O centro e a natureza da luta no xadrez



Baixar 375,23 Kb.
Página3/7
Encontro27.09.2018
Tamanho375,23 Kb.
1   2   3   4   5   6   7

26...Bd3 27.Tg3 Bf1 28.Tg1 Bb5 29.Cb5! ab5 30.Ta8 Rd7 31.Td8 Rd8 32.Bd6 cd6 33.Rd2 g5 34.Rc3 g4 35.Rb4 f5 36.Rb5 Rd7. 37.b4 Te8 39.a4 Te2 40.Tf1 Td2 41.a5 Td5 42.Rb6 Td2 b6 1-0.
É importante destacar que o controle das linhas centrais permitiu o trânsito livre da torre de d1 (via d3, f3, f4, g4, a4, a8 e finalmente d8), bem como o posicionamento privilegiado do bispo em c5, o qual eliminou o cavalo bloqueador-defensor de d6 no momento oportuno.
Este é um contundente exemplo do potencial desenvolvido pelas peças quando lhes é assegurado o prévio domínio de linhas centrais abertas.

Pode ocorrer ainda a situação de o centro restar totalmente cerrado durante a fase inicial da partida, como por exemplo:


Na Defesa Francesa:
1.e4 e6 2.d4 d5 3.e5

Na Abertura Ruy Lopez:


1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 4.Ba4 Cf6 5.0-0 Be7 6.Te1 b5 7.Bb3 0-0 8.c3 d6 9.h3 Ca5 10.Bc2 c5 11.d4 Dc7 12.Cbd2 Cc6 13.d5

Ou na Defesa Índia do Rei:


1.d4 Cf6 2.c4 g6 3.Cc3 Bg7 4.e4 d6 5.Cf3 0-0 6.Be2 e5 7.d5
Nesse caso, as operações de aberturas de linhas serão viabilizadas mediante duas alternativas: sacrifícios posteriores contra a cadeia de peões, garantido por efetivo controle e pressão de peças e peões atacantes ou defensores, ou rupturas laterais mediante contatos via o tema das Maiorias Qualitativas, conforme ensina Henrique Sérgio de Andrade Marinho em sua notável obra “Maiorias Qualitativas nas Defesas Índias” (Ibrasa - SP/2004). Ainda dentro desse tema, permanecendo cerrado o centro, a luta deriva para a abertura de linhas nas zonas periféricas do tabuleiro.
Cabe registrar que todos esses temas estão intimamente interligados. Assim, a luta central pode assumir múltiplas variações em termos de modalidade de ocupação ou controle a distância, conjugada com a abertura de linhas, sejam elas diagonais, colunas ou filas, tudo isso mudando instante a instante, assumindo o plano estratégico uma gama exponencial de escolhas, dentro da interminável complexidade inerente ao Xadrez. Portanto, não há fórmula infalível, e tampouco receita fixa que proporcione ao jogador um porto seguro para se orientar. Tudo depende do talento, do esforço e da determinação de cada um para que, ele e somente ele, possa estabelecer a forma mais adequada de se conduzir entre uma partida e outra, e até mesmo entre uma posição e outra, dentro da mesma partida. Lembrar ainda que, do outro lado o oponente também tem seus planos, e o resultado final vai depender de qual lado conseguirá impor jogo mais acurado, em termos técnicos, artísticos e psicológicos.
Em razão das modalidades de ocupação central e abertura de linhas já mencionados, este trabalho foi dividido em várias partes, em face da extensão e complexidade do tema. Nessa primeira parte será enfocado o item a), com ocupação de peões e peças, coadjuvado por abertura e controle de colunas centrais.

  1. Domínio do centro mediante sua ocupação com peões e peças, coadjuvado por abertura e controle de colunas centrais

Este plano é de ocorrência freqüente em grande número de aberturas e defesas, notadamente aquelas que derivam dos lances 1.e4 e5 e 1.d4 d5.


Para a abordagem do tema, revelam-se altamente adequadas como exemplos as linhas oriundas da Abertura Ruy Lopez, em especial aquelas resultantes da Variante do Câmbio e da Variante Chigorin, ambas na Defesa Morphy. São essas linhas que serão consideradas daqui em diante.



  1. Ruy Lopez – Variante do Câmbio – a original 5.d4

Essa variante apresenta características consistentes para discussão do tema que estamos tratando: ocupação do centro com peões e peças e abertura de linhas centrais.


Para iniciar o análise, vejamos as principais características da posição que se apresenta após os lances 1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 (lance este que constitui a Defesa Morphy), 4.Bc6 dc6.
Até aqui, ambos os lados optaram pela modalidade de ocupação e controle do centro por peças e peões (e4 x e5 e Cf3/Bb5 por brancas e Cc6 por pretas). E na escolha preta da Defesa Morphy (3...a6), brancas optaram pela troca em c6.

E qual a razão desse câmbio? Que vantagem podem esperar as brancas ao cederem assim o par de bispos às pretas, com domínio das importantes diagonais a3-f8 e h3-c8 para os prelados pretos? Porque cederam, ao menos momentaneamente, o controle da coluna “d” para a Dama preta? Porque trocam uma peça por outra, atrasando seu próprio desenvolvimento e acelerando o do oponente?
Os motivos de tantas concessões consistem nos seguintes aspectos de ordem estrutural.
Primeiro, porque da troca resultou supremacia numérica de pões brancos no centro, já que o peão “d” preto foi afastado desse local.
Segundo, porque esse afastamento retira do peão de e4 seu defensor natural, restando a possibilidade de defesa do mesmo apenas pelo peão “f”, sendo este um lance que debilita as diagonais a2-g8 e principalmente h4-e8, esta sendo utilizada como tema de combinação em muitas variantes.
Terceiro, porque o dispositivo de peões pretos na ala da Dama resta com pouca mobilidade, apresentando-se em muitos casos como um alvo fixo de ataque, mediante manobras tais como Cd4-b3-a5, peão a2-a4-a5, Ta1-a6-a7-a8, Bispo c1-e3 e Bispo c1-f4, as quais, procedidas isoladamente ou de forma coordenada, constituem ameaça permanente de invasão e ganho de material.
Quarto, porque o bispo remanescente das brancas é o assim considerado “bispo bom”, pois que trafega em casas de cor oposta à de seu peão central e4.
Quinto, considerada por muitos como a característica mais importante, no caso de um câmbio de peões e Damas em d4, restará configurada uma maioria quantitativa dos peões brancos na ala do Rei, o que em um final de partida pode representar uma vantagem decisiva.
É por essas razões que Lasker não apreciava o lance 3...a6, procurando demonstrar que tratava-se de perda de tempo, e por isso mesmo apressando-se em trocar seu “bispo espanhol” pelo cavalo de c6. E, como já dito, por ser exímio condutor de finais, colheu expressivo número de vitórias com essa troca.
De outro lado, o que podem fazer as pretas para enfrentar todos os pontos favoráveis alinhados para o lado branco? Também não são poucos os recursos que se oferecem nesse sentido.
Primeiro, a posse do par de bispos, com diagonais centrais importantes para o tráfego dos mesmos, ensejam confortável liberdade de ação.
Segundo, porque ao ficar semi-aberta a coluna “e” pelas trocas ocorridas em d4, o peão branco de e4 surge como alvo natural de ataque frontal, podendo ser objeto de pressão por lances tais como Te8, f6 (ou f5, segundo o caso) e Cg1-e7-g6, o que por certo comprometem as peças brancas na defesa e dificulta o alcance dos objetivos do primeiro jogador.
Terceiro, porque essa maior liberdade de ação das peças geralmente proporciona a abertura de outras linhas, centrais ou periféricas, incrementando assim o poder dos bispos e torres do lado das pretas.
Como se percebe, a aparente simplicidade da posição está muito longe de ser simples, apresentando enorme riqueza de temas estratégicos, os quais, coadjuvados por manobras táticas correspondentes, imprimem à partida um dinamismo bastante característico do xadrez contemporâneo.
Para ilustrar o tema, serão apresentadas duas partidas de Lasker.
Lasker, Emanuel - Tarrasch, Siegbert [C68]

World Championship 8th Germany (1), 17.08.1908


1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 4.Bc6 dc6 5.d4 ed4 6.Dd4 Dd4 7.Cd4 c5 8.Ce2 Bd7 9.b3 Bc6 (pressionando o objetivo de ataque e4) 10.f3 Be7

Um plano equivocado, que não se ajusta às exigências de controle central. Teria sido melhor 10...Bd6 11.Bb2 f6, prosseguindo com o roque maior, intentando pressão sobre o centro mediante ataque frontal ao peão com Ce7-g6 e The8.


11.Bb2 Bf6 (essa oferta de troca anula a suposta vantagem do par de bispos das pretas, para impedir a pressão exercida pelo prelado branco na diagonal a1-h8) 12.Bf6 Cf6 13. Cd2 0–0–0 14.0–0–0 Td7 (procurando o controle das colunas centrais) 15.Cf4 Te8 16.Cc4 b6 17.a4 a5 18.Td7 Cd7 19.Td1 (controlando a coluna d) Ce5 20.Ce5 (trocando peças com vistas a um final superior) Te5 21.c4 (dificultando a ação da maioria quantitativa das pretas na ala da Dama) Te8 22.Ch5 (manobra diversionista para centralização do Rei e colocação das peças pretas em posições passivas) Tg8 23.Td3 f6 24.Rd2 Be8 25.Cg3 Bd7 26.Re3 Te8 27.Ch5 Te7 28.g4 (mobilização consistente da maioria quantitativa na ala do Rei) c6 29.h4 Rc7 (não é possível b5 por 30.ab5 cb5 31 Td5, ganhando material) 30.g5 f5 31.Cg3 fe4 32.Ne4 Bf5 (renunciando a qualquer possibilidade de obtenção de peão passado na ala da Dama, para tentar conter a escalada branca na ala oposta) 33.h5 Td7 34.Tc3 (evitando trocar uma peça ativa por outra com menor poder de ação) Td1 35.Rf4 Bd7 36.Te3 Th1 37.Cg3 Th4+ 38.Re5 Th3 39.f4 Rd8

Como sempre ocorre nesse tipo de posição, pretas tem muitas dificuldades para mobilizar seu Rei na defesa do centro e da ala onde brancas tem maioria.


40.f5 Th4 41.f6 gf6+ 42.Rf6 Be8 43.Cf5 (manobra tática que implementa o plano) Tf4 44.g6 hg6 45.hg6 Tg4 46.Te8+! (o arremate final) Rxe8 47.g7 Rd7 48.Ch4 Tg7 49.Rg7 Re6 50.Cf3 Rf5 51.Rf7 Re4 52.Re6 Rd3 53.Rd6 Rc3 54.Rc6 Rb3 55.Rb5 1–0

Lasker,Emanuel - Capablanca,Jose Raul [C68]

St Petersburg, 1914


Esta partida ficou famosa não tanto pelo seu resultado, mas sim pela forma como ele foi obtido pelo então Campão Mundial Emanuel Lasker.
Até a rodada desse encontro, faltando ainda quatro para o final do torneio, Lasker estava um ponto atrás do jovem líder Capablanca. Portanto, tinha de alcançá-lo a qualquer preço, se quisesse reunir ainda condições de lutar pela primeira colocação.
1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 4.Bc6
Um lance surpreendente, típico do xadrez psicológico de Lasker. Todos sabiam que a Variante do Cambio constituía uma arma letal nas mãos do campeão mundial. Entretanto, poucos acreditavam que ela seria adotada nessa partida, tendo em vista a notável capacidade analítica demonstrada pelo jovem líder. Entretanto, jogando com a natural autoconfiança de Capablanca, Lasker não lhe deu condições de perceber suas intenções agressivas.
4...dc6 5.d4 ed4 6.Dd4 Dd4 7.Cd4
Ao desaparecerem as Damas, era de se perguntar se esse era o modo correto de tentar a vitória em uma partida decisiva...
7...Bd6 8.Cc3 Ce7 9.0–0 0–0 10.f4 Te8
Procurando o controle da coluna central, ao mesmo tempo em que inicia o processo de assédio ao peão e4.
11.Cb3 f6 12.f5!

Esse lance foi recebido com surpresa pelos presentes e comentadores. Contrariando os princípios do Xadrez Clássico, as brancas cedem ao adversário o controle da casa e5, ao mesmo tempo em que deliberadamente enfraquecem sua posição central em face do peão de rei atrasado. E, além disso, tornam quase impossível a realização de sua supremacia numérica de peões na ala do Rei.


Entretanto, Lasker havia enxergado muito mais além...

1   2   3   4   5   6   7


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal