiu a Cruz Vermelha Paranaense. Esta Diretoria, com mandato de 1 ano, contava com os seguintes componentes, por cargo:
Presidente, dr. Candido Ferreira de Abreu; 1º vice-presidente, dr. Victor Ferreira do Amaral; 2º vice-presidente, dr, João Evangelista Espindola; 3º vice-presidente, d. Maria Lyrio; 4º vice-presidente, d. Elvira de Mattos; secretario geral, dr. Benjamin Lins; 1º secretario, Julio Theodorico dos Santos; 2ª secretaria, d. Judith Costa; 3ª secretaria, d. Esther Mensing; thesoureiro, dr. Euclides Bevilaqua; procurador, dr. Vieira Cavalcanti; 1ª procuradora, Zila Ticoulat; 2ª procuradora, d. Emilia Rego Barros (Diário da Tarde de 02/06/1917, p. 1).
Independente da formação ou da posição sociopolítica, dos homens, o que se pode observar é que as mulheres começavam a ser, discretamente, preteridas. Cederam os postos principais espontaneamente? Havia mais sócios efetivos homens e, portanto eles teriam prioridade? Não sabemos. Certo é que os cargos principais são ocupados por homens, como a presidência, a secretaria geral e a tesouraria.

Desde sua organização, a Cruz Vermelha Paranaense, com sede social na Rua Barão do Rio Branco (Gazeta do Povo, 17/12/1921, p. 1), aparecia frequentemente nas páginas dos jornais com destaque para as notícias sociais e humanitárias. Com o envolvimento da Cruz Vermelha Paranaense no auxílio aos doentes da epidemia de febre tifóide se inicia o atendimento da instituição à toda a população curitibana. (Gazeta do Povo, 11/10/1917, p. 1), Entretanto, nestas atividades de socorro aos doentes, a atuação feminina continuava sendo a prioritária.


Com o envolvimento da Cruz Vermelha [Paranaense] no auxílio aos doentes da epidemia de febre tifóide se inicia o atendimento da instituição à toda a população curitibana.

O posto vaccinico, que está funccionando sobre os auspícios da Cruz Vermelha, já hontem asignalou seus magnificos resultados, tendo os dignos médicos que ali funccionaram, vaccinado todas as pessoas que se apresentaram para este fim.

As dedicadas diretoras da Cruz Vermelha [Paranaense] e outras caridosas senhoras que fazem parte desta instituição, estão asignalando por um acto meritório, a grandeza dos seus sentimentos em uma hora de afflicção por que esta passando a população da capital. (Diário da Tarde, 13/10/1917, p. 1).
Paralelamente, cada vez mais, a Cruz Vermelha Paranaense passa a utilizar a imprensa curitibana para fazer propaganda de suas atividades, publicando inclusive convocatória para seus serviços.
Cruz Vermelha Paranaense

R. Barão do Rio Branco, 96

Expediente: todos os dias úteis

Das 12 ás 15 horas meio dia ás 3

Consultório gratuito diariamente, das 13 as 15 horas

Serviço de vaccinação contra a typho e A varíola diariamente, das 13 ás 15. (Diário da Tarde, 15/02/1918, p. 1; 16/02/1918, p. 1; 18/02/1918, p. 1, 19/02/1918, p. 1 e 3).


Entre as publicações referentes a ação da instituição, alguns artigos também ressaltavam as atividades da Cruz Vermelha em nível mundial. Ao noticiar a indicação do Monsenhor Celso Itiberê da Cunha para a direção da Cruz Vermelha Paranaense em 1920, texto do jornal Gazeta do Povo fazia um breve panorama dos trabalhos desempenhados pela Cruz Vermelha no mundo, destacando as ações da Cruz Vermelha Americana, que por possuir muito dinheiro realizava ações não somente nos Estados Unidos, mas em diferentes partes do Globo, como por exemplo, na China, país em que realizou um estudo sobre as enchentes que assolavam o país e apresentou ao governo chinês um projeto para tentar resolver o problema. O artigo conclui afirmando que as funções da Cruz Vermelha Americana seriam “socorrer os exércitos na guerra, diplomando enfermeiras e organizando os seus serviços e accumulando recursos, nos grandes males, nas grandes epidemias, nas grandes catastrophes” (Gazeta do Povo, 21/05/1920, p. 1).
Considerações finais
Dentre as diversas ações que influenciaram a organização da Cruz Vermelha Paranaense em Curitiba, em 1917, a construção de um hospital para crianças acabou sendo um dos objetivos da instituição já em 1919. A Cruz Vermelha foi organizada em Curitiba a partir da movimentação do Grêmio das Violetas, organização feminina da sociedade curitibana do final do século XIX. Esta organização feminina logo foi sendo substituída na Cruz Vermelha Paranaense por uma diretoria mista, composta por cavalheiros e por algumas senhoras já no ano de 1917. Até 1930, a Cruz Vermelha Paranaense funciona provisoriamente numa casa cedida para o Instituto de Higiene Infantil também denominado pela imprensa curitibana de Polyclinica Infantil, quando o Hospital de Crianças é oficialmente inaugurado passando a funcionar num prédio próprio juntamente com a Cruz Vermelha.

Portanto, é possível destacar que uma das principais atuações da Cruz Vermelha Paranaense foi o movimento no qual ela se envolve para construir o Hospital de Crianças em Curitiba, pois desde seus primeiros dias é possível observar em noticias de jornais, em publicações em revistas ou no discurso de políticos que a instituição se articula em atividades para a construção do Hospital, desde a criação do Instituto de Higiene Infantil ou Polyclinica Infantil já em 1919, onde se inicia o atendimento das crianças pobres numa casa emprestada pela presidente da Cruz Vermelha Paranaense.

A pesquisa encontra-se em andamento e desempenha um papel muito importante no aprofundamento dos conhecimentos sobre a organização do hospital, compreendendo-o integrante de um processo histórico, cultural e social que envolve a produção de saberes e práticas educativas.
FONTES
Relatórios
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_______. Estatística Demographo-Sanitária. (Relatório) Curitiba, 1908-1910.

_______. Relatório apresentado ao Presidente do Estado do Paraná Dr. Affonso Alves de Camargo pelo Dr. Enéas Marques dos Santos Secretário de Estado dos Negócios do Interior, Justiça e Instrucção Pública. 31 de dezembro de 1916, Coritiba, Typographia Da República, 1917. (Arquivo Público Paraná).

_______. Relatório apresentado ao Presidente do Estado do Paraná Dr. Affonso Alves de Camargo pelo Dr. Enéas Marques dos Santos Secretário de Estado dos Negócios do Interior, Justiça e Instrucção Pública. 31 de dezembro de 1918, Coritiba, Typographia Da República, 1918. (Arquivo Público Paraná).


Mensagens do Governo
PARANÁ. Mensagem ao Congresso Legislativo do Estado do Paraná, dirigida pelo Doutor Affonso Alves de Camargo, presidente do Estado, na primeira sessão da 15ª legislatura. 1º de fevereiro de 1920. Curityba. Typographia da “Republica”, 1920. (Arquivo Público Paraná)

_______. Mensagem apresentada ao Congresso Legislativo do Estado do Paraná pelo Presidente Doutor Affonso Alves de Camargo, ao instalar-se a primeira sessão da 20ª legislatura. 1º de fevereiro de 1930. Curityba. (Arquivo Público Paraná)


Periódicos
DIÁRIO DA TARDE. (1917-1923, 1927-1932). Acervo Microfilmado da Biblioteca Pública do Paraná. Divisão Paranaense, Paraná

GAZETA DO POVO. (1919-1928, 1930-1932). Paraná. Acervo Microfilmado da Biblioteca Pública do Paraná. Divisão Paranaense, Paraná

O DIA. (1923-1932). Acervo Microfilmado da Biblioteca Pública do Paraná. Divisão Paranaense, Paraná
Históricos e Livros
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MACEDO, Heitor Borges de. Hospital de Crianças Cesar Pernetta. Subsídios para a História do Hospital de Crianças. 1ª Parte, Período 1919 – 1956. Curitiba : [s.n.], Coleção da Sociedade Brasileira de Escritores Médicos, 1978.


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1 Mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná na Linha de História e Historiografia da Educação tendo como orientadora a Prof. Drª. Liane Maria Bertucci.

