O autor ressalta que a questão dos gêneros varia de acordo com os contextos sócio-culturais de produção da notícia e, a partir daí, faz uma breve explanação sobre as diversas correntes adotadas na Europa e nos Estados Unidos



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VER E DEIXAR VER: MODOS DE REPRESENTAÇÃO DO DOCUMENTÁRIO E ESTRUTURA NARRATIVA DA REPORTAGEM TELEVISIVA SERIADA

Tatiana Alves de Carvalho Costa

Mestranda em Comunicação e Sociabilidade Contemporânea pelo Departamento de Comunicação Social da FAFICH/UFMG. Professora do curso de Comunicação Social - Jornalismo do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais - UnilesteMG

Reinaldo Maximiano Pereira

Professor do Curso de Jornalismo do UnilesteMG



RESUMO:

Este trabalho é um esforço de análise de uma série de reportagens especiais a partir de uma tentativa de aproximação entre os gêneros e práticas jornalísticas e as categorias analíticas do documentário. Esse esforço é parte de uma pesquisa ainda em andamento e que, no presente texto, mostra-se ainda em delineamento. A tentativa inclui ainda a observação das possibilidades de representação dos sujeitos implicados na estrutura e constituição de um formato específico de reportagem televisiva: a reportagem especial seriada. O objeto de nossa análise é uma série de reportagens sobre as eleições, produzida e veiculada pela Rede Minas de Televisão, exibida de 16 a 21 de setembro de 2002 no Jornal Minas 1ª edição.

Palavras-chave: documentário, telejornalismo

ABSTRACT:

This work is an effort to analyse special reports series from an approaching between the journalistic routine and its genders and the documentary analytical categories. This effort is part of a research that is still in progress at the moment. This attempt also includes the observation of subjects representation inside the structure and constituition of a television report with a specific format: the special series report. The object of this analysis is a special series report about brazilian elections, produced by Rede Minas, in 2002, between the days 16 and 21 of september, inside Jornal Minas - first edition .


Keywords: documentary, journalism


INTRODUÇÃO:

Cabeça, off, passagem, nota-pé; texto curto, ordem direta; agilidade, imparcialidade, objetividade. Nada de adjetivos, nada de opiniões, julgamentos, pensamentos em suspenso, idéias incompletas. A técnica do fazer jornalístico, difundida nos manuais e reproduzida em redações, tenta impedir que haja um “alguém”, dotado de toda sua subjetividade, a olhar para o fato, a agir sobre e a partir dele.


Nossa proposta é uma tentativa de ver, na estrutura das reportagens, a presença/resistência dos sujeitos implicados na sua escritura. Partiremos para uma possível investigação das funções da imagem – social e estética - (DELEUZE) no telejornal, para tentarmos identificar uma possível função ética nessas produções. Tentaremos estabelecer um diálogo entre as práticas jornalísticas, a partir das divisões de gêneros e funções, e as teorias que orientam a análise e produção de documentários, com suas divisões em categorias.


Tempos como pressuposto o fato de a reportagem de um telejornal ser construída a partir de uma interação entre sujeitos, interação essa que começa na escolha da pauta e termina na ilha de edição, passando pelo contato direto do repórter com seus personagens/entrevistados. Nossa tentativa é de identificar traços desses sujeitos no telejornalismo – o que, na estrutura das reportagens, permite aos sujeitos falarem, se posicionarem e, ao mesmo tempo, o que, nessa mesma estrutura, tenta impedir que isso ocorra. Para Machado,


“Por mais fechado que seja um telejornal, há sempre ambiguidade suficiente em sua forma significante, a ponto de interditar qualquer ‘leitura’ simples e unívoca, e há também autonomia suficiente, por parte do telespectador, de modo a permitir que ele faça uma triagem do que lhe é despejado no fluxo televisual.” (MACHADO, 2001, p.100)

A defesa do autor é que o telejornal é um complexo sistema composto por distintas vozes que apresentam, cada uma de seu lugar específico, uma parte da informação sobre determinado evento. Para ele, no telejornal, não há um “ponto de vista imaterial do sujeito onividente”, como, por exemplo, em um filme de ficção ou em determinados tipos de documentário (como os que apresentam traços fortes do modo clássico de Nichols, que veremos adiante). Para o autor, “o telejornal não pode ser encarado como um simples dispositivo de reflexão dos eventos, de natureza especular, ou como um mero discurso de aproximação daquilo que acontece alhures, mas antes como um efeito de mediação.” (id. p.106)


Esta característica – de mediação – do telejornal se dá por causa de sua própria estrutura fundante. Ele é composto por diferentes fontes de informação visual e sonora, incluindo aí a verbal. Apesar da predominância das imagens e sons captados em estúdio ou nos locais dos eventos reportados, há ainda, na sua composição, imagens sintéticas, como as produzidas por computação gráfica, reproduções de fotografias, textos originados por geradores de caracteres, ruídos incidentais, músicas pré-gravadas, entre outros elementos. O que o autor destaca é a necessidade, para a constituição do telejornal, das diversas “vozes” geradoras de informação: os próprios jornalistas e os protagonistas dos eventos.
“o telejornal se constrói da mesma maneira, se endereça de forma semelhante ao telespectaror, fala sempre no mesmo tom de voz e utiliza o mesmo repertório de imagens sob qualquer regime político, som qualquer modelo de tutela institucional (privado ou público), som qualquer patamar de progresso cultural ou econômico.” (MACHADO, 2001, p. 104)
Basta assistir a telejornais de emissoras de diferentes países, como Japão (NHK TV), Chile (TV Chile), Inglaterra (BBC World), Estados Unidos (CNN, Fox News), (Al Jazeera) e Portugal (RTPi), para que se confirme a afirmação do autor. A produção telejornalística brasileira, em sua maioria, obedece ao que poderíamos chamar deste padrão internacional. Historicamente, o modelo aqui adotado, que tem no Jornal Nacional, da Rede Globo, seu primeiro veículo e, até hoje, seu principal representante, é o norte-americano1.

As reportagens são baseadas em “sujeitos implicados no acontecimento, seja diretamente (como é o caso dos protagonistas, aqueles que fazem ou testemunham o evento), seja indiretamente (os enviados da televisão para ‘reportar’ o evento).” Além disso, o autor ressalta o fato dessas vozes terem um “nome” o que, para ele “é também bastante significativo para a individualização do relato, ou mais exatamente, para a identificação de um relato com um sujeito enunciador.”


Apesar de essas vozes terem nomes, elas são identificadas de acordo com a função que ocupam no telejornal, sejam elas repórteres ou fontes externas. A essas fontes são determinados lugares específicos, num processo que podemos chamar de tipificação, que o autor chama de “identificação genérica”. São manifestantes, vítimas, acusados, especialistas, fontes oficiais ligadas a órgãos do governo, comerciantes, donas-de-casa, etc.
A voz do repórter em off ou nas passagens, apresenta traços que marcam o lugar de sua como diferente daquelas dos outros sujeitos. O tom de voz , sua fala pausada, numa busca de perfeição na articulação das palavras, e o encadeamento lógico das frases acabam por distanciá-lo de uma fala cotidiana, próxima do real em que ele, o repórter, está inserido no momento da reportagem e do qual pretende contar sua versão. Apesar desse esforço formal, cenas em que o repórter é visto num diálogo com os outros sujeitos narrados, mesmo que fazendo uma pergunta, mostram a fissura no que parece ser essa tentativa de distanciamento. O repórter aparece então aderido ao real, e não acima ou à margem dele, como que numa posição de mero narrador dos fatos.
Nesse momento, por oposição entre a artificialidade do texto lido em off e a espontaneidade do momento do diálogo captado pela câmara, podemos encontrar, na fissura, evidências da construção intersubjetiva.
Nessa estrutura, um outro sujeito pode aparecer dessa reportagem, não no seu processo de construção, mas na sua exibição. Ao assistirmos a essas peças audiovisuais, nos perguntamos se nelas há espaço para o espectador se posicionar. Não tentaremos aqui realizar análise da recepção desses produtos, mas tentaremos ver, neles mesmos, o que há de espaço para interpretações.
Além disso, pode ser possível observar a manifestação de uma visão de mundo numa grande reportagem. Não queremos discorrer sobre a objetividade jornalística - essa discussão parece não ter mais lugar na contemporaneidade, uma vez que partimos da hipótese de que uma reportagem se constrói numa relação entre sujeitos que se expressam a partir de lugares sócio-culturais que dialogam entre si, ainda que os mecanismos de construção dessa reportagem – cuja aplicação é orientada por manuais - possam tentar anular os traços dessa relação. O repórter, nesse contexto, se apresenta como autor, ainda que possa haver uma estrutura formal que tente impedi-lo. Ao analisarmos a construção dessas peças jornalísticas, procuraremos ver em que medida, desse sofisticado mecanismo de construção, emergem traços dessa autoria.
Partimos do pressuposto que o repórter é um “mediador social dos discursos da atualidade” (MEDINA, 2003). Aqui, nos filiamos à Medina: a autora aponta uma deficiência na “gramática jornalística” