O erotismo na Arte Académica e Moderna da América Latina



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O Erotismo na Arte Académica e Moderna da América Latina 

Por Kamilla Nunes, 2009



Artigo resultante da pesquisa "Corpos e Opus: Premeditações para uma história da pintura na América Latina" com orientação da professora Rosângela Cherem.

I - O erotismo e a utopia modernista na América Latina
Eu pintava por força dos instintos. Isto porque acredito mais na força dos instintos do que em qualquer outra coisa. Acho que primeiro vem o instinto, não há como negar isso.” [Cícero Dias] .
As primeiras décadas do século XX na América Latina foram marcadas por uma utopia: construir uma cultura nacional sem deixar de ser vanguardista e, moderna sem deixar de ser nacional. A renovação artística e a criação de uma identidade ao mesmo tempo nacional e regional eram, portanto, a preocupação dos artistas deste período, tanto em Santa Catarina e São Paulo, quanto no restante dos países deste continente, cada qual no seu tempo, variado de acordo com as coordenadas culturais, sociais e políticas de cada região. Um dos territórios insólitos, marginais e singulares que se formou dentro das problemáticas associadas ao modernismo americano, tal como a renovação dos preceitos das vanguardas europeias e a ruptura com a arte meramente histórica associada às colónias indígenas, ao escravismo e ao império, está presente na arte erótica, por vezes apresentada numa estética primitivista, assumida nesta época com carácter positivo associado ao popular.
As cores vibrantes e bem delineadas das pinturas de Meyer Filho (Itajaí, 1919 – Florianópolis, 1991) são características deste primitivismo pragmático. As composições e os elementos figurativos refutam as regras ensinadas nas academias e agregam elementos audaciosos e de irreverentes compleições, tanto dos seres vivos como dos ambientes que eles circulam e povoam, sem fazer uso de formatações e concepções prévias de uma suposta realidade ocular. O teor explosivo nas pinturas eróticas de Meyer não é uma expressão transgressora que se configura como ameaça à estabilidade social, pois ela não desponta seus fundamentos de ordenação. Neste caso, dois planetas foram tangenciados: Terra e Marte, para formar os idílios cósmicos, como o artista os denominava. Meyer Filho nunca foi um surrealista, apesar de citá-lo em alguns momentos de sua produção e divagação poética. O artista não deu importância às teorias psicanalíticas de Sigmund Freud (Pribor, 1856 – Londres, 1939), aos preceitos do Manifesto Surrealista e tampouco deu margens ao automatismo psíquico . Mas, ao mesmo tempo, ele deixava o inconsciente agir e ia além da consciência quotidiana. Por trabalhar no Banco do Brasil e possuir o maior salário de funcionário público da época, ele convivia com a elite que estava se formando na Ilha, a mesma que crescia entre a cultura letrada e a mistura de tradições populares correntes na região, como o Boi de Mamão. Esse trânsito entre o popular e o culto marcou a obra de Meyer Filho com traços modernos. Ele ultrapassou as questões do território e nação e superou o carácter meramente narrativo, ao deixar transparecer na superfície pictórica suas inquietações e investigações plásticas, ligadas tanto à literatura quando à ciência.
O trânsito entre o universal e a afinidade com o local, levaram Meyer a criar um microcosmo orgíaco, ali onde os interditos e as proibições forjam uma nova dinâmica e cujo sentido ancora-se no estabelecimento de uma descontinuidade com relação ao estado natural das coisas, provendo a desagregação e a desordem. Os órgãos sexuais femininos e masculinos ganham rostos, adornos, corpos e asas. Seios viram olhos e, cabeças, vasos de flor. O excesso de cores e detalhes que adornam os personagens, bem como sua aparente inércia, camufla qualquer possibilidade de agressão à sociedade, advinda da concepção prévia de pornografia.

Feminino e masculino, animal e humano, humano e divino, androgenia e hibridismo, potências sexuais, mitológicas e vitais, são alguns dos elementos utilizados na arte erótica e que permeiam a convergência da forma e conteúdo na obra do catarinense. As pinturas de Meyer des-hierarquizam o mundo exterior e o mundo dos homens. O erotismo está por toda parte: no céu circulam falos alados, das plantas brotam seios e vulvas, nas pedras figuram bocas, corações e falos, todos envoltos de seres sexuais hibridizados. Na junção das coisas e do homem, do espiritual e do profano, esse imaginário particular de Meyer Filho transfigura-se numa ossatura revestida pela desconfiança céptica com a realidade e o sexo, bem como, com posturas inquietas e chocantes do seu posicionamento enquanto artista e cidadão de Marte.



