O centro e a natureza da luta no xadrez



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Encontro27.09.2018
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8.d3 0–0 9.Cbd2 e5 10.cxd5 cxd5 11.Tc1
No tocante ao jogo das brancas, neste ponto o golpe central 11.e4! estaria bem de acordo com o estabelecido pelo segundo objetivo descrito anteriormente (item 2.b). Tanto 11... Bg412.exd5 Cxd5 13.Cc4 como 11...dxe4 12.dxe4 Bxe4 13.Cxe4 Cxe4 14.Ch4 Cdf6 15.Cf5 seriam vantajosos para as brancas, provando assim a necessidade de vigília constante que faltou a Lasker em termos de sua ocupação central.
11...De7 12.Tc2
Constitui-se na manobra típica do Sistema Reti. Passar a dama para a1, que coadjuvado por Tfc1, estabelece pressão sobre o dispositivo central preto através da diagonal a1-h8 e domínio da coluna c.
Outra alternativa, também fornecida por Reti, consiste em 12.Te1!?, seguido de e4.
12...a5!
Com a maestria própria de um campeão mundial, Lasker percebe uma manobra eficiente de agir pela ala da dama. Avançando seu peão na coluna a, pretende criar um ponto débil na posição das brancas, qual seja e seu peão em b3.
13.a4
Reti não tem outra alternativa, a não ser bloquear a marcha do peão preto pela coluna a, manobra essa pela qual Lasker coloca em xeque todo o esquema adotado pelas brancas. Agora, restam débeis a casa b4 e o peão em b3.
13...h6
Pretendendo abrigar o bispo em h7, para então encetar o avanço central e4 sem estar sujeito ao contragolpe Ch4.
14.Da1 Tfe8 15.Tfc1 Bh7

Neste ponto, os dois jogadores realizaram seus planos de controle central. Reti, mediante controle à distância. Lasker, mediante ocupação.


Agora, tem início a forma como cada lado irá procurar fazer valer sua abordagem. Lasker ameaça com o avanço imediato e4-e3, com efeito devastador na restringida posição branca. Por seu turno, Reti adota meios profiláticos para impedir tal avanço, ao mesmo tempo em que irá procurar incrementar a pressão exercida sobre o centro adversário.
16.Cf1 Cc5!?
Se 16...e4 17.dxe4 dxe4 18.Cd4 e3 19.Cxe3 Bxc2 20.Txc2 com suficiente compensação pela qualidade a menos.
17.Txc5!
Não tem volta. O sacrifício da qualidade é o único antídoto contra a excelente manobra que Lasker iniciou no lance 12.
17...Bxc5 18.Cxe5 Tac8 19.Ce3 De6 20.h3 Bd6?
Seria melhor 20...b6, assegurando o bispo em sua posição ativa, com plano de subseqüente apoio ao avanço do peão central a d4 para desorganizar a centralizada posição das peças brancas, bem como neutralizar a pressão branca pela diagonal a1-h8.
21.Txc8 Txc8
22.Cf3?

A tentação de colocar um cavalo em d4, defendendo pontos de invasão das peças pretas e tocando as casas débeis b5 e f5 é muito grande. Entretanto, o brilhante mestre tcheco passa por alto uma alternativa ainda mais favorável: 22.C5g4! Cxg4 23.hxg4 E agora, a dupla ameaça 23.Bxg7 e 23.Bxd5 outorga às brancas compensação mais que suficiente pela qualidade a menos.


22...Be7 23.Cd4 Dd7 24.Rh2!?
Incrível! Após 14.Da1, Reti agora também joga 25.Dh1, as duas manobras visando exercer pressão sobre o centro de peões pretos. Parece-me que este é um caso único na prática do xadrez magistral, cujo momento merece registro.
Entretanto, os analistas estão de acordo em observar que seria melhor 24.Cb5, com plano de bloqueio mediante instalação do bispo em d4 e ataque ao peão imobilizado em d5 mediante Cc3.
24...h5!!
Por seu turno, Lasker também não deixa por menos! Após realizar o magistral 12...a5! o qual conjugado com a preparação para avanço de seus peões centrais (lances 13 a 15) e ainda com 16...Cc5!?, lhe proporcionou o ganho da qualidade, procede agora avanço de peão na outra coluna extrema, desta vez com o intuito de enfraquecer a segunda fila na posição das brancas, ao mesmo tempo em que produz nova debilidade da importante casa central e3, que ficará privada do controle do peão de f2.
Realmente, se por um lado temos um inspirado representante do hipermodernismo colhendo resultados fantásticos sobre os maiores jogadores daquele tempo, de outro ninguém nada menos que o campeão do mundo para buscar as compensações exatas ante estilo tão original de jogo!
25.Dh1 h4! 26.Cxd5
Se 26.Bxd5 Cxd5 27.Dxd5 Dxd5 28.Cxd5 Bc5 com posição ganhadora.
26...hxg3+ 27.fxg3 Cxd5 28.Bxd5 Bf6!

As abordagens diferenciadas sobre o predomínio central encetadas pelos dois jogadores renderam seus frutos.
De um lado, o outrora poderoso centro de peões pretos foi dizimado pela pressão remota exercida pelas brancas. E similarmente ao que ocorreu na partida jogada com Rubinstein, agora são as brancas que possuem maioria de peões no centro, um deles passado. Embora ainda afastados das casas centrais, poderão proporcionar o indispensável apoio às peças ali posicionadas, conferindo ao menos o equilíbrio dinâmico em face da qualidade a menos das brancas.
De outro lado, Lasker inverte os papéis. Agora, são suas as peças que, afastadas do centro, exercem enorme pressão sobre a ocupação central do adversário, declarando assim que manobras de controle do centro à distância não são elementos exclusivos dos hipermodernos.
29.Bxb7 Tc5 30.Ba6?
Não é o melhor. 30.Be4!, encontrado pelo Rybka, proporciona melhores perspectivas de equilíbrio: 30...Bxd4 31.Bxh7+ Rxh7 32.De4+ f5 33.Dxd4 Dxd4 34.Bxd4 Tc2 35.Rg2 Txe2+ Rf3
30...Bg6 31.Db7 Dd8 32.b4

E agora dá para avaliar a profundidade dos lances 24...h5!! e 25.h4! Em caso de defesa do cavalo mediante 32.e3, a segunda fila fica livre para o fatal golpe 32... Bxd4 33.Bxd4 Tc2+ 34.Rh1 Dd6 ganhando.


32...Tc7 33.Db6 Td7!–+ 34.Dxd8+ Txd8 35.e3

Se 35.Cc6 Td6 36.Bxf6 Txc6-+


35...axb4 36.Rg2 36...Bxd4 37.exd4

Não é melhor 37.Bxd4 Bf5! (37...Txd4 38.exd4 b3 39.Bc4 b2 40.Ba2 Bxd3 41.a5 b1D 42.Bxb1 Bxb1 43.a6 Be4+ 44.Rf2=) 38.Bc4 Be6–+


37...Bf5 38.Bb7 Be6 39.Rf3

O rei tem que entrar em jogo rapidamente. Se 39.a5 Bd5+


39...Bb3 40.Bc6 Td6 41.Bb5 Tf6+ 42.Re3 Te6+! 43.Rf4

Se 43.Rd2 Tg6 44.g4 Th6–+


43...Te2
Procedimento invasivo, o qual conjugado com o lance de bloqueio 45...Bd5, abre caminho para a marcha vencedora do peão b.
44.Bc1 Tc2 45.Be3 Bd5 0–1
Esta partida merece profunda reflexão de todos aqueles que dedicam-se ao estudo do xadrez.
Constitui-se em veemente demonstração de que, na realidade, não há que se concentrar em conceitos estereotipados, como se eles fossem verdade absoluta.
Todo jogador deve ter flexibilidade suficiente para reconhecer, isto sim, as oportunidades nas quais deverá empregar conceitos e princípios estabelecidos pelas várias escolas do pensamento enxadrístico.
Essa característica de flexibilidade constitui-se, na atualidade, numa das grandes conquistas do xadrez contemporâneo, e já fora praticada pelos maiores expoentes do xadrez daqueles tempos gloriosos, como Capablanca, Alekhine, Euwe e, como não poderia deixar de ser ante a lição clara que nos deixou, Emanuel Lasker!




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