O despertar de Menfreya Victoria Holt Naquele castelo da Cornualha, amor e morte andam de mãos dadas



Baixar 2,42 Mb.
Página1/10
Encontro03.07.2018
Tamanho2,42 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   10

O despertar de Menfreya – Victoria Holt


O Despertar de Menfreya

Victoria Holt

Naquele castelo da Cornualha, amor e morte andam de mãos dadas

Diz a tradição que, quando o relógio da torre do Castelo de Menfreya pára, isso significa mau agouro. Mas, para Harriet, não passa de mais uma das muitas crendices que cercam a propriedade de Bevil, seu marido.

No entanto, quando Jessica, a nova governanta, muda-se para Menfreya, a segurança de Harriet é abalada: haveria algo entre aquela bela mulher e seu marido? As suspeitas adquirem proporções maiores quando Harriet recebe um misterioso aviso de morte, seguido da notícia de que o relógio da torre parou...


Disponibilização: Marisa Helena

Digitalização:Marina

Revisão: Juli Lira

MENFREYA IN THE MORNING

© Copyright desta edição, Editora Nova Cultural Ltda.

1990


Publicado sob licença de A.M. Heat & Co. Ltd.,

London, e de Distribuidora Record de Serviços

de Imprensa S.A., Rio de Janeiro.

Tradução: Maria Teresa de Resende Costa

Tradução publicada sob licença da Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A.,

Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.

Capítulo 1
É pela manhã que melhor se pode apreciar Menfreya. Des­cobri isso pela primeira vez num nascer do sol na casa da Ilha de Ninguém, quando as nuvens manchadas de verme­lho projetavam brilhos rosados no mar, e a água que cir­cundava a ilha era como seda encrespada de cor cinza-pérola.

Depois do medo que senti durante a noite, a manhã me pareceu mais calma, e a paisagem, também, mais encan­tadora após os pesadelos. Diante da janela aberta, com o mar e a ilha principal à minha frente e vendo Menfreya assentada no topo de um penhasco, me senti estimulada por toda aquela beleza e também pelo fato de que tinha conseguido atravessar, a salvo, a noite.

A casa parecia um castelo, com seus torreões, contra-fortes e torres de ameias, sendo também um ponto de re­ferência para os marinheiros, que podiam saber onde se achavam depois de avistarem aquele bloco de velhas pedras. Ao entardecer, adquiria um tom cinza-prateado, com o sol fazendo suas pedras pontiagudas brilharem como diaman­tes. Nunca, porém, Menfreya se mostrava em todo o es­plendor como quando era batida pela luz rosa do sol nas­cente.

Menfreya é, há séculos, a casa dos Menfrey. Intima­mente, eu os apelidei de Menfrey Fabulosos, porque assim me pareciam — fortes, viris, todos com impressionante apa­rência. Já ouvira falar que eram também chamados de Menfrey Selvagens, e segundo A'Lee, o mordomo de Chough Towers — que tinha muitas histórias para contar do atual Sir Endelion — eles não só eram selvagens, mas também maus. Os Menfrey tinham nomes que me pareciam estra­nhos, mas, aparentemente, assim não achavam os habitan­tes daquela região, já que se tratava de nomes que, há longo tempo, constavam da história do ducado. A atual Lady Menfrey, contou-me A'Lee, quando era ainda uma mocinha de não mais de 15 anos, foi raptada por Sir Endelion, que a trouxe para Menfreya, onde a manteve, arruinando sua reputação, e, desse modo, a família dela nada mais tinha a fazer a não ser de bom grado concordar com o casamento dos dois.

— Não se iluda, senhorita, o casamento não foi por amor — disse A'Lee. — Ele andava era atrás do dinheiro dela, porque os Menfrey estavam precisando, e ela era uma das grandes herdeiras deste país.

Quando vi Sir Endelion cavalgando nas redondezas de Menfreystow, julguei que fosse um rapaz; muito parecido com o próprio filho, Bevil, era como se estivesse indo rap­tar a herdeira para trazê-la em seu cavalo para Menfreya; pobre moça, pouco mais do que uma criança, amedrontada e inteiramente fascinada por aquele selvagem.

O cabelo dele era alourado, e me fazia lembrar a juba de um leão. Olhava ainda para mulheres, contou-me A'Lee — e este era o ponto fraco dos Menfrey; muitos deles, homens e mulheres, foram muito infelizes em seus amores.

Lady Menfrey, a herdeira, era inteiramente diferente do resto da família; loura e frágil, essa gentil senhora se dedicava aos pobres da região. Com resignação, aceitou seu destino quando passou a fortuna para as mãos do ma­rido. E, assim, disse A'Lee, ele se pôs imediatamente a desbaratar da forma mais louca a fortuna dela.

Não fosse pelo seu dinheiro, Lady Menfrey teria sido considerada decepcionante, pois os Menfrey sempre foram grandes reprodutores, e ela teve apenas um filho, Bevil; passados cinco anos é que foi ter uma filha, Gwennan. Não que tenha deixado de se esforçar nesse meio-tempo. Quase todos os anos a pobre senhora passava por um insucesso, e mesmo durante alguns anos, após o nascimento de Gwennan, continuou tentando engravidar.

Logo que vi Bevil, e que me falaram que era tal e qual o pai, quando jovem, deu para entender por que Lady Menfrey se deixara raptar. O colorido de Bevil era o mes­mo do pai, e com o olhar mais sedutor que eu já tinha en­contrado. Os olhos possuíam o mesmo tom do cabelo: marrom-avermelhado, mas não era por isso que se faziam notados; suponho que fosse por algo na expressão, algo de indiferença, segurança e sarcasmo, quando contempla­vam o mundo e sua pobre gente, como se, enfim, nada fosse digno de ser levado a sério. Para mim, constituía-se no membro mais fascinante de uma família fabulosa.

De todos, Gwennan, a irmã, era quem eu melhor co­nhecia, pois, sendo de minha idade, havia me tornado sua amiga. Possuía um tipo de arrogância e vitalidade que pa­recia, neles, inerentes. Costumávamos passar horas falan­do, deitadas por cima das rochas entre a vegetação da orla do mar, ou melhor, ela falava e eu ouvia.

— Na Igreja de St. Neot, há um vitral — contou-me certa ocasião. — Está lá há centenas de anos e nele existe uma pintura de St. Brychan com os 24 filhos. Lá também estão St. Ive, Menfre e Endelient... Menfre, obviamente, é o nosso nome, o de papai vem de Endelient. Gwennan era uma irmã de Brychan. Bem, agora você já sabe. ..

