O centro e a natureza da luta no xadrez



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34...Nd6!
Controlando a importante casa de bloqueio f5, com domínio das vias de acesso g3 e h4. O resto dispensa comentários.
35.Re2 Rd7 36.Rd3 Cf5 37.Bf2 Re7 38.Rc4 h4 39.Rb3 g3 40.hg3 h3 0-1

Nesta partida, apesar da expressiva vantagem auferida pelas brancas até a fase final, as pretas sempre se mantiveram vigilantes, sempre realizando lances com objetivo de dominar casas e linhas centrais, e nos descuidos cometidos pelo adversário souberam virar o resultado a seu favor.




  1. Ruy Lopez – Variante Chigorin – abertura da coluna “d”

Essa variante da Defesa Morphy Cerrada da Abertura Ruy Lopez é caracterizada pela seguinte seqüência:


1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 (Defesa Morphy) 4.Ba4 Cf6 5.0-0 Be7 (Defesa Morphy Cerrada – a alternativa aqui seria a Variante Aberta da Ruy Lopez mediante 5...Ce4) 6.Te1 b5 7.Bb3 d6 8.c3 0-0 9.h3 Ca5 10.Bc2 c5 11.d4 Dc7
Essa é a Variante Chigorin, em sua forma moderna de tratamento, já que a original consistia na manobra Cc6-a5 e c7-c5 a partir do oitavo lance, antes do roque das pretas.
Também nessa variante a abertura da coluna “d” conduz a uma complexa luta pelo domínio do centro e de linhas centrais abertas.
12.Cbd2 Cc6 13.dc5 dc5

Esta posição já ocorreu em inúmeras partidas, e sobre ela cabem algumas considerações preliminares.
Uma olhada rápida na estrutura de peões e colocação das peças, revela uma situação aparentemente paradoxal: porque, detendo o lance de saída, que sempre lhe confere a dianteira no desenvolvimento nos lances iniciais da abertura, o condutor das brancas se sujeita a uma situação restringida como a que vemos aqui? Possuem apenas um peão na quarta fila, enquanto as pretas possuem três na quinta. Suas peças ocupam posições modestas, enquanto pretas as têm mais ativas.
A razão está em que toda essa aparente passividade esconde um potencial de expansão que é justamente proporcionado pela, digamos assim, ousada atitude do bando preto (que foi característica preponderante em Miguel Ivanovitch Chigorin, considerado o Pai da Escola Russa). E esse potencial será implementado mediante o plano detalhado a seguir.
Como alternativa aos lances 13.Cf1 e 13.d5, brancas decidem-se pela abertura da coluna “d”, confiando no domínio dessa via central, bem como na exploração dos postos avançados d5 e f5. O cavalo de f3 olha fixamente o peão de e5 como presa eventual, manietando as peças pretas em sua defesa, podendo ainda saltar a g5, h4 e mesmo a h2 para auxílio no ataque branco na ala do Rei. Já o cavalo de d2 pretende empreender trajeto via d2-f1-e3 (g3) - d5 (f5), postos avançados esses nos quais, até mesmo mediante seu sacrifício, irá colaborar o mais das vezes no tormentoso ataque que usualmente as brancas dirigem ao monarca adversário. Além disso, a partir de d2, esse cavalo também vigia a casa c4, inibindo ao menos por enquanto qualquer tentativa de ataque do oponente a base de b5-b4. O bispo de c1 tem a sua disposição a importante diagonal c1-h6 para implemento dos planos de ataque ao Rei. Além disso, também pode desempenhar papel decisivo quando, postado em e3, em face de seu controle sobre a diagonal g1-a7, colaborar em manobras de contra-ataque das brancas na ala da Dama, viabilizado por lances como a4, ab5 e b4, segundo o caso. O bispo de c2, expulso violentamente de suas posições mais ativas ao começo da abertura, quando agiu pelas diagonais f1-a6, a4-e8 e a2-g8, agora se encontra em situação passiva de simples defensor do peão de e4. Entretanto, enganam-se aqueles que pensam que sua função é apenas essa. Na realidade, o outrora orgulhoso “bispo espanhol” ainda irá desempenhar ações decisivas na luta que se avizinha. Isto porque, além de reforçar o domínio da casa f5, poderá ocupar com força devastadora a casa e4, em caso de uma troca de peças ou peões em f5. Além disso, quando pretas atacarem com seus peões na ala da Dama, poderá reassumir com força o seu poder de outrora na diagonais abertas a4-e8 e a2-g8. Em relação a Dama, a partir de casas-base como e2 e principalmente f3, irá desempenhar papel preponderante nas manobras de ataque ao monarca adversário. E sobre as torres, o papel agora passivo que desempenham será alterado pela ação nas colunas “g”, “f”, “e”, “d” e “a” segundo o caso.

Por sua vez, as pretas também almejam o domínio da coluna, o que em coordenação com a avalanche de peões na ala da Dama que já iniciou e, quando for o caso, o domínio do posto avançado em d3, terá recursos suficientes para alcance do equilíbrio, pelo menos. Seus bispos dispõem de diagonais importantes para se deslocarem, podendo ainda colaborarem na defesa do seu monarca. Os cavalos já ocupam posições ativas. Um deles encara o peão de e4 e o outro olha com volúpia as casas a5, b4 e d4. As torres estão aptas a encetarem atividades seja de ataque pelas colunas “b”, “c” e “d”, seja de defesa na coluna “g”. E a Dama atua como eficiente comandante de seus soldados e oficiais, seja apoiando o avanço na ala da Dama, seja agindo na defesa do seu Rei.


Esses são os planos que se apresentam para ambos os lados.
Logicamente esses planos, como é usual, subordinam-se a vários fatores, entre os quais jogam papel destacado a preparação técnica, a concentração, o talento e a determinação dos jogadores.
Nos dois exemplos citados a seguir, os temas mencionados para um e outro lado serão diligentemente aplicados pelo bando vencedor.
Destaque-se a consistência dos planos adotados. Dois jogadores de elite, que mais tarde viriam a ser campeões mundiais, foram inapelavelmente batidos pela correta condução da partida pelos seus correspondentes adversários...

Fischer, Robert James - Kholmov, Ratmir D C98

Capablanca Mem - Havana, 1965



1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 4.Ba4 Cf6 5.0–0 Be7 6.Te1 b5 7.Bb3 0–0 8.c3 d6 9.h3 Ca5 10.Bc2 c5 11.d4 Dc7 12.Cbd2 Cc6 13.dxc5 dxc5 14.Cf1
Com a intenção de levar essa peça aos postos d5 e f5, via e3 ou g3.
14...Be6 15.Ce3 Tad8
Pretendendo o domínio da coluna central aberta.
16.De2 c4
Incrementando a expansão na ala da Dama, e controlando o posto avançado d3. Entretanto, permite a instalação de um cavalo branco em f5, como será visto na próxima partida.
17.Cg5?!
Este lance é algo precipitado, abandonando o controle das casas centrais para ir atrás do canto da sereia que representa a pseudo-debilidade dos peões dobrados e6 e e5.
Essa configuração de peões deve ser avaliada com muito cuidado pelas brancas, porque nem sempre comprometem a posição do adversário. Pelo contrário, em muitos casos a característica de domínio central, representada pelo controle das casas d4-f4-d5-f5, bem como das colunas d e f, tornam as coisas favoráveis às pretas. A debilidade dessa estrutura poderá aparecer no final de partida, mas até lá...
17...h6 18.Ce6 fe6 19.b4?
Era necessário 19.Td1, controlando a coluna aberta para manter o equilíbrio.

19...Cd4!
E eis aí o castigo vindo, literalmente, ``a cavalo``... Explorando sua superioridade central, as pretas trocam um de seus cavalos para obter vantagem posicional expressiva, primeiro na ala da Dama, e após também na ala do Rei.
20.cd4 ed4 21.a3 d3!
Este lance é bem melhor que 21...de3, porque elimina o ativo bispo espanhol
22.Bd3 Td3
As pretas alcançaram seu objetivo de domínio firme da coluna central aberta, tendo inclusive postado uma torre no ponto avançado d3


23.Cg4 Rh7 24.e5 Cg4 25.De4+ g6 26.Dg4 Tf5
Assegurado o domínio central, as pretas dedicam-se a explorar as debilidades do adversário, trafegando com liberdade pelas casas brancas.
27.De4 Dd7 28.Be3 Dd5
Intentando trocar a peça mais ativa do adversário.
29.Dd5 Td5 30.f4 g5! 31.g3 gf4 32.gf4
Ocorre assim o complexo débil f4-e5, cujo peão atrasado de f4 será objeto de pressão, ao mesmo tempo em que a casa à sua frente servirá de ótima base de operação para o monarca das pretas
32...Tf8 33.Rg2 Rg6 34.Tg1
A compensação branca pela ocupação da coluna ``g´´ é apenas aparente. Como será observado, mediante incremento da pressão central e da iniciativa das pretas na ala da Dama, brevemente o domínio dessa importante coluna será invertido.
34...Td3
Retornando ao posto avançado, aumentando a pressão central, agora sobre o bispo de e3, que limitado pelos peões centrais de f4 e e5, não dispõe de casas satisfatórias para sua ação na parte final da partida.
35.Rf3+ Rf5 36.Tg7 Bd8
Minimizando os efeitos da invasão branca da sétima fila, pela ameaça de Bb6.
37.Tb7 Tg8
Invertendo o domínio da coluna g.
38.Tb8 Tg7 39.a4 h5!

Sacrificando o peão de b5, em manobra de desvio das forças do oponente, visando o arremate final mediante invasão de peças na ala do Rei.



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