O engajamento político no final do século XX



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XXIV Encontro Anual da ANPOCS.




Petrópolis, 23 a 27 de outubro de 2000




GT 08 : Mídia, Opinião Pública e Eleições



Título: A Imprensa e o engajamento político no final do século XX




Alzira Alves de Abreu

Pesquisadora do CPDOC/FGV

Introdução


Ao analisarmos o perfil e a trajetória de vida dos jornalistas brasileiros, identificamos algumas questões relacionadas à escolha da profissão e a concepções e formas de exercer o jornalismo, que se diferenciam daquelas que predominaram até os anos 1970. As mudanças políticas e econômicas que ocorreram na sociedade brasileira nas duas últimas décadas introduziram alterações no perfil do jornalista brasileiro, pertencente à geração nascida no pós-guerra que se profissionalizou durante o regime autoritário-militar (1964-1985), ou seja, que iniciou a carreira quando não havia liberdade de expressão e de idéias, quando a imprensa vivia sob a censura dos órgãos policiais-militares.

A trajetória de vida dos jornalistas que ocupam hoje os cargos de direção e chefia nas redações ou que são responsáveis pela chamadas “colunas” indica que o contexto político de repressão e censura foi, para muitos jovens, um estímulo na escolha do jornalismo como profissão. Embora possa parecer contraditório, na verdade essa escolha fazia parte da lógica de um engajamento político. Por outro lado, observa-se que esses mesmos jornalistas, na conjuntura da década de 1990, passaram a ter pouco interesse na atuação política e uma atitude de desengajamento.

A partir dessas constatações pretendemos discutir neste texto as motivações políticas que levaram muitos jovens ao jornalismo econômico e como essas motivações foram se tornando distantes da prática profissional ao longo do processo de redemocratização do país. Pretendemos explicar como o engajamento e o desengajamento político influenciaram o desempenho dessa atividade profissional. A nossa perspectiva é de que o jornalista, ao desempenhar sua função social, dá sentido aos acontecimentos, dá sentido ao mundo em que vivemos. Informar é dar sentido, o que significa que o jornalista não escolhe essa função: ela é dada pela própria atividade da informação. Ao exercer a função de jornalista ele é um ator social que tem responsabilidade pela seleção e construção da informação; é ele que seleciona, hierarquiza e dá sentido ao acontecimento que se torna conhecido e inteligível.

A escolha da profissão

Gostar de escrever, saber escrever, escrever bem, saber narrar uma história, ter talento para escrever, são algumas das justificativas que aparecem nos depoimentos que obtivemos como determinantes na escolha da profissão.

Os dados da nossa pesquisa1 indicam que a trajetória de vida desses jornalistas não foi um trajeto concebido e percorrido de forma linear. As observações de P. Bourdieu são pertinentes na sua afirmação de que a narração de uma vida não pode ser vista como um todo coerente e orientado, “uma história que transcorre, segundo uma ordem cronológica que também é uma ordem lógica, que tem um começo, uma origem, no duplo sentido de ponto de partida, de início, mas também de princípio, de razão de ser, de causa primeira, até seu término, que também é um objetivo”.2

As respostas dadas a nossa questão sobre como e por que escolheram o jornalismo foram inicialmente apresentadas como se existisse um caminho traçado e que foi seguido linearmente. Entretanto, ao insistirmos com os nossos entrevistados, para sabercomo eles obtiveram o primeiro emprego, que estratégias utilizaram para obtê-lo, quem interferiu para a obtenção do lugar na imprensa e se tiveram auxílio de parentes e amigos, começaram a aparecer outras determinações na escolha da profissão. A opção pelo jornalismo se mostrou interligada a múltiplos acontecimentos e a um conjunto de relações que os entrevistados possuíam.

O jornalismo era, para muitos jovens, uma profissão que correspondia aos anseios de uma intervenção social e de uma participação política. Um número significativo dos jornalistas entrevistados tinha envolvimento com organizações políticas e já estavam engajados. Na verdade, a natureza do papel que era atribuído à imprensa e ao jornalismo nos anos 1960/70 pode ser vista como um elemento fundamental na explicação dessa escolha. Essa parece ser a razão para muitos terem escolhido o jornalismo, embora “saber” ou “gostar” de escrever não possam ser vistas como razões excludentes.

