O evangelho segundo jesus cristo



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O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

José Saramago

Digitalização e tratamento do texto por Guilherme Jorge

(esta obra foi digitalizada para uso exclusivo por parte de

deficientes visuais ao abrigo do artigo 80 do CDADC)


Já que muitos empreenderam compor

uma narração dos factos que entre nós

se consumaram, como no-los transmitiram

os que desde o princípio foram testemunhas

oculares e se tornaram servidores

da Palavra, resolvi eu também,

depois de tudo ter investigado cuidadosamente

desde a origem, expor-tos por

escrito e pela sua ordem, ilustre Teófilo,

a fim de que reconheças a solidez da

doutrina em que foste instruído.

LUCAS, 1, 1-4

Quod scripsi, scripsi.

PILATOS

O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo,



o que se encontra à esquerda de quem olha, representando,

o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram

raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma

rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para

onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que

chora, crispado de uma dor que não remite, lançando

pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir,

pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de

nós é papel e tinta, mais nada. Por baixo do sol vemos

um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os

rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos

pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes

no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por

maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural,

dois pregos os mantêm, cravados fundo. Pela expressão

da cara, que é de inspirado sofrimento, e pela

direcção do olhar, erguido para o alto, deve de ser o

Bom Ladrão. O cabelo, todo aos caracóis, é outro indício

que não engana, sabendo-se que anjos e arcanjos assim

o usam, e o criminoso arrependido, pelas mostras,

já está no caminho de ascender ao mundo das celestiais

criaturas. Não será possível averiguar se este tronco ainda

é uma árvore, apenas adaptada, por mutilação selectiva,

a instrumento de suplício, mas continuando a

alimentar-se da terra pelas raízes, porquanto toda a parte

inferior dela está tapada por um homem de barba comprida,

vestido de ricas, folgadas e abundantes roupas,

que, tendo embora levantada a cabeça, não é para o céu

que olha. Esta postura solene, este triste semblante, só

podem ser de José de Arimateia, que Simão de Cirene,

sem dúvida outra hipótese possível, após o trabalho a

que o tinham forçado, ajudando o condenado no transporte

do patíbulo, conforme os protocolos destas execuções,

fora à sua vida, muito mais preocupado com as

consequências do atraso para um negócio que trazia

aprazado do que com as mortais aflições do infeliz que

iam crucificar. Ora, este José de Arimateia é aquele

bondoso e abastado homem que ofereceu os préstimos

de um túmulo seu para nele ser depositado o corpo principal,

mas a generosidade não lhe servirá de muito na

hora das santificações, sequer das beatificações, pois não

tem, a envolver-lhe a cabeça, mais do que o turbante

com que sai à rua todos os dias, ao contrário desta mulher

que aqui vemos em plano próximo, de cabelos -soltos

sobre o dorso curvo e dobrado, mas toucada com a

glória suprema duma auréola, no seu caso recortada

como um bordado doméstico. De certeza que a mulher

ajoelhada se chama Maria, pois de antemão sabíamos

que todas quantas aqui vieram juntar-se usam esse nome,

apenas uma delas, por ser ademais Madalena, se

distingue onomasticamente das outras, ora, qualquer observador,

se conhecedor bastante dos factos elementares

da vida, jurará, à primeira vista, que a mencionada Madalena

é esta precisamente, porquanto só uma pessoa

como ela, de dissoluto passado, teria ousado apresentar-se,

na hora trágica, com um decote tão aberto, e um

corpete de tal maneira justo que lhe faz subir e altear a

redondez dos seios, razão por que, inevitavelmente, está

atraindo e retendo a mirada sôfrega dos homens que

passam, com grave dano das almas, assim arrastadas à

perdição pelo infame corpo. É, porém, de compungida

tristeza a expressão do seu rosto, e o abandono do corpo

não exprime senão a dor de uma alma, é certo que escondida

por carnes tentadoras, mas que é nosso dever

ter em conta, falamos da alma, claro está, esta mulher

poderia até estar inteiramente nua, se em tal preparo tivessem

escolhido representá-la, que ainda assim haveríamos

de demonstrar-lhe respeito e homenagem. Maria

Madalena, se ela é, ampara, e parece que vai beijar,

num gesto de compaixão intraduzível por palavras, a

mão doutra mulher, esta sim, caída por terra, como desamparada

de forças ou ferida de morte. O seu nome

também é Maria, segunda na ordem de apresentação,

mas, sem dúvida, primeiríssima na importância, se algo

significa o lugar central que ocupa na região inferior da

composição. Tirando o rosto lacrimoso e as mãos desfalecidas,

nada se lhe alcança a ver do corpo, coberto pelas

pregas múltiplas do manto e da túnica, cingida na

cintura por um cordão cuja aspereza se adivinha. É mais

idosa do que a outra Maria, e esta é uma boa razão,

provavelmente, mas não a única, para que a sua auréola

tenha um desenho mais complexo, assim, pelo menos, se

acharia autorizado a pensar quem, não dispondo de informações

precisas acerca das precedências, patentes e

hierarquias em vigor neste mundo, estivesse obrigado a

formular uma opinião. Porém, tendo em conta o grau de

divulgação, operada por artes maiores e menores, destas

iconografias, só um habitante doutro planeta, supondo

que nele não se houvesse repetido alguma vez, ou mesmo

estreado, este drama, só esse em verdade inimaginável

ser ignoraria que a afligida mulher é a viúva de um

carpinteiro chamado José e mãe de numerosos filhos e

filhas, embora só um deles, por imperativos do destino

ou de quem o governa, tenha vindo a prosperar, em vida

mediocremente, mas maiormente depois da morte. Reclinada

sobre o seu lado esquerdo, Maria, mãe de Jesus,

esse mesmo a quem acabamos de aludir, apoia o antebraço

na coxa de uma outra mulher, também ajoelhada,

também Maria de seu nome, e afinal, apesar de não lhe

podermos ver nem fantasiar o decote, talvez verdadeira

Madalena. Tal como a primeira desta trindade de mulheres,

mostra os longos cabelos soltos, caídos pelas costas,

mas estes têm todo o ar de serem louros, se não foi pura

casualidade a diferença do traço, mais leve neste caso e

deixando espaços vazios no sentido das madeixas, o que,

obviamente, serviu ao gravador para aclarar o tom geral

da cabeleira representada. Com tais razões não pretendemos

afirmar que Maria Madalena tivesse sido, de

facto, loura, apenas nos estamos conformando com a

corrente de opinião maioritária que insiste em ver nas

louras, tanto as de natureza como as de tinta, os mais

eficazes instrumentos de pecado e perdição. Tendo sido

Maria Madalena, como é geralmente sabido, tão pecadora

mulher, perdida como as que mais o foram, teria

também de ser loura para não desmentir as convicções,

em bem e em mal adquiridas, de metade do género humano.

Não é, porém, por parecer esta terceira Maria,

em comparação com a outra, mais clara na tez e no tom

do cabelo, que insinuamos e propomos, contra as arrasadoras

evidências de um decote profundo e de um peito

que se exibe, ser ela a Madalena. Outra prova, esta fortíssima,

robustece e afirma a identificação, e vem a ser

que a dita mulher, ainda que um pouco amparando, com

distraída mão, a extenuada mãe de Jesus, levanta, sim,

para o alto o olhar, e este olhar, que é de autêntico e arrebatado

amor, ascende com tal força que parece levar

consigo o corpo todo, todo o seu ser carnal, como uma

irradiante auréola capaz de fazer empalidecer o halo que

já lhe está rodeando a cabeça e reduzindo pensamentos

e emoções. Apenas uma mulher que tivesse amado tanto

quanto imaginamos que Maria Madalena amou poderia

olhar desta maneira, com o que, derradeiramente, fica

feita a prova de ser ela esta, só esta, e nenhuma outra,

excluída portanto a que ao lado se encontra, Maria

quarta, de pé, meio levantadas as mãos, em piedosa demonstração,

mas de olhar vago, fazendo companhia,

neste lado da gravura, a um homem novo, pouco mais

que adolescente, que de modo amaneirado a perna esquerda

flecte, assim, pelo joelho, enquanto a mão direita,

aberta, exibe, numa atitude afectada e teatral, o grupo

de mulheres a quem coube representar, no chão, a

acção dramática. Este personagem, tão novinho, com

o seu cabelo aos cachos e o lábio trémulo, é João. Tal

como José de Arimateia, também esconde com o corpo

o pé desta outra árvore que, lá em cima, no lugar dos ninhos,

levanta ao ar um segundo homem nu, atado e pregado

como o primeiro, mas este é de cabelos lisos, deixa

pender a cabeça para olhar, se ainda pode, o chão, e a

sua cara, magra e esquálida, dá pena, ao contrário do ladrão

do outro lado, que mesmo no transe final, de sofrimento

agónico, ainda tem valor para mostrar-nos um

rosto que facilmente imaginamos rubicundo, corria-lhe

bem a vida quando roubava, não obstante a falta que fazem

as cores aqui. Magro, de cabelos lisos, de cabeça

caída para a terra que o há-de comer, duas vezes condenado,

à morte e ao inferno, este mísero despojo só pode

ser o Mau Ladrão, rectíssimo homem afinal, a quem sobrou

consciência para não fingir acreditar, a coberto de

leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento

basta para resgatar uma vida inteira de maldade

ou uma simples hora de fraqueza. Por cima dele, também

chorando e clamando como o sol que em frente

está, vemos a lua em figura de mulher, com uma incongruente

argola a enfeitar-lhe a orelha, licença que

nenhum artista ou poeta se terá permitido antes e é duvidoso

que se tenha permitido depois, apesar do exemplo.

Este sol e esta lua iluminam por igual a terra, mas a

luz ambiente é circular, sem sombras, por isso pode ser

tão nitidamente visto o que está no horizonte, ao fundo,

torres e muralhas, uma ponte levadiça sobre um fosso

onde brilha água, umas empenas góticas, e lá por trás,

no testo duma última colina, as asas paradas de um moinho.

Cá mais perto, pela ilusão da perspectiva, quatro

cavaleiros de elmo, lança e armadura fazem voltear as

montadas em alardes de alta escola, mas os seus gestos

sugerem que chegaram ao fim da exibição, estão saudando,

por assim dizer, um público invisível. A mesma impressão

de final de festa é dada por aquele soldado de

infantaria que já dá um passo para retirar-se, levando,

suspenso da mão direita, o que, a esta distância, parece

um pano, mas que também pode ser manto ou túnica,

enquanto dois outros militares dão sinais de imtação e

despeito, se é possível, de tão longe, decifrar nos minúsculos

rostos um sentimento, como de quem jogou e perdeu.

