O contar histórias e a resoluçÃo de problemas nas aulas de matemática



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O CONTAR HISTÓRIAS E A RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS NAS AULAS DE MATEMÁTICA
Débora de Oliveira Andrade - Universidade São Francisco/SP- deboraandrade.mat@ig.com.br

Regina Célia Grando - Universidade São Francisco/SP-regina.grando@saofrancisco.edu.br

Introdução


Esse trabalho se refere a um recorte da pesquisa de mestrado que buscou investigar as potencialidades pedagógicas das histórias virtuais do conceito na perspectiva da resolução de problemas nas aulas de matemática.

A pesquisa foi desenvolvida em uma abordagem qualitativa. Os sujeitos foram alunos da Educação Básica de Escolas Públicas. As histórias virtuais foram produzidas e/ou adaptadas pela pesquisadora que se posicionou como contadora de histórias.

A pesquisa teve como objetivos: (1) analisar em que medida a resolução de situações–problema propiciadas pelas histórias virtuais do conceito possibilita a produção/mobilização de conceitos matemáticos; (2) investigar a produção do registro escrito e oral pelos alunos na resolução dos problemas vivenciados em situação lúdica de aprendizagem para compreender os sentidos e os significados que os alunos produzem a partir das histórias virtuais do conceito para a matemática em si e para o contexto no qual a situação–problema se insere.

A documentação da pesquisa foi composta por: histórias virtuais do conceito (“O Negrinho do Pastoreio”, “Os Ovos em Questão”, “Liberdade para as Galinhas” e “Pedro Malazarte em Veneza”), registros dos alunos (pictóricos e/ou textuais), diário de campo da pesquisadora, transcrição dos dados audiogravados das falas dos sujeitos durante a resolução e/ou socialização dos problemas e entrevistas com alunos. As entrevistas com alguns alunos se fizeram necessárias para elucidar os registros textuais e/ou pictóricos, bem como a produção de novos sentidos para a resolução dos problemas. A análise foi realizada em uma perspectiva histórico-cultural da teoria da atividade (LEONTIEV, 1988).

Para o presente texto a ênfase será no episódio em cena (ARAUJO, 2003): contação da história “Liberdade para as galinhas”. Para tanto, destacamos cenas do momento de produção do registro em grupo da estratégia de resolução do problema do personagem da história. A produção do registro da estratégia da resolução fez parte da dinâmica de contação1 da história e naquele momento os alunos foram convidados a resolver o problema do personagem da história, em grupos com quatro alunos e registrarem suas resoluções. A professora/pesquisadora durante aquele momento realizou as mediações nos grupos de maneira a levar os alunos a resolver o problema e registrar minuciosamente a resolução. Na discussão coletiva, as estratégias para a validação de significados foram produzidas e compartilhadas nos grupos.

A atividade com a história foi realizada na 3ª série do Ensino Fundamental (9 a 11 anos), em que a professora mantém um ambiente de comunicação de idéias nas aulas de matemática e o trabalho em grupo é comum em suas turmas.



Contar histórias e a aprendizagem Matemática


Segundo Café (2000), os contadores de histórias são importantes “na atualidade, pela possibilidade de, em sua atuação, mediante a linguagem corporal, expressa pelo gesto e pela voz, restabelecer uma comunicação que traz enriquecimentos culturais, pois mobiliza a imaginação, o sentimento, a cognição e a criatividade” (p. 3).

Para esta pesquisa acreditamos que ser contador de histórias é possibilitar ao ouvinte imaginar situações não vivenciadas, relembrar momentos vividos, a possibilidade de levar o conhecimento da história vivida e, também, da história da humanidade. Nas aulas de matemática é propiciar um outro olhar para o aprender Matemática com ludicidade, envolvimento, imaginação e criatividade. Ou ainda, possibilitar o conhecimento da matemática científica e dos seus processos de produção, que se encontram tão distantes das práticas escolares.

Por essa razão, contar histórias nas aulas de matemática requer intencionalidade, uma busca pela melhor história, ou por uma história diferente, que faça sentido ao aluno para que caracterize um momento único. Entendemos que esse momento possa colocar o aluno em atividade (LEONTIEV, 1988).

