O discurso do Paraíso na América e as leituras de Simão de Vasconcelos



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O DISCURSO DO PARAÍSO NA AMÉRICA E AS LEITURAS DE SIMÃO DE VASCONCELOS

José Antonio Andrade de Araujo1 - Universidade Federal Fluminense


“Paraíso na América” é o título da catalogação na Biblioteca Vittorio Emanuele, em Roma, do parecer do P. Luís Nogueira, elaborado em 17 de abril de 1663, sobre a Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil (1663), de Simão de Vasconcelos. O parecer contém a única cópia conhecida dos sete últimos parágrafos das Notícias antecedentes, curiosas e necessárias das cousas do Brasil, que precedem o texto da Crônica, que foram censurados e suprimidos do livro original. Segundo Serafim Leite, o livro já estava impresso e com alguns exemplares distribuídos quando veio a ordem para recolhê-los (LEITE, 1965, p. 359-362). Como resultado da censura, as quatro folhas correspondentes às páginas 177 a 184 foram removidas do livro, a folha com as páginas 177 e 178 foi reimpressa e colada ao livro. Assim, da página 178 da Crônica passa-se para a página 185.

Cinco anos depois dessa tumultuada publicação da Crônica, Simão de Vasconcelos publicou a introdução à Crônica, que havia sido censurada, sob o título Notícias curiosas e necessárias das cousas do Brasil (1668), que teve ainda uma segunda edição realizada pela Imprensa Nacional, no Rio de Janeiro, em 1824 (MORAES, 1983, p. 888-891). As Notícias curiosas e necessárias das coisas do Brasil, complementadas pelos sete parágrafos suprimidos da versão original, constituem o que chamamos de discurso do Paraíso na América. Nesse discurso Vasconcelos demonstra, através de uma argumentação organizada de forma lógica, a tese de que o Paraíso terrestre localizava-se na América, mais precisamente, no Brasil.



A Crônica teve duas segundas edições, quase simultâneas, em Portugal e no Brasil. A segunda edição portuguesa foi organizada por Inocêncio Francisco da Silva e publicada em 1865, em Lisboa. A edição impressa no Rio de Janeiro, sob a responsabilidade do cônego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, apresenta duas datas, 1864 e 1867, e, segundo Serafim Leite, é uma “edição defeituosa e incompleta” (LEITE, 2000, v. 9, p. 176). Mesmo assim, apesar dos defeitos apontados, foi com base nela que a Crônica foi editada pela terceira vez em 1977. Nesta última edição, as notas marginais (glosas) da primeira edição, com referências bibliográficas, foram transformadas em notas de rodapé onde aparecem apenas as referências bibliográficas. As demais notas marginais foram suprimidas. Além disso, o texto dessa edição não reproduz a grafia de algumas palavras como no texto original, substituindo a letra maiúscula por minúscula, como se pode constatar no parágrafo transcrito abaixo:


Livro II das Notícias – edição de 1668

Livro II das Notícias – edição de 1977 da Crônica

103. Por conclusaõ deste liuro, & descripção do Brasil, em que temos escrito as qualidades da terra, o temperamento do clima, a frescura dos aruoredos, a variedade de plantas, e abundancia de frutos, as heruas medicinaes, a diuersidade de viuentes, assi nas agoas, como na terra, & aues tão peregrinas, & mais prodigios da natureza, com que o Autor della enriqueceo este Nouo mundo: poderiamos fazer comparação, ou semelhança, de algũa parte sua; com aquelle Paraíso da terra, em que Deos Nosso Senhor, como em jardim, poz a nosso primeiro pay Adam, conforme a outros diligentes Autores, Horta, Argençola, Ludouico, Romano, & o nosso Padre Eusebio Nieremberg nas suas Questões naturaes, liu. 1. cap. 35. (VASCONCELLOS, 1668, p. 289-290)

104. Por conclusão deste livro, e descrição do Brasil, em que temos escrito as qualidades da terra, o temperamento do clima, a frescura dos arvoredos, a variedade de plantas, e abundância de frutos, as ervas medicinais, a diversidade de viventes, assim nas águas, como na terra, e aves tão peregrinas, e mais prodígios da natureza, com que o autor dela enriqueceu este novo mundo: poderíamos fazer comparação, ou semelhança, de alguma parte sua, com aquele paraíso da terra, em que Deus Nosso Senhor, como em jardim, pôs a nosso primeiro pai Adão, conforme a outros diligentes autores, Horta, Argençola, Ludovico Romano, e o nosso Padre Eusébio Nieremberg nas suas Questões Naturais, liv. 1. cap. 35.

