O caminho de Emaús



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O caminho de Emaús




Como viver a Eucaristia

Introdução


Participamos todos os dias, ou semanalmente, à Eucaristia e comungamos. Pedimos perdão, rezamos o credo e outras orações, pedindo a Deus que o nosso dia possa dar bons frutos. Talvez, todos os dias, costumamos ler alguma reflexão que alimenta a nossa vida espiritual. No entanto, podemos interrogar-nos se todos estes momentos, inclusive a Eucaristia, são capazes de moldar a nossa vida quotidiana. Será que sabemos participar na Eucaristia? Não caímos, porventura, na rotina? Finalmente, será que a Eucaristia – tal como deveria ser - nos transmite vida, uma vida capaz de ultrapassar a morte?

Em cada Eucaristia, de coração contrito, rezamos o Kyrie Elevon. Escutamos a Palavra de Deus e a homilia, professamos a nossa fé, oferecemos a Deus a nossa vida e recebemos, de Deus, o Corpo e o Sangue de Jesus.

Em cada Eucaristia, finalmente, somos enviados ao mundo, em missão, para renovarmos a face da terra. Por isso, a Eucaristia, resume a vida que somos chamados a viver em Nome de Deus.

Os dois discípulos de Emaús fizeram uma caminhada que vai do ressentimento à gratidão, ou seja, de um coração endurecido a um coração agradecido. Nos deixaremos ajudar por eles. É uma história que fala de perda, presença, convite, comunhão e missão, abarca os cinco aspectos principais da celebração eucarística.


PERDA


13Nesse mesmo dia, dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém; 14e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera. 15Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; 16os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer. (Lc 24-13-16)

O estranho de Nazaré tornara tudo novo


Tinham encontrado Alguém que mudara as suas vidas, Alguém que interrompera de forma radical as suas rotinas diárias e imprimira uma nova vitalidade a sua existência. Com Ele, descobriram o perdão, o amor, uma vida mais forte do que a morte … Por isso, deixaram a sua aldeia e seguiram-no.

Dois homens desiludidos. Caminham lado a lado. Pela sua postura, vê-se que não estão felizes. Caminham lentamente, de ombros encurvados, olhando no chão. Embora sigam o mesmo caminho, parecem não ter destino. Regressam à casa, simplesmente porque não têm outro lugar para onde ir. Um regresso cheio de vazio, desilusão e desespero.


A palavra «perda» exprime bem a dor.

Quando nascemos, perdemos a segurança do ventre materno; quando fomos para a escola, perdemos a segurança da vida familiar; quando arranjámos o trabalho, perdemos a liberdade da juventude; quando casámos ou fomos ordenados, perdemos a alegria de optar; por fim, quando envelhecemos, perdemos a nossa boa aparência, a saúde, os amigos, a nossa independência física e, quando morremos, perdemos absolutamente tudo!

As perdas fazem parte da nossa vida


Há perdas dolorosas: a perda de intimidade devido a separações, a perda de segurança devido à violência, a perda de inocência devido a abusos, a perda de amigos devido a traições, a perda de amor através do abandono, a perda de casa devido à guerra, a perda de bem-estar devido à fome, ao calor ou ao frio, a perda de filhos devido a doenças e acidentes, a perda de pátria devido a sublevações políticas, e a perda de vidas devido a terramotos, inundações, quedas de aviões, bombardeamentos e doenças…

Pessoas como outras. É verdade, algumas dessas perdas trágicas estão longe de nós: pertencem ao mundo dos jornais, da televisão … pertencem aos outros, mas poderiam ser as nossas, enfim, somos pessoas como as outras, pois cada um tem as suas perdas.

A perda dos sonhos. Perdi a capacidade de sonhar. Queria ter sucesso, ser uma pessoa querida e profundamente amada, queria ser generoso, ajudar os outros … mas, como todos os outros, também eu falhei, sinto-me perdido, desnorteado. Sim, perdi a capacidade de sonhar, nem sei como!