Nesse sentido, o contar/ouvir histórias é entendido como atividade, pois se relaciona às necessidades que impulsionam os motivos, levando os alunos ao objetivo de resolver o problema do personagem da história, colocando diferentes operações em movimento. O contexto da história são as condições concretas da atividade que determinarão as operações vinculadas a cada ação (LIBÂNEO, 2004).

Assim, nesta pesquisa analisamos como cada sujeito (aluno) diante da história contada/ouvida colocou em movimento o sentido da palavra e dos objetos para a resolução do problema do personagem. Entendemos que o significado é de conhecimento histórico e social, mas o sentido é pessoal e depende da experiência histórico-cultural de cada sujeito (aluno).

Portanto, para evidenciar este “sentido”, discutiremos, a perspectiva de história que usamos para a pesquisa, já que entendemos que esta deve ser uma história que possibilite a resolução de um problema do personagem e que propicie uma necessidade do aluno de se colocar em ação, a fim de analisarmos as operações para a resolução do problema.

Uma possibilidade de investigação sobre o contar histórias na aula de matemática é da história virtual do conceito. Moura e Lanner de Moura caracterizam a história virtual por:

uma situação-problema vivida por algum personagem, dentro de uma história. Esta, por sua vez, revela uma semelhança com algum problema vivido pela humanidade. A história virtual é, portanto, uma situação-problema que poderia ser vivida pela humanidade em algum momento. Por isso, ela é virtual: é como se fosse a situação real (1998, p. 14, grifo dos autores).


A história virtual do conceito possibilita ao aluno a necessidade de primeiro compartilhar para depois apropriar-se como um saber individual. Por isso, ao propor a resolução de um problema que tem por base uma lenda, mito ou outra história qualquer, a criança atribui significados e/ou sentidos ao conceito matemático tratado, sendo a resolução compartilhada e negociada no grupo. Naquele momento, isso é muito importante, pois na ação coletiva da turma as discussões suscitam relações, conceitos e ideologias. Assim, segundo Moura e Lanner de Moura (1998, p. 14), “a criança precisa perceber o valor da produção de soluções coletivas de problemas, para que valorize o compartilhamento de saberes”.

A história virtual do conceito tem esse papel coletivo valorizado, pois para a resolução do problema, os conceitos apropriados por cada criança são mobilizados e colocados “em movimento” na busca da resolução, isto é, na interação que “não tem o sentido de adaptação ao meio, mas de diálogo, de participação consciente, de possibilidade de intervenção” (SFORNI, 2003, p. 1).

No momento da ação compartilhada, as crianças fazem uma apropriação particular, ou seja, (re)significam aquele contexto dentro de suas crenças e valores, e então estes saberes compartilhados transformam-se em saber individual.

A riqueza deste momento de interação, inicialmente em um grupo menor e depois na socialização da resolução do problema para toda a classe “é reveladora da diversidade existente entre ambos, cada um dos elementos tem que se confrontar com as diferenças entre as suas respostas e as respostas do outro, o que implica também aprender a gerir aspectos relacionais” (CARVALHO, 2005, p. 17).

A comunicação possibilita a resolução do problema e o desenvolvimento do ato de justificar, conjecturar, argumentar, partilhar e negociar com os outros alunos, seja no registro escrito e/ou pictórico e/ou no momento da socialização das idéias e estratégias sobre a resolução do problema.

Para tanto, nesta pesquisa, foram produzidos registros desta resolução. Os registros pictóricos foram analisados na perspectiva histórico-cultural, entendida nesta pesquisa como a análise não apenas do desenho como fase do desenvolvimento da criança, mas como em uma perspectiva vygotskyana, como uma representação daquilo que a criança sabe sobre os objetos (FONTANA; CRUZ, 1997).

Assim, entendemos a importância desta comunicação como potencialidade para a leitura e escrita. Segundo Santos (2005), “a linguagem escrita pode ser vista tanto como um instrumento para atribuir significados e permitir a apropriação de conceitos quanto uma ferramenta alternativa de diálogo, na qual o processo de avaliação e reflexão sobre a aprendizagem é continuamente mobilizado” (p. 128).

Nesse sentido,

a produção de textos nas aulas de matemática cumpre um papel importante para a aprendizagem do aluno e favorece a avaliação dessa aprendizagem em processo. Organizar o trabalho em matemática de modo a garantir a aproximação dessa área do conhecimento e da língua materna, além de ser uma proposta interdisciplinar, favorece a valorização de diferentes habilidades que compõem a realidade complexa de qualquer classe (Smole, 2001, p. 29).
Esse ambiente proporciona o desenvolvimento do conteúdo; e, esse é o objetivo maior do professor ao propor uma atividade de ensino com a história virtual do conceito. Segundo Moura e Lanner de Moura, “na história virtual do conceito, o conteúdo é um dos elementos principais do ensino. O professor que o elege deve ter presente, porém, que ele é um objetivo possível de ser desenvolvido em situação escolar” (1998, p. 15).

Sendo o conteúdo escolar o objetivo maior do professor ao contar a história virtual do conceito, podemos dizer que esta forma de ensinar faz com que o aluno aprenda os conceitos científicos.

Para Vygotsky, assim como a escrita foi determinante de rupturas e transformações no homem, o domínio de conceitos científicos também propicia tais transformações, sendo o elemento novo, destas transformações, possibilitado pela qualidade que a aprendizagem de generalizações conceituais confere ao pensamento (SFORNI, 2003). Vygotsky faz uma diferenciação entre conceitos espontâneos e conceitos científicos. Os primeiros, são aqueles que se iniciam na esfera empírica e vão da coisa ao conceito e são formados no enfrentamento da criança com as coisas, não existe o ato de pensar sobre o conceito, não existe a explicação da razão do seu uso (SFORNI, 2004). Já os conceitos científicos

têm início numa atividade mediada em relação ao objeto. Começam na esfera do caráter consciente e da intencionalidade e dirigem-se à esfera da experiência pessoal e do concreto. O acesso ao conceito científico ocorre via instrução; é, portanto, um conhecimento que se adquire de forma desvinculada da experiência imediata, em momentos organizados com o fim explicito de ensinar e aprender. A relação da criança com o conceito científico é mediada por outros conceitos elaborados anteriormente (SFORNI, 2004, p. 78-79).


Entende-se que a partir de uma história virtual seja possível uma mediação pedagógica que envolve o conhecimento científico o qual o aluno possa se apropriar, uma vez que as histórias vêm carregadas de intencionalidade. Mas só isto não garante o bom aprendizado, o contexto da sala de aula na apropriação deste conhecimento, necessita ser “especial”, por isso a importância do aluno ouvir a história, pensar sobre a resolução do problema da história, socializar a resolução no ato coletivo da classe e representar novamente a sua solução em um momento posterior.

Percebemos as potencialidades das histórias virtuais como perspectiva para contar/ouvir histórias nas aulas de matemática ao atingir o objetivo de desenvolver nos alunos o conhecimento científico, bem como ao sistematizar este conhecimento cientifico, o conteúdo, de maneira lúdica e valorizando a comunicação entre os alunos e o contador de histórias.

Para potencializarmos a resolução do problema proposto a partir de uma história, trabalhamos a resolução de problemas como arte que, segundo Kilpatrick e Stanic (1989), teve Polya (1956) como o seu grande representante. Acreditamos ser possível relacionarmos as etapas da heurística sobre resolução de problemas apresentadas por Polya e o processo de contar histórias e resolver problemas dos personagens. Entendermos tais etapas como momentos importantes para o movimento de resolução de problemas sem uma linearidade pré-definida. Assim, poderíamos caracterizar com base nas etapas de Polya (1995):


  • Compreender o problema: significa para o aluno se sentir desafiado a explorá-lo, buscar estratégias de resolução identificando os elementos que contribuirão para isso.

No contar histórias a compreensão do problema está relacionada ao contexto da história, possibilitando estabelecer conexões com conceitos já conhecidos colocados em movimento pelo aluno para compreender o problema, e, ao assumir o papel do personagem da história, pelo faz-de-conta – jogo simbólico – o aluno é desafiado a resolvê-lo.

  • Estabelecimento de um plano: o caminho à resolução, e neste caminho é feito o levantamento de estratégias para a resolução do problema, podendo ser ou não validadas a princípio pelo aluno e, posteriormente, pelo grupo de alunos. Este caminho está ligado a problemas semelhantes já resolvidos, que possibilitam ao aluno variar, transformar e modificar o problema.

O estabelecimento de um plano de resolução do problema gerado pela história aparece quando os alunos estão desenvolvendo as propostas para resolver o problema do personagem da história, em que o aluno está em grupo e os planos são colocados em discussão para ser validados pelo grupo (sentidos atribuídos pelos alunos à resolução).

  • Na execução do plano: o aluno precisa estar convicto de que seu plano atingiu os objetivos, ou seja, deve examinar cada detalhe dele até não restar nenhuma dúvida de que é a resolução do problema e esteja satisfeito com o plano após sua execução.

A execução do plano ao contar a história acontece quando os alunos registram seu plano e socializam para toda a classe, ou mesmo com a validação do plano pelo grupo.

  • Retrospecto/Avaliação: momento em que o aluno volta à resolução do problema analisando se seu resultado final é concebível, ou se existe outra possibilidade de resolução, pensando ainda como a resolução deste problema se relaciona com outros problemas e como isso pode ocorrer.

Na socialização de cada grupo na classe ocorre o retrospecto no contar a história. Neste momento, os alunos do grupo são questionados pela classe e seus argumentos quanto à resolução do problema são colocados em “xeque”, possibilitando a análise da resolução pelo grupo que elaborou e executou.

O contar histórias na perspectiva das histórias virtuais do conceito possibilita ao aluno se envolver no enredo da história e estar imerso em um universo de resolução de problema, problema que é do personagem, que envolve, intencionalmente, um conhecimento científico matemático escolarizado e resolvê-lo torna-se para o aluno uma necessidade, a necessidade desencadeia ações e operações. Assim, podemos caracterizar a resolução deste problema como uma atividade. Estar em atividade mediada pelo pesquisador-professor-contador de histórias garante a comunicação de idéias nas aulas de matemática, tanto na linguagem corrente e na linguagem matemática, expressas pictórica, oral e/ou textualmente. A comunicação das estratégias da resolução do problema permite a análise dos significados e sentidos atribuídos pelos alunos à palavra e aos objetos para a resolução do problema.



É a análise destes diferentes aspectos (figura 1) que potencializa o contar histórias nas aulas de matemática, na perspectiva das histórias virtuais do conceito, por isso, entendemos que a história virtual do conceito é um “recurso da atividade, isto é, as ferramentas que o sujeito coloca a seu serviço, transformando os artefatos em instrumentos” (CLOT, 2006, p. 24).


Resolução de problemas
como arte

(Stanic; Kilpatric, 1989)


Atividade Principal

(Leontiev, 1988)







Comunicação de idéias nas aulas de matemática

(Santos, 2005; Gobbi, 1997)



Significados e Sentidos

(Leontiev, 1978; Góes; Cruz, 2006)








Conceito científico matemático escolarizado

(Vygotsky, 1988; Sforni, 2004)

Figura 1: Os aspectos potencializadores do contar histórias nas aulas de matemática.
Contação da história “Liberdade para as Galinhas”
“Liberdade para as Galinhas”2 foi uma história adaptada do filme “A Fuga das Galinhas”. É considerada adaptada porque o filme foi assistido pela professora/pesquisadora que, partindo dele, elaborou a história. Esta história foi aplicada na 3ª série do Ensino Fundamental , na qual foi usada a imagem de um galinheiro para representar o espaço onde elas viviam e quais os obstáculos encontrados à fuga. A síntese da história é:

As Galinhas desta história viviam em um pequeno lugarejo, chamado “Vivo Feliz”, onde havia um sítio, estranhamente cercado com arames e vigiado, dia e noite, por seguranças acompanhados de cães ferozes. A proprietária deste sítio era a Dona Marisvalda, uma senhora brava, que além de dona do sítio era, também, dona da Granja dos Silva. D. Marisvalda sempre estava de cara fechada e preocupada com o aumento dos lucros de sua granja. No galinheiro de D. Marisvalda, as galinhas viviam e trabalhavam em um regime quase “militar” de vida, pois se não cumprissem a meta de botar os ovos diariamente eram mortas, sem piedade, com uma machadada no pescoço. No entanto, a Galinha Matusquela, percebendo que aquilo não era vida, chamou as outras galinhas para uma conversa séria e iniciaram um plano de fuga. Nesse momento foi entregue aos alunos uma representação do galinheiro (figura 2).


Figura 2: representação do galinheiro


Os alunos deviam analisar a representação do galinheiro, criar um plano de fuga para as galinhas conquistarem sua liberdade para descobrirem o que existia atrás do morro. Este plano deveria ser executado pelas galinhas em no máximo 24 horas, pois chegou ao sítio uma máquina de fazer empadas que seria montada no próximo dia e este era o tempo que as galinhas tinham para fugir ou, então, virariam empadas da D. Marisvalda.

O objetivo desse problema era identificar se os alunos eram capazes de criar estratégias para a resolução do problema dos personagens, ou seja, desenvolver um plano de fuga a partir da representação do galinheiro; bem como, analisar como os alunos fazem uso do referencial espacial relacionando com os obstáculos: tamanho do muro, tempo para fuga e as deficiências físicas de uma ave para fugir usando objetos do “nosso uso”. Além disso, entende-se a elaboração de planos de fuga e mapas de localização como estratégias produzidas pela criança semelhante à estratégia “experimentada” pelo homem historicamente.



Cenário: A sala em que ocorreu a contação da história foi uma 3ª série do Ensino Fundamental. A turma era composta por quarenta e quatro alunos freqüentes com idades entre 9 e 11 anos, no período matutino. Segundo a professora da classe, era uma sala heterogênea em relação aos níveis de aprendizagem e também quanto às suas histórias de vida. Porém, esses aspectos pouco interferiam nas relações interpessoais dos alunos, fazendo com que lidassem muito bem com as “diferenças” no grupo.

A classe estava habituada a trabalhar com histórias, uma vez que esta atividade era uma prática da professora. Nesse sentido, podemos dizer que esse aspecto facilitou a aceitação desse tipo de proposta de trabalho.

No dia 21 de junho de 2006, ocorreu a contação. O primeiro momento da contação, contar/ouvir a história e a resolução do problema nos grupos, durou cerca de 2 horas e meia. Depois da aplicação da história cada grupo de alunos recebeu a representação do galinheiro em folha de papel A4, para analisar o local de onde ocorreria a fuga das galinhas.

A socialização das estratégias dos grupos foi adiada para depois de uma semana, pois a professora da sala tinha outras atividades durante aquela semana.

A pesquisadora retornou, no dia 28 de junho de 2006, para dar continuidade à socialização. Os alunos estavam agitados para iniciar as discussões. Cada grupo se dirigia até a frente da sala e explicava como deveria ser resolvido o problema. Os demais grupos faziam perguntas oralmente de maneira a levar os colegas a analisarem se o plano era possível. A socialização durou 3 horas aproximadamente.

Notamos que não houve indisciplina e nem desinteresse, todos aguardavam ansiosos a sua vez de discutir o plano de fuga para as galinhas.

Depois da socialização das propostas para a resolução do problema das galinhas, cada aluno produziu um segundo registro que foi acompanhado pela professora da classe.

Cena 1: Produzindo o 1º registro do grupo 1
P3: Pode escrever e fazer desenho desde que vocês registrem como deve acontecer a fuga. (Pausa)4 Tudo certo?

Gabriel5: Opa, tô quase.

Anderson: Pode ser desenho?

P: Pode ser desenho ou escrever, tanto faz.

Anderson: Votação. Quem quer desenho?

Anderson: Eu.

Jessé: Eu acho melhor escrever.

P: Por que você acha melhor escrever?

Jessé: Por que sim, é mais fácil.

Anderson: Eu prefiro desenhar, porque o meu lema é desenhar, gosto mais de desenhar que escrever.

P: E se vocês entrassem em acordo?

Anderson: Até que podia sim, ó eles dois escreviam e eu e ela desenhávamos.

P: Porque cada um vai fazer o seu.

Anderson: Eu e ela arquitetamos e eles escrevem.

P: Pode ser. O que é arquitetar para você?

Anderson: Arquitetar é desenhar.

P: Ah! Só arquiteta quando desenha?

Anderson: É.

Jessé: Não, arquitetar é um monte de coisas como,...

Jessé: O avião é arquitetado para fazer...

P: Fizeram um planejamento?

Anderson: É. Aqui ó (mostra a representação do galinheiro), isso aqui, é um planejamento.

P: Aqui é a casa da Dona Marivalda.

Anderson: A senhora arquitetou. (Pausa) Isso já é um negócio arquitetado, agora nos temos agilizar o plano.

P: Isso.

Anderson: A casa e a granja já estão arquitetadas.


Cena 2: Produzindo o 1º registro do grupo 2
José: Mais tem teto?

P: O que leva vocês a pensar sobre o teto nesse desenho?