[grifos nossos] (VASCONCELOS, 1977, p. 165-166)


Nesse parágrafo da terceira edição da Crônica (1977), o Autor da natureza é escrito com letra minúscula, da mesma forma que Paraíso, por um jesuíta e numa página que, como vimos, foi originalmente censurada e reimpressa. Esses e outros erros dessa edição podem levar o leitor a interpretações equivocadas. Assim, estamos elaborando uma edição diplomática, da edição de 1668, das Notícias curiosas e necessárias das cousas do Brasil, que servirá como base para uma futura edição do livro. Por enquanto, somos obrigados a utilizar a edição de 1977 da Crônica nas citações deste trabalho.

Entendemos o livro como um “ato de fala impresso”, parte do processo de comunicação ininterrupta, onde o autor “responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipa as respostas e objeções potenciais, procura um apoio” (BAKHTIN, 1999, p. 123). Nesse sentido, as Notícias, de Simão de Vasconcelos, apresentam os requisitos litúrgicos de um discurso de autoridade (BOURDIEU, 1996, p. 91), e que nos seus 262 parágrafos2 o autor faz referência, e muitas vezes cita, mais de cem diferentes autores. Essa referências cumprem o papel de legitimar o discurso do autor e conferir autoridade ao escritor (GRAFTON, 1998, p. 19). No caso das Notícias, as referências nem sempre são facilmente identificadas pelo leitor porque, em alguns casos, Vasconcelos faz referência ao autor, ou a obra, de diferentes formas, como podemos constatar no seguinte exemplo:


Referências de Vasconcelos

Referência Bibliográfica

NORTÉLIO, Abraão. Theatr. orbis.

ORTEL, Abraão. Theatrum orbis.

HORTELIO, Abraham.

HORTÉLIO, Abraão. Theatrum Orbis.

HORTÉLIO, Abraão


ORTELIUS, Abraham (1527-1598). Theatrum orbis terrarum. Antuerpiae: apud Christophorum Plantinum, 1584. [BN-PT]

Fonte: (VASCONCELOS, 1977) e Catálogo da Biblioteca Nacional de Portugal (http://www.bn.pt).

Ao coletar as referências para elaboração da bibliografia citada por Vasconcelos, deparamo-nos com a alteração de nomes estrangeiros para o português, como por exemplo: Ávila (Davila), Cunha (Acuña), Maffeo (Maffei), Marcgravi (Marcgraf), Orlandino (Orlandini), Piçon (Piso). Com base nas referências de Vasconcelos selecionamos algumas, em sua maioria relacionadas à História e à Ciência, acompanhadas da referência bibliográfica provável recuperada na Bibliotheca Brasiliana, de Rubens Borba de Moares (1983), na Bibliotheca Lusitana, de Diogo Barbosa Machado (1741), e nos catálogos da Biblioteca Nacional de Portugal [BN-PT], da Biblioteca Nacional da Espanha [BN-ES], e da Biblioteca Nacional da Itália [BN-IT] (ver apêndice).



