O corpo no cotidiano escolar: um olhar sob a ótica reichiana



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O CORPO NO COTIDIANO ESCOLAR: UM OLHAR SOB A ÓTICA REICHIANA

Daniela Mota Fernandes


Graduanda do Curso de Pedagogia – UFU

danielamotafer@yahoo.com.br

Profa. Dra. Maria Veranilda Soares Mota

Faculdade de Educação – UFU

mvsmota@ufu.br

INTRODUÇÃO

As mudanças no mundo atual ocorrem com uma imensa velocidade, impulsionadas principalmente pelo incomensurável crescimento do conhecimento científico. Para que possamos compreender melhor esses novos acontecimentos, nós educadores devemos repensar a educação que queremos proporcionar às nossas crianças, e ir em busca de novos referenciais que possam subsidiar a nossa prática.

O aprender e o conhecer são processos vitais que envolvem a totalidade do ser, assim como a corporeidade humana, as relações do indivíduo com ele mesmo e com o outro, com a natureza e ainda com o seu contexto. Não são fenômenos isolados, que acontecem apenas em determinados ambientes, ou seja, o ser humano está em constante processo de conhecimento e aprendizagem através das interações, das relações que estabelece. Compartilhamos com a visão de Moraes quando coloca que,

Através de experiências, das interações, das trocas de signos, captamos o mundo externo, interagimos com ele, nos transformamos, nos modificamos e evoluímos, ou melhor, co-evoluímos. Tudo isso pela simples razão de estarmos vivendo. Não estamos separados do mundo em que vivemos e conhecemos, já que o conhecimento está naturalmente ligado à experiência de vida. (...) A ação de conhecer está presente, simultaneamente em todas as ações que desenvolvemos, sejam biológicas, espirituais, cerebrais, lingüísticas, políticas e culturais. (MORAES, 2003, p.49)


Este trabalho é resultado de uma pesquisa de Iniciação Científica realizada num período de dois anos que teve como órgão de fomento o CNPq. A corporalidade é a temática por nós trabalhada de modo mais específico, a corporalidade do professor.

Ao tratamos das questões do corpo voltadas para a educação, buscamos Wilhelm Reich (1897-1959) como principal referência teórica. Tomamos como ponto de partida para iniciar a discussão que fazemos em torno das questões do corpo, a idéia colocada por Reich de que o corpo registra a história de vida dos indivíduos.

Reich nasceu em 24 de março de 1897 na Áustria. Ele dedicou-se a pensar a organização da vida humana numa expectativa de compreendê-la e viabilizá-la com prazer (MOTA, 1999). Suas preocupações com a educação aparecem quando busca soluções para a neurose humana. Reich faz críticas severas aos efeitos danosos de uma educação conduzida de maneira equivocada com a saúde dos educandos. Ele critica o sistema educacional e social, pois considera que estes promovem o bloqueio da energia humana, e se interessa pela possibilidade de prevenir a ocorrência de enfermidades psicológicas.

Assim, pretendemos discutir como o corpo tem sido tratado dentro do âmbito escolar, a relação do professor com seu corpo, e como esta interfere em sua prática educativa, tomando o corpo como uma construção histórica. Para tanto temos uma preocupação particular com a criança pequena, e assim, com a educação infantil, pois sabemos que a formação do caráter do indivíduo se dá nos seus primeiros anos de vida.

Essa pesquisa é de natureza qualitativa, pois estuda os fenômenos educacionais considerando o contexto social e histórico em que estes ocorrem, sendo que fizemos uso da etnografia.

A CORPORALIDADE DA PROFESSORA: UMA LEITURA DA PRÁTICA EDUCATIVA

A intenção maior da pesquisa é analisar as influências que a história de vida da professora observada exerce sobre a sua prática pedagógica. Ressaltamos que a idéia central é marcada pela teoria de que toda a história vivida se registra no corpo.

No período que estivemos em sala de aula, procuramos observar entre outros aspectos, a capacidade da professora estabelecer contato com as crianças, ou seja, a sua interação com elas, em que foram destacadas contradições entre a maneira que a professora relata que gostaria de ser e o modo como ela age em sua prática.