Perda de fé. Perdi a capacidade de perseverar, de aproximar-me de Deus. Já não vivo a dor e o sofrimento como formas de testar a minha força de vontade e de aprofundar a minhas convicção. A oração, os sacramentos, a vida em comunidade, o conhecimento do amor de Deus, perderam a força que tinham antigamente. Os ideais do passado, já não conseguem aquecer-me o coração; já não consigo entender as minhas antigas motivações.

Também nós perdemos. … eu perdi, nós perdemos. Enquanto caminhamos, podemos descobrir que muitas – se não a maior parte – dessas perdas, também, fazem parte da nossa vida.

Perda de espírito. Tornei-me uma pessoa preocupada e ansiosa, agarrada às poucas coisas que tenho, vivo o dia-a-dia sem mudar nada … esta falta de espírito é que, muitas vezes, mais me custa reconhecer e confessar.

Perda de entusiasmo. Jesus era tão real para mim, não tinha qualquer dúvida acerca da sua presença na minha vida. Ele era o meu amigo mais íntimo, o meu conselheiro e guia. E agora? Já não penso muito n’Ele, já não tenho vontade de rezar, meditar, falar com Ele. Custa-me reconhecer que perdi o antigo entusiasmo, o fervor pela vida espiritual …

Que fazer das nossas perdas?


Que fazer das nossas perdas? Estamos a ocultá-las? Tentamos ignorá-las, afastá-las como se não fosses companheiras de viagem? A nada serve convencer-nos de que são pequenas comparadas com os nossos ganhos! A nada serve dar a culpa aos outros, à sociedade…

Chorar as nossas perdas. Sim, podemos chorar pelas nossas perdas. Chorando, as perdas são algo de verdadeiramente nosso. Chorar, derramar lágrimas, manifestar o nosso profundo desgosto significa permitir que as nossas perdas desfaçam os nossos sentimentos de segurança e nos conduzam à dolorosa verdade da nossa fragilidade. Entramos, assim, no abismo da nossa própria vida, em que nada é firme, claro ou óbvio, em que tudo se encontra em constante mudança e transformação.

A fragilidade abre o caminho de esperança. A dolorosa consciência da nossa fragilidade, das nossas perdas, abre o caminho da esperança. O coração despedaçado e contrito torna-nos capazes de ouvir os gemidos e as lamentações da humanidade sofredora.

Bem-aventurados os que choram. No meio da nossa dor ressoa uma voz, estranha e chocante, que sempre nos surpreende. É a voz d’Aquele que proclama «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.» Esta voz diz-nos que as nossas «perdas» escondem uma «bênção». Ele não disse: «bem-aventurados os que consolam» Podia Ele ter dito: «bem-aventurados os que consolam», mas não, Ele disse «bem-aventurados os que choram»! As nossas lágrimas são abençoadas! Trazem o dom escondido de uma bem-aventurança. Começam assim a dar-se os primeiros passos de dança … Em certo sentido, os gritos que se elevam das nossas perdas anunciam os nossos cânticos de gratidão.


RESSENTIMENTO OU GRATIDÃO?

A escolha a que não podemos fugir!


Agradecemos, chorando as nossas perdas. Acorremos à Eucaristia com o coração despedaçado, chorando as nossas perdas, não só as nossas, também as do mundo inteiro. Tal como os dois discípulos, também nós dizemos: «Esperávamos... mas perdemos a esperança»; e como eles, voltamos desiludidos, de olhar fixo no chão.

O ressentimento


O ressentimento é uma opção real. Muitos seguem por ele. Quanto mais velhos nos tornamos, maior é a tentação de dizermos: «A vida enganou-me. Não há futuro para mim, já não tenho nada a esperar. A única coisa a fazer é defender o pouco que me resta, para que não venha a perder tudo.»

Como seria a minha vida sem ressentimentos? Estou tão habituado a conversar sobre pessoas de quem não gosto, a guardar recordações de acontecimentos que me provocaram muita dor, ou a agir com desconfiança e medo, que não sei como seria se eu não tivesse motivos de queixa e ninguém com quem me pegar!