Nas Notícias, Vasconcelos dedicou 47 parágrafos à demonstração da tese do Paraíso na América e, nos 41 parágrafos publicados (parágrafos 65 a 105 do livro II), encontramos 22 referências sendo, em geral, uma para cada autor ou obra, com exceção às duas referências a Piçon (Piso), três a Maffeo e cinco a Marcgrave. As referências a Piso e Marcgrave, na realidade, remetem à mesma obra, a História natural do Brasil, que assim teria sete referências. Em outras palavras, quase um terço das referências usadas por Vasconcelos para apoiar a demonstração do Paraíso na América remetem o leitor a essa História. Este é um aspecto importante, pois em toda argumentação lógica, como parte do processo de legitimação do discurso, o autor faz citações e referências às autoridades que validam e dão consistência ao seu discurso. São essas autoridades que fornecem o material que constitui a base da estrutura sobre a qual o autor apóia o seu texto, da mesma forma que as fundações sustentam uma edificação projetada por um arquiteto. Convém então, conhecermos um pouco os autores e a sua obra.
O astrônomo Georg Marcgrave e o médico Wilhelm Piso acompanharam João Maurício, futuro príncipe de Nassau-Siegen, chefe da expedição militar holandesa que veio para o Brasil em 1636 para defender e ampliar as conquistas. Durante sete anos de permanência no Brasil, Marcgrave elaborou um detalhado trabalho sobre a História Natural do Brasil, que entregou a João Maurício antes de partir para a África, em 1644, onde veio a falecer, vítima de febre endêmica. Nesse mesmo ano, João Maurício embarcou para a Europa e lá confiou os manuscritos de Marcgrave ao médico Piso para que os organizasse e publicasse, juntamente com as observações de Piso sobre o clima, as moléstias e remédios usados no Brasil. Nessa época Piso estava assoberbado e transferiu o encargo para Johannes de Laet que, por sua vez, trabalhou muito para concluir a tarefa porque
Marcgrave escrevera todos os seus trabalhos em cifras por ele próprio inventadas, a fim de que ninguém pudesse tirar-lhe a glória de divulgá-las em primeiro lugar. É fato que se encontrou também entre os papéis a chave daquelas cifras; mas, como todos os apontamentos estavam escritos em folhas separadas, constituiu uma nova dificuldade dar ao conjunto uma boa ordem. (LICHTENSTEIN, 1961, p. 139).
As ilustrações, possivelmente de “Marcgrave e de outro artista a que se fazem referências nos escritos, sem indicar o nome” (LICHTENSTEIN, 1961, p. 140), em muitos casos foram inseridas no livro em locais incorretos, dando origem a equívocos. A obra foi publicada em 1648, num volume médio in-folio, sob o título Historia Naturalis Brasiliae. O editor Johannes de Laet faz uma breve introdução, “Aos benévolos leitores”, onde conclui prometendo uma nova versão, ou edição, quando a guerra terminar: “se Deus me prolongar a vida por alguns anos, e terminar a guerra no Brasil, que esta História sairá mais perfeita, e será feito um favor condigno àqueles, que dela se aproveitarão. Por enquanto gozai da que vos damos.” (MARCGRAVE, 1942).

Lichtenstein, em 1828, publicou uma revisão crítica dos trabalhos de Marcgrave e Piso (LICHTENSTEIN, 1961), principalmente no que se refere às ilustrações. Na introdução do seu trabalho Lichtenstein chama a atenção para o valor do trabalho de Marcgrave e Piso:


Antes de firmarem o pé no Brasil os holandeses, deconheciam-se [sic] inteiramente todos os seus produtos naturais que não fossem artigos de comércio. Agora, com aquelas obras, que em si traziam de modo tão iniludível o cunho de exatidão e de amor à verdade, surgia subitamente um novo reino, sendo difícil que de outra qualquer região se tenha dado uma primeira notícia tão completa e exaustiva quanto a que nelas se fornecia do Brasil. (LICHTENSTEIN, 1961, p. 146).
Além do valor, decorrente do pioneirismo e do nível de detalhamento dos trabalhos, Lichtenstein lembra que
“o que lhes dá casualmente importância ainda maior é a circunstância de que, assim que os holandeses foram expulsos, os espanhóis, mais ciosos ainda que dantes, fecharam aos pesquisadores essa parte do mundo, tornando-a assim inacessível durante um século e meio” (LICHTENSTEIN, 1961, p. 146).
O equívoco, deliberado ou não, do autor quanto a nacionalidade dos colonizadores do Brasil, após a restauração de 1640, não afeta o conteúdo: os portugueses mantiveram fechado o acesso ao Brasil para pesquisadores até o início do século XIX, quando a vinda da família real alterou esse panorama. Desde a descoberta, os portugueses não apenas impediam o acesso de pesquisadores, mas também restringiam as publicações sobre o Brasil.

No entanto, a afirmação de Vasconcelos de que a Crônica é “a primeira que sai a luz de cousas destas partes” (1977, p. 136) é exagerada considerando que, em 1576, Pero de Magalhães Gandavo publicou a História da Província Santa Cruz. Além disso, a disseminação de informações sobre o Brasil circulou, muitas vezes, sob a forma de manuscritos, o que é atestado, por exemplo, na carta de Varnhagen, de 1/3/1851, ao Instituto Histórico, onde informa que examinou cerca de vinte códices, cópias do manuscrito de Gabriel Soares de Sousa, do Tratado descritivo do Brasil em 1587 (SOUSA, 1971, p. 11-14).

