O cordel como elemento de inclusão social



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Semioses - Rio de Janeiro - N. - Especial - 2007

Revista nº2  » Artigo




O CORDEL COMO ELEMENTO DE INCLUSÃO SOCIAL

Ana Madalena F. de Oliveira


   resumo: Como se sabe, o termo “literatura de cordel” refere-se a um tipo de narrativa curta, em verso, de caráter popular e produção em geral rústica, sob forma de folhetos, cuja área de dominância é o nordeste brasileiro. O qualificativo “cordel” deriva da forma de exposição dos folhetos, ou seja, pendurados pela dobra central ou mesmo presos por pregadores de roupa em cordéis estendidos em barracas nas feiras.




   Palavras-chave: literatura de cordel, narrativa, importância
1. Cordel: definição e origem

O “folheto” é um livrinho impresso geralmente em papel-jornal, com número de páginas sempre múltiplo de quatro, para facilitar tanto a impressão quanto a montagem. A capa, em geral, é feita em papel um pouco mais encorpado, na maioria das vezes colorido. É muito comum haver ilustrações na capa. Nos cordéis tradicionais, essa ilustração era feita com a técnica da xilogravura (impressão do desenho entalhado em madeira). Modernamente, encontram-se desenhos e mesmo fotos ilustrando as capas das narrativas.

Historicamente, a origem do cordel remonta, segundo alguns estudiosos, ao fim da Idade Média na Europa, séculos XV e XVI. Em Portugal, nossa fonte direta, teria atingido seu apogeu entre os séculos XVI e XVIII. Neste caso, os textos podiam ser em verso ou prosa, com temática variada, embora houvesse forte tendência para a narrativa de aventuras, como “Carlos Magno e os Doze Pares da França”, ou “A Princesa Magalona”, por exemplo.

Houve manifestações literárias semelhantes em outros países da Europa, como foi o caso dos “pliegos sueltos” da Espanha, denominação que passou a vários países da América Hispânica, como Argentina, México, Nicarágua e Peru. Na França, encontramos a “littèrature de colportage”, e na Inglaterra, “chapbook” ou “catchpennies”.

No Brasil, a literatura de cordel foi introduzida pelos colonizadores, ainda em forma manuscrita. Só bem mais tarde, com o aparecimento de pequenas tipografias já no final do século XIX, a literatura de cordel ganha impulso e se fixa no Nordeste brasileiro, onde assume o status de cultura regional.

A permanência de formas culturais do período colonial no Nordeste brasileiro tem explicação histórica: o isolamento da região em relação ao restante do país e o distanciamento dos pólos culturais, histórica e economicamente fixados na região Sudeste a partir do século XVIII, teriam gerado condições propícias para a conservação de tradições culturais, religiosas e até mesmo lingüísticas. Câmara Cascudo, eminente pesquisador potiguar, destacou que várias estruturas lingüísticas usuais no falar nordestino e que causam espécie ao restante do país, como é o caso da negativa posposta ao verbo (“sei não”; “quero não”; “vou não”; etc.) são na verdade resquícios do português do século XVI trazido pelos primeiros colonizadores e encontrados, por exemplo, nas obras de Gil Vicente e Camões.

Segundo os pesquisadores, o primeiro cordel brasileiro, na forma que se tornou convencional, foi publicado na Paraíba, em 1893, por Leandro Gomes de Barros. Este dado gera certa controvérsia, uma vez que se acredita terem existido publicações anteriores, das quais não se conservaram exemplares.

Em termos temáticos, pode-se dividir a produção dos cordelistas brasileiros em dois grandes grupos:



  1. Os que versam sobre temas de caráter ficcional, em geral aventuras ou histórias de amor, muitas delas herdadas de tradições européias ou mesmo orientais;

  1. Os que versam sobre temas reais, tanto do contexto brasileiro como um todo, quanto os especificamente nordestinos.

Este segundo grupo é que vai nos interessar mais diretamente para o propósito deste artigo, mas vale a pena examinar mais detidamente cada um deles.

1.1 - Voando nas asas do cordel

Algumas das temáticas abordadas nos folhetos de cordel de caráter ficcional remetem a narrativas ancestrais que já percorriam a Europa desde a Idade Média. Exemplo disto são os que têm aventuras de cavalaria como tema central, como o folheto “Batalha de Oliveiros com Ferrabraz”, de João Martins de Atahyde, cordelista paraibano, nascido em 1880 e falecido em 1959. Lembrar que Oliveiros ou Olivério é um dos cavaleiros de Carlos Magno e sua batalha contra Ferrabraz faz parte do ciclo francês de novelas de cavalaria.

Mas um dos casos mais impressionantes de releitura de tema clássico via cordel é o de “História da Donzela Teodora”, de Leandro Gomes de Barros, cordelista paraibano falecido em 1918. Este cordel atingiu tal popularidade que sua personagem central faz parte do imaginário popular.