Roberto Müller mostra em seu depoimento3 que o engajamento político facilitava a entrada na imprensa. Diz ele: “Nós nos protegíamos, procurávamos contratar e dar preferência àqueles que eram perseguidos politicamente. Eu fiz muito isso. Eu mesmo fui beneficiário dessa situação”. Para Ancelmo de Góes4 fazer jornalismo era o mesmo que atuar em um partido político, era uma “missão”. Teresa Cruvinel5 diz que nos anos 70, quando iniciou a vida profissional, não tinha clareza sobre a distinção entre ser jornalista e ser líder de um movimento político. Em seu depoimento ela lembra que “a idéia que eu tinha, naquela época, era dos jornalistas revolucionários, que escreviam nos jornais leninistas”.

Essa percepção do papel da imprensa estava ligada ao momento político brasileiro dos anos 1960 e do pós-64. De um lado, a década de 1960 foi rica em movimentos políticos que pregavam a revolução socialista, o fim das desigualdades e da miséria do país; de outro, foi um década marcada por um movimento cultural de grande criatividade tanto na música popular, como no teatro, cinema e literatura. Havia uma grande mobilização dos intelectuais, artistas e jovens, que estavam engajados em movimentos para a mudança da sociedade. Mas toda essa expectativa malogrou com a chegada dos militares ao poder em 1964, o que provocou uma grande frustração.

É importante lembrar que a maioria dos jornais brasileiros de grande prestígio e circulação apoiou a queda do regime constitucional em 1964. Alguns, mesmo, tiveram atuação destacada na luta contra as chamadas “reformas de base”, como a reforma agrária, defendidas pelo presidente João Goulart em 1963/64. Logo após o golpe militar, quando se iniciaram as prisões e foram editadas medidas restritivas da liberdade de expressão, os mesmos jornais que haviam apoiado a queda de João Goulart passaram a fazer oposição ao regime militar e a denunciar o abuso do poder e as arbitrariedades cometidas. Com o Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968, agravou-se a situação, já que por esse ato o presidente da República tinha poderes para impor a censura prévia aos meios de comunicação, desde que tal procedimento fosse considerado necessário à defesa do regime militar.

Aluísio Maranhão, ao nos dar o seu depoimento6 lembrou que “eu sempre gostei de desenho. Inicialmente a minha idéia era fazer arquitetura (...). Mas essa era uma época de intensa ebulição política, foi quando teve início o jornalismo de resistência, o que atraía a todos que tinham alguma militância política dentro do movimento estudantil. Como eu gostava de ler, gostava de escrever, por que não o jornalismo? E foi assim que eu me decidi”. Teresa Cruvinel iniciou a universidade em 1974, fazendo o curso de letras porque “gostava muito de literatura”, mas pensava também em ser economista porque trabalhava no Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas –IPEA. Freqüentou o curso de letras durante um ano e não gostou, abandonou-o porque era muito conservador politicamente, e os alunos não eram motivados pelo movimento estudantil. Afirma então que “como nessa época eu já estava muito engajada, fui fazer jornalismo”. Ela pertencia a uma organização política clandestina trotskista.

A geração que iniciou a vida profissional nos anos 1960, durante o regime militar, viveu o auge do engajamento político, mas conheceria a partir dos anos 1980 o descenso ou o desengajamento político.

O engajamento é típico do século XX porque nesse século caíram todas as barreiras que impediam o direito do indivíduo de se associar, se reunir e se expressar. Foi nesse século que se ampliaram os sindicatos, os partidos políticos, os movimentos de reivindicação, as associações cívicas etc.7 O engajamento é uma atitude pessoal, é uma decisão “voluntária”. O engajamento político significa a adesão a uma ideologia e o exercício de uma atividade organizada no interior de um `partido ou movimento. No sentido dado por J.P. Sartre, representa para o indivíduo abdicar de sua liberdade de julgamento em benefício de uma causa, de um partido. Ser engajado é participar de um conjunto de valores, atitudes, de um processo de identidade. O engajamento teria nascido do sentimento do intolerável diante da injustiça, da indignação provocada pela arbitrariedade, levando à idéia de que a passividade é culpada e cúmplice.8 Segundo Michelle Perrot, “esse sentimento de uma responsabilidade pela infelicidade do mundo, torna urgente ‘fazer alguma coisa’, supõe uma representação da sociedade como uma soma de relações interdependentes sobre a qual é possível agir”.9

O indivíduo engajado se mobiliza em torno de objetivos políticos, como a luta pela garantia das liberdades democráticas, pelos direitos dos cidadãos, contra as ditaduras, pela reunião ou separação dos territórios de uma nação, em defesa da classe operária, em defesa dos oprimidos etc. No Brasil, ser engajado nos anos 1960/70 representava participar de ações a serviço de uma sociedade mais justa, mais igual, derrubar os militares do poder e implantar um regime democrático ou socialista. Neste último caso estavam os filiados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao Partido Comunista do Brasil (PC do B) e a outros movimentos de esquerda e também aos movimentos revolucionários de guerrilha que se formaram ao final dos anos 1960.