— E o de Bevil?

— Bevil? — pronunciou o nome com respeito. — Vem de Sir Bevil Granville, aquele que foi o maior dos soldados da Cornualha. Ele lutou contra Oliver Cromwell.

— Bom — disse eu, sabendo um pouco mais de his­tória do que ela —, mas ele não venceu.

— Naturalmente que venceu — respondeu com des­dém.

— Mas a Srta. James diz que o rei foi decapitado e que Cromwell governou depois.

Como boa Menfrey, recusou a informação da Srta. James e os livros de história.

— Bevil venceu sempre — declarou, pondo um ponto final.

Os muros da casa, agora, começavam a mudar de cor novamente; os tons rosa iam esmaecendo, passando a pira­teados pelo brilho do amanhecer. Dei uma olhada no con­torno da costa, nas rochas perigosas, afiadas como facas e traiçoeiras, porque, freqüentemente, eram encobertas pelo mar. Perto da ilha havia uma fileira de rochas, batizadas com o nome de Sorrateiras. Gwennan explicou que o no­me era devido ao fato de elas, muitas vezes, passarem com­pletamente despercebidas, como se espreitassem, sorrateiras, a aproximação de um barco para destruí-lo. A Ilha de Nin­guém fazia parte dessa fileira de rochas e ficava a uns qui­nhentos e tantos metros da ilha principal, sendo apenas um montículo no mar, com uma circunferência de mais ou menos um quilômetro quadrado. Nela havia uma casa ape­nas, embora existisse uma bela nascente, que foi a razão, segundo Gwennan, para se construir a casa. Envolvia-se essa casa em aura misteriosa, que levava as pessoas a não quererem habitá-la, o que, por sinal, foi muito bom — pois se tivesse algum inquilino, onde agora teria passado a noite? Não seria o lugar que iria escolher se tivesse tido chan­ce para outra opção. Bem, a casa, onde ninguém queria viver, era cheia de luz e, mesmo assim, continuava tendo uma atmosfera lúgubre. A impressão era de que as pessoas ficavam prisioneiras do passado, que lá havia colocado sua armadilha.

Se dissesse isso a Gwennan, ela iria rir de mim. Já até imaginava o seu tom de voz alto e mandão, dizendo com desdém: "Xi! Quanta imaginação! Isso é porque você es­tava muito aflita".

Gwennan não tinha escrúpulos em discutir abertamente assuntos que os outros fingiam não acreditar. Talvez, por isso, achasse sua companhia sensacional, se bem que algumas ve­zes se tornava bastante desagradável.

Estava com fome e comi o chocolate trazido por ela; dei uma olhada na sala. À noite, os lençóis para proteger os móveis contra poeira pareciam fantasmas, e cheguei a pensar se não seria melhor dormir do lado de fora; mas a terra era dura, o ar estava frio e o barulho do mar, parecendo murmúrio de vozes, era bem mais alto do lado de fora do que dentro da casa. Assim, subi e fui para um dos quar­tos, deitando inteiramente vestida na cama que não desfiz.

No dia seguinte, desci até a cozinha: enorme, com chão de pedra; as lajes estavam úmidas, como tudo na ilha. La­vei-me com a água que trouxe do poço na véspera; na pa­rede, havia um espelho e penteei os cabelos; ao me olhar, pareceu que eu estava diferente de quando me via no espe­lho de meu quarto em casa. Meus olhos pareciam maiores, provavelmente pelo medo; minhas faces estavam pálidas, sem dúvida pela emoção; e meus cabelos apontavam em to­das as direções, por causa da noite agitada. Eram cabelos grossos, duros, que não admitiam ser presos e que foram motivo de desespero das muitas babás que tiveram a des­ventura de cuidar de mim na infância. Minha aparência era comum, e eu não tinha o menor prazer de olhar minha ima­gem no espelho.

Para matar o tempo, decidi explorar a casa. Era tam­bém um jeito de me certificar de que, de fato, estava sozi­nha. Via agora que os estranhos ruídos que me torturaram a noite toda eram estalidos da madeira; aquilo que me pa­receu sussurros e respirações humanas era o ritmado balan­ço das ondas ou então o tropel de ratos, pois havia quanti­dades deles na ilha. Segundo Gwennan, vinham de navios naufragados nas Sorrateiras.

A casa fora construída pelos Menfrey há 150 anos, e como muitas outras coisas no distrito, também lhes perten­cia. Além da cozinha e das dependências externas, possuía oito peças; recentemente tinha sido mobiliada, esperando pelo ocupante que jamais chegou.

Entrei na sala de visitas, cujas janelas se abriam para o mar. À volta da casa não havia jardim, mas parece que alguém, em algum tempo, tentou fazer um. Agora, tufos de grama, moitas de tojo e capim cresciam por toda parte. Os Menfrey não queriam se aborrecer com isso, ademais seria inútil porque, nas ocasiões de maré alta, tudo era invadido pelas águas do mar.

Sem idéia das horas, saí e desci para um recanto na praia, contemplando Menfreya, à espera de Gwennan.

O sol já ia bem alto quando ela apareceu. Vi quando surgiu do outro lado, numa praia formada por uma enseada de propriedade também dos Menfrey, que, como especial favor, permitiam o seu uso pelo público, para que não se tivesse de cercar parte dela e obrigar as pessoas a darem a volta. Lá, eram guardados três ou quatro botes amarrados, e fiquei observando quando ela entrou num e começou a remar. Logo, estava atracando no lado de cá, e, ao pular do barco, fui correndo ao seu encontro gritando:

— Gwennan!

— Psss! — Ela fez. — Alguém pode ouvir e ver você. Entre logo dentro de casa.

Pouco depois estava comigo, excitada como nunca. No­tei que vestia uma capa com enormes bolsos internos, pare­cendo estofados com o que achei que fosse a comida que me prometera.

Nas mãos, agitava um jornal.

— Olhe para isso! — gritou. — O jornal desta ma­nhã. Você está nele. Você... na primeira página.

Foi até uma mesa, coberta por uma toalha empoeirada, colocando sobre ela o jornal.

Arregalei os olhos e li: "Filha de membro do Parla­mento desaparecida. Hipótese de crime não é excluída, diz a polícia". Abaixo do cabeçalho se lia: "Henrietta (Harriet), de 13 anos, filha de Sir Edward Delvaney, membro do Par­lamento por Lansella, distrito da Cornualha, desapareceu de sua casa em Londres há dois dias. Teme-se que tenha sido seqüestrada e que seja pedido resgate".

