O centro e a natureza da luta no xadrez



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O CENTRO E A NATUREZA DA LUTA NO XADREZ

Ernesto Luiz de Assis Pereira

Clube de Xadrez de Curitiba – CXC

elap@terra.com.br

PARTE IV – CONTROLE DO CENTRO À DISTÂNCIA



  1. Preliminares.

Nos artigos e palestras anteriores que realizei sobre o tema do domínio central, foram abordadas as seguintes alternativas de ocupação imediata do centro:



(i)- por brancas e pretas simultaneamente (Partes I e II);

(ii)- ocupação por apenas um dos lados, em situação extrema de criação de massa de peões centrais (Parte III).
Para encerrar o tema desse ciclo de palestras sobre o domínio do centro, neste trabalho será posto sob foco a alternativa de controle do centro à distância, seja apenas por brancas ou pretas, seja pelos dois lados simultaneamente. A diferença entre esse enfoque e aquele que foi tema da palestra anterior (ii) consiste no fato de que, neste caso, não há ocorrência de massa de peões centrais móveis. Aqui, os dois lados organizam seus planos de forma menos agressiva, porém nem por isso com menor potencialidade ofensiva. Nos dois casos, a partida adquire caráter lastreado nos cânones da escola que na atualidade é denominada hipermoderna.
Ali pelas duas primeiras décadas do século XX, o mundo das artes e das ciências experimentava o curso de uma das mais extraordinárias revoluções nos conceitos até então consolidados como “clássicos”. Como que a desafiar velhos axiomas oriundos do período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, novas abordagens surgiram nas mais diversas áreas. Isso ocorreu na Física, com a Teoria da Relatividade de Einstein; na pintura, com Pablo Picasso, e na Música, com Claude Debussy e Igor Stravinsky, para ficar apenas nestes meios de expressão do pensamento e das artes.
No Xadrez, até então predominavam os conceitos da Escola Clássica de Steinitz, sendo o médico Siegbert Tarrasch um dos mais ferrenhos defensores e aplicadores desses preceitos, e no qual o domínio do centro só seria viável pela sua ocupação por peões e peças. Quem ousasse contrariar essa ortodoxia, teria seu jogo fadado ao fracasso. Não obstante o aparecimento do russo Tschigorin, que colheu resultados fantásticos com seu estilo absolutamente original e que não se enquadrava no que preconizavam Steinitz e Tarrasch, os preceitos destes eram seguidos à risca pela grande maioria dos jogadores de nível daquele tempo.
Foi então que, no início dos anos vinte, surgiram em cena as figuras de Nimzovitch e Reti, apregoando conceitos totalmente inovadores para a teoria enxadrística, inclusive reformando dogmas da escola clássica.
Segundo eles, os princípios de ordem geral que orientavam os seguidores de Steinitz e Tarrasch nem sempre eram aplicáveis, sendo necessário um mergulho mais profundo na individualidade de cada posição que se apresenta durante a partida.
Estava assim lançada a base da escola hipermoderna, que tal qual estava sucedendo nas artes e nas ciências daquele tempo, recusava a ortodoxia clássica e procurava ver o mundo enxadrístico sob enfoque original e renovador.
Passando da teoria à prática, Reti e Nimzovitch colheram resultados formidáveis com a revolução hipermoderna, inclusive criando aberturas e sistemas de defesa que divergiam por completo do que até então era praticado.
Reti criou a famosa abertura que leva seu nome, ao passo que a Defesa Nimzoíndia se constitui em uma das mais brilhantes contribuições de Nimzovitch contra a Abertura do Peão da Dama.
O sucesso dessas criações, e de tantas outras, foi tão grande, que logo os adeptos do hipermodernismo passaram a apregoar a total falência das escolas antigas, em evidente atitude iconoclasta. Giyula Breyer, também um dos fundadores do movimento hipermoderno, jogador brilhante que teve desaparecimento prematuro, chegou a declarar que “Depois de 1.e4, o jogo das brancas está em sua última agonia” (!).
Assim como nos demais segmentos do movimento moderno, esse posicionamento exacerbado gerou controvérsias intensas, sendo célebre a discussão havida nos meios de comunicação da época entre Tarrasch e Nimzovitch.



  1. Objetivos do controle do centro à distância.

Em presença da grande flexibilidade inerente ao jogo hipermoderno, é grande o número de objetivos que podem ser traçados na aplicação do controle do centro à distância. Envolvem questões de estilo, de preparação técnica ante o jogo do adversário, de estudo criterioso das potencialidades e fraquezas das linhas escolhidas, e o mais.


No geral, submetem-se aos mesmos princípios utilizados nos demais temas de controle central: rápido desenvolvimento inicial, coordenação no ataque e/ou defesa de pontos críticos, efetividade máxima das peças, exploração de casas débeis, e outros.
Entretanto, dada a peculiaridade no desenvolvimento de peças e peões quando se adota a natureza hipermoderna, o jogador tem de pensar de forma sempre crítica em relação aos esquemas ortodoxos. Isso ocorre principalmente quando dá-se a circunstância de um dos jogadores adotar métodos clássicos de jogo.
A seguir, serão abordados dois objetivos básicos na condução do jogo hipermoderno, que poderão servir de ponto de partida para estudos mais aprofundados.
a)- Formações de ocupação central como objeto de ataque: segundo o enfoque hipermoderno, ocupar o centro prematuramente significa sujeitar as peças e peões ali posicionados ao desgaste por assédio, ataque e comprometimento de sua estabilidade pelas forças contrárias, estas localizadas em posições distanciadas ou, quando muito, mantendo contato lateral. Exemplo contundente do alcance desse objetivo pode ser visto na seguinte seqüência de lances da Defesa Pirc – Ataque Autríaco, de aplicação regular na prática magistral contemporânea:
1.e4 d6 2.d4 Cf6 3.Cc3 g6 4.f4 Bg7 5.Cf3 c5 6.Bb5+ Bd7 7.e5 Cg4

Nesta posição, em um primeiro estágio, pretas desenvolveram bispo, cavalo e peões no sentido de controlar o centro à distância; no segundo estágio, passaram a pressionar e assediar o centro branco mediante 5...c5 e 7...Cg4.
Por seu turno, as brancas devem procurar tirar partido de sua ocupação central de modo rápido e eficiente, caso contrário a iniciativa poderá passar subitamente para o lado adversário. Mediante lances como 8.e6 ou 8.h3, devem proceder no sentido de, ou fazer valer sua ocupação central, ou afastar as peças adversárias que concorrem para o assédio da mesma.
Como se observa, planos de jogo como esses dão causa a posições agudas, onde ao menor descuido qualquer um dos lados poderá sucumbir rapidamente.
Este caráter agudo de posições assimétricas constitui um dos apanágios do xadrez hipermoderno.
b)- Recursos ocultos que inviabilizem atuação agressiva de domínio central: Outro objetivo importante da abordagem hipermoderna, consiste em, mediante controle do centro à distância, tornar menos visível e claro ao adversário as intenções ofensivas ou de contra-ataque. Um exemplo crítico e rápido desse enfoque consiste na seguinte seqüência de lances:
1.Cf3 d5 2.c4 Cf6 3.g3

Nesta posição típica da Abertura Reti, pretas podem escolher entre vários planos alternativos de jogo central, todos dentro do que demanda a posição para assegurar jogo equilibrado. Essas alternativas tem como objetivos correspondentes, a abertura de linhas centrais mediante 3...dxc4, assegurar a estabilidade do peão central em d5 mediante 3...c6 ou 3...e6, controle da importante diagonal a1-h8 mediante 3...g6 com posterior posicionamento do bispo em g7, ou a tentativa de restrição do centro branco mediante 3...d4.
Entretanto, sem compreender o caráter posicional do sistema adotado pelas brancas, já ocorreram casos em que o condutor das pretas, em seu afã de jogar com o bispo de c8 por fora da cadeia de peões, realiza o “natural” 3...Bf5.
Segue-se imediata exploração do controle a distância e assédio ao dispositivo central das pretas, mediante o oportuno 4.cxd5!
Neste ponto, a centralização de mais uma peça, segundo a ortodoxia clássica, não é viável:
Se 4...Cxd5 perde peça x peão mediante 5.e4! (se 5...Be4 6.Da4+).
Resta assim demonstrada que a posição das brancas não tem aquele caráter tímido que aparenta: o peão de c4 assedia o peão central das pretas, o cavalo de f3 impede a expansão central adversária via e7-e5, o bispo de f1 está apto a controlar a importante diagonal h1-a8, e a dama poderá a qualquer momento controlar ou pressionar casas centrais e ala da dama pelas bases de operação c2, b3 e a4, segundo o caso.
Também o condutor do jogo hipermoderno deve permanecer atento às exigências requeridas pelas posições resultantes. Se hesitar, ou se afastar o mínimo que seja do que deve ser feito, poderá ficar em situação insuportavelmente restringida, e receber rápido castigo pela sua falha no controle central.
A seguinte miniatura, jogada entre dois “top board” do xadrez internacional, demonstra esse fato de forma contundente:
Larsen,B - Spassky,B [A01]

Beograd 7, 1970


1.b3 e5 2.Bb2 Cc6 3.c4 Cf6 4.Cf3
Os planos estão traçados. Enquanto Larsen prefere o controle do centro à distância, Spassky escolhe a ocupação central com subseqüente abertura de linhas para suas peças.
4...e4 5.Cd4 Bc5 6.Cxc6 dxc6 7.e3 Bf5
Evitando o avanço central 8.d4.
8.Dc2 De7 9.Be2 0–0–0


Pretas desenvolvem rapidamente suas peças e ocupam importantes linhas centrais. O controle central à distância das brancas resulta inócuo, em face da dificuldade em rocar e desenvolver seu cavalo.
10.f4?
Este lance pretende o reforço do controle do centro à distância, incrementando o domínio da diagonal a1-h8, em especial a casa e5. Entretanto, faltou a Larsen uma avaliação mais realista da posição resultante, em face do evidente enfraquecimento das diagonais e1-h4 e g1-a7, o que foi magistralmente percebido por Spassky.
10.0-0 resulta inviável, seguindo-se 10...h5- h4 - Th6, com pesado ataque ao Rei.

10.Cc3 é melhor, embora insuficiente para equilibrar.


10...Cg4! 11.g3
Teria sido fatal 11.Cc3 Txd2!! 12.Dxd2 Be3 13.Dc2 Bf2+! 14.Rd2 e3+, etc.

Teria sido melhor 11.a3 Dh4+ 12.g3 Dh3 13.Bf1 Dh5 14.Be2 Dg6 e parece que não ocorre alívio na situação das brancas.


11...h5! 12.h3? h4!! 13.hxg4 hxg3! 14.Tg1

Se 14.Txh8 Txh8 15.Cc3 (15.gxf5?? .Th1+ 16.Bf1 g2 17.Dd3 exd3 18.Rf2 gxf1D+ 19.Rg3 Dh4#) 15...Th1+ 16.Bf1 g2–+



Segue-se agora o arremate digno de um dos grandes campeões mundiais da história do Xadrez:

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