As experiências e as ações internacionais como a rvolução cultural da China, a guerra do Vietnam, a ação guerrilheira de Cuba e de Che Guevara e o movimento de maio de 1968 na França, foram sem dúvida influências que marcaram as opções dos jovens brasileiros diante de um quadro político interno que não abria espaço para a expressão de posições políticas contrárias ao regime. Havia um choque ideológico no mundo, o que obrigava as pessoas a tomar posições a favor ou contra.

A imprensa era para muitos jovens o caminho para divulgar suas posições ideológicas, uma forma de exercer um engajamento político. Alguns jornais da chamada imprensa alternativa exerceram o papel de militantes ativos contra a repressão, contra a censura, e usaram suas páginas como espaço para a discussão das posições políticas que faziam parte das organizações clandestinas. Ao contrário dessa posição, a imprensa comercial, de maior circulação, adotou uma resistência passiva, tentou e algumas vezes conseguiu denunciar a censura de forma simulada. Os jornalistas que iniciaram a carreira durante esse período aprenderam a usar uma linguagem cifrada para transmitir informações proibidas.

As editorias de economia foram criadas durante o regime militar e foi no interior delas que se organizou a oposição ao regime. Um número elevado de nossos entrevistados buscou exercer o jornalismo nas editorias de economia na medida em que os assuntos políticos eram os que sofriam maior censura.

Ao longo da década de 1970, em pleno regime militar, ocorreu um forte crescimento econômico no país, com um processo de verticalização da indústria e um aumento considerável da produção de bens duráveis. Foi o período do chamado “ milagre econômico” quando o Produto Interno Bruto teve um crescimento em torno de 11% ao ano. O modelo de desenvolvimento adotado permitiu importantes investimentos nas empresas estatais, em especial as de petróleo, produtos petroquímicos, aço, energia e comunicação.

A modernização dos meios de comunicação foi, para os militares, parte de uma estratégia política que estava ligada à ideologia da segurança nacional. A implantação de um sistema de informação capaz de “ integrar” o país fazia parte de um projeto em que o Estado era entendido como o centro irradiador de todas as atividades fundamentais em termos políticos. Para a concretização desse projeto, os militares estimularam a formação de grandes redes, o que exigiu grandes investimentos. Foi nesse período que se formaram os oligopólios da informação, com recursos obtidos junto ao governo. Não se pode esquecer que, nesses anos de regime militar, a imprensa, o rádio e a televisão já dependiam fundamentalmente da publicidade para sobreviver e que os maiores anunciantes eram empresas estatais e instituições governamentais.

Na trajetória de mudanças ocorridas durante o regime militar, os economistas passaram a ter o papel e o espaço que antes eram dados à política e aos políticos. Os militares, em nome da eficiência econômica e da competência técnica, deram aos economistas os cargos de direção nos órgãos públicos, onde eles exerceram o poder de definir as políticas públicas e as orientações básicas para o desenvolvimento brasileiro. Os economistas atuaram praticamente como dirigentes políticos, mas sem as obrigações exigidas de um representante detentor de mandato eleitoral. Eles não precisavam prestar contas de seus atos a um partido ou eleitorado.

As editorias de economia dos jornais rapidamente obtiveram grande espaço e prestígio, e foi no seu interior que foram introduzidas inovações que em seguida se estenderam a toda a redação. Os proprietários de jornais, diante das pressões da censura e da apreensão dos jornais pela polícia, resolveram substituir o noticiário político pelo econômico ou por notícias internacionais. Foi o momento de profissionalização tanto das empresas como dos jornalistas.

O interesse pelo tema econômico-financeiro também se alargou, atingindo setores de classe média, que começaram a aplicar suas economias no mercado de capitais. Como lembra o jornalista Alberto Dines, de um lado o noticiário econômico passou a interessar uma grande massa de leitores, mas de outro a linguagem tornou-se hermética, já que as fontes de informação dos jornalistas eram os tecnocratas ou os economistas.10

É possível indicar a diminuição relativa das notícias de política nacional em benefício das notícias internacionais e econômicas através da análise do conteúdo das notícias divulgadas na primeira página de dois jornais, Jornal do Brasil e Última Hora, no período de 1960 a 1971, como demonstra pesquisa realizada por Scavone, Belloni e Garbayo.11 Assim, a proporção de notícias sobre temas de política nacional no Jornal do Brasil, que entre 1960 e 1963, ou seja, antes de os militares assumirem o poder, era de 54,2%, entre 1970 e 1971, em pleno regime militar, passa a ser de 28,2%. As notícias internacionais, que cobriam 17,7% do noticiário entre 1960 e 1963, passam para 40,4% entre 1970 e 1971. Quando se observa, dentro da categoria de política nacional, os diversos assuntos abordados, verifica-se que a política econômica, que em 1960 ocupava 9,0% dos assuntos da primeira página do Jornal do Brasil, em 1971 passa a ocupar 28,3%.