Gwennan sentou-se em cima da mesa, segurando os joelhos com as mãos, os olhos meio perdidos — era o jeito como ficavam quando seu rosto se vincava com algo que lhe dava prazer. Apontando para mim disse:

— Bem, Srta. Henrietta (Harriet) Delvaney, você ficou bem importante, hein? Estão dando buscas por sua causa, e Londres inteira está à sua procura. Veja, ninguém sabe onde está, a não ser eu e, claro, você.

Suponho que fosse isso mesmo o que queria; assim, de certa forma, tinha conseguido realizar os meus intentos.

Demos, as duas, boas risadas. Afinal, as pessoas fala­vam de mim, e a polícia me procurava. O momento foi maravilhoso! Mas a experiência já me ensinara que, quando são maravilhosos, eles não duram muito. No fim, iam aca­bar me achando mesmo e, depois, então, o que seria? Flo­res é que não seriam sempre. Gwennan iria embora; a escuridão estava para chegar, e logo estaria sozinha de novo na ilha.

Foi numa noite em que meu pai estava dando um baile que decidi fugir da casa dele, que ficava numa parte sossegada de Westminster, a uns cinco minutos a pé do Parlamento. Costumava sempre dizer que, como parlamentar, era tam­bém do seu dever receber com prodigalidade e assiduidade. Desse modo, fosse na Cornualha ou em Westminster, tínha­mos sempre convidados. Em Londres, dávamos jantares e bailes; na Cornualha, oferecíamos caça e hospedagem. Co­mo eu estava só com 13 anos, era excluída desses aconteci­mentos. Meu lugar devia ser no meu quarto, mas de lá esca­pava para ficar espiando, pelas frestas da balaustrada da escada, o hall embaixo e admirando o esplendor que ia pela fresta ou, então, de minha janela, ficava olhando as pessoas descerem de suas carruagens e caminharem sob um toldo vermelho e branco, armado especialmente para a ocasião.

Um dia inteiro era gasto nos preparativos de uma fes­ta. Nunca faltava, por exemplo, um espesso tapete verme­lho, que ia além dos degraus da porta da frente e se esten­dia pela calçada, até onde as visitas apeavam das carruagens; contratava-se duas floristas, que passavam toda uma tarde ocupadas, arranjando flores em vasos e botando plantas em cada vão de parede; algumas dessas eram expressamente arranjadas para dar impressão de estarem brotando da pró­pria parede; na rica balaustrada da escada em curva entrelaçavam-se flores e folhagens, de cima, até onde não blo­queassem a passagem dos convidados.

— Está cheirando como num enterro — falei para minha governanta, a Srta. James.

— Harriet, você está parecendo muito negativa. — Disse isso me olhando com um ar de sofrimento, que era um jeito seu já muito meu conhecido.

— Mas, está cheirando mesmo como num enterro — insisti.

— Você é uma menina mórbida — murmurou sem querer me dar razão.

Coitada da Srta. James: uma mulher de 30 anos e sem recursos, se quisesse sobreviver teria de se casar, ou então se conformar em ser governanta de meninas iguais a mim.

A ceia ia ser na biblioteca, e a decoração de flores, lá, ficou magnífica. No meio da sala, foi posta uma fonte de mármore, onde nadavam peixinhos dourados e pratea­dos por entre lírios aquáticos, que flutuavam na superfí­cie. A cor dos Tory estava representada por magníficos panejamentos púrpura, e, na sala da frente, decorada nas cores branco, ouro e vermelho, se achava um piano de cauda, que, à noite, seria tocado por um famoso pianista.

De cima, olhando para baixo, via os convidados subi­rem a escada, torcendo para que nenhum olhasse para cima e visse lá a filha do anfitrião, que não era motivo algum de orgulho para ele. Estaria esperando por uma oportuni­dade de ver meu pai, pois nessas ocasiões se mostrava um homem bem diferente daquele que conhecia. Ele se casara tarde; por esse tempo, já devia ter passado dos 50 anos; era alto, e os cabelos escuros estavam brancos nas têmpo­ras; no rosto moreno, os olhos azuis faziam belo efeito, mas, quando olhavam para mim, tinham sempre uma ex­pressão gelada. Nos momentos em que se fazia de anfi­trião, ou em outros em que estava falando ao seu eleito­rado ou entretendo alguns de seus hóspedes, esses olhos soltavam chispas. Na Câmara, meu pai ficou conhecido co­mo homem de espírito e por fazer brilhantes discursos, sempre publicados nos jornais. Era rico e, por isso mesmo, podia dar-se ao luxo de ser parlamentar. A política era sua vida. Sua renda provinha de investimentos, mas o dinheiro grosso mesmo era oriundo do aço produzido em alguma parte no centro do país. Esse fato nunca era mencionado entre nós, e ele não precisava se preocupar muito com isso, mas o aço era o grande provedor da família.

Foi eleito para o Parlamento por um distrito da Cornualha, e esse era o motivo por que mantínhamos uma casa perto de Lansella; íamos para lá sempre que o Par­lamento estava de férias, visto que ele não podia descui­dar-se de seu eleitorado; por alguma razão, que me é estra­nha, onde meu pai estava, também eu estava, embora víssemos um ao outro muito pouco.

Nossa casa em Londres, assim, se compunha: no an­dar térreo, de um grande hall, biblioteca, sala de jantar e dependências de serviço; no primeiro andar, duas salas de visitas muito grandes e estúdios; no andar de cima havia três quartos de hóspedes — um deles ocupado por William Lister, secretário de meu pai — e ainda o meu quarto e o de meu pai.

Era uma linda casa georgiana, mas, na minha opinião, o melhor dela estava no desenho da escada, que, sinuosa como uma serpente, ia do térreo até o último andar, de modo que do alto se avistava o hall embaixo. Entretanto, para mim, não deixava de ser uma casa fria. E sentia o mesmo em relação à casa da Cornualha. Aliás, qualquer casa em que meu pai fosse viver seria sempre fria e sem vida. Mas Menfreya era diferente. Ela era o contrário — cheia de vida, acolhedora, imprevista, tudo podendo acon­tecer ali; uma casa, enfim, de que se tinha saudade e de onde não se tinha vontade de sair; era, de fato, um lar.

Mas, voltando à casa de Londres, devo confessar que sua decoração era elegante e de acordo com a arquitetura; o mobiliário, do século XVIII, com poucas concessões feitas ao estilo vitoriano. Por isso, às vezes, ficava espan­tada ao entrar em outras casas e ver móveis rebuscados e salas muito atravancadas, começando, então, automaticamente, a compará-las com o nosso Chippendale e com o Hepplewhite.