José: Porque senão ficaria muito fácil.

José: E também choveria nelas.

P: Então manda ver.

José: Não Professora (pesquisadora)! Não tem teto. Porque quando aquela coisa (o Galo) estava caindo foi aqui no meio. (mostra no desenho o meio do galinheiro)


Cena 3: Produzindo o 1º registro do grupo 3
P: E aqui? O que está acontecendo?

Augusto: É ele aqui (aponta para outro aluno do grupo), que está brigando com esse aqui que está apagando.

Antonio: Eu não estou fazendo nada.

P: O que você quer fazer?

João: Ele estava fazendo um negócio errado aqui e ele falou para apagar.

P: Não, mais, deixa ele.

Antonio: Eu falei para primeiro conversarmos e depois desenharmos.

P: Entendi.

João: Tudo tem que ser como ele quer. Ele quer fazer o dele primeiro.

Antonio: Você quer desenhar.

P: E por que você acha importante primeiro vocês conversarem?

João: Para poder desenhar.

P: Por que vocês precisam?

João: Para fazer plano de fuga das galinhas.

P: Vocês entenderam, por que ele quer conversar com vocês? É para pensar em um plano, juntos. Para depois vocês irem registrar no papel. Qual seu nome?

Augusto: Augusto.

P: Você estudava aqui ano passado Augusto?

Augusto: Não.

P: Você entendeu como é? Eles primeiro querem conversar e discutirem o plano para depois decidir se vai ficar assim. Então vocês decidem como será o desenho de cada um para registrarem. Pode ser?

Augusto: Mas e se ele desenhar o que eu desenhei?

P: Não vocês vão conversar depois cada um vai fazer o seu.
Cena 4: Produzindo o 1º registro do grupo 4

Maria: Se aqui é o muro de dois metros então, nos temos que dar um jeito de passarmos pelos cachorros, sem sermos percebidos por ele.

Severina: Mas você falou que cavando terá segurança.

Maria: E se cavar por aqui?

Severina: Para que lado fica o morro?

P: Para que lado fica o morro?

Severina: É isso que estou perguntando.

P: O morro fica de frente, temos o galinheiro (mostra o galinheiro), aqui a porteira, à frente a saída do sítio. Porque o galinheiro é aqui, não quer dizer que o sítio acabou. Você tem a porteira lá de saída, então na frente da porteira você tem o morro.

Severina: Então, tem mais cercas atrás?

P: Tem. Ao redor tem o restante das terras dela (D. Marisvalda).



Cena 5: Produzindo o 1º registro do grupo 5

P: Fala menino e meninas.

Bruna: O Prô! Se ela fazer um desenho, todo mundo vai ter que fazer igual o dela?

P: Não precisa ser todo mundo igual, mas vocês têm que pensar num plano de fuga. Então como que será esse plano? Vocês pensaram e conversaram sobre isso?

Bruna: Ela tava pensando que elas podiam subir em uma escada.

P: O que?

Bruna: Fazer uma escada.

P: E quanto será que tinha que medir essa escada? Porque o muro aqui tem 2 metros e meio. E como que elas iam fazer essa escada? O que elas iam usar? Tem que pensar nisso.



(os alunos passaram a refletir sobre as questões propostas pela professora/pesquisadora)
Análise das cenas
Estas cenas revelam as discussões ocorridas nos grupos para o desenvolvimento do registro da resolução do problema (cena 1 a 5). O momento foi marcado pelo estabelecimento de um plano, o caminho para a resolução. Eles foram levantando estratégias, dando sentido pessoal ao significado que a história virtual do conceito teve para eles.

As intervenções da professora/pesquisadora possibilitaram uma análise das estratégias nos grupos, desencadeando os motivos e atitudes para os alunos se colocarem em movimento de resolução de problema (cena 1); os mesmos, validavam a importância do desenho, questionavam-se sobre a importância de arquitetar um plano e como esta palavra tinha diferentes significados entre os integrantes do grupo.

Porque senão ficaria muito fácil” (aluno José, cena 2), o aluno manifesta a sua experiência em resolução de problemas, e esta experiência altera as ações que colocaram as operações no movimento da resolução do problema.

Ao analisar os obstáculos presentes para a resolução do problema, a professora/pesquisadora buscava chamar a atenção dos alunos para esse fato a partir de (cena 5); questionamentos, perguntas pedagógicas, que levaram os alunos a pensarem os diversos aspectos do plano de fuga, colocando em evidência a experiência, o conhecimento espontâneo sobre os materiais utilizados para a construção de uma escada e catapulta. É importante ressaltar que a professora/pesquisadora em vários momentos solicitava uma análise matemática do problema proposto, entretanto somente o aluno Kevin se apropriou desse tipo de análise e também fazia os questionamentos matemáticos aos seus colegas. Assim, questões como: tempo de execução do túnel (medida de tempo), tamanho do túnel (medida de comprimento) e dos seguranças, além da quantidade de terra que seria extraída do túnel, eram tratadas coletivamente a partir dos questionamentos da professora/pesquisadora e do aluno Kevin . Isso mostra que, naquele momento os alunos estavam mais envolvidos em criar uma “situação fantástica”, imaginária e/ou lúdica de resolução, muito mais do que analisar, por exemplo, o mapa, com detalhes para constatar a viabilidade do plano de fuga. Mas o próprio movimento de elaboração de hipóteses, compartilhamento de sentidos e significados durante as discussões em grupo e socializadas, bem como a elaboração de esboços pictóricos da fuga e os processos de validação das diferentes estratégias, representam o próprio processo de “fazer matemática”.

As estratégias de como resolver o problema, a comunicação de idéias e a negociação de sentidos (cena 3) necessitaram ser discutidas no grupo, precisaram ser validadas pelo mesmo. Como existia um aluno que nunca tinha participado desse tipo de atividade em sala, ele não entendia o posicionamento dos outros colegas frente à questão; não compreendia a importância de primeiro analisarem as estratégias de fuga para depois registrarem. Esta situação forneceu subsídios para analisarmos como a aprendizagem desencadeia o desenvolvimento do sujeito, o fazer o plano de fuga, possibilita a aprendizagem sobre o “fazer matemático” que leva ao desenvolvimento deste aluno.

Durante o desenvolvimento do 1º registro os alunos demonstraram estar em movimento de resolução do problema proposto a partir de uma história virtual do conceito, mas só com a socialização é que foi possível determinar que a resolução do problema possibilitou aos alunos estarem em atividade, pois eles sentiram a necessidade de resolver o problema que era o objetivo maior, uma ação, e cada grupo colocou diferentes operações em movimento para a resolução do problema.



Algumas considerações

A análise deste episódio possibilitou evidenciar que esta história virtual do conceito, foi potencializadora dos seguintes aspectos: a resolução de problemas nas séries iniciais do Ensino Fundamental, a comunicação de idéias nas aulas de matemática, o registro textual e/ou pictórico de diferentes estratégias, a produção e/ou mobilização de conceitos matemáticos, compartilhamento de significados e sentidos atribuídos do coletivo para o individual e desenvolveu nos alunos a necessidade de se colocarem em movimento do “fazer matemático”.

Uma das potencialidades do contar histórias nas aulas de matemática não está no melhor contador de história, mas em todo o movimento intencional do professor, desde a criação e/ou adaptação da história até, o mais importante, possibilitar a discussão das diferentes estratégias desenvolvidas pelos alunos de diferentes séries.

Dessa forma, entendemos que foi possível colocar os alunos no movimento de atividade e resolução de problemas desde a Educação Infantil até as séries finais da Educação Fundamental. Pode-se dizer que as necessidades impulsionaram os motivos, levando os alunos ao objetivo de resolver o problema do personagem da história, colocando diferentes operações em movimento. Os contextos das histórias foram as condições concretas da atividade que determinaram as operações vinculadas a cada ação. Envolver os alunos dependeu de uma intencional dinâmica de aula envolta de respeito aos principais personagens desta pesquisa, os alunos.



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1 Entendemos por contação o ato de contar a história para os alunos e toda a dinâmica de desenvolvimento da atividade proposta para a resolução de problemas do personagem da história virtual do conceito.


2 A problemática desta história não ficou explícita, porém os alunos se colocaram em movimento para a resolução do problema e em atividade na perspectiva leontieviana.

3 O “P” é a transcrição da fala da professora/pesquisadora.

4 No meio das falas, as escritas em itálico, são comentários da professora/pesquisadora sobre as transcrições.

5 Os nomes dos alunos citados durante as cenas são fictícios.




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