2 Reproduzo a terminologia usada por PEREIRA, 1996, p. 59.

3 A definição de higiene se entrelaça com limpeza ou preocupação contra doenças. Segundo Marques (1994, p.27), “a higiene no Brasil, (...) inseria-se no governo político dos indivíduos como um novo agente coercitivo, na medida em que incorporava a cidade e a população à esfera do saber médico”.

4 Conjunto dos métodos que visam melhorar o patrimônio genético de grupos humanos; teoria que preconiza a sua aplicação. De acordo com Goldim (2003) a palavra Eugenia “foi criado por Francis Galton (1822-1911), que o definiu como: O estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”. No Brasil a eugenia “seguia a corrente francesa neolamarckista, que defendia a herança das características adquiridas” o que acaba se relacionando “com o projeto sanitarista de regeneração do povo e construção da nação”, assim como “com a moralidade católica tradicional” (FREIRE, 2008, p. 163).

5 Este mesmo discurso aparece também na Gazeta do Povo 22/01/1920, p. 3; Gazeta do Povo 07/02/1920, p. 1 e 3; Gazeta do Povo 9/02/1920, p. 1; Gazeta do Povo 09/02/1920, p. 2 e 3; Gazeta do Povo 10/02/1920, p. 2; Gazeta do Povo 11/02/1920, p. 1 e 2; Gazeta do Povo 13/02/1920, p. 3; Gazeta do Povo 19/02/1920, p. 3.

6 Outros conselhos podem ser encontrados nos jornais: Diário da Tarde 08/01/1917, p. 1; Diário da Tarde 12/01/1917, p. 1; Gazeta do Povo 04/02/1920, p. 1; Gazeta do Povo 9/02/1920, p. 1; Gazeta do Povo 15/11/1921, p. 1; Gazeta do Povo 11/01/1922, p. 1; Gazeta do Povo 24/11/1922, p. 2.

7 Jean-Noël Hallé foi higienista e professor da Faculdade de Medicina de Paris e formulou, em 1787 uma classificação das idades que marcou profundamente o século XIX (FERREIRA & GONDRA, 2007, p. 133).

8 A. Becquerel foi professor agregado da Faculdade de Medicina e médico do hospital de Paris em 1864 (FERREIRA & GONDRA, 2007, p. 132).

9 Ferreira & Gondra (2007, p. 136) indicaram que no final do século XIX a situação era parecida em Lisboa, pois a mortalidade que aumentava nesta cidade, acontecia de forma desigual acometendo principalmente as crianças de 0 a 2 anos, sendo que as causas da mortalidade das crianças era a “ignorância das regras mais rudimentares de hygiene alimentar infantil”. Isso acaba reforçando a importância atribuída pelo saber médico a esta fase da vida onde “a higiene devia atuar sobre todos os aspectos que implicassem o desenvolvimento da criança”.

10 PARANÁ. 1908, 1909, 1910, 1918 e 1930.

11 O russo, Dr. Gabriel Nowicki foi professor da faculdade de medicina do Paraná entre 1912-1939 (CINTRA, 2010, p. 240).

12 Gazeta do Povo, 15/02/1919, p. 01; 26/01/1920, p. 02; 03/02/1920, p. 02; 05/02/1920, p. 03; 06/02/1920, p. 02; 09/02/1920, p. 02; 03/05/1920, p. 02; 15/02/1919, p. 01; 05/10/1920, p. 02; 23/12/1921, p. 03; 07/07/1922, p. 03.

13 Dr. Eduardo Fernandes Chaves era construtor e engenheiro, construiu a Paróquia de Nossa Senhora Aparecida em Curitiba entre 1941 e 1942. http://www.pnsra.org.br/igre_txt3.htm. Acesso em 16/05/2010. Outras notícias de comemorações da data de fundação do Grêmio das Violetas seriam publicadas nos anos seguintes (por exemplo: Gazeta do Povo, 23/12/1921, p. 03).

14 O Brasil entrou efetivamente na I Guerra Mundial no dia 26/10/1917 ao lado do Entente, mas desde maio de 1917 havia declarado o fim de sua neutralidade, devido ataques a navios brasileiros e pressão norte-americana.






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