O dolmen de Zêdes abundam, como é sabido, na província de



Baixar 55,2 Kb.
Encontro07.09.2018
Tamanho55,2 Kb.

O dolmen de Zêdes

ABUNDAM, como é sabido, na província de Trás-os-Montes essas construções prehistó-ricas, conhecidas literàriamente pelo nome de dolmens, as quais o povo designa por variadas maneiras, conforme as localidades.

Dos quatro existentes no concelho de Carra-zeda de Anciães, é êste, de que dou notícia, um deles. Está situado na freguesia de Zêdes, uns trezentos metros a nascente da povoação, mesmo à orla do caminho que da sede concelhia lá conduz.

Numa recente digressão de estudo realizada na agradável companhia dos meus esclarecidos amigos, Dr. Raul Teixeira, meretíssimo Juis de Direito em Carrazeda de Anciães e P.e Francisco Manuel Alves, reitor de Baçal, ilustre investi­gador a quem a arqueologia portuguesa muito deve, tive ensejo de o vêr e de lhe fixar a ima­gem pela fotografia. No momento, recolheu as suas características o abade de Baçal, notas que aqui reproduzo por amavelmente m'as ter confiado.

A primeira referência conhecida àcêrca dêste

REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS

149


exemplar neolítico foi a que publicou o Dr. Pe­dro Augusto Ferreira no Portugal Antigo e Mo­derno, artigo ZÊDES (1), onde se lê: «há contudo uma velharia que merece mencionar-se: é uma guarita ou casinha, formada de grandes pedras



O dolmen de Zêdes

sômente e que pode abrigar seis ou mais pes­soas. Chamam-lhe Casa da Moura e êste mesmo nome dão ao sítio onde se acha, que é no mencio­nado Campo, ao nascente daquela aldeia.» Esta

(1) Vol. XII, pág. 2092.

150 REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS

notícia transcreve-a o continuador da obra de Pi­nho Leal, conforme a recebeu dum informador, merecendo-lhe todavia o seguinte comentário: «A dita Casa da Moura muito provavelmente é um dolmen ou anta, pois nêste concelho ainda se apontam mais dolmens. Na freguesia de Vila-rinha da Carvalheira apontamos nós três (1). Com vista aos arqueólogos.»

Tomando a deixa, o ilustre P.e José Augusto Tavares, hoje abade de Carviçais, devotado cul­tor da arqueologia, logo em 1895, no então novel arquivo O Arqueólogo Português (2), abordava o assunto, esclarecendo com maior justeza essas construções funerárias, que o povo do local denomina Palas Mouras, ou melhor Palas das Mouras (3). De passo, ainda, referia-se ao dolmen de Zêdes (4), dizendo: «como não possuo os ele-

  1. Portuqal Antigo e Moderno, vol. XI, pág. 1342.

  2. Tom. I, pág. 107.

  1. A propósito dêste apelativo diz o eminente
    arqueólogo Sr. Dr. José Leite de Vasconcelos: «Segundo
    me informa, em carta de 28 de Maio de 1895, o Sr. P.e José
    Augusto Tavares, pároco de Ligares (Trás-os-Montes),
    o nome genérico de dolmen nas regiões do Sul do Dis­-
    trito de Bragança é PALA DA MOURA, dizendo-se pois
    «Pala da Moura de Vilarinho», Pala da Moura do Cas-
    têdo». ?Mas será Pala um nome comum ou nome pró­-
    prio, embora de uso frequente?» (Religiões da Lusitânia,
    vol. I, pág. 255).

(4) Pouco distante dêste monumento há um casta­nheiro secular cuja circunferência exterior é de 19m,10 e interior 8m,60, num sentido e 2m,80 noutro. Tem duas aberturas, uma que serve de porta e outra de janela.

REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS 151

mentos necessários para o descrever, nem ainda o visitei, deixo-o apenas mencionado.»

Esses elementos colheu-os, quando da nossa visita, o erúdito reitor de Baçal e são os se­guintes:

Tem nove esteios de granito todos de pé, menos um que despedaçaram. Os esteios acima do nível do terreno elevam-se a 2 metros, tendo de largura lm,22 o mais avantajado deles; os outros menos, com pequenas variantes. A capa­cidade interna do monumento é de 3 metros por 2m,40. Há vestígios patentes da galeria, com pe­dras postas de cutelo ao nível do terreno, vol­tada ao nascente.

O chapéu apoia-se apenas em quatro esteios, pois que os outros estão deslocados, inclinan-do-se para dentro.

Doloridamente verificamos todos nós que o monumento está condenado a desaparecer, pois que o dono do terreno, um labroste com quem falamos, tomando-o como um estôrvo aos seus interesses pessoais, se julga no direito de o arrasar, como propriedade muito sua, logo que isso lhe convenha para melhor proveito do cultivo.

Se o não defendem sem dúvida que virá a terra, !Almas boas, exclama o meu excelente amigo Reitor, tende compaixão dêle!

O terreno em volta, restos apagados da mamôa, vai fugindo pela cultura e o homem ignaro fará o resto.

Não admira que isso se dê. Quando belos

152

REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS



exemplares arquitectónicos, .ruem por falta de protecção eficás, !que dizer desta espécie modestíssima de monumentos, cujo significado o vulgo desconhece, e os altos poderes desde­nham com a mais soberana indiferença!

pedro vitorino.









©livred.info 2019
enviar mensagem

    Página principal