Constatamos um anseio da professora de conseguir ter mais contato com as crianças. Não percebemos muitos momentos em que ela abraça ou beija as crianças, mas ela demonstra o carinho através das expressões de seu rosto que de um modo geral são mais de alegria.



(...) eu queria ser mais assim, por eles no colo, acho tão bonitinho quando eles sentam no colo, tomar leituras, né. Eu penso assim, no meu ego, na minha cabeça, eu penso que eu vou fazer isso, quando chega na hora parece que não vai. É beijinho na saída, na entrada. Mas aí junta todo mundo, aí vira aquela bagunça também. Aí às vezes a gente não faz para não tumultuar muito.

Ao relatar sobre suas experiências escolares, a professora coloca sobre suas dificuldades de contato com os colegas, de ser fechada e não ter muitas amizades. O jeito de ser da professora parece estar associado à sua vivência familiar. Ela fala sobre o seu relacionamento com a mãe, dizendo que elas eram fechadas, e que sua mãe era muito séria e rígida. Tais dificuldades ainda permanecem sendo colocado pela professora sua dificuldade em abraçá-la espontaneamente.

A professora pela história por ela vivida, possue marcas que imobilizam seu corpo dificultando a interação com outro e, portanto, a relação com seus alunos.

A dinâmica da sala de aula obedece a uma rotina onde as crianças são submetidas a ficar grande parte do tempo sentadas. Controlar os anseios das crianças leva a professora a fazer uso de diversos mecanismos, dentre eles o próprio tempo para diversão. Evidenciamos ser constante nas atitudes da professora, anotar no canto do quadro o nome das crianças que estavam em pé, ou conversando, e essas ficariam sem ir ao parque, ou sem ir para o recreio.

Embora conscientes de que o corpo é o veículo através do qual o indivíduo se expressa, o movimento corporal humano acaba ficando dentro da escola, restrito a momentos precisos como as aulas de educação física e o horário do recreio. Nas demais atividades em sala, a criança deve permanecer sentada em sua cadeira, em silêncio e olhando para frente. (STRAZZACAPPA, 2001, p. 1-2)

A maneira de agir da professora diante dos problemas revela passividade, insegurança e falta de preparo para enfrentar as situações. Observamos uma falta de autonomia da professora em resolver os problemas com as crianças em sala de aula, na maioria das vezes transferido à pedagoga, o que confirmado pela própria professara na entrevista. Tal aspecto pode ter influência da educação impositiva que recebeu de sua família, determinando os tipos de relacionamento que ela poderia ter, o que é relatado pela professora quando fala de sua adolescência.

É nesse sentido que encontramos uma contradição entre aquilo que a professora anseia fazer, e a forma como ela consegue ser e agir. Podemos analisar um dado verificado também na entrevista, que interfere em sua prática, que é sobre sua formação cultural, sendo relatado por ela o seguinte sobre seu hábito de ler:
É, mas assim às vezes, assim com a correria do tempo, a tempo você passa. Igual quando eu fiz especialização, foi um curso bom, mas devia de ter mais tempo para a gente estar lá. Tanta coisa boa, e você, não tinha tempo, para ler, passava aquilo batido. Porque eles mandavam para casa tanta teoria, e você não tem como ler, entendeu o dia a dia seu, não te proporciona isso. Tanta coisa, e eu também não tenho muita queda para ler não, prefiro pegar um crochê.

É intrigante o fato enunciado na fala da professora, pois gostar de ler é algo imprescindível para a ação docente. Não estamos criticando as preferências relatadas pela professora, mas sim, refletindo sobre o quanto a leitura e a busca de novos referenciais poderiam lhe fornecer maiores subsídios para a sua prática, propiciando-a agir de forma mais criativa, e assim, estabelecer uma relação mais prazerosa com as crianças e com a sua profissão.

Foram observadas no contato com a escola que as práticas cotidianas em sua maioria enfatizam a linguagem verbal, o intelecto, e o acúmulo de informações, impedindo que a criança se manifeste por outras formas de expressão. Através de atividades mecânicas e repetitivas, que imobilizam a criança e a impedem de se movimentar, se reprime seu prazer, sua vivacidade e aos poucos ela vai perdendo a sua criatividade e espontaneidade.