Quanto aos criados, não me lembro mais dos nomes deles — também, eram muitos. Entretanto, é claro, não poderia me esquecer da Srta. James, porque foi minha governanta, e também da Sra. Trant, a zeladora, e de Polden, o mordomo. Esses são os nomes de que ainda me lembro, e, naturalmente, o de Fanny.

Mas Fanny era diferente. Não posso pensar nela como empregada. Sua presença significava segurança num mundo que me ameaçava; quando me sentia perturbada, devido à indiferença percebida em meu pai, era para ela que me voltava, querendo que me explicasse o porquê disso; ela não podia, mas em compensação me dava consolo; foi quem me fez tomar leite e comer arroz-doce; para que não sentisse tanto a falta de uma mãe, como seria natural que sentisse, ela se zangava e se irritava comigo. O seu rosto tinha um formato pontiagudo, e os olhos eram fundos e sonhadores; os cabelos, castanho-acinzentados, ela usava puxados para cima e amarrados por um laço tão apertado no alto da cabeça que dava a impressão até de estar ma­chucando; o tom da pele era amarelado; o corpo, ma­gro; estava com cerca de 35 anos e dificilmente devia ter um metro e meio de altura; desde que pude tomar cons­ciência de sua pessoa, ela me pareceu ter sempre o mesmo aspecto. O seu jeito de falar era o das pessoas das ruas de Londres, aquelas que, mais tarde, às escondidas, conheci por seu intermédio e que passei a amar tanto quanto ama­va a própria Fanny.

Pouco depois de meu nascimento, ela veio servir co­mo ama-de-leite. Não creio que pretendessem conservá-la, mas parece que desde as primeiras semanas de vida fui uma criança difícil e logo mostrei predileção por ela; por isso, ela permaneceu, embora a Sra. Trant, Polden e minha governanta mesmo ficassem enciumados; mas nem Fanny nem eu ligávamos para isso.

Ela era uma mulher de contrastes. Seu cortante cock-ney1 em nada combinava com os olhos sonhadores. As histórias que me contava de seu passado eram mistura de fantasia e realidade. Mas o único fato certo mesmo é que foi abandonada num orfanato por pessoas desconhecidas.

— Fui encontrada — ela disse — juntinho da estátua de São Francisco dando comida aos pássaros. É por isso que me deram o nome de Francês, apelido Fanny, e o nome completo Frances Stone2, porque a estátua é de pedra.

Mas já não era mais Frances Stone; tinha se casado com Billy Carter, sobre quem pouco conversávamos. Uma vez, disse que ele estava no fundo do mar e que nesta vida não iria vê-lo mais, e, aí, concluiu de modo brusco:

— O que acabou, está acabado. O melhor é esquecer. Às vezes, quando se deixava levar pela imaginação — uma de nossas brincadeiras prediletas quando eu estava com seis ou sete anos — relembrava coisas de seu passa­do, antes de ter sido abandonada junto da estátua de São Francisco. Inventava histórias e eu a encorajava. Assim é que, em algumas, ela havia nascido numa casa enorme, tão grande quanto a nossa, mas ciganos a raptaram; em outras, era uma rica herdeira que um tio perverso abandonou no orfanato, depois de substituí-la na casa do pai por uma criança morta. Sei que as versões eram muitas e que quase sempre terminavam assim: "E como a gente nunca vai mesmo saber, por isso é melhor beber o seu leite, que já é hora de ir para a cama".

Costumava também conversar comigo sobre o orfa­nato, de coisas do tipo de campainhas que chamam crian­ças para comerem uma refeição miserável, e conhecia tão bem suas histórias que via direitinho aquelas crianças com seus aventais listradinhos, mãos sarapintadas de frio e mar­cadas de frieiras, fazendo reverências diante dos superiores — aprendendo a ser humildes.

Mas, lá também, se aprendia a escrever, dizia, e o que já é muito, porque há gente que nem isso pôde ter.

Quase nunca falava do bebê que teve, mas, se aconte­cia, me segurava com força, abaixando minha cabeça para que não visse o seu rosto.

— Nasceu uma menina que viveu só uma hora — ela contou. — Foi tudo que tive de Billy.

Billy estava morto, e o bebê, também.

— Depois, vim para cá, ficar com você — acrescen­tou Fanny.

No parque onde costumava me levar, ficávamos dan­do comida aos patos ou, então, sentava-se na grama, eu tentando convencê-la a contar mais histórias de sua infân­cia. Foi também quem me apresentou uma parte de Lon­dres, que, não fosse ela, jamais teria conhecido. Mas isso era para ser guardado em segredo, recomendou, pois de nada iria adiantar às pessoas lá de casa ficarem sabendo dos lugares de nossas andanças. Íamos então ao mercado, onde os vendedores montam suas bancas; segurando minha mão, ia me puxando, tão excitada quanto eu com as vozes roucas dos pregões que eu não entendia, mas que cantavam as virtudes das mercadorias. Até hoje, recordo as lojas de roupas usadas penduradas do lado de fora e do cheiro es­quisito de mofo que exalavam; das velhas que vendiam miu­dezas, alfinetes, botões etc; dos mariscos, dos pães de gengibre, das balas para tosse. Uma vez, Fanny trouxe uma batata assada, que foi a coisa mais deliciosa que já tinha comido... enquanto não provei castanhas assadas na brasa.

— Não diga aonde fomos — sempre avisava.

E o segredo fazia a coisa ficar mais excitante. Com­prava-se, então, ginger beer3, sorvetes de frutas e limonada. Numa de nossas idas, apostamos com o pasteleiro. Um vê-lho uso desses vendedores, explicou Fanny. Durante um tempo, ficamos só observando: um rapaz e sua namorada que, apostando um penny, perderam, indo embora, por­tanto, sem ganhar o pastel. Chegada nossa vez, Fanny, apos­tando com largueza, atirou o seu penny para cima e ganha­mos. Carregamos, então, nosso pastel para o parque, e, sentadas junto ao lago, nos pusemos a devorá-lo aos pe­daços.

— Mas o que você nunca viu é o mercado nas noites de sábado — disse Fanny. — Talvez quando for maior...

Era uma coisa para ser programada.

O mercado me fascinava. Via nas fisionomias dos vendedores todos os tipos possíveis de serem encontrados numa peça de costume. Sensualidade, cobiça, preguiça, astúcia estavam naqueles rostos, e algumas vezes, também, a santidade. Porém o que mais excitava Fanny eram os ilu­sionistas. Junto deles — mágicos, prestidigitadores, engo-lidores de fogo e de facas etc. — perdia um tempão.

