O erotismo na Arte Académica e Moderna da América Latina



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III Breve paralelo entre as obras La Siesta de Pueyredón e Le Sommeille de Gustave Courbet.


“Só espero realizar um milagre: viver toda minha vida de minha arte, sem me afastar de meus princípios, sem ter por um só instante mentido à minha consciência, e sem ter nunca executado um palmo de pintura para agradar a alguém ou para vender”.[Gustave Courbet]

As dações imprevisíveis ou fortuitas que escapam ao controle dos artistas do modernismo assemelham-se às contingências históricas que permearam a formação dos diferentes grupos e movimentos artísticos na América Latina, cuja contrapartida estava radicada na Europa. Os debates trazidos do exterior e desenvolvidos/multiplicados nos círculos de arte local buscavam não apenas o fermento da arte, mas também a autonomia artística. As pinturas e desenhos eróticos, nesse contexto, eram eventuais, circunstanciais e periféricas. Não foram pensadas como género artístico, mas como algo que escapava aos costumes, valores, leis e normas dominantes. Geralmente, essas obras eram feitas sob encomenda para coleccionadores particulares.


Em Cena erótica com três mulheres, realizada na década de 60, Di Cavalcanti (Rio de Janeiro, 1897 – 1976) desconstrói a ideia de uma sociedade sexualmente reprimida e alerta para situações quotidianas de liberação do sexo. O prazer, suscitado por essa imagem, encadeia mecanismos complexos e positivos de excitação e incitação, de onde decorre o tema da homossexualidade, considerada pelo filósofo Michel Foucault (França, 1922 1984) como sexualidade periférica, dentro da lógica da incitação dos discursos.

Di Cavalcanti



Cem anos antes desta aguarela, a obra La Siesta do argentino Prilidiano Pueyredón (Buenos Aires, 1823 – 1870) chocou seu país. O artista provocou um discurso para aquém dos caracteres de atracão sexual e táctil do erotismo, em sua manifestação mais pura e registrou a sedução numa atmosfera de disseminação e proliferação de sentidos eróticos: duas mulheres dormem nuas, sobre almofadas brancas e uma ampla cama, de frente para um cortinado vermelho de textura aveludada. As cores quentes, a pele sedosa das mulheres e a posição em que se encontram, apontam para uma cena ousada e pouco comum à época. No mesmo período, em 1866, Le Sommeillede Gustave Courbet (França, 1819 – 1877) foi proibido para exposição pública na França. Ambas as pinturas, uma na Argentina de Bartolomé Mitre (marcada pela Guerra do Paraguai) e outra na França de Napoleão III, foram acusadas de suposta vulgaridade.

Courbet Pueyredón

O prestígio que Pueyredón gozava na sociedade, diferente de Courbet, não impediu tal escândalo na província de Buenos Aires. Há rumores que o artista destruiu a maior parte das suas pinturas e desenhos eróticos, realizados para exibição privada num círculo de homens de classe alta, tal como os daguerreótipos eróticos que circulavam em Paris na metade do século passado (MALOSETTI, p. 79). A ausência de desnudos catalogados, tanto na produção de Pueyredón, quanto na de Courbet, contrapõe-se à abundância de paisagens, cenas de costumes e retratos.
Nas biografias escritas a posteriori, Pueyredón é caracterizado como dono de uma personalidade fora do comum e também como o primeiro pintor de desnudos femininos no Rio de la Plata.

La Siesta e Le Sommeille foram julgadas de obscenas e indecentes por não estarem associadas a um fim político, à exaltação da fecundidade e a um conteúdo espiritual, e sim à linguagem erótica e à base do carácter moral definido pela sociedade: o prazer. Os conflitos linguísticos e históricos formulam segmentos que permitem visualizar o erotismo como lapso, corte e contingência, num tempo onde os artistas começavam a se firmar na sociedade moderna independente da igreja ou de um grande mecenas. Estas obras provocativas flutuam, portanto, sobre extractos de histórias remanescentes, nas bordas do neobarroco, romantismo, realismo e rococó, por vezes mesclados, outras, aludidos.


Creced y multiplicaos de Pedro Zonza Briano (Buenos Aires, 1866 – 1941), também argentino, hoje passa despercebida no terraço do Museu Nacional de Bellas Artes, junto a outras esculturas de estilo e épocas diferentes. A obra foi retirada do Salão de Paris pela polícia francesa, mesmo depois de aceita pelos jurados. No ano seguinte, Briano apresentou-a no Salón del Retiro, onde recebeu a maior premiação e, em consequência disso, Creced y multiplicaos foi incorporada ao acervo do MNBA. Por certo, a dificuldade de se estabelecer as diferenças entre o erótico ou o pornográfico decorre de uma indeterminação formal e de reconhecimento de um género artístico. O estatuto de arte erótica esbarra com a impossibilidade de definição, uma vez que é considerado pornográfico em tal ou qual época aquilo que está directamente relacionado com as divergências individuais acerca do que seria efectivamente imoral.

Zonza Briano


Ora, se o pressuposto é que, como afirma D. H. Lawrence (Nottingham, 1885 — Vence, 1930) no texto Pornografia y Obscenidad , o significado de uma imagem depende da decisão de uma maioria, então há uma distinção entre o que é erotismo para um ser-indivíduo e para um ser-multidão. As obras citadas e aludidas até o momento, revelam a diferença temporal e espacial problematizada pelo autor, uma vez que a aceitação e admiração que ela provoca hoje nos teóricos, historiadores e espectadores em geral, revoga o âmbito vulgar avocado no academicismo e modernismo e, gradativamente, assume uma postura anestesiada. Pode-se dizer que estes traços eróticos estão marcados por subtilezas que variam da ingenuidade à paixão, do objecto de desejo, ao objecto de prazer.

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