A IMPORTÂNCIA DE SE PERCEBER O CORPO

Para que o professor perceba a criança como ela é, o que realmente necessita, ele precisa estar em contato com o próprio corpo. Para a teoria reichiana a maior dificuldade defrontada na educação são os bloqueios emocionais dos adultos ao interferirem negativamente no desenvolvimento da criança.

Partindo do exposto até aqui, queremos evidenciar nossa preocupação com a criança em sua relação com os adultos (educadores) ser imprescindível o educador compreender que, “o contato consigo mesmo determina o estado de consciência (...) O estado de consciência sadio é dialeticamente ativo para uma boa relação com o mundo interior e exterior; é fundamental para instaurar um bom contato com os outros”. (NAVARRO, 1978, p. 25)

Enfatizamos a importância do professor ter uma maior consciência de seu corpo, visto que, isto irá interferir em sua postura, em seu senso crítico, e ainda no resgate de sua sensibilidade e criatividade. Tendo um maior reconhecimento de seu corpo, o professor será capaz de estabelecer um maior contato com a criança, e assim, a aprendizagem ocorrerá de forma efetiva. Uma maior percepção de si mesmo refletirá nas relações que estabelece com o mundo, nas relações humanas, com o conhecimento e no trabalho.

O olhar reichiano norteou as discussões deste trabalho, visto que, consideramos um importante aspecto desta teoria, de que a história de vida do indivíduo se registra no corpo. Desse modo, no contato com o cotidiano escolar buscamos olhar o corpo, e assim entender a história de vida da professora e das crianças.

Observamos em relação à professora, que as dificuldades que possui na relação com as crianças, de contato, ou seja, de interação, é conseqüência de sua educação, marcada por falta de contato afetivo, demonstrações de carinho, de diálogo, evidenciados no momento da entrevista.

Concluímos que a dinâmica da escola é regida pela lógica cartesiana, onde o corpo e a aprendizagem, ou ainda, corpo e mente são vistos separadamente, sendo que o intelecto é enfatizado em detrimento do corporal, do movimento e da expressividade da criança.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBERTINI, Paulo. Reich: História das Idéias e Formulações para Educação. São Paulo: Ágora, 1994.

LELIS, Maria Terezinha Carrara & MOTA, Maria Veranilda Soares. A Concepção de homem Reichiana: implicações na Formação do Professor. In: ENCONTRO NACIONAL DE DIDÁTICA E PRÁTICA DE ENSINO, p. 1-9, 2004, Curitiba. Anais XII ENDIPE: Conhecimento Local e Conhecimento Universal, 2004, CD-ROM.

LOWEN, Alexander. Prazer: uma abordagem criativa de viver. Trad. Ibanez de Carvalho Filho, São Paulo: Summus, 1984.

MORAES, Maria Cândida. Educar na Biologia do Amor e da Solidariedade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

MOTA, Maria Veranilda Soares. Princípios Reichianos Fundamentais para a Educação: bases para a formação do professor. Piracicaba, 1999. Tese de Doutorado. UNIMEP.

NAVARRO, Federico. A Somatopsicodinâmica: sistemática reichiana da patologia e da clínica médica. [Trad. Ailton Bedani, Beatriz Sidou; revisão técnica Glória Mariani], São Paulo: Summus, 1995.

NUNES, Olinda Fertonani. e PAIVA, Mary Jane. Recuperação da função educativa natural segundo o princípio orgonômico. Disponível em: http://www.alternex.com.br/~jgco/orgoniza/artigos/natural. Acesso em 28-03-05.

REICH, Wilhelm. (1942) A função do Orgasmo: problemas econômicos sexuais da energia biológica. [Trad. Maria da Glória Novak]. 13ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.

______________. (1950) Criança do Futuro. [Trad. Marisol P. Tertilizzi] CIO – Centro de Investigação Orgonômica da Associação Wilhelm Reich do Brasil. s/d.



SOARES, Carmem Lúcia. Apresentação. In. Caderno Cedes 48. Corpo e educação. 1º ed, 1999.



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