Camuflado dentro de certos circuitos institucionais e por colecções privadas, a arte erótica do modernismo na América Latina foi pouco investigada. Alguns dos desenhos e pinturas eróticas do pernambucano Cícero Dias (Escada, 1907 – Paris, 2003), como Amo, 1933, Banho de rio, 1928, Sonho da prostituta e Mulher nadando estão no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, pois ali se encontra parte da colecção de Gilberto Chateaubriand, da qual elas são integrantes. Cícero Dias é um dos poucos artistas brasileiros modernos que têm uma produção plástica voltada para a visão da mulher como objecto sexual. Nas obras citadas acima, ele insinua através da fluidez da linha uma sexualidade provocativa que remete ao universo do inconsciente. Ambos, Meyer Filho e Cícero Dias, cada qual com seu repertório particular, buscaram na linguagem pictórica do discurso modernista, cesuras por onde o erotismo se manifesta na dinâmica das experiências patafísicas.

Meyer Filho



II - Erotismo como ciência das soluções imaginárias
"Acho que crio por necessidade emocional de fazer catarse, não de pecados cometidos, mas dos imaginados." [Jarina Menezes]

Já no primeiro parágrafo do texto Espelho da Tauromaquia de Michel Leiris (Paris, 1901 – Saint-Hilaire, 1990) o autor confronta seus leitores com um problema: Assim como Deus é o ponto tangente entre o zero e o infinito (ALFRED JARRY, 2004, p. 151), o erotismo assume semelhante movimento e se reveste do aspecto de uma espécie de tangencia, isto é, de um breve paroxismo, que não dura mais que um relâmpago e que deve seu fulgor ao fato de estar na encruzilhada de uma união e de uma separação, de uma acumulação e de uma dissipação (MICHEL LEIRIS, 2001, p.11) . Tal movimento, o do erótico e a complexidade das forças que nele entram em jogo, se dissipam e encontram um parentesco com a então teoria da Patafísica proposta por Alfred Jarry em Gestas y opiniones del Doctor Faustroll, Patafísico. Estudar as leis que regem as excepções a fim de explicar o universo complementário que deve ser visto no lugar do tradicional, é uma das preocupações da Patafísica: A ciência das soluções imaginárias.


Ambos, erotismo e Patafísica, tangenciam-se, a exemplo do zero e infinito, ao colocarem os discursos formados no cerne da ideologia de uma cultura sob a possibilidade de riscos e aventuras do pensamento. Os corpos ficam à deriva, em estados de delírio, divagação e êxtase e não mais em estado de exercer a própria razão. Alfred Jarry, para provar a definição de Deus através de uma fórmula matemática, se utilizou da representação comum do mesmo, para então confrontá-la com a realidade e formular um postulado disfarçado de racionalismo e exactidão. É assim também na encruzilhada proposta por Leiris: um relâmpago, que quando cremos ver alguma coisa ela já se dissipou. Tudo é, portanto, duvida e lacuna de oportunidades, a materialidade se dissipa, tal como as ideias e desejos incomunicáveis. Massa e indivíduo, materialismo e cientificismo, mercado, consumidor e política, tornam-se referências sobressalentes neste território que busca não a verdade da obra, mas a suspensão imagética que leva o óbvio ao obtuso.
Na produção dos artistas latino-americanos abordados, desde os primeiros académicos até os últimos modernos, o erotismo subsistiu como lapso, ocorrendo de forma infrequente e contingente. Algumas situações, como encomendas feitas pela aristocracia ou a adesão ao Surrealismo, instigaram artistas como Prilidiano Pueyrredón, Leonora Carrington, Meyer Filho, Wilfredo Lam, Jarina Meneses, María Izquierdo, Cícero Dias, Di Cavalcanti, Lola Alvarez Bravo, Frida Kahlo, Raymond Monvoisin e Diego Rivera a ludibriar o sistema convencional através do uso evidente da sexualidade nas superfícies pictóricas. De um ponto de vista abrangente e generalizado, as obras destes artistas primam à imaginação calcada no desejo e permitem problematizar a impossibilidade de dizê-lo, ainda que este seja a aspiração humana mais simples e elementar.

Leonora Carrington Wilfredo Lam



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