O centro e a natureza da luta no xadrez



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O CENTRO E A NATUREZA DA LUTA NO XADREZ

Ernesto Luiz de Assis Pereira

Clube de Xadrez de Curitiba – CXC

elap@terra.com.br

  1. Preliminares.

No estudo e na prática enxadrística, deparamo-nos cotidianamente com o problema de como proceder em relação ao tipo de posição central que se apresenta a nossa frente. Seja qual for a abertura ou defesa utilizada, temos de elaborar um plano de ação, baseado em princípios de ordem geral e na análise concreta de variantes, que sirva de guia para alcançarmos posição superior ou equilibrar uma situação de inferioridade, segundo o caso.


Existem variados métodos e escolas de treinamento que tratam desse tema. Alguns dão preferência à classificação metódica das aberturas e defesas, com a caracterização e fixação de suas particularidades, posições e lances críticos. Outros se servem de anotações e comentários, próprios ou de grandes mestres, para traçar o modo de tratamento da posição a sua frente, logo após os lances iniciais. Ocorrem ainda outros métodos, resultantes de uma simbiose dos dois precedentes ou até mesmo sob ângulo totalmente diverso. Um deles consiste em se partir das posições típicas de finais de peões, cuja estrutura irá determinar o plano estratégico a ser implementado durante toda a partida.
Inclusive, neste último caso insere-se o célebre tratamento que Emanuel Lasker dava à Variante do Câmbio da Abertura Ruy Lopez:
1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 4.Bc6 dc6 5.d4 ed4 6.Dd4 Dd4 7.Cd4

Mediante troca em c6, Lasker abre mão do par de bispos para dobrar peões pretos na coluna “c”, trocar o peão “d” pelo peão de rei das pretas, obtendo maioria quantitativa de peões na ala do rei, para então entrar em um final com o principal objetivo de explorar essa maioria. Como foi exímio finalista, essa era uma estratégia mortal para o seu adversário, tendo inclusive vitimado jogadores do porte de Steinitz, Tarrasch, Janowsky, Marshall e até o grande Capablanca, este na famosa partida do Torneio de São Petersburgo, em 1914. Coletânea de partidas baixadas do banco de dados do Chessbase revela que, dentre 23 partidas de Lasker com a Variante do Câmbio, ele alcançou expressivos 18,5 pontos (80,43%), com apenas uma derrota frente a Steinitz (tendo ganho outras duas, todas as três jogadas no Campeonato Mundial de 1896-97). Em frente, quando do tratamento do tema central desse artigo, serão apresentadas algumas partidas escolhidas do imortal Campeão.


Modernamente, um método que muitos mestres, teóricos e treinadores costumam adotar consiste em se tratar as posições sob o enfoque do controle de casas centrais e de suas linhas correspondentes. Aqui, inexiste a preocupação inicial de classificação sistemática de aberturas ou defesas, assim como também a necessidade de identificação de posições e variantes críticas. Essas fases ocorrerão somente em momento posterior do estudo, quando os conceitos de controle estiverem suficientemente consolidados na mente do enxadrista, passando-se então ao estágio de refinamento de planos e variantes.
Segundo esse método, as posições derivadas da abertura e do meio-jogo servem fundamentalmente como meio de se proceder a uma leitura estratégica de suas possibilidades, em termos da ocorrência, ou não, de ocupação, bloqueio, linhas abertas, pontos de ruptura, meios de retardo das ações do adversário, invasão da posição adversária, e o mais, tudo isso complementado com manobras diversionistas que procuram atrair as peças contrárias para o lado oposto em que ocorre, ou ocorrerá, a luta decisiva. Como se vê, trata-se de um gigantesco esforço de manobras, sempre tratadas de forma dinâmica, que constituem em síntese o estado da arte do xadrez contemporâneo.
E é justamente desse método que vou fazer breve abordagem neste trabalho.



  1. Controle de casas centrais

Muitos autores definem o centro como o conjunto de 4 casas d4-e4-d5-e5. Afirmam que, dominado o centro, as ações se processam com mais liberdade, em todo o tabuleiro, porque é a partir dessas casas centrais que as peças adquirem sua potência máxima, seja no ataque como na defesa.


Outros teóricos afirmam que o centro é constituído por um conjunto maior, qual seja o quadrado formado pelas 16 casas c3-d3-e3-f3-c4-d4-e4-f4-c5-d5-e5-f5-c6-d6-e6-f6, ao que denominam de centro ampliado.
Seja como for, o fato é que ocorre unanimidade sobre a necessidade de controle desses locais, seja pela sua ocupação, seja pela sua vigilância à distância.



  1. Linhas abertas

Ocorre também unanimidade prática e teórica sobre o tema do controle de linhas abertas, sejam elas colunas, fileiras horizontais (filas) ou diagonais, principalmente aquelas que passam pelas casas centrais ou suas adjacências. Isto porque, bispos, torres e damas exercem sua máxima efetividade quando dispõem de longos trajetos para percorrerem no tabuleiro, podendo ir rapidamente de um ponto a outro, atacando debilidades do oponente ou defendendo pontos críticos próprios.


As linhas adjacentes àquelas que passam pelas casas centrais, localizadas em áreas periféricas do tabuleiro, também desempenham papel importante na organização dos planos estratégicos. Por exemplo, o domínio da sétima fila, da coluna “g” ou da diagonal “h6-f8” (“h3-f1”) sobre o roque adversário, constituem fatores, em grande maioria dos casos, decisivos para a vitória. Entretanto, subordinam-se o mais das vezes ao prévio controle das casas centrais e/ou das linhas abertas que passam pelo centro. cro pontosos trajetos para percorrerem no tabuleiro, podendo ir rapidamente de um ponto a outro, atacando debilidades ou defend



  1. Formas de controle do centro

O conjunto de pressupostos descritos nos itens 2 e 3 retro (controle de casas centrais e de linhas abertas que passam pelo centro), podem ser alcançados de múltiplas formas. E a esse respeito resulta interessante recapitular a forma como esses conceitos de controle evoluíram através do tempo.


Tomando como marco zero o Xadrez Romântico, percebe-se que na fase inicial da partida a atitude do jogador era de um controle agressivo e instantâneo do centro, com o objetivo principal de desfechar um ataque violento e imediato contra o rei adversário. Para tanto, prevaleciam as linhas de gambito, (do Rei, Fegatello, etc.). E o lado defensor tinha unicamente a preocupação de manter o material sacrificado, confiando em sobreviver à tormenta para então fazer prevalecer sua força numérica. São dessa fase os exemplos imortais de mestres como Andersen, Blackburne, e outros.
No Xadrez Clássico, as coisas já mudaram substancialmente. Foram aprimoradas as técnicas de defesa, e a preocupação de domínio do centro tornou-se mais consistente e duradoura. Capitaneados pelo genial Steinitz, os mestres daquela época sabiam que, desde o centro, poderiam aspirar às manobras de ataque e defesa com maior probabilidade de sucesso. Portanto, defendiam seu controle ou domínio via ocupação prévia por peões e peças, para então prosseguir com a luta em outras áreas do tabuleiro. E, em relação aos gambitos, só eram aceitos sob a condição de, na primeira oportunidade, ser devolvido o material para obtenção do equilíbrio, e até mesmo de vantagem ou iniciativa. Caso contrário, as ofertas eram recusadas, preferindo-se manter o controle das casas centrais, seja por trocas, manutenção da tensão ou por contra-ataque, com a finalidade de procurar neutralizar as investidas do adversário. Exemplo típico dessa abordagem constitui a Defesa Ortodoxa do Gambito da Dama:
1.d4 d5 2.c4 e6 3.Cc3 Cf6 4.Bg5 Be7 5.e3 0-0 6.Cf3 Cbd7

Nessa linha, enquanto o lado branco procura minar as defesas do oponente dirigidas ao centro, via pressão com c4, Cc3 e Bg5, procurando com isso o seu domínio com o avanço posterior de peão para e4, as pretas defendem-se recusando a troca em c4, fortalecendo o peão d5 com os lances e6, Cf6, Be7 e Cbd7.

E então sobreveio o Xadrez Hipermoderno. O geniais Reti, Nimzovitsch, Tartakower e seus seguidores apregoaram que o domínio do centro via ocupação sistemática não se constituía na única alternativa de seu domínio. Assim, foram implementados e aperfeiçoados os métodos de controle a distância, onde os fianquetos e os movimentos laterais de peças e peões formavam o arsenal de recursos com essa finalidade. Inclusive, lances como a troca de um peão em d5 por outro de c4, com total abandono de ocupação do centro, considerados heréticos pela escola clássica, foram deliberadamente adotados. É o caso, por exemplo, da Variante das Trocas na Defesa Grünfeld:


1.d4 Cf6 2.c4 g6 3.Cc3 d5 4.cd5 Cd5 5.e4 Cc3 6.bc3 Bg7

Alguns foram mais radicais ainda. Breyer, um dos inconoclastas do hipermodernismo, chegou a afirmar que “Depois e 1.e4, o jogo das Brancas está em sua última agonia”.


Na atualidade, o que existe é uma simbiose complexa de todas essas alternativas. Liderado pela Escola Soviética nos anos 50, o assim denominado Xadrez Dinâmico resume conhecimentos de todas as fases anteriores, e os mestres de hoje têm de se defrontar com mudanças radicais na condução dos planos, seja entre partidas, seja durante uma mesma partida. E, em minha opinião, essa é a característica principal que deu causa a um verdadeiro renascimento do xadrez, como esporte, arte e ciência. Kasparov, à parte as questões que envolvem seu caráter arrogante e de vale-tudo, tecnicamente pode ser considerado o atual representante dessa Escola.
Portanto, considerando-se tudo o que foi exposto, pode-se classificar o controle das casas centrais, por brancas e pretas, conforme o seguinte elenco de alternativas:
a)- Ocupação simultânea, por exemplo, 1.e4 e5. Aqui, tanto brancas como pretas preocupam-se em controlar o centro via posicionamento de peões e peças em suas casas.
b)- Ocupação do centro por um bando e controle a distância por outro, por exemplo 1.d4 Cf6 (ou 1. Cf3 d5). Nesse caso, enquanto um bando preocupa-se com a ocupação física, o outro prefere o controle a distância. Inclusive, em alguns casos chega-se ao extremo de um lado provocar o avanço dos peões centrais do oponente, em operação de duplo gume: sujeitar-se à asfixia por diminuição de território de operações, para em compensação empreender manobras de pulverização dos infantes assim avançados. Exemplo radical dessa tática é a Defesa Alekhine, Variante dos Quatro Peões:

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