Em síntese, a história de Teodora é a seguinte: donzela, é feita escrava e comprada por um rico negociante cristão, que manda educá-la. Com sua sabedoria, ela desafia os sábios do rei e, numa acirrada disputa, acaba por vencê-los. Como prêmio, recebe moedas de ouro, que usa para livrar seu amo da falência. É exemplo de integridade e sabedoria, sendo admirada por todos.

O interessante é que as origens mais remotas desta narrativa são árabes. Especula-se ter passado à Europa durante a ocupação árabe na Península Ibérica. Há versões castelhanas desta história que remontam aos fins do século XIII ou início do XIV. A mais antiga versão em português encontrada data de 1712. Em suma, através do cordel, uma parte da população normalmente alijada da cultura oficial dialoga com textos e culturas ancestrais.

1.2 – Cordel, o jornal popular:

Paralelamente à produção de caráter ficcional, há aqueles folhetos que abordam temas reais, muitas vezes produzidos no calor da hora. Exemplos disto são “Pelé na Copa do Mundo e o Brasil tri-campeão”, escrito por Severino Amorim Ferreira, e “O choro de Itabuna depois da enchente”, de Minelvino Francisco Silva. Eventos marcantes, tristes ou alegres, nacionais ou regionais, ficaram, assim, registrados para as gerações futuras.


Durante muito tempo, devido principalmente à falta de meios de comunicação que abrangessem regiões mais distantes do país, o cordel foi o grande divulgador de eventos marcantes para o país. Para se ter uma idéia da importância do cordel nesta função, há um caso emblemático: ao ouvir no rádio a notícia da morte de Getúlio Vargas, um poeta de cordel escreveu em poucas horas o folheto “A lamentável morte de Getúlio Vargas”. No mesmo dia recebeu da gráfica os primeiros exemplares prontos e vendeu setenta mil somente nas primeiras quarenta e oito horas.

Aqui, se estabelece outra questão, que vale a pena ser discutida: como, em uma região em que os índices de analfabetismo continuam expressivos em relação ao restante do país, este tipo de literatura pode fazer tanto sucesso? A resposta é simples: por sua estrutura em versos, o texto do cordel é feito prioritariamente para ser declamado, lido em voz alta, ou, usando a terminologia regional, para ser cantado. É aqui que entra a figura do cantador, que pode ou não ser o próprio produtor do folheto.

Seja através do cantador profissional, que se apresenta nas feiras divulgando folhetos ou fazendo repentes (os famosos improvisos, a partir de temas dados na hora), seja do próprio cordelista, ou mesmo daquele que, tendo comprado o folheto é alfabetizado o suficiente para lê-lo em voz alta, de alguma forma o conteúdo do folheto acaba chegando ao grande público.

2. A inclusão através do cordel

Embora ameaçada pelo avanço da tecnologia, a produção de folhetos resiste. Com o rádio e a televisão cada vez mais acessíveis, é claro que o folheto de caráter documental perde muito de seu papel de divulgador das novidades, apesar de manter seu caráter de registro do fato.

De modo geral, porém, é inegável o papel exercido pelos folhetos ao longo do tempo como veiculadores de mensagens, fossem elas ficcionais ou reais. Deste modo, torna-se inquestionável o papel do folheto como elemento para inserção de seus leitores em um universo muito mais amplo. Por muito tempo, o cordel foi o meio pelo qual um número incalculável de brasileiros tomou conhecimento de fatos importantes até mesmo para o destino do país. Além do já citado sobre a morte de Getúlio Vargas, encontram-se folhetos sobre a renúncia de Jânio Quadros, o confisco das cadernetas de poupança no governo Collor e assim por diante. Quanto ao caráter documental, este pode ser comprovado, por exemplo, em temas que, de tão trabalhados, chegam a constituir verdadeiros ciclos, como é o caso de folhetos sobre o cangaço ou padre Cícero, só para citar dois temas caros à cultura/história nordestina.

Paralelamente ao diálogo que o folheto de caráter ficcional muitas vezes estabelece com narrativas de outros tempos e culturas, do qual já falamos, e do papel informativo/documental do folheto de caráter jornalístico, há um outro aspecto que merece ser destacado. Em um país que até hoje apresenta índices expressivos de analfabetos totais ou funcionais, o cordel constitui-se em estímulo para o aprendizado da leitura. Até porque uma de suas formas tradicionais, o chamado “ABC”, possibilita que mesmo não-alfabetizados conheçam pelo menos as letras e tenham noção do que seja ordem alfabética.



O chamado “ABC” consiste em um folheto versando sobre tema único, contendo 23 estrofes, cada uma delas começando com uma letra do alfabeto, na ordem exata. A título de exemplo, seguem abaixo trechos do folheto “ABC do Nordeste Flagelado”, de Patativa do Assaré, um dos mais reconhecidos poetas populares do país. Primeiro, as estrofes iniciais:

A — Ai, como é duro viver 
nos Estados do Nordeste 
quando o nosso Pai Celeste 
não manda a nuvem chover. 
É bem triste a gente ver 
findar o mês de janeiro 
depois findar fevereiro
e março também passar, 
sem o inverno começar
no Nordeste brasileiro.

