O erotismo na Arte Académica e Moderna da América Latina



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Se a ideia central da Patafísica é a consideração de que as leis gerais da física são um conjunto de excepções não excepcionais e, consequência disso, sem nenhum interesse, a ideia central proposta para pensar a arte erótica na América Latina é que ela, ao contrário da física, é um conjunto de excepções excepcionais, abordadas pelos artistas não como um género artístico, mas como uma forma de traçar diferenças entre os movimentos europeus e as reverberações que eles provocavam na América Latina (no modernismo). Já os pintores académicos, na tentativa de arrancar o observador de sua complacente confiança na realidade e história, buscaram um tema reflectido no próprio interior, ao invés de importá-los da Europa, acção comum e frequente nas academias surgidas no século XIX.
A maior incidência do erótico na produção destes artistas sucede nas décadas de 30 e 40, não por acaso, após a teoria da sexualidade de Sigmund Freud. Esta afirmação está calcada na catalogação feita pelo grupo de pesquisa Academicismo e Modernismo na América Latina , a qual consta cerca de quatro mil obras, sendo que apenas cinquenta delas podem ser consideradas eróticas. Há muitas definições sobre o termo “erotismo”, logo, variadas formas de figurá-lo. Para Michel Leiris, por exemplo, o erotismo pode ser definido strictu sensu como uma “arte do amor”, uma espécie de estetização do mero amor carnal, doravante organizado como uma sequência de experiências cruciais. Contudo, latu sensu, ele se confunde com o conjunto das “obras de carne” no sentido cristão do termo; e pode-se mesmo indagar se alguma excitação sexual seria jamais possível sem a intervenção de um mínimo de erotismo, seja sob forma de uma noção de jogo, de luxo, de prazer usufruído sem qualquer consideração de utilidade, ou seja, sob forma de uma ideia parcialmente estética (LEIRIS, 2001, p. 41). 

Esta definição de erotismo enunciado por Michel Leiris é entendida por Georges Bataille como uma experiência vinculada à vida e não como o objecto de uma ciência (BATAILLE, 2006, p. 13). Claro, há nuances que diferenciam o erotismo que proporciona formas de prazer e dinamiza as experiências éticas, impondo como mecanismo essencial ultrapassar a oposição entre um mundo desejado e o mundo real, numa nova relação do sujeito com a realidade; e o erotismo que se manifesta como um problema científico, que tenta dar conta de racionalizar e explicar o conjunto de elementos que fundamentam os discursos ligados ao pudor, à perversão, à transgressão, aos fetichismos e à religião.


Coincidência ou não, no mesmo ano que Meyer Filho realizou a série de pinturas eróticas, em 1981, Jarina Meneses (Ceará, 1927 – Florianópolis, 2005), cujas obras nunca foram catalogadas e estão dispersas nas residências de seus familiares, deixou as cores escorrerem e tomarem forma sobre o papel, depois delineado e retocado por ela com nanquim preto para, enfim, ser nomeado Orgia. Falos, olhos, bocas, seios, orelhas e unhas são algumas das formas que podem ser reconhecidas na aguarela. Depois de cinquenta e sete anos da publicação do primeiro manifesto surrealista por André Breton, líder deste movimento considerado o último do modernismo europeu e começado como literário sem assumir um estilo formal, mas sim um modo de vida, Jarina arrisca, em Florianópolis, um procedimento definido por Breton como automatismo psíquico: algo pelo qual alguém se propõe a exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento (BRETON, 2001, p. 40).

Jarina Meneses


A sexualidade remetida pelo universo do inconsciente está também nas naturezas-mortas de Maria Izquierdo (México, 1902-1955). A artista mexicana participou da 1ª Exposição Internacional do México em 1940. Apesar de fazer uso de elementos que a vinculam ao surrealismo, ela não era surrealista. No México, o progressivo modelo cultural (muralismo) seguido pela Revolução Mexicana (1910-1942) não impediu a formação de grupos de artistas, os quais tentaram buscar outros espaços e formas de expressão e aproximação com o passado. A estética primitivista de María Izquierdo separa o campo do compromisso político do estético e valoriza a expressividade individual subjectiva, manifestada não apenas no tema próprio, de ser mexicana, como também nas insinuações eróticas encontradas nas naturezas-mortas pintadas no fim da década de 40 e início dos anos 50. As conchas, em forma de vulvas, perdem-se em meio às pinturas de cavalos, troncos de árvores, cenas de circo e auto-retratos. Nenhum dos três pintores referidos, Meyer Filho, Jarina Meneses e María Izquierdo fizeram do erotismo um tema constante em suas obras, ao contrário, elas são pontuais, ou, como propõe Leiris: uma fenda por onde escapam os eflúvios de um delírio pânico (LEIRIS, 2001, p. 41).

Maria Izquiedo





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