Por cima destas vulgaridades de milícia e de cidade

muralhada pairam quatro anjos, sendo dois dos de corpo

inteiro, que choram, e protestam, e se lastimam, não assim

um deles, de perfil grave, absorto no trabalho de recolher

numa taça, até à última gota, o jorro de sangue

que sai do lado direito do Crucificado. Neste lugar, a

que chamam Gólgota, muitos são os que tiveram o mesmo

destino fatal e outros muitos o virão a ter, mas este

homem, nu, cravado de pés e mãos numa cruz, filho de

José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o

futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais

nunca passarão de crucificados menores. É ele, finalmente,

este para quem apenas olham José de Arimateia

e Maria Madalena, este que faz chorar o sol e a lua, este

que ainda agora louvou o Bom Ladrão e desprezou o

Mau, por não compreender que não há nenhuma diferença

entre um e outro, ou, se diferença há, não é essa,

pois o Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um

deles é somente a ausência do outro. Tem por cima da

cabeça, resplandecente de mil raios, mais do que, juntos,

o sol e a lua, um cartaz escrito em romanas letras

que o proclamam Rei dos Judeus, e, cingindo-a, uma

dolorosa coroa de espinhos, como a levam, e não sabem,

mesmo quando não sangram para fora do corpo, aqueles

homens a quem não se permite que sejam reis em suas

próprias pessoas. Não goza Jesus de um descanso para

os pés, como o têm os ladrões, todo o peso do seu corpo

estaria suspenso das mãos pregadas no madeiro se não

fosse restar-lhe ainda alguma vida, a bastante para o

manter erecto sobre os joelhos retesados, mas que cedo

se lhe acabará, a vida, continuando o sangue a saltar-lhe

da ferida do peito, como já foi dito. Entre as duas

cunhas que firmam a cruz a prumo, como ela introduzidas

numa escura fenda do chão, ferida da terra não mais

incurável que qualquer sepultura de homem, está um

crânio, e também uma tíbia e uma omoplata, mas o crânio

é que nos importa, porque é isso o que Gólgota significa,

crânio, não parece ser uma palavra o mesmo que

a outra, mas alguma diferença lhes notaríamos se em vez

de escrever crânio e Gólgota escrevêssemos gólgota e

Crânio. Não se sabe quem aqui pôs estes restos e com

que fim o teria feito, se é apenas um irónico e macabro

aviso aos infelizes supliciados sobre o seu estado futuro,

antes de se tornarem em terra, pó e coisa nenhuma. Mas

também há quem afirme que este é o próprio crânio de

Adão, subido do negrume profundo das camadas geológicas

arcaicas, e agora, porque a elas não pode voltar,

condenado eternamente a ter diante dos olhos a terra,

seu único paraíso possível e para sempre perdido. Lá

atrás, no mesmo campo onde os cavaleiros executam um

último volteio, um homem afasta-se, virando ainda a cabeça

para este lado. Leva na mão esquerda um balde e

uma cana na mão direita. Na extremidade da cana deve

haver uma esponja, é difícil ver daqui, e o balde, quase

apostaríamos, contém água com vinagre. Este homem,

um dia, e depois para sempre, será vítima de uma calúnia,

a de, por malícia ou escárnio, ter dado vinagre a Jesus

ao pedir ele água, quando o certo foi ter-lhe dado da

mistura que traz, vinagre e água, refresco dos mais soberanos

para matar a sede, como ao tempo se sabia e praticava.

Vai-se embora, não fica até ao fim, fez o que podia

para aliviar as securas mortais dos três condenados,

e não fez diferença entre Jesus e os Ladrões, pela simples

razão de que tudo isto são coisas da terra, que vão

ficar na terra, e delas se faz a única história possível.
A noite ainda tem muito para durar. A candeia de

azeite, dependurada de um prego ao lado da porta, está

acesa, mas a chama, como uma pequena amêndoa luminosa

pairando, mal consegue, trémula, instável, suster a

massa escura que a rodeia e enche de cima a baixo a casa,

até aos últimos recantos, lá onde as trevas, de tão espessas,

parecem ter-se tornado sólidas. José acordou em

sobressalto, como se alguém, bruscamente, o tivesse sacudido

pelo ombro, mas teria sido ilusão de um sonho

logo desvanecido, que nesta casa só ele vive, e a mulher,

que não se mexeu, e dorme. Não é seu costume despertar

assim a meio da noite, em geral não acorda antes de

a larga frincha da porta começar a emergir do escuro,

cinzenta e fria. Inúmeras vezes pensara que deveria tapá-la,

nada mais fácil para um carpinteiro, ajustar e pregar

uma simples régua de madeira que sobrasse duma

obra, porém, a tal ponto se tinha habituado a encontrar

na sua frente, mal abria os olhos, aquela vara vertical de

luz, anunciadora do dia, que acabara por imaginar, sem

ligar ao absurdo da ideia, que, faltando ela, poderia não

ser capaz de sair das trevas do sono, as do seu corpo e as

do mundo. A frincha da porta fazia parte da casa, como

as paredes ou o tecto, como o forno ou o chão de terra

apisoada. Em voz baixa, para não acordar a mulher, que

continuava a dormir, pronunciou a primeira bênção do

dia, aquela que sempre deve ser dita quando se regressa

do misterioso país do sono, Graças te dou, Senhor, nosso

Deus, rei do universo, que pelo poder da tua misericórdia,

assim me restituis, viva e constante, a minha alma.

Talvez por não se encontrar igualmente desperto em

cada um dos seus cinco sentidos, se é que, então, nesta

época de que vimos falando, não estavam as pessoas ainda

a aprender alguns deles ou, pelo contrário, a perder

outros que hoje nos seriam úteis, José olhava-se a si

mesmo como se fosse acompanhando, a distância, a lenta

ocupação do seu corpo por uma alma que aos poucos

estivesse regressando, igual a fios de água que, avançando

sinuosos pelos caminhos das regueiras, penetrassem a

terra até às mais fundas raízes, transportando a seiva,

depois, pelo interior dos caules e das folhas. E por ver

quão trabalhoso era este regresso, olhando a mulher, a

seu lado, teve um pensamento que o perturbou, que ela,

ali adormecida, era verdadeiramente um corpo sem alma,

que a alma não está presente no corpo que dorme,

ou então não faz sentido que agradeçamos todos os dias

a Deus por todos os dias no-la restituir quando acordamos,

e nesta altura uma voz dentro de si perguntou,

O que é que em nós sonha o que sonhamos, Porventura

os sonhos são as lembranças que a alma tem do corpo,

pensou a seguir, e isto era uma resposta. Maria moveu-se,

acaso a alma dela estaria ali por perto, já dentro de

casa, mas no fim não despertou, apenas andaria em afãs

de sonho, e, tendo soltado um suspiro fundo, entrecortado

como um soluço, chegou-se para o marido, num

movimento sinuoso, porém inconsciente, que jamais

ousaria quando acordada. José puxou o lençol grosso e

áspero para os ombros e aconchegou melhor o corpo na

esteira, sem se afastar. Sentiu que o calor da mulher,

carregado de odores, como de uma arca fechada onde tivessem

secado ervas, lhe ia penetrando pouco a pouco o

tecido da túnica, juntando-se ao calor do seu próprio

corpo. Depois, deixando descer devagar as pálpebras,

esquecido já de pensamentos, desprendido da alma,

abandonou-se ao sono que voltava.

Só tornou a acordar quando o galo cantou. A frincha

da porta deixava passar uma cor grisalha e imprecisa, de

aguada suja. O tempo, usando de paciência, contentara-se

com esperar que se cansassem as forças da noite e

agora estava a preparar o campo para a manhã chegar

ao mundo, como ontem e sempre, em verdade não estamos

naqueles dias fabulosos em que o sol, a quem já

tanto devíamos, levou a sua benevolência ao ponto de

deter, sobre Gabaon, a sua viagem, assim dando a Josué

tempo de vencer, com todos os vagares, os cinco reis que

lhe cercavam a cidade. José sentou-se na esteira, afastou

o lençol, e nesse momento o galo cantou segunda vez,

lembrando-lhe que se encontrava em falta de uma bênção,

aquela que se deve à parte de méritos que ao galo

coube quando da distribuição que deles fez o Criador

pelas suas criaturas, Louvado sejas tu, Senhor, nosso

Deus, rei do universo, que deste ao galo inteligência

para distinguir o dia da noite, isto disse José, e o galo

cantou terceira vez. Era costume, ao primeiro sinal

destas alvoradas, responderem-se uns aos outros os galos

da vizinhança, mas hoje ficaram calados, como se

para eles a noite ainda não tivesse terminado ou mal

tivesse começado. José, perplexo, olhou o vulto da mulher,

estranhando-lhe o sono pesado, ela que o mais ligeiro

ruído fazia despertar, como um pássaro. Era como

se uma força exterior, descendo, ou pairando, sobre Maria,

lhe comprimisse o corpo contra o solo, porém não

tanto que a imobilizasse por completo, notava-se mesmo,

apesar da penumbra, que a percorriam súbitos estremecimentos,

como a água de um tanque tocada pelo

vento. Estará mal, pensou, mas eis que um sinal de urgência

o distraiu da preocupação incipiente, uma instante

necessidade de urinar, também ela muito fora do costume,

que estas satisfações, na sua pessoa, habitualmente

manifestavam-se mais tarde, e nunca tão vivamente. Levantou-se,

cauteloso, para evitar que a mulher desse pelo

que ia fazer, pois escrito está que por todos os modos

se deve preservar o respeito de um homem, só quando

de todo em todo não for possível, e, tendo aberto devagar

a porta que rangia, saiu para o pátio. Era a hora em

que o crepúsculo matutino cobre de cinzento as cores do

mundo. Encaminhou-se para um alpendre baixo, que

era a barraca do jumento, e aí se aliviou, escutando,

com uma satisfação meio consciente, o ruído forte do

jacto de urina sobre a palha que cobria o chão. O burro

voltou a cabeça, fazendo brilhar no escuro os olhos salientes,

depois sacudiu com força as orelhas peludas e

tornou a meter o focinho na manjedoura, a tentear os

restos da ração com os beiços grossos e sensíveis. José

aproximou-se da talha das abluções, inclinou-a, fez correr

a água sobre as mãos, e depois, enquanto as enxugava

na própria túnica, louvou a Deus por, em sua sabedoria

infinita, ter formado e criado no homem os orifícios e

vasos que lhe são necessários à vida, que se um deles se

fechasse ou abrisse, não devendo, certa teria o homem a

sua morte. Olhou José o céu, e em seu coração pasmou.

O sol ainda tarda a despontar, não há, por todos os espaços

celestes, o mais lavado indício dos rubros tons do

amanhecer, sequer uma pincelada leve de róseo ou de

cereja mal madura, nada, a não ser, de horizonte a horizonte,

tanto quanto os muros do pátio lhe permitiam

ver, em toda a extensão de um imenso tecto de nuvens

baixas, que eram como pequenos novelos espalmados,

iguais, uma cor única de violeta que, principiando já a

tornar-se vibrante e luminosa do lado donde há-de romper

o sol, vai progressivamente escurecendo, mais e

mais, até se confundir com o que, do lado de além, ainda

resta da noite. Em sua vida, José nunca vira um céu

como este, embora nas longas conversas dos homens velhos

não fossem raras as notícias de fenómenos atmosféricos



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