Foi desse modo que ela me fez conhecer um mundo novo e que estava a um passo de nossa porta, apesar de muitas pessoas ignorá-lo. A única vez que vi esses dois mundos se encontrarem foi numa tarde de sábado, quando, sentada na minha janela, escutei a sineta do vendedor de biscoitos e vi um homem cruzando a praça com um tabu­leiro na cabeça, e as criadas de avental e touca branca cor­rendo para comprar com ele.

Tal foi minha vida, até a noite do baile.

Nessas ocasiões, todo mundo estava sobrecarregado de serviço na casa, e Fanny foi requisitada pela cozinha, onde passara toda a tarde e a noite; a Srta. James ajudava a Sra. Trant; e nisso tudo, fiquei sozinha.

Minha tia Clarissa estava conosco, porque meu pai precisava de uma anfitriã. Era irmã dele, e eu desgostava dela tanto quanto ela de mim. Sua mania era me comparar com suas três filhas: Sylvia, Phyllis e Clarissa — todas de cabelos louros, olhos azuis e, segundo ela, lindas. Dentro de pouco tempo, estaria muito ocupada com a apresenta­ção delas à sociedade, e eu teria de me juntar a elas nessa fastidiosa obrigação por que todas as moças têm de pas­sar. Eu sabia que ia detestar a coisa tanto quanto minha tia tinha respeito por ela.

Assim, o fato de tia Clarissa estar em casa foi um mo­tivo a mais para eu desejar estar fora dela.

Naquele dia, tinha perambulado miseravelmente pela casa e uma vez cruzei com ela, na escada.

— Meu Deus, Harriet! — disse, berrando. — Que cabelo é esse? Você está sempre parecendo que saiu de dentro de um matagal. Os cabelos de suas primas não dão problema. E também nunca vão ter esse seu ar de desmazelo, isso eu posso garantir.

— Oh, é que elas são três belezas.

— Ora, não seja malcriada, Harriet. Achei que devia cuidar mais dos cabelos, já que...

— Já que eu sou um monstro? —Ela ficou surpresa.

— Que bobagem! Claro que não quis dizer que é um monstro. Achei apenas que poderia...

Não esperei o resto, fui mancando para o meu quarto. Ela não precisava saber o quanto eu me importava com isso, e ninguém precisava, pois seria então ainda mais insu­portável.

No meu quarto, coloquei-me de pé diante do espe­lho; levantei a saia de merinó cinza e examinei minhas pernas e pés. Não havia nada que indicasse ser uma mais curta do que a outra. Só quando andava, uma parecia estar arrastando atrás da outra. Sempre foi assim, desde o decep­cionante dia em que nasci. Decepcionante! Essa era uma maneira bem suave de dizê-lo. Foi um dia odioso, trágico para todos, inclusive para mim. Nunca desconfiei de nada disso, até que comecei, mais tarde, a descobrir que não era exatamente igual às outras crianças. Como se já não fosse o bastante ser causa da morte da própria mãe, tinha ainda de não nascer perfeita. Lembro-me de ter ouvido o que se disse de certa beldade — Lady Hamilton: "Deus estava num dia de gloriosa inspiração quando a fez". E de mim, eu diria: "Ele deve ter estado de muito mau humor quando me fez".

Às vezes, pensava que seria melhor ser qualquer outra, não eu, Harriet Delvaney. Quando Fanny me levava ao parque e via outras crianças, morria de inveja delas. Aliás, tinha inveja de todo mundo, até das crianças maltrapilhas que ficavam perto do homem do realejo, com olhar de tris­teza, enquanto o macaquinho ia estendendo o chapéu para pegar os níqueis. Naqueles dias, achava que qualquer um era mais feliz do que Harriet Delvaney.

Muitas das governantas que me serviram nesse tempo disseram que eu era uma menina má, ruim mesmo. Afinal, tinha uma bela casa, comida em quantidade, um bom pai e nunca estava satisfeita.

Até os quatro anos, não andei. Fui levada a diversos especialistas, que, depois de apalparem minhas pernas e discutirem longamente sobre o que fazer, acabavam olhando para mim e balançavam suas cabeças, desanimados. Fui tratada dessa e daquela maneira, e, durante os tratamentos, meu pai costumava aparecer para me ver, mas havia algo em seu olhar que me fazia crer que preferia estar olhando para qualquer coisa que não fosse para mim; em todo caso, se esforçava para fingir que queria estar presente.

Lembro-me do que aconteceu no jardim da casa de tia Clarissa, perto de Regent's Park. Era época de morangos, que estávamos comendo com creme e açúcar, junto de um quiosque. Todas as mulheres tinham guarda-sóis e usavam chapéus de aba larga para se protegerem; por ser aniver­sário de Phyllis, havia muitas outras crianças, que corriam e brincavam entre si. Enquanto isso, fiquei sentada numa cadeira com minhas pernas espichadas. Tinha vindo de car­ruagem, e um empregado me carregou e acomodou numa cadeira, para que ficasse apreciando as outras crianças brin­carem.

A certa altura, ouvi a voz de tia Clarissa dizendo:

— É, ela não é uma criança muito simpática, vocês devem desculpar...

Não entendi o que queria dizer, mas guardei a coisa para mais tarde refletir. Voltando àquele dia, ainda sinto o gosto delicioso de morangos com creme, mas misturado com uma visão de pernas, as pernas fortes das outras crianças.

Outra coisa de que me lembro é da minha força de vontade quando, quase caindo, consegui me manter de pé e andar.

Foi um milagre, diziam os mais compreensivos; outros, já achavam que andei fingindo o tempo todo e que isso já devia ter acontecido há muito tempo. Quanto aos mé­dicos, ficaram abismados.

No princípio, só consegui andar titubeando, mas a par­tir daquele dia, andei. Não sei se poderia ou não ter anda­do antes. Tudo que lembro é que, de repente, surgiu em mim uma vontade irresistível e também uma sensação de poder, uma sensação gratificante, quando, cambaleando, fui em direção às outras crianças.

Foi aos poucos que fiquei sabendo de minha patética história, sendo que sua maior parte me chegou pelos cria­dos que já trabalhavam na casa antes de meu nascimento. Eram pedaços de conversas, mais ou menos assim:

Ela era muito velha para ter filhos. Pensa no que deve ter sido ela...

— Ela morreu por causa da Srta. Harriet. A opera­ção. Todas essas novidades nos hospitais.. .

— É, tudo isso é muito perigoso...

— Preferiram salvar a menina e deixarem que mor­resse. Mas, você vê, ela ficou com aquela perna.

— E ele?

— Ah, nunca mais foi o mesmo. Ela era adorada... Só estiveram casados um ou dois anos.

— Mas, se tivesse durado mais, sendo como ele é...

— Não admira dele não ficar com a menina. Agora, se ela fosse como a Srta. Phyllis, ou uma das primas...

— Essas coisas dão o que pensar, não é? Dinheiro não traz felicidade.

Nessas poucas palavras está minha história. Certas ve­zes, me imaginava como uma santa que saía pelo mundo espalhando o bem e sendo amada por todos. E então, di­riam de mim: "Ela não é bonita, mas é muito boa, e a gente tem de dar um desconto".

Mas, nem boa eu era. Morria de ciúme de minhas primas, com seus rostos bonitinhos e rosados e seus cabe­los louros e sedosos; tinha também raiva de meu pai, que não queria saber de mim, porque minha vinda ao mundo pôs minha mãe para fora dele; além de ser um problema para os empregados, isso porque tinha pena de mim mesma.

As únicas pessoas com quem sentia que podia ser sim­pática e, até, talvez, por causa deles, melhorar, eram os Menfrey; mas, afinal, eles eram os Menfrey Fabulosos, que moravam numa casa fantástica, fincada sobre o pe­nhasco do outro lado da Ilha de Ninguém, que também era deles e com uma história que ainda iria descobrir. Nossa casa era a mais próxima da deles. Muito mais moderna que Menfreya, era apenas uma mansão que servia ao meu pai para receber e estar perto de seus eleitores. Ele e os Menfrey se tornaram grandes amigos.

— Devemos tratá-los bem — ouvi meu pai dizendo, certa vez, para seu secretário, William Lister. — A influên­cia deles com os eleitores é grande, por aqui.

E assim, por esse motivo, os Menfrey deviam ser cultivados como flores em estufa.

E bastava um olhar que fosse, para qualquer deles, que logo se saberia de que influência ele falava. Certa vez, ouvi William Lister defini-los como sendo tão grandes quanto a própria vida. Foi a primeira vez que ouvi isso, e achei que era muito adequado.

A família se dispôs imediatamente a fazer amizade conosco; nas eleições, os Menfrey trabalhavam para meu pai; recebiam-no em sua casa e ele retribuía, na dele. Eram os donos do distrito. Uma ordem de Sir Endelion aos in­quilinos significava que votariam em quem fosse do agra­do dele, caso contrário, não esperassem permanecer como inquilinos.

Quando vínhamos para a Cornualha, alguns dos em­pregados nos acompanhavam; a Sra. Trant, Polden e outros ficavam em Londres; entre os que vinham, estavam a Srta. James e Fanny. Na Cornualha, mantínhamos um mordo­mo e uma governanta — marido e mulher, eram os A'Lee, que vieram juntos com a casa que alugamos mobiliada, o que não deixou de ser muito conveniente para nós.

Permitiam que eu fosse tomar chá com Gwennan em Menfreya, e ela, por sua vez, vinha a Chough Towers. Chegava a cavalo, acompanhada por um dos criados. Foi numa das visitas dela que aprendi a montar e descobri que podia ser muito mais feliz em cima de uma sela do que em qual­quer outro lugar, pois, desse jeito, o meu defeito físico passava a não ter a menor importância. Sobre um cavalo, era como qualquer um. Isso me proporcionou a sensação mais completa de prazer já tida até então, quando, pelos caminhos da Cornualha, dava longos passeios a cavalo, su­bindo e descendo montes, sem jamais me cansar de seu cenário. Sempre que alcançava o topo de alguma montanha e, de repente, de lá, avistava o mar, parava de respirar, tão maravilhada estava.

Invejava Gwennan por viver sempre num lugar como esse. Mas ela também tinha interesse de saber sobre Lon­dres, e isso me divertia, contando as coisas da cidade para ela. Em troca, eu a obrigava a falar de Menfreya, dos Menfrey e especialmente de Bevil.

Foi quando fiquei em frente do espelho, depois de meu encontro com tia Clarissa na escada, que comecei a pensar em Menfreya, sentindo uma saudade tão grande de lá, que chegou a doer.

Estava debruçada no corrimão da escada. Da sala de visi­tas da frente chegava o som de uma música, meio abafa­da pelo rumor de vozes e de risadas. A casa estava como que ressuscitada; transformada por todos aqueles risos e vozes, tinha perdido sua atmosfera de frieza.

Naquela noite, vestia uma camisola de flanela com um robe vermelho por cima e os pés descalços para os chi­nelos não me traírem, fazendo aquele barulhinho caracte­rístico. Não porque os criados fossem zangar comigo por espiar da escada, mas porque gostava de fingir não estar interessada nas festas de meu pai.

Nessas ocasiões, às vezes, ficava sonhando que ele ia me mandar buscar, e eu entraria, então, mancando na sala. Lá estaria o primeiro-ministro, que vinha conversar comigo, e todos se admirariam de meu espírito e inteligência. Os olhos de meu pai estariam cheios de ternura e brilhando, porque se orgulhava de mim.

Que sonho idiota!

Debruçada na escada, que cheirava a cera e a terebintina do polimento recebido durante o dia, ouvi por acaso uma conversa entre tia Clarissa e um homem que eu não conhecia. Falavam de meu pai.

— Ele esteve brilhante...

— Parece que o primeiro-ministro também achou.

— Guarde bem estas palavras, Sir Edward está des­tinado a ministro.

— Tenho pena de Edward. — Era a voz de tia Cla­rissa. — Ele merecia ter tido um pouco mais de sorte.

— Sorte! Pensei que isso não lhe faltasse, devendo ser um homem tão rico.

— É, mas depois que sua mulher morreu, nunca mais foi feliz.

— Há muito tempo ele é viúvo, não? Uma mulher lhe faria bem agora. Acho estranho que não tenha se ca­sado outra vez.

— O casamento para ele foi uma experiência trági­ca, e de certo modo Edward é também um solteirão incorrigível.

— Ouvi dizer que há uma criança.

Senti meu rosto em brasa ao ouvir o tom de voz de tia Clarissa quando disse;

— É verdade, há uma menina, Henrietta, que cha­mamos de Harriet.

— Existe aqui qualquer coisa de errado?

Tia Clarissa sussurrou qualquer coisa e, depois, sua voz ficou alta novamente.

— Muitas vezes acho que foi uma pena que tivesse sido ela quem ficou, e não Sylvia. Como sabe, foi a crian­ça que a matou. Só estiveram casados alguns anos, mas ela já passava muito dos 30. Claro que o que tinham desejado era um menino, e essa garota, meu Deus...