B — Berra o gado impaciente
reclamando o verde pasto, 
desfigurado e arrasto, 
com o olhar de penitente;
o fazendeiro, descrente, 
um jeito não pode dar, 
o sol ardente a queimar
e o vento forte soprando
a gente fica pensando
que o mundo vai se acabar.

C — Caminhando pelo espaço, 
como os trapos de um lençol, 
pras bandas do pôr do sol, 
as nuvens vão em fracasso:
aqui e ali um pedaço
vagando... sempre vagando, 
quem estiver reparando
faz logo a comparação
de umas pastas de algodão
que o vento vai carregando.

D — De manhã, bem de manhã, 
vem da montanha um agouro
de gargalhada e de choro
da feia e triste cauã:
um bando de ribançã
pelo espaço a se perder, 
pra de fome não morrer, 
vai atrás de outro lugar, 
e ali só há de voltar, 
um dia, quando chover.

Agora, as estrofes finais, seguidas da estrofe de encerramento, usual neste tipo de folheto. Colocada após a última estrofe (a da letra Z), constitui-se numa espécie de conclusão/despedida do poeta:

V — Vivendo em grande maltrato, 
a abelha zumbindo voa, 
sem direção, sempre à toa, 
por causa do desacato. 
À procura de um regato, 
de um jardim ou de um pomar 
sem um momento parar,
bate as asas, vai embora.  
Somente o saguim demora, 
pulando a fazer careta
na mata tingida e preta, 
tudo é aflição e pranto; 
só por milagre de um santo, 
se encontra uma borboleta

Z — Zangado contra o sertão 
dardeja o sol inclemente, 
cada dia mais ardente 
tostando a face do chão.  
E, mostrando compaixão 
lá do infinito estrelado,

vagando constantemente, 
sem encontrar, a inocente, 
uma flor para pousar.

X — Xexéu, pássaro que mora 
na grande árvore copada, 
vendo a floresta arrasada,

pura, limpa, sem pecado 


de noite a lua derrama 
um banho de luz no drama 
do Nordeste flagelado.

Posso dizer que cantei 


aquilo que observei; 
tenho certeza que dei 
aprovada relação.
Tudo é tristeza e amargura, 
indigência e desventura. 
— Veja, leitor, quanto é dura 
a seca no meu sertão

Não é incomum se encontrar pessoas que sabem de cor folhetos inteiros, sejam cantadores ou meros apreciadores do gênero. Ora, para bem cantá-lo, é preciso decorar o cordel sem alterar a ordem de seus versos. Portanto, acaba-se por conhecer o alfabeto, mesmo que não se saiba escrever.

3. Conclusão:

Como se pode perceber pelo exposto ao longo deste ensaio, o cordel faz parte da cultura de nosso país e é muito mais rico e expressivo do que uma leitura apressada ou superficial de sua forma e proposta poderia fazer supor.

Felizmente, a partir dos anos 70 do século XX, várias frentes de pesquisa se abriram, no Brasil e no exterior, para este gênero de produção poética, sendo a Fundação Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, detentora de um dos principais acervos do gênero no país. Isto sem falar na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, fundada em 1988 e em pleno funcionamento também no Rio de Janeiro.

Não há um consenso, entre os pesquisadores, sobre o número de folhetos de cordel que, em um século de produção regular, teriam sido lançados. Há quem avente até mesmo a hipótese de terem sido cerca de cem mil títulos. Só sobre Getúlio Vargas, por exemplo, foram levantados cerca de sessenta títulos diferentes. E para quem pensa que esta temática teria se esgotado por ocasião da morte de Vargas, nos anos 80 foi publicado o folheto “Encontro do presidente Tancredo com o presidente Getúlio Vargas no Céu”, de Manoel d’Almeida Filho, provando não só a criatividade desses poetas populares, mas principalmente a sobrevivência do gênero e de suas temáticas.

Longa vida, portanto, aos folhetos de cordel que, por suas temáticas e características estruturais se constitui tanto em um insubstituível retrato de um Brasil eminentemente popular, quanto em uma poderosa arma de veiculação de mensagens, culturas, saberes e linguagens.
SOBRE O AUTOR

Mestra em Letras pela UERJ, professora da UNISUAM e sócia-fundadora da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORGES, F. N. F. “Folhetos de feira movem a imaginação popular”. In: Jornal da Tarde, 20.02.1998.

MARCELO, R. “Gêneros da Poesia Popular (Principais Estilos de Cantoria e Cordel)”. Disponível no site www.secrel.com.br/jpoesia/marcelo13.html. Acesso em junho de 2006.

MENDONÇA, A. A. de. “Nas feiras do Nordeste”. Disponível no site www.camarabrasileira.com/cordel01htm. Acesso em junho de 2006.

MEYER, M. (org.) Autores de Cordel. São Paulo: Abril Educação, 1980. (Literatura Comentada)

PELLEGRINI FILHO, A. “Literatura de Cordel continua viva no Brasil”. Disponível no site www.bahai.org.br/cordel/viva.html. Acesso em junho de 2006.







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