Sobre a circulação concomitante de livros impressos e manuscritos no período colonial temos como prova um manuscrito (VASCONCELLOS, s.d.) das Notícias curiosas e necessárias das cousas do Brasil, copiado da edição impressa em 1668. Essa afirmação decorre do fato de que a publicação de 1668 apresenta um erro na numeração dos parágrafos do livro II, onde existem dois parágrafos com o número 12 na página 175, e os 105 parágrafos, publicados na Crônica, ficaram reduzidos a 104 nessa edição das Notícias. O manuscrito das Notícias existente na Biblioteca Nacional3 apresenta no segundo livro dois parágrafos com o número 14, no verso da folha 53 e na folha 54, uma indicação de que o copista do livro descobriu o erro após ter copiado o segundo parágrafo numerado como 12 no livro impresso, atribuindo-lhe o número 13 no manuscrito. Constatado o erro, o copista optou por duplicar o parágrafo 14 para manter a correspondência da numeração, a partir desse ponto, dos parágrafos do manuscrito com a numeração do livro impresso. Este exemplo demonstra a elaboração de um manuscrito de um livro, após sua impressão, e a circulação de ambos.

A demonstração da tese do Paraíso na América, de Vasconcelos, parte da premissa de que “quatro propriedades são necessárias para que por elas uma terra tenha o nome de boa” (VASCONCELOS, 1977, p. 144), isso porque está escrito no Gênese que o Criador da Terra viu em cada uma dessas propriedades a qualidade de serem boas: “et vidit Deus quod esset bonum” (VASCONCELOS, 1977, p. 145). Assim, Vasconcelos relaciona as propriedades:


A primeira é: Que se vista de verde [Gn 1, 11]4: a saber, de erva, pastos, e arvoredos de vários gêneros. A segunda: Que goze de bom clima, de boas influências do Céu, do sol, lua e estrelas [Gn 1, 14-18]. Terceira: que sejam suas águas abundantes de peixes, e seus ares abundantes de aves [Gn 1, 20-21]. Quarta: que produza todos os gêneros de animais, e bestas da terra [Gn 1, 24-25]. (VASCONCELOS, 1977, p. 144).
Vasconcelos divide a demonstração em duas partes. Na primeira parte ele apresenta as “quatro propriedades por excelência na terra do Brasil” (VASCONCELOS, 1977, p. 145) e na segunda parte apresenta a conclusão. Neste trabalho abordaremos a primeira parte cujo argumento dedutivo é:
Se uma terra tem as quatro propriedades estabelecidas no Gênese então a terra é boa.

Ora, a terra do Brasil tem as quatro propriedades estabelecidas no Gênese.

Logo, a terra do Brasil é boa.
Assim, ao longo de 37 parágrafos5, Vasconcelos se propõe a demonstrar, sentindo-se “obrigado a prová-las” (VASCONCELOS, 1977, p. 144), que a terra do Brasil tem as quatro propriedades para que a conclusão do seu argumento dedutivo possa ser considerada verdadeira. A primeira propriedade, que a terra se vista de verde, é tratada nos parágrafos 67 a 89 do livro II. Neles o autor recorre às seguintes referências: História Natural (69)6; Carlos Clusio, História das Plantas (71); Monardes (75); Oviedo (75); Guilhelmo Pinçon e Jorge Malcgravi (80). Esta última referência encontra-se no fim do parágrafo:
Destas poucas ervas referidas, poderia julgar o leitor, se se ajusta bem com o Texto Sagrado, a verdura, e bondade da terra do Brasil. Melhor julgara se de todas ouvira. a relação: porém tanta detença, nem é de meu intento, nem assunto fácil. O curioso que mais desejar, veja os livros acima referidos de Guilhelmo Pinçon, e de Jorge Malcgravi, e verá uma cousa grande. (VASCONCELOS, 1977, p. 152-153).

Desse trecho podemos deduzir que “os livros acima referidos” só podem fazer referência à História Natural, do parágrafo 69, que, na realidade é mais uma referência à História Natural do Brasil de Piso e Marcgrave. Outro aspecto a destacar é o valor atribuído ao livro por Vasconcelos quando afirma não relacionar todas as plantas e remete o leitor “curioso” ao livro de Piso e Marcgrave onde “verá uma cousa grande”. Reforçando o embasamento científico na defesa da propriedade, Vasconcelos relaciona ainda Carlos Clusio7, com a História das plantas, e Monardes, possivelmente, com a sua História medicinal.

Sobre a segunda propriedade – que goze de bom clima, de boas influências do Céu, do sol, lua e estrelas –, tratada nos parágrafos 90 a 96 do livro II, Vasconcelos apresenta um número maior de referências: Gotofredo, Arcontologia Cósmica (90); Maffeo, História da Índia (90); Theatrum Orbis (90); Guilhelmo Pinçon, Medicina do Brasil (90); Pero Teodoro (93); Teodoro de Bry, Observações (93); Afonso de Ovalle (93); Costa, De novo Orbe (93); Padre Maffeo (94, 95); Summa Astrológica (96).

Das referências utilizadas por Vasconcelos, relacionadas à segunda propriedade, podemos destacar as referências científicas ao médico Guilherme Piso, Medicina do Brasil, e as Observações do astrônomo Theodoro de Bry, mostrando a articulação do discurso científico ao religioso no discurso do Paraíso na América.

Abordando nos parágrafos 97 a 99, do livro II, a terceira propriedade – que sejam suas águas abundantes de peixes, e seus ares abundantes de aves –, Vasconcelos recorre apenas a: Jorge Marcgravi, História Natural do Brasil (97); “livro citado” (98); e “autor já citado” (99). Sendo as duas últimas referências indiretas à obra, História Natural do Brasil, e ao seu autor, Jorge Marcgrave. Assim, como a única referência para provar a terceira propriedade, fica patente a importância do trabalho de Marcgrave para a legitimação do discurso de Vasconcelos. Além disso, Vasconcelos recorre ao aspecto científico da obra de Marcgrave para complementar e, indiretamente, validar o seu testemunho sobre a metamorfose da borboleta em beija-flor:


Vasconcelos

Marcgrave

Sou testemunha, que vi com meus olhos uma delas meia ave, e meia borboleta, ir-se aperfeiçoando debaixo da folha de uma latada, até tomar vigor, e voar. Maior milagre: se afirma dela constantemente, e por tantos autores, que parece não pode duvidar-se, que como só vive de flores, em acabando estas, acaba ela na maneira seguinte: (Jorge Marcgravi, liv. 5, cap. 4.) prega o biquinho no tronco de uma árvore, e nela está imóvel como morta, enquanto tornam a brotar as flores (que são seis meses) passado o qual tempo, torna a viver, e voar. (VASCONCELOS, 1977, p. 163)

A natureza e propriedade desta avezinha é tal que não dura mais que as flores das plantas, de cujo mel vive; quando estas caem, a ave se firma com o biquinho, nos troncos das árvores e por seis meses fica imóvel até que renasçam as flores, o que se confirma com muitas testemunhas inteiramente seguras (MARCGRAVE, 1942, p. 198).

A quarta e última propriedade – que produza todos os gêneros de animais, e bestas da terra –, é coberta pelos parágrafos 100 a 103, do mesmo livro II, onde Vasconcelos relaciona como referência única o que “escreveu Jorge Marcgravi na História Natural referida” (VASCONCELOS, 1977, p. 164). No fim do parágrafo 103, Vasconcelos conclui sua demonstração afirmando: “E tendo dado breves notícias das quatro bondades da terra do Brasil, que são as mesmas com que Deus a criou em sua primeira formação, e pelas quais julgou que era boa” (VASCONCELOS, 1977, p. 165).

Dessa forma, podemos afirmar que a História Natural do Brasil, de Piso e Marcgrave, foi a única referência utilizada por Simão de Vasconcelos para corroborar as quatro propriedades da terra do Brasil e validar a conclusão do seu argumento dedutivo: a terra do Brasil é boa.

Alguns anos antes de Simão de Vasconcelos escrever no Brasil as Notícias curiosas e necessárias das cousas do Brasil, na Europa, em 1641, René Descartes na carta introdução de Meditações, dirigida ao Deão e doutores da Sagrada Faculdade de Teologia de Paris, afirma que a existência de Deus e da alma devem ser objeto de demonstração “mais pelas razões da Filosofia que da Teologia” porque para “persuadir os infiéis” dever-se-ia provar “essas duas coisas pela razão natural”. Na explicação que se segue, o autor esclarece que a demonstração é necessária para que se evite a acusação dos infiéis, de circularidade na afirmação de que “é preciso acreditar que há um Deus, porque isto é assim ensinado nas Santas Escrituras, e, de outro lado, que é necessário acreditar nas Santas Escrituras, porque elas vêm de Deus” (DESCARTES, 1979, p. 75).

A proposta de Descartes consistia numa mudança do discurso religioso, que deveria ser objeto de demonstração filosófica porque “a principal razão, que leva muitos ímpios a não quererem acreditar de maneira alguma que há um Deus e que a alma humana é distinta do corpo, é que eles dizem que ninguém até aqui pode demonstrar essas duas coisas” (DESCARTES, 1979, p. 76). Em outras palavras, a proposta de Descartes é substituir a fé, pura e simples, por uma fé que é resultado ou conclusão de uma dedução lógica.

Na elaboração do discurso o autor executa operações de seleção e combinação orientadas por algum tipo de valor que marcam o discurso (RIBEIRO, 1996, p. 41-42). Assim, o discurso construído por Descartes apresenta como proposta a validação do discurso religioso através do discurso filosófico. De forma semelhante, Simão de Vasconcelos articula o discurso científico, de seu tempo, ao discurso religioso construindo um discurso em que a ciência, na sua perspectiva, legitima o conteúdo religioso: o Paraíso na América.



Referências bibliográficas
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VASCONCELLOS, Simam de. Noticias curiosas e necessarias das cousas do Brasil. S.l.: s.d.. Manuscrito (Biblioteca Nacional, loc. 19, 1, 18).

VASCONCELLOS, Simão de. Chronica da Companhia de Jesu do Estado do Brasil: e do que obrarão seus filhos nesta parte do Novo Mundo. Lisboa: Officina de Henrique Valente de Oliveira, 1663.

______. Noticias curiosas, e necessarias das cousas do Brasil. Lisboa: Officina de Ioam de Costa, 1668.

VASCONCELOS, Simão de. Crônica da Companhia de Jesus. Petrópolis: Vozes/INL, 1977. 2v.


APÊNDICE

Principais Referências Bibliográficas em

Notícias curiosas e necessárias das coisas do Brasil




Referências de Simão de Vasconcelos

Referência Bibliográfica (provável)

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ANCHIETA, P. José de. Arte Universal



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SOARES, Padre

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Padre Soares de fide

Suar. granatense, De fide

Suar. De Fide



SUAREZ, Francisco (1548-1617). Doctoris Francisci Suarez ... e Societate Iesu ... Opus de triplici virtute theologica fide, spe & charitate : in tres tractatus pro ipsarum virtutum numero distributum / una cum duplici, tum locorum sacrae scripturae, tum rerum notabilium indice. Lugduni : sumptibus Iacobi Cardon & Petri Lavellat, 1621. [BN-ES]

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VASCONCELOS, Simão de. Vida do P Joam d’Almeida da Companhia de Iesu, na Provincia do Brazil. Lisboa, na Oficina Craesbeeckiana 1658. (MORAES, v. II, 1983, p. 888).

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ZÁRATE, Agustin de, (1514-? ). Historia del descubrimiento y conquista de las provincias del Peru. Sevilla: Alonso Escrivano, 1577. [BN-PT]



1 Doutorando em Literatura Comparada, Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal Fluminense. E-mail: jaaa@dcc.ic.uff.br

2 As Notícias curiosas e necessárias das cousas do Brasil são divididas em dois livros. O primeiro livro tem 157 parágrafos e o segundo tem 105, totalizando 262 parágrafos.

3 A organização das folhas do manuscrito está incorreta. Deve-se, possivelmente, a erro na encadernação durante processo de restauração. A numeração das folhas, feita posteriormente, não é a ordem correta.

4 Nas referências à Bíblia Sagrada são indicados, entre colchetes, o livro, capítulo e versículo (s).

5 As quatro propriedades são tratadas do parágrafo 67 a 103 do livro II das Notícias curiosas e necessárias das cousas do Brasil, publicado na Crônica da Companhia de Jesus (1977).

6 O número entre parênteses indica o número do parágrafo do livro II das Notícias curiosas e necessárias das cousas do Brasil, publicado na Crônica da Companhia de Jesus (1977).

7 Clusius, Carolus. (born Feb. 19, 1526 , Arras, Fr. - died April 4, 1609 , Leiden, Neth.).
French Charles De L'écluse, or Lescluse botanist who contributed to the establishment of modern botany. (Encyclopædia Britannica - http://www.britannica.com).

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