Se observamos a Última Hora, jornal popular que dava prioridade a assuntos de política nacional, principalmente reivindicações trabalhistas e mobilizações populares, verificamos que o noticiário sobre política nacional ocupava 49,5% da primeira página entre 1960 e 1963; esse número cai para 23,8% entre 1970 e 1971. Em relação aos assuntos de economia, a pesquisa mostra a mesma situação do Jornal do Brasil. Enquanto em 1960 a Última Hora tinha 10,6% de suas notícias de primeira página ligadas à economia, em 1971 os temas econômicos passam a ocupar 21,4% do noticiário.

Se essa mesma pesquisa fosse feita para o período posterior a 1972, os resultados seriam provavelmente ainda mais significativos no que diz respeito à ênfase dada pelos jornais aos temas econômicos.

Para os militares as editorias de economia representavam um espaço de menor risco porque as informações eram basicamente sobre o setor público, e os dados, e índices eram oficiais, fornecidos pelo BNDE, pela Associação Comercial, pelas Federações das Indústrias e fundamentalmente pelo Ministério da Fazenda. Mas a censura atingia todos os setores do jornal, alguns com mais intensidade do que outros.

O jornalista Caó era da editoria de política da TV Tupi e de O Jornal, quando em 1970 foi julgado e condenado por sua atuação política na Bahia no período anterior a 1964. Ao sair da prisão, seis meses depois, foi demitido da TV Tupi e informado de que não poderia exercer a profissão na televisão; mesmo em jornais e revistas, não poderia continuar na reportagem política. Escolheu então trabalhar na editoria de economia.12

O jornalismo econômico tal como é praticado hoje nasceu nos anos 1970. Até essa década o noticiário econômico era essencialmente voltado para a cobertura das cotações de bolsa, informações sobre câmbio, e quando apresentava outros temas estes não vinham acompanhados por uma análise, não existia um grupo de jornalistas dedicados e especializados em assuntos econômicos dentro das redações. Não existia cobertura sobre o desempenho das empresas , nem sobre os diversos setores da economia. A visão macro econômica e setorial não era objeto de análise. As editorias de economia introduzem uma forte profissionalização de seus jornalistas.

A editoria de economia do Jornal do Brasil pode ser tomada como exemplo. Ela foi criada por Alberto Dines e chefiada por Noênio Spínola que introduziu a partir de 1967 informações sobre o setor público e sobre empresas e empresários do setor privado. Até então as atividades econômicas cabiam em duas páginas do jornal. Noênio ampliou a editoria, que passou a contar com 12 páginas, e criou um grupo especializado em indústria, que tinha Ênio Bacellar como responsável. A editoria cobria também petróleo e siderurgia; mercado de trabalho, com Carlos Alberto de Oliveira; comércio exterior, com Luiz Ignacio de Castro; mercado de capitais, com Carlos Alberto Wanderley. Suely Caldas era responsável por notícias sobre abastecimento e outras.

Essas transformações incluíram um maior espaço para as empresas privadas, com entrevistas e opiniões dos empresários. A editoria de economia se abriu para a área de negócios, sofreu por isso críticas dentro da própria redação e teve que enfrentar a desconfiança dos empresários. De um lado, a não aceitação do espaço dado aos empresários correspondia a uma visão predominante até o final dos anos 1960, ou seja, noticiar negócios era matéria paga disfarçada ou uma tentativa de obter recursos das empresas sob a ameaça de revelações negativas sobre os empresários e seus negócios.13 Nos anos 1940 e 1950 os jornalistas de prestígio não aceitavam fazer matérias sobre empresas e empresários, já que esse tipo de jornalismo era mal visto, e os jornalistas que o praticavam eram vistos como corruptos. Mas já nos anos 1970, sob a influência do jornalismo norte-americano e sob os efeitos da censura, os jornais brasileiros descobriram que a economia vista do ângulo das empresas também era notícia.. De outro lado, os empresários reagiram com muita desconfiança, esperando que as informações dadas sobre suas empresas fossem cobradas, mais cedo ou mais tarde, pelos jornais. Também temiam dar declarações contra determinados aspectos da política econômica e sofrer em função disso retaliações do governo. Além disso, a editoria de economia do Jornal do Brasil sofria críticas dentro da própria redação, dos jornalistas das outras editorias, que a consideravam como porta-voz do ministro Delfim Netto.

O Jornal do Brasil foi grandemente beneficiado pelo “milagre econômico”, na medida em que o seu sucesso foi baseado na ênfase à indústria automobilística e à construção civil, o que beneficiou a classe média. O Jornal do Brasil tinha nesse período o domínio absoluto na procura dos cadernos de classificados, seu trunfo econômico. As classes A e B foram as mais aquinhoadas com essa política e eram as leitoras assíduas de seus cadernos de classificados.

Durante o período do “milagre econômico”, quando o ministro Delfim Netto tinha forte controle sobre todos os setores econômicos e quando os setores básicos da economia pertenciam ao Estado, as fontes de informação eram os técnicos ou assessores dos órgãos estatais ou o próprio ministro e seus assessores. As editorias de economia foram usadas como instrumento de divulgação da política econômica do regime militar.

Era importante para o regime que a imprensa divulgasse as conquistas e os avanços econômicos, como instrumento de legitimação. Houve uma grande expansão dentro dos órgãos oficiais de assessorias de relações públicas, encarregadas de divulgar as obras, os investimentos realizados pelo governo federal e pelos governos estaduais. A Revista Econômica preparada pela editoria de economia do Jornal do Brasil em 1973, além de uma longa entravista com o ministro Delfim Netto sobre desenvolvimento e integração regional, traz artigos sobre investimentos do governo federal no pólo petroquímico da Bahia, investimentos do governo do Rio Grande do Sul em água potável para o estado e do governo federal na construção da usina hidrelétrica de Itaúba, no Rio Grande do Sul; divulga ainda e grandes obras portuárias no Rio Grande do Sul, investimentos da Companhia Vale do Rio Doce no Espírito Santo, grandes investimentos em Minas Gerais por parte da General Motors, Fiat, Termocanadá, Arafértil e outras, grandes projetos de agropecuária ao longo da Transamazônica, rede de silos no Paraná etc.

O esforço do regime para legitimar-se não foi alcançado. Como indica Anne Marie Smith,

“no trato com a imprensa, o regime inventou procedimentos que disfarçavam o ato da censura. Mentia a respeito de restrições à imprensa”.14

A hierarquia nas redações contribuiu para um maior ou menor grau de independência dos jornalistas em relação ao poder político. Todos tinham os mesmos objetivos: obeter notícias e informar o leitor. Entretanto, os diretores e os chefes de redação que tinham o privilégio de ter contato direto com as fontes de maior poder e prestígio deveriam evitar o confronto com o Estado, pois isto determinaria, entre outras conseqüências, a perda da publicidade e em muitos casos a perda de emprego. Alguns apoiavam as medidas econômicas do regime por uma questão de identidade ideológica, mas nunca houve, por parte desses jornalistas, um endosso à censura. Os repórteres viviam uma situação ambígua: eram os mais engajados politicamente, os que buscavam denunciar o regime, mas conheciam os limites de sua atuação e tentavam, de um lado, preservar sua autonomia profissional e, de outro, manter as condições mínimas para continuar a exercer a profissão.


A redemocratização e o desengajamento


A situação começou a mudar com a crise do petróleo, em 1973, com o fim do “milagre econômico” e o início da transição democrática.

A economia e o modelo econômico brasileiro tornaram-se o foco de resistência dos jornalistas brasileiros ao regime militar. As editorias de economia se organizaram em torno de alguns jornalistas que lideraram a formação de uma geração de jovens capacitados a acompanhar as decisões econômicas do governo. Eles se dedicaram a estudar questões como balanço econômico das empresas, dívida externa, os tipos de investimentos que estavam sendo feitos, as conseqüências do modelo de desenvolvimento na distribuição interna da riqueza etc. Para isso se aproximaram dos economistas que trabalhavam nas universidades e em instituições de pesquisas, como IPEA, IBGE, Fundação Getulio Vargas, onde obtinham os dados e os argumentos necessários para fazer oposição ao governo. Formou-se um grupo coeso que passou a atuar na Associação dos Jornalistas de Economia e Finanças (AJEF). Até então a AJEF era omissa na defesa da liberdade de atuação dos jornalistas e mostrava-se favorável ao regime militar. Através de uma articulação dos jornalistas econômicos de O Globo, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil, foi lançada a candidatura de Carlos Alberto de Oliveira, o Caó, para a presidência do órgão. A parti de então a AJEF se tornou um fórum de debates dedicados também à formação dos jornalistas em economia e finanças.

