O centro e a natureza da luta no xadrez



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Controle do centro à distância e objetivos alternativos de ataque

Atingido o objetivo do controle do centro à distância, é possível perceber que o lado que detém o controle pode proceder a ataques na ala onde o adversário possui debilidades, ou suas forças encontram-se ausentes ou em menor numero. Ou seja, as coisas se passam de forma análoga à ocupação e domínio clássico do centro por peças e peões.


Ainda, o controle à distância pode permitir a obtenção de vantagem decisiva, quando são criados objetivos alternativos de ataque. Essa circunstância também se processa de forma similar às manobras clássicas.
Nas partidas anteriores, foi possível perceber que o controle do centro à distância viabilizou manobras diversionistas laterais (caso da partida Reti-Rubinstein), assim como a ocupação do centro foi “trocada” por criação de debilidades sérias também mediante avanços diversionistas laterais (caso da partida Reti-Lasker). Nos dois casos, o lado que obteve a vantagem utilizou-se de sua supremacia de controle central à distância, para a criação de objetivos alternativos de ataque.
Isso pode ainda ser concretamente observado na seguinte partida:
Euwe – Lomann - 1924 [A09]
1.Cf3 d5 2.c4 d4 3.b4 g6 4.Bb2 Bg7 5.Ca3
Uma das características do jogo hipermoderno é não temer o “mau posicionamento” de peças, segundo os preceitos da escola clássica. Aqui, Euwe desenvolve o cavalo “pela parede”, mas entende muito bem que essa peça deverá ser prontamente colocada em situação mais ativa, em c2, de onde irá exercer pressão contundente sobre o peão preto de d4.
e5 6.Cc2 Bg4 7.e3 Ce7

Se 7...d3 8.Ca3; Se 7...e4 8.h3 exf3 9.hxg4 fxg2 10.Bxg2²; Era melhor 7...dxe3 8.dxe3 Cd7 – comentários de Neistadt.


8.exd4 exd4 9.h3 Bxf3 10.Dxf3

O controle do centro à distância realizado pelas brancas deu como produto a pressão exercida sobre o solitário peão em d4. Essa pressão possibilitou a Euwe a dianteira no desenvolvimento, forçando as pretas a perderem tempo precioso na cobertura de seus pontos indefesos, no caso imediato, o peão de b7.
c6 11.h4

Percebendo que o adversário possui defesa suficiente para manter o peão de d4, Euwe busca objetivos alternativos de ataque. Como entende que o roque das pretas é absolutamente necessário para viabilizar o desenvolvimento de suas peças, decide abrir a coluna h para dificultar a defesa adversária.


11...0–0

Se 11...h5 12.De4; e Se11...Cf5 12.De4+ De7 13.Bd3.


12.h5 Te8 13.0–0–0 a5 14.hxg6 hxg6 15.Dh3!

Conjugando a pressão central exercida sobre o peão de d4 com ataque direto ao roque do adversário, Euwe torna a tarefa defensiva das pretas mais e mais árdua.


15...axb4?

E aí está! Era necessário 15...Rf8, para possibilitar a defesa 16...Cg8.


16.Cxd4!

A ameaça é 17.Dh7+ seguido de 18.Dxg7+ , 19.Ce6+ e 20.Th8 mate.
16...Bxd4?? 17.Dh8+! Bxh8 18.Txh8# 1–0



  1. Epílogo

Obviamente, este modesto artigo sobre o controle do centro à distância não esgota o tema, tamanha a riqueza de recursos, planos e o mais, inerentes a essa forma de controlar o centro.


Sem assumir a posição dos iconoclastas hipermodernos, que ao seguirem a linha em voga naqueles tempos de contestação dos valores da sociedade de fins do século dezenove, rejeitavam o que antes existia em termos de pensamentos enxadrístico, prefiro adotar a posição de Reti, ao reconhecer a herança deixada por Steinitz e seus antecessores. Ele deixa isso bem claro em sua portentosa obra “Los Grandes Maestros del Tablero”.
Dentro desse escopo, então sim, pode-se afirmar que o xadrez hipermoderno trouxe sopro renovador, em suas idéias contestatórias e reformistas.
Assim, cessou o fantasma da “muerte de las tablas” vaticinado por Lasker e Capablanca, ante o suposto limite a que o Xadrez teria chegado. Nimzovitch, Reti, Breyer e seus seguidores souberam como ninguém demonstrar esse equivoco. Tanto que, demonstrando por que eram verdadeiros campeões, Lasker e Capablanca, assim como Alekhine e os demais expoentes do xadrez daquele tempo, praticaram também as idéias revolucionárias da nova escola.
Mas o fizeram sem radicalismos. Aproveitaram o que ela oferecia de melhor, e burilaram assim seus estilos, tornando-se os magníficos jogadores que conhecemos. Inclusive, pertence a eles o desenvolvimento de alguns sistemas de aberturas e defesas com idéias hipermodernas, da qual a Defesa Alekhine é um exemplo acabado.
Na atualidade, as idéias hipermodernas de controle do centro são de uso natural e corriqueiro, e fazem parte do acervo técnico dos grandes mestres contemporâneos, devidamente mescladas com preceitos e princípios das demais escolas.
E, no meu entendimento, é esse modo de enxergar o xadrez, polifacético, complexo e dinâmico, que sustenta a atração que por ele todos nós sentimos.
Curitiba, novembro/2006.




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