— Em todo caso, ela deve ser um consolo para ele.

A resposta veio num riso maldoso e em qualquer coi­sa murmurada. E então depois ouvi:

— Vai ser minha tarefa prepará-la para fazer sua apre­sentação à sociedade, quando chegar a ocasião. Minhas filhas, Phyllis e Sylvia, em homenagem à tia, são quase da mesma idade, mas que diferença! Oh, meu Deus, como vou fazer para encontrar um marido para Harriet, isso eu não sei...

— Ela é tão sem atrativos?

— Atrativos? Oh, ela não tem nada... absoluta­mente nada.

Fanny avisou que quem escuta escondido sempre ouve o que não quer. Como ela estava certa! Já tinha ouvido dizer que eu era ruim, má, tinha crises de mau humor e até que devia ir para o inferno. Porém nunca ouvira nada que me ferisse tanto quanto a conversa de minha tia com esse desconhecido. E daí em diante, por muito tempo, não pude suportar cheiro de cera e terebintina, porque esta­vam associados com um estado abjeto de miséria.

Sem poder agüentar mais, saí da escada, indo para o quarto.

Alguém já disse que quando uma pessoa se sente mui­to infeliz, o melhor é dar as costas à tristeza e pensar em algo novo... Alguma coisa que a faça esquecer. Que im­becilidade sonhar daquela maneira, sonhos onde nunca me via como realmente era. Neles, sempre aparecia como he­roína, e até mudara a cor dos meus cabelos, que de castanho-escuros passavam a dourados. Mas não era só a cor dos cabelos, também a dos olhos, que de verde ficavam azuis; e também o feitio do nariz, que adquiria uma linha reta e pura, em vez da ponta arrebitada que tinha — que em alguns rostos pode dar ar atrevido, mas, no meu caso, em nada combinava com o meu jeito sombrio.

Pense em alguma coisa depressa, disse para mim, e a resposta veio logo: se não me querem aqui, então fujo.

Para onde? Só havia um lugar para onde quisesse fu­gir: Menfreya.

— Vou para Menfreya — disse em voz alta.

E recusei-me a pensar no que faria quando chegasse lá, porque, do contrário, o plano poderia fracassar logo de saída, e eu tinha, a todo custo, de silenciar aquelas vozes maldosas que diziam coisas perversas. Do que estava preci­sando era fazer qualquer coisa, e o mais rápido possível.

Poderia pegar um trem em Paddington. No cofre, ha­via dinheiro suficiente para comprar a passagem, e isso era o que interessava. No momento, tudo que tinha de pensar era como chegar a Menfreya; quando chegasse, en­tão faria planos para mais tarde. O que não podia era ficar ali e ouvir, todas as vezes que descesse a escada, o som daquelas vozes. Se tia Clarissa estava preocupada em arrumar marido para mim, bem, lhe pouparia o incômodo.

Quando iria partir? Como ter certeza de que não da­riam pela minha falta antes de pegar o trem? Tudo tinha de ser cuidadosamente planejado.

Assim, enquanto na sala de visitas estavam ouvindo os músicos especialmente contratados para a festa, se de­liciando com todas as iguarias servidas e falando de polí­tica, das chances de meu pai obter uma Pasta no Minis­tério, eu, deitada na cama, pensava em como fugir.

Minha chance surgiu no dia seguinte, quando todos esta­vam cansados. O mau humor reinava na cozinha, e os ner­vos da Srta. James estavam extremamente sensíveis. De­pois que li Jane Eyre, imaginava que ela acreditava um dia ainda vir a se casar com meu pai, mas depois de uma festa como a de ontem, tal possibilidade parecia mais remota do que nunca. Às 6 h, ela se retirou para o quarto, quei­xando-se de dor de cabeça — o que me deu a oportunidade esperada; calmamente, então, botei minha capa com capuz, enfiei o dinheiro do cofre no bolso e saí de casa, de fininho. Peguei um ônibus, era a primeira vez que fazia isso sozinha, e só uma ou duas pessoas me olharam com curio­sidade, mas fingi não notar. Sabia ter tomado o ônibus certo, porque nele estava escrito Paddington do lado de fora, e paguei tranqüilamente minha passagem até a esta­ção. Foi muito mais fácil do que pensava.

Conhecia já a estação, porque tinha estado lá com pa­pai, se bem que nunca de noite. Comprei a passagem de trem, mas me disseram que teria de esperar uma hora e 45 minutos, e fiquei apavorada. E realmente nunca o tempo me pareceu mais longo do que essa hora e 45 minutos. Morrendo de medo que aparecesse alguém a me procurar, fui sentar num banco perto do portão de entrada.

Mas ninguém apareceu, e o trem chegou na hora cer­ta. Embarquei, achando tudo muito diferente da primeira classe, que conhecia de viajar com papai. Os assentos eram de madeira e desconfortáveis, porém eu estava no trem e a caminho de Menfreya. Isso era o que importava.

Sentei num banco perto da janela, e ninguém prestou atenção em mim. Dava graças a Deus por ser de noite. Cochilei, e ao acordar vi que Exeter já passara; foi só aí que comecei a me perguntar o que faria quando descesse. Que iria dizer ao mordomo quando entrasse no hall de Menfreya? Que tinha vindo fazer uma visita? Imagino que logo me levariam até Lady Menfrey, que, por sua vez, contactaria meu pai para lhe dar notícias minhas. Seria, então, trazida de volta, castigada e proibida de repetir isso no­vamente. E o que teria ganho, além das primeiras emoções da aventura?

Como isso era próprio de mim: só depois de já ter deixado me levar pelo primeiro impulso é que me pergun­tava o porquê da coisa que fizera.

Agora, no entanto, estava com fome, cansada e de­primida, e o que desejava era estar no meu quarto, mes­mo que tia Clarissa irrompesse lá, me olhando do jeito de quem está me comparando com Phyllis.

Foi mais ou menos na altura de Liskeard que me dei conta de ter feito uma coisa inteiramente idiota. Mas já não podia voltar atrás. Quando viajava com papai, A'Lee trazia a carruagem até a estação, e fazíamos nela o resto da viagem. Desta vez, porém, não havia carruagem espe­rando, e tive de comprar outra passagem para o trem que fazia conexão com o expresso de Londres, que pegava o ramal de Menfreystow.

Ele já estava ali aguardando, e corri para apanhá-lo.