As análises dos economistas Albert Fishlow e Werner Baer muito contribuíram para a divulgação das questões relativas à concentração de renda no país, que se aprofundou durante o “milagre econômico”. Essas análises tinham a vantagem de não despertar a censura dos militares, já que eram feitas por norte-americanos; os militares achavam que nesse caso “não podia ser comunismo”, ironiza Noênio Spínola, que promoveu o debate com Fishlow para o Jornal do Brasil.15

Também os economistas do IPEA e das universidades, que não tinham espaço na mídia, por serem considerados opositores do regime, logo censurados pelos órgãos de repressão, passavam para essas editorias os resultados de suas pesquisas sobre a economia brasileira pós-64. Na maioria dos casos não havia indicação do responsável pelo estudo.

No Jornal do Brasil, quando teve início o processo de abertura política, em 1974, deu-se a saída de Alberto Dines que foi substituído por Walter Fontoura como editor-chefe; e houve também a substituição de Noênio Spínola na chefia da editoria de economia por Carlos Alberto de Oliveira, o Caó. Este imprimiu uma nova orientação à editoria, tornando-a mais crítica em relação à política econômica do governo e introduzindo nas páginas do jornal a discussão sobre o modelo econômico adotado pelo regime militar.

Ainda no Jornal do Brasil, a Revista Econômica, destinada a fazer o balanço anual da economia brasileira, foi usada a partir de 1974 para questionar o regime e sua política econômica e publicou dados e estudos que mostravam o fim do “milagre econômico”.

Durante o processo de transição, o governo buscou utilizar a imprensa como um dos mecanismos de ação política para impor ao grupo mais radical dos militares a aceitação da redemocratização do país, já que a imprensa podia se constituir na cadeia de transmissão para os demais setores a serem atingidos pelo projeto de abertura do regime. Como mostra Celina R. Duarte, “a liberalização da imprensa tomou um ritmo irregular, alternando-se momentos de liberdade com momentos de repressão. Esse ritmo acompanhou de perto o conflito interno pelo poder”.16

A imprensa abriu espaço para os empresários e para os políticos de oposição. Alguns empresários se apresentavam ostensivamente fazendo críticas à política econômica do governo, como Antônio Ermírio de Morais, o que para os jornalistas era um meio de ter uma liderança empresarial falando em “on”, visto que a maioria não criticava publicamente o governo. As críticas que surgiram no período Geisel mostravam uma insatisfação do empresariado com a política de fortes investimentos estatais e com os investimentos das multinacionais, isso no momento em que se dava uma redução drástica no rítmo do crescimento econômico.

Ao contrário do período de maior repressão, no período da chamada “abertura” tornou-se comum a divulgação de informações transmitidas por pessoas que ocupavam o centro do poder, como o ministro da Justiça Armando Falcão e o chefe do Gabinete Civil do governo Geisel, general Golbery do Couto e Silva, que não podiam ser citados nominalmente como fontes de informação. Foi quando proliferaram as informações privilegiadas em “off”. Segundo um dos nossos entrevistados, isso introduziu uma grande deformação no jornalismo brasileiro. Os jornalistas passaram a se atribuir grande prestígio na medida em que tinham acesso a notícias em “off”; da mesma forma, os proprietários dos meios de comunicação valorizavam os jornalistas que eram capazes de trazer informações “quentes” sem obrigação de citar o informante. Essa deformação produzida em um determinado contexto político permanece até hoje e tornou-se uma prática utilizada tanto por políticos, quanto por técnicos do governo, que se protegem, só dando informações em “off”. O jornalista não investiga a informação e aceita a “declaração” do político. Ao mesmo tempo, ele deixou de ser um jornalista investigativo, aquele que vai buscar, confrontar e analisar a notícia e se transformou no jornalista “denuncista”. Henrique Caban,17 ao falar do jornalismo que se pratica hoje no Brasil, diz que “a ditadura praticamente liquidou o repórter investigativo; antes nós fazíamos um jornalismo de investigação e passamos hoje para o denuncismo, nós denunciamos tudo que ninguém investigou”. Para ter credibilidade junto ao público, o jornalista quer mostrar independência, mostrar que não sofre censura e se coloca contra tudo e contra todos, denuncia tudo. O denuncismo, além dessas razões conjunturais, tem outras explicações. A redemocratização no Brasil se deu paralelamente à desilusão política com o socialismo, ao choque da desagregação do regime comunista, ao desprestígio da ideologia marxista e ao fim das utopias de construção de um mundo socialista mais justo, mais igual.

Este é o momento do não engajamento político, de atitudes apolíticas, do recuo dos intelectuais, que não desempenham mais o papel de mediadores ou porta-vozes das idéias de mudança e de revolução. Há uma ascensão dos técnicos, dos “experts”, dos jornalistas que falam sem paixões. O jornalista Otávio Frias Filho18 vê o momento atual como aquele em que “as opções ideológicas se esgotaram. O debate ideológico se estreitou muito, para não dizer que desapareceu. A dificuldade consiste, a meu ver, em a imprensa conseguir transitar de uma crítica com base conceitual, ideológica, como no passado, para uma crítica que tenha uma concepção mais técnica”.

Com o fim do regime militar os jornais passaram a valorizar os aspectos mais técnicos, mais profissionais do jornalismo, em detrimento de ideologias e da política. Otávio Frias Filho, à frente da redação da Folha de S.Paulo, encaminhou uma reforma dentro do jornal com o objetivo de “fazer um jornalismo crítico, apartidário e pluralista”. Foi através do Manual de Redação que essa orientação foi imposta à redação “com uma série de medidas draconianas em termos de normatizar procedimentos, despolitizar, procurar garantir as diversas versões registradas sobre um mesmo acontecimento, na mesma reportagem”. Houve forte reação contra essa medida por parte dos jornalistas mais velhos, os mais experientes. A direção do jornal resolveu demitir todos aqueles que se colocaram contra as mudanças, e quase 50 jornalistas saíram em 1985, momento em que se fazia a transição do regime militar para o regime democrático.

Hoje, quando o país vive em período de plena liberdade de imprensa, com o funcionamento das instituições democráticas, há um desinteresse crescente pelos temas políticos. Alguns jornalistas declaram que os leitores ou telespectadores têm um interesse cada vez maior pelo noticiário jornalístico de forma utilitária; o público se interessa por aquilo que ele pode usar, busca informações que podem lhe trazer algum ganho direto e imediato. Ele tem cada vez menos tempo para se dedicar à leitura de jornais, está cada vez mais seletivo, mais pragmático, utilitário. Por outro lado, houve uma enorme fragmentação de interesses, e o número de assuntos que têm a atenção do público é cada vez maior. Otávio Frias Filho observa que hoje existe uma grande pulverização de temas que interessam ao leitor; segundo esse jornalista, “nós estaríamos transitando de um leitor cidadão para um leitor consumidor. O leitor cidadão seria o característico dos anos 70 até o começo dos anos 80, quando houve uma politização grande da sociedade, as questões institucionais estavam em primeiro plano; na pós- democratização, houve uma prevalência das relações econômicas, relações de ganho e perda, com a emergência dessa figura que seria o leitor consumidor”.

Chegamos ao final do milênio com uma nova concepção de engajamento político e com novas formas de mobilização social. Agora a ideologia da esquerda, de conteúdo econômico e social, que dominou este século, foi absorvida pelos políticos de direita e pela classe dirigente, principalmente por aqueles que detém o controle dos meios de comunicação. Atualmente, tanto a antiga esquerda como a direita se mobilizam em torno da defesa dos “excluídos, dos pobres, dos não-cidadãos, defendem a moral dos bons sentimentos. Os anos 1990 assistem ao surgimento dos movimentos de defesa dos excluídos, mas esses movimentos não são parte de um projeto de transformação da sociedade para resolver os problemas que impedem o acesso de uma parcela da população ao emprego, à terra, à educação, a salários dignos e à incorporação de todos aos direitos assegurados na Constituição. Bernard Poulet,19 ao analisar as diversas associações surgidas na França na última década, indica que as novas formas de mobilização social combinam bons sentimentos, moralismo, mídia e direitos do homem. Esses movimentos nasceram, segundo esse autor “no momento em que a televisão se torna um meio de massa, tornando possível mobilizar diretamente a solidariedade do público para uma causa humanitária e urgente e permitindo ganhar a simpatia – e os donativos – da opinião pública com um pequeno número de militantes”. 20 Essas novas organizações, que não são nem partidos, nem sindicatos, nem simplesmente as associações de caridade de outrora, têm um discurso voltado para a afirmação dos direitos em substituição às velhas reivindicações, direito de moradia, direito à terra, à saúde etc., que se desdobra na categoria dos “sem”.

A expansão dos meios de comunicação levou até o homem comum, através da televisão, todos os acontecimentos, inovações e mudanças que ocorrem no país e no mundo, o que lhe permitiu ter acesso também à noção de seus direitos. Os empresários da mídia perceberam que esse é o caminho para conquistar a audiência na televisão, no rádio ou o leitor de jornal. Uma das conseqüências imediatas é a preocupação da mídia em denunciar o não atendimento de necessidades básicas do cidadão, como a falta de condições de atendimento dos hospitais, a falta de vagas nas escolas públicas, o desrespeito ao consumidor com denúncias de falsificações de medicamentos, a falta de controle de qualidade dos produtos, as violências praticadas pela polícia etc. Nesse caso a mídia teria a função de assegurar a transparência das instituições. Ela estaria desempenhando a função de um contra poder.21 A denúncia, os escândalos fazem vender jornais e subir a audiência da televisão e do rádio. Isso dá lucro e permite ao cidadão, mesmo que de forma precária e intermitente, o acesso à justiça. Nesse caso poder e contra poder se entrecruzam.22

Para os jornalistas que entrevistamos, o público não se interessa pela política que é praticada hoje. Daí segundo Evandro Carlos de Andrade23, diretor de jornalismo da Rede Globo, “o interesse jornalístico sair em grande parte dessa área e ganhar outras áreas como a questão ambiental, saúde, corpo. Isso passa a ser hegemônico. A política, a não ser em momentos de eleição ou momentos especiais, é um blá-blá-blá muito grande. Na imprensa escrita ainda se pode discutir a essência de uma reforma institucional ou temas semelhantes, mas na televisão não é possível. Não se pode ser explicativo em um jornal de televisão”.

Nossa pesquisa identificou algumas orientações do jornalismo que são praticadas hoje, ou seja, um jornalismo apartidário, despolitizado e pluralista. Os jornalistas ontem eram engajados politicamente, tinham uma ação dentro de partidos políticos ou movimentos. Hoje são os profissionais, os técnicos que vivem a crise do engajamento

Nesse contexto, os jornalistas, pela posição que ocupam, nos indicam com maior nitidez as transformações culturais e políticas que estão ocorrendo na sociedade.



1 Este texto se apoiou nas entrevistas realizadas com 50 jornalistas que atuam na mídia das cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.

2 Pierre Bourdieu. A Ilusão biográfica. In Usos e Abusos da História Oral. Marieta de Moraes Ferreira e Janaina Amado.Coord. RJ : Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996. P. 184.

3 Roberto Müller. Entrevista à autora. Vitória,27/08/1998

4 Ancelmo Góis. Entrevista à autora. Rio de Janeiro, 07/04/1997

5 Teresa Cruvinel. Entrevista à autora. Brasília, 16/04/1998

6 Aluisio Maranhão. Entrevista a autora. São Paulo, 23/01/1998

7 Antoine Prost. Changer le siècle. Vingtième Siècle nº 60 outubro-dezembro 1998 p.14-26

8 Michelle Perrot. La cause du peuple. In Vingtième siècle. Nº 60 outubro/dezembro de 1998. P.4-13.

9 Michelle Perrot, op. cit. p.6.

10 Alberto Dines. O papel do jornal: uma releitura. Sâo Paulo, Summus, 1986 p.72

11 Scavone, Lúcia;Belloni, Maria Luiza e Garbayo, Cléa Sarmento. A dimensão política da comunicação de massa. Um estudo exploratório do caso brasileiro. Rio de Janeiro, Ed. Fundação Getulio Vargas, 1975.

12 Carlos Alberto de Oliveira. Entrevista a autora. Rio de janeiro, 12/05/2000

13 Luis Garcia. Entrevista a autora. Rio de Janeiro,16/08/2000

14 Anne Marie Smith. Um Acordo Forçado. O consentimento da imprensa à censura no Brasil. Editora FGV, Rio de Janeiro,2000. Pg.48

15 Noênio Spíndola. Entrevista a autora. São Paulo, 28/04/2000.

16 Celina Rabello Duarte. Imprensa e Redemocratização no Brasil. Revista Dados, Rio de Janeiro, nº 2, 1983 pp.181-185.pp..190

17 Henrique Caban. Entrevista a autora. Rio de Janeiro, 15/05/1998

18 Otávio Frias Filho. Entrevista a autora. São Paulo, 08/12/1997

19 Bernard Poulet. À gauche de la gauche. Le Débat, nº 103, jan-fev 1999 p.39-59

20 Bernard Poulet, op. cit. p.41

21 Henri Lederc. Le journaliste contre-pouvoir ou pouvoir. Après demain nº 39 janeiro-fevereiro 1997

22 Henri Lederc, op. cit. p.6

23 Evandro Carlos de Andrade. Entrevista a autora. Rio de Janeiro, 29/10/1997






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