O Ressentimento é uma força destrutiva. O ressentimento é uma das forças mais destrutivas da nossa vida. É uma zanga fria que se instala no âmago do nosso ser, endurecendo o nosso coração. Infelizmente, o ressentimento pode tornar-se uma forma de vida que invade todas as nossas palavras e acções, impedindo-nos de o reconhecermos como tal.

Eu, também, alimento os ressentimentos. Estou habituado a lidar com ele, tanto que não sei se desejo de verdade libertar-me: sem quase me aperceber, tenho sentimentos de desconfiança, ciúme e inveja e maus pensamentos … vivo o meu dia na defensiva. O ressentimento é uma reacção tão óbvia perante as nossas inúmeras perdas! A tragédia é que o ressentimento está oculto no interior da Igreja. É esse um dos aspectos mais paralisantes da comunidade cristã.


A Eucaristia, uma escolha diferente


A Eucaristia dá-nos a possibilidade de uma escolha diferente: a gratidão. A palavra «Eucaristia» significa literalmente «acção de graças». Viver a Eucaristia tem tudo a ver com gratidão. Significa viver a vida como um dom, um dom pelo qual estamos gratos, reconciliados com todos, livres de todo o rancor.

Educar-se à gratidão. O primeiro passo é chorar as nossas perdas. As lágrimas são capazes de amaciar os nossos corações endurecidos e de nos abrir a possibilidade de dizermos «obrigado».

Se o ressentimento pode tornar-se um estilo de vida, com toda a sua carga destrutiva. Também a gratidão pode tornar-se um estilo de vida, mas é uma vida diferente que nos faz crescer em humanidade. Mas a gratidão, não é uma reacção espontânea! É preciso reconhecer que a vida é um dom que recebemos de Deus continuamente. No entanto, o grande mistério da Eucaristia consiste precisamente em que, chorando as nossas perdas, aprendemos a conhecer a vida como um dom.

Fragilidade e beleza. A vida é bela, mas esta sua beleza encontra-se intimamente ligada à sua fragilidade e mortalidade. Diariamente fazemos esta experiência – quando apanhamos uma flor, quando vemos uma borboleta a dançar no ar, quando acariciamos um bebé pequenino.

O chamamento à solidariedade. Mas quando tomamos consciência da nossa fragilidade humana, descobrimos que ela não limita a nossa alegria, mas abre-nos o coração para o agradecimento e para a solidariedade. Pela fragilidade, sentimos o chamamento para a solidariedade. É nisso que falhamos, por isso é que imploramos «Senhor, tende piedade de nós». Este grito de súplica diz que estamos dispostos a assumir a nossa responsabilidade. Somos frágeis, mas reconhecemos o nosso papel no âmbito da fragilidade humana.

Senhor, tende piedade de nós!


«Senhor, tende piedade de nós» É o grito do povo de Deus, o grito de pessoas com um coração contrito. é o reconhecimento de que a nada serve acusar Deus, o mundo ou os outros, pois isso não faz justiça plena à nossa verdadeira identidade.

O mal está enraizado no nosso coração. Os dois discípulos regressavam à casa desiludidos, mas também estavam conscientes de que foram os seus próprios chefes o tinham crucificado. O pecado, enfim, é um mal que eles reconheciam presente no seu próprio coração. O mal do mundo pode levar ao desânimo, mas quando o reconhecemos dentro de nós, de coração contrito, torna-se uma estímulo para uma verdadeira conversão.


A esperança de um mundo novo


De um coração despedaçado e contrito brota a esperança de um mundo novo; brota o agradecimento pelo dom da vida e a proclamação de uma vida nova mais forte do que a morte. A história demonstra que todas as vezes que os homens responderam aos males do mundo como uma ocasião para converter o seu próprio coração, abriu-se uma fonte inesgotável de solidariedade …

Assumir a vida como um dom. Há pessoas que consideram as perdas como «puro destino», e os ganhos como «pura sorte». Ora bem, o destino não produz arrependimento e a sorte não suscita a gratidão. Só quando compreendemos que a vida é o dom mais precioso que de Deus recebemos, percebemos que os conflitos da sociedade e do mundo, são também os nossos conflitos, então, podemos optar por ultrapassa-los – com uma vida agradecida, de perdão, paz e amor.

Receber a misericórdia de Deus. O grito «Senhor, tende piedade» tem de brotar de um coração contrito, um coração que não acusa os outros, mas que reconhece a sua quota-parte no pecado do mundo, predispondo-se assim a receber a misericórdia de Deus. Só um coração contrito, é um coração aberto para receber a graça de Deus.

Desespero e esperança. Sim, é assim que nós, geralmente, nos aproximamos da Eucaristia, com uma estranha mistura de desespero e esperança. O desespero: Nós esperávamos um mundo melhor, de amor e paz, mas a verdade é completamente diferente. Assim, perdemos a esperança que alimentava a nossa juventude. O nosso temperamento, os nossos maus hábitos, os nossos ciúmes e ressentimentos … estão lá para nos recordar esta verdade amarga. A esperança: Encontramos pessoas diferentes, conhecemos histórias de gestos de perdão, histórias que falam de bondade e de amor … Escutando com atenção as vozes mais profundas do nosso coração, há um anseio de amor, de unidade e comunhão que não se dissipa.

Basta-te a minha graça! Sim, nós somos pecadores, pecadores incorrigíveis, mas a voz de Deus diz-nos: «Basta-te a minha graça!», por isso voltamos a clamar, implorando a cura do nosso coração. Assim, acreditamos que, no meio das nossas angústias, podemos ainda encontrar um dom que suscite em nós sentimentos de gratidão.

PRESENÇA


Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; 16os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer. 17Disse-lhes Ele: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?» Pararam entristecidos. 18E um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias!» 19Perguntou-lhes Ele: «Que foi?» Responderam-lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré ….

A presença de um Amigo especial. De repente, já não são duas mas três pessoas a caminhar, e tudo se torna diferente. Os dois amigos já não têm os olhos fixos no chão, agora fixam o olhar de um Amigo especial que se juntou a eles no caminho.

Alguém disposto a escutar. É um amigo desejoso de escutar; um coração aberto que escuta as nossas palavras de desilusão, tristeza e confusão …

Alguém que fala de amor. Agora é Ele a falar. As suas palavras são muito claras e directas. Contas coisas que eles bem conheciam … Contudo, parece ouvi-las pela primeira vez. A diferença residia no narrador!



25Jesus disse-lhes, então: «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! 26Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?» 27E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito.

O que parecera tão confuso começava a apresentar-lhes novos horizontes; o que parecera tão opressivo começava a revelar-se libertador; o que parecera fonte de grande tristeza começava a assumir a qualidade de alegria! Os dois discípulos começam gradualmente a aperceber-se que, enfim, as suas pequenas vidas não são tão pequenas, como eles pensavam, mas fazem parte de um grande mistério de amor que se estende para a eternidade.


O chamamento a despertar e a confiar


«Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram!» É um chamamento a despertar. É como dizer: «Enquanto continuais a lamentar as vossas perdas, não podereis compreender que essas perdas se deram para vos tornar capazes de receber o dom da vida.»

Confiar. Jesus convida a CONFIAR. Eles pensavam que aquela perda era irremediável. Não podiam imaginar a glória da Ressurreição! Não compreendiam que as dores da vida presente são como as dores do parto para uma vida nova.


Uma lentidão perigosa


«Ó homens sem inteligência e lentos de espírito». É uma lentidão é perigosa que nos prende na armadilha da nossa estreiteza de pensamento. É a lentidão que nos impede de ver a paisagem completa em que vivemos. É muito possível que cheguemos ao fim da nossa vida sem nunca termos sabido quem somos e para que fomos criados.

A vida é breve. Precisamos de alguém que nos ajude a olhar para a eternidade, isto é, olhar para mais longe, deixando os limites da nossa vida terrena. Precisamos de Alguém que nos abra os olhos! Por isso, Jesus continua a torna-se nosso companheiro e nos explica as escrituras: «Não nos ardia o coração?» Mais tarde, quando tudo tiver acabado, poderemos dizer: «Não nos ardia o coração?». Mas, enquanto Ele caminha ao nosso lado, a proximidade é demasiado grande para que possamos reflectir.


O serviço da Palavra


A Palavra de Deus, proclamada e explicada, é Jesus que se torna presente e nos fala. A sua única razão de ser é fazer arder o nosso coração. Sem essa presença através da palavra, nunca seríamos capazes de reconhecer a sua presença ao partir do pão.

Uma Palavra Sacramental. Através das suas palavras, Jesus tornou-se realmente presente para eles. Foi essa presença que transformou a tristeza em alegria e o luto em dança. É isso que acontece em cada Eucaristia.


CONVITE


28Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. 29Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. 30E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. 31Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença.

Insistir: fica connosco. Aquele “estranho” tornou-se nosso amigo! Incendiou o nosso coração, e abriu-nos os olhos e os ouvidos. Podemos recebe-lo em nossa casa. Eis então o convite: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.»

Jesus quer ser convidado. Jesus actua como se quisesse prosseguir a viagem, mas os dois companheiros insistem para que ele entre … Jesus acaba por aceitar: entra em casa e fica com eles. Jesus nunca nos obriga a aceitar a sua presença. Se não o convidarmos, Ele continuará a ser um estranho e prosseguirá a viagem porque O não convidamos.

O convite faz a diferença. Será que nós O convidamos para nossa casa? Desejamos que Ele venha conhecer a nossa vida mais íntima? Que Ele entre na nossa vida quotidiana? Que Ele nos toque nos pontos em que somos mais vulneráveis? Desejamos verdadeiramente que Ele fique connosco quando vai caindo a noite e o dia já está no ocaso?


COMUNHÃO


Entrou para ficar com eles. 30E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. 31Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no

A mesa, lugar de partilha, de intimidade ou afastamento


A mesa é lugar de encontro e de partilha. Lá, à volta da mesa, revelamos o nosso ser aos outros. É o lugar onde rezamos. É o lugar onde perguntamos: «Como foi o teu dia?» A mesa é o lugar dos sorrisos e das lágrimas. É o lugar onde os filhos sentem a tensão entre os pais, onde os irmãos e as irmãs manifestam a sua ira e os seus ciúmes, em que se fazem acusações e em que os pratos e os copos se tornam instrumentos de violência.

À volta da mesa percebemos se há amizade e comunidade ou ódio e divisão. Precisamente porque a mesa é o lugar da intimidade para todos os membros da família, também é o lugar onde a ausência dessa intimidade mais dolorosamente se revela. Assim aconteceu na Última Ceia. Jesus partilhou o pão e o cálice como sinal de amizade, mas também disse: «Vede, a mão daquele que me vai entregar está comigo à mesa!»

O lugar da hospitalidade. A mesa é o lugar em que todos aqueles que vivem em nossa casa se reúnem e em que o espírito de família, comunidade, amizade, hospitalidade e verdadeira generosidade se podem exprimir e concretizar. Jesus partilha a mesa da comunhão. Jesus aceita o convite e senta-se à mesa com eles. Eles oferecem-lhe o lugar de honra. Jesus ocupa o centro. Eles sentam-se cada um a seu lado. Eles olham para Jesus e Jesus olha para eles. Há intimidade, amizade, comunidade.

É O “Convidado” que também convida


De repente, algo de novo acontece. Uma coisa insignificante para um olhar inexperiente: Jesus, o convidado, passa a ser «quem convida»!

MISSÃO


33Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, 34que lhes disseram: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!» 35E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão.

Uma nova luz. Tudo mudou. As perdas deixaram de ser consideradas debilitantes; a casa deixou de ser um lugar vazio. Os dois caminhantes que tinham iniciado a sua viagem de rosto abatido olham agora um para o outro com os olhos iluminados por uma nova luz.

Uma vida nova e uma nova missão. Jesus deu-lhes o seu espírito, um espírito de divina alegria, de paz, de fortaleza, de esperança e amor. Dissiparam-se as trevas, Jesus está vivo! Não vivo como antes … agora resplandece com uma luz fulgurante, tem um novo alento.

Homens novos. Cléopas e o seu amigo receberam novo coração e um novo espírito. Agora são mais amigos porque são capazes de trocar palavras de consolação e de apoio. Agora são homens novos com uma nova missão: tem algo de importante de anunciar e testemunhar. E percebem que o devem fazer juntos.

Juntos para sempre. Ninguém acreditaria apenas num deles. Mas, se falarem juntos, dar-lhes-ão crédito certamente. Os outros precisam de saber que Jesus está vivo e que eles o reconheceram quando partiu o pão. Não há tempo a perder. «Partamos imediatamente», dizem um ao outro. Calçam depressa as sandálias, pegam nos mantos e nos cajados e voltam correndo.

Ressuscitados com Cristo. Que diferença entre o seu «ir para casa» e o seu regresso a Jerusalém! É a diferença entre dois seres humanos desiludidos e dois amigos cheios de esperança, que caminham rapidamente, correndo, muito excitados, com a notícia a dar aos outros amigos. É a diferença entre a dúvida e a fé, o desespero e a esperança, o medo e o amor.

Homens livres. O regresso à cidade não é isento de perigos, mas eles já não têm medo de nada, tendo reconhecido o seu Senhor, o seu medo dissipou-se. Agora são homens livres para se tornarem testemunhas da ressurreição – seja qual for o preço a pagar. Poderão ser perseguidos e mortos, como Jesus. É um regresso que poderá custar-lhes a vida. Poderão ser chamados a dar testemunho, não só com as palavras, mas também com o seu próprio sangue. No entanto, eles já não receiam o martírio. O Senhor ressuscitado, presente no seu ser mais íntimo, encheu-os de um amor mais forte do que a morte.

Ite Missa est


A Eucaristia termina com um envio, «Ide e anunciai!» As palavras latinas «Ite Missa est», com as quais o sacerdote costumava terminar a missa, significam literalmente: «Ide, é esta a vossa missão.» A comunhão não é o fim. O fim é a missão. «Ide e anunciai. Aquilo que ouvistes e vistes não é apenas para vós. É para os vossos irmãos e irmãs, e para todos aqueles que estiverem preparados para receber o anúncio.

Uma grande surpresa. Os dois companheiros estavam ansiosos de lhes anunciar a boa nova da Ressurreição. Quando chegaram a Jerusalém encontraram os discípulos reunidos... também eles ansiosos por lhes contar a grande notícia. Afinal os que tinham ficado na cidade já tinham ouvido a notícia, embora não tivessem encontrado o Senhor no caminho, nem se tivessem sentado com Ele à mesa. Jesus aparecera a Simão, e Simão era muito mais digno de crédito do que aqueles dois discípulos … Claro que o grupo alegrou-se ao ouvir a sua história, mas esta serviu apenas para confirmar o que já sabiam! Somos chamados a formar uma comunidade, uma família de irmãos e amigos, construir o Corpo de Cristo, o povo da ressurreição: tudo isto para podermos proclamar juntos a toda a gente que a morte não tem a última palavra, que a esperança tem razão de ser porque Cristo ressuscitou, está vivo.

Sempre em missão. A vida eucarística é sempre uma vida de missão. Vivemos num mundo que geme, esmagado pelas suas perdas … É neste mundo que somos enviados.

Os nossos corações ardentes e os nossos ouvidos receptivos e olhos iluminados são agora capazes de reconhecer a presença d’Aquele que encontrámos pelo caminho, que continua a revelar-se a nós entre os pobres, os doentes, os famintos, os prisioneiros, os refugiados e todas as pessoas que vivem no medo.


A missão: não só dar, também receber


Muitas vezes, a missão é vista exclusivamente em termos de dar, mas a verdadeira missão também é receber. Se é verdade que o Espírito de Jesus sopra onde quer, não há ninguém que não possa transmitir esse mesmo Espírito. A longo prazo, a missão só é possível quando não é só dar, mas também receber. É preciso amar, mas também deixar-se amar. Podemos visitar os doentes, consolar os moribundos, dar esperança aos deficientes e aos prisioneiros, acompanhar os refugiados, acolher os migrantes … em breve, porém, ficaremos queimados, se não conseguirmos receber deles o Espírito do Senhor

Os pobres dão a bênção de Deus. O Espírito de Deus está escondido na pobreza, na fragilidade e na dor. Foi por isso que Jesus disse: «Bem-aventurados os pobres, os perseguidos, os que choram.» Por isso, cada vez que estendermos a mão para dar, não as devemos fechar para receber deles o que têm para nos dar. Sem este dar e receber, a missão tornam-se manipuladora. Só dando e recebendo é que o círculo de amor, iniciado na comunidade dos discípulos, pode crescer até abarcar o mundo.


Eucaristia: celebrar a vida


Uma vida mais forte do que a morte. A Eucaristia é celebrada solenemente em catedrais e basílicas, outras vezes para, para um pequeno grupo de pessoas, numa sala, na cela de uma prisão … – longe da vista dos grandes movimentos do mundo, em segredo, com simplicidade, sem velas nem incenso. Contudo, é sempre o mesmo acontecimento, revelando que a vida e mais forte do que a morte e que o amor é mais forte do que o medo.

Uma vida cheia de gratidão. Uma vida eucarística é uma vida transbordante de gratidão. Uma virtude que precisa de ser descoberta, cultivada e vivida com grande cuidado interior. É preciso optar pela gratidão. As nossas perdas, as nossas experiências de rejeição e abandono e os nossos inúmeros momentos de desilusão incitam-nos constantemente à amargura e ao ressentimento. Jesus deixou-nos a Eucaristia para nós podermos optar pela gratidão. É uma escolha minha, uma escolha pessoal. Ninguém poderá fazê-la em meu lugar.

Uma opção sempre possível. A Eucaristia é dom, um dom oferecido gratuitamente. Podemos deixar que Jesus prossiga a sua viagem, assim continuará a ser para nós um estranho. Mas também podemos convidá-LO a entrar na nossa vida interior e permitir que Ele transforme o deserto em jardim, as trevas em luz, os ressentimentos em gratidão. Não somos obrigados a convidá-LO. De facto, a maioria das pessoas O não convida. Mas, consoante a frequência com que tomarmos essa opção, tudo será renovado …. É esta a vida eucarística, a vida em que tudo se transforma numa nova oportunidade de dizer «Obrigado» Àquele que se juntou a nós pelo caminho.

O CAMINHO DE EMAÚS


O caminho de Emaús 1

1

Como viver a Eucaristia 1



Introdução 1

PERDA 2


O estranho de Nazaré tornara tudo novo 2

A palavra «perda» exprime bem a dor. 2

Quando nascemos, perdemos a segurança do ventre materno; quando fomos para a escola, perdemos a segurança da vida familiar; quando arranjámos o trabalho, perdemos a liberdade da juventude; quando casámos ou fomos ordenados, perdemos a alegria de optar; por fim, quando envelhecemos, perdemos a nossa boa aparência, a saúde, os amigos, a nossa independência física e, quando morremos, perdemos absolutamente tudo! 2

As perdas fazem parte da nossa vida 2

Que fazer das nossas perdas? 3

RESSENTIMENTO OU GRATIDÃO? 4

A escolha a que não podemos fugir! 4

O ressentimento 4

A Eucaristia, uma escolha diferente 4

Senhor, tende piedade de nós! 5

A esperança de um mundo novo 5

PRESENÇA 6

O chamamento a despertar e a confiar 7

Uma lentidão perigosa 7

O serviço da Palavra 7

CONVITE 8

COMUNHÃO 8

A mesa, lugar de partilha, de intimidade ou afastamento 8

É O “Convidado” que também convida 9

MISSÃO 9


Ite Missa est 10

A missão: não só dar, também receber 10



Eucaristia: celebrar a vida 11









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