Porém ele não partiu logo, e esperamos quase meia hora dentro dele, o que me deu tempo para planejar o que iria fazer. Enquanto fazíamos o pequeno trajeto, ocorreu-me que algumas pessoas, no trem, poderiam reconhecer-me e me prender. Embora não viajasse nunca por essa linha, papai era muito conhecido no distrito, e poderiam me iden­tificar como sendo sua filha.

Em Menfreystow, saltei do trem. Não havia mais de uma dúzia de pessoas e eu, na hora de entregar o tíquete, abaixei a cabeça e me coloquei entre elas no portão de saí­da. Estava livre, mas e agora?

Tinha de dar uma caminhada até a praia, e de lá ir pelos caminhos das montanhas, andando mais uns 500 me­tros. A essa hora da manhã haveria poucas pessoas fora de suas casas.

A pequenina cidade de Menfreystow dormia. A rua principal, cheia de curvas e praticamente a única existente, estava inteiramente deserta; a maioria das casas e das pou­cas lojas, fechadas, com as trancas ainda nas portas e as cortinas abaixadas. Aspirei com força o cheiro de mar e fui para o cais, vendo os barcos dos pescadores ancorados. Mesmo naquela minha triste situação, quando passei pelo depósito, onde se negocia o produto da pesca, e vi os covos de lagostas e as redes estendidas, senti um instante de felicidade. Sempre me senti como pertencente a esse lugar, embora não tivesse nascido ali. Só quando meu pai se tornou parlamentar por Lansella, há uns seis anos, é que alugou a casa. E, com cuidado, fui me desviando das argolas de ferro onde eram amarradas cordas grossas e salga­das; aí, então, disse para mim: outra bobagem que fiz, ter vindo pelo cais; quase sempre os pescadores já estavam lá desde antes do amanhecer, e, se fosse vista, imediatamente a notícia de minha presença começaria a correr.

Tomei, então, um dos caminhos laterais, voltando à rua principal; dessa vez, entretanto, me dirigi para uma estrada transversal, calçada de pedras, e subi por uns cinco minutos, quando cheguei bem no alto da montanha.

A beleza da vista me obrigou a uma parada de alguns segundos, para melhor contemplá-la. Lá estava a costa em toda a sua glória, e, bem abaixo de mim, a praia e as águas azuis-esverdeadas fazendo carícias nas areias cinzentas. Mais ou menos a um quilômetro, pela costa, encontraria Menfreya. E em frente, a Ilha de Ninguém, onde ninguém morava.

Comecei a caminhar, pensando nos Menfrey e na sua casa. Logo a estaria vendo; conhecia exatamente o lugar no caminho de onde ela era avistada. E lá estava, grande, imponente, uma espécie de Meca de minha peregrinação, o solar dos Menfrey, aqueles que, há gerações, são os seus donos. Ali, já viviam Menfrey quando o Bispo Trelawny foi mandado preso à torre; um Menfrey, então, sustentou os bispos, reunindo seus serviçais aos 2.000 cornualhenses que foram a Londres indagar dos motivos da prisão; e me detive a imaginar como seriam esses Menfrey de chapéu com plumas, punhos e gravata de renda e cabeleiras empoadas. Na galeria da casa havia diversos quadros deles. Achava não haver nada mais emocionante do que ser um Menfrey, mas o melhor era conduzir meu pensamento para coisas mais práticas.

Cheguei ao lugar de onde se avistava os adarves. Numa das vezes em que a Srta. James me levou para to­mar chá com Gwennan, ela subiu comigo até o alto da torre. De onde, olhando para baixo, senti um arrepio, ven­do aquele paredão altíssimo caindo abrupto no mar. Foi quando Gwennan me disse:

— Se quer morrer, tudo que tem a fazer é se atirar daqui.

Tive medo de que pudesse me ordenar a fazer isso com o seu jeito imperioso, próprio dos Menfrey, e, como esta­va tão acostumada a ser obedecida, era bem possível que esperasse que eu obedecesse. Afinal, eles tinham dado or­dens por muitas gerações, enquanto nós, os Delvaney, tínhamos feito isso apenas por uma. O negócio do aço, que se mostrou altamente lucrativo, foi montado pelo meu avô, que começou como humilde empregado. Naturalmente, Sir Edward Delvaney havia esquecido tudo sobre suas origens. Agora, era um homem educado, polido, com brilhante fu­turo, mas ainda que fosse mais inteligente do que os Menfrey, eu percebia aí uma grande diferença.

Também eu, tinha de ser inteligente. Precisava fazer um plano para a próxima jogada. Em geral, Gwennan dá um passeio a cavalo pela manhã e quase sempre vem por este caminho, que é um de seus preferidos, como me disse certa vez.

Se me escondesse numa gruta que descobrimos, tal­vez pudesse vê-la. E se não... Bem, teria de pensar em algum outro plano. Pode ser que fosse melhor me escon­der nos estábulos. Poderia, porém, encontrar um dos cria­dos, e, além disso, existiam os cachorros. Não, esse plano não servia. Tinha mesmo era de contar com a sorte e ficar esperando na gruta. Se saiu para montar hoje, é quase certo dela vir por aqui.

Esperei durante o que me pareceu horas, mas, no fim, tive sorte. Gwennan veio, e sozinha.

Chamei por ela. Ela puxou rápido as rédeas e parou.

Quando ouviu minha história, ficou encantada. Foi ela que se lembrou da ilha. Era o tipo da aventura que a dei­xava empolgada. Daí em diante, ficaria à sua mercê, e ela, com isso, tinha o maior prazer.

— Vamos. Sei onde vou escondê-la.

A maré estava cheia, e, assim, foi ela quem remou até a ilha, me obrigando a deitar no fundo do barco, com me­do de que alguém me visse.

— Eu arranjarei comida — falou. — E já que nin­guém quer morar nesta casa, então por que não você?

Isso tinha acontecido no dia anterior, e agora ela estava aqui, com o jornal. Quanto a mim, não fazia idéia de que minha fuga pudesse ser coisa tão importante.

— Todos estavam falando disso na hora do café — disse Gwennan. — Papai contou que vão pedir resgate por você. Milhões. Puxa, valer tanto assim!

— Mas meu pai nunca pagaria. Ele deve estar até bem contente de se ver livre de mim.

— Mesmo assim — ela acrescentou, com jeito de pessoa sensata — ele não deve querer que os jornais sai­bam, e vai acabar pagando.

— Mas ninguém vai pedir. Afinal, não fui raptada.

Gwennan olhou para mim com uma expressão meio especulativa.

— Bem, você sabe que nós andamos precisando de dinheiro



  1   2   3   4   5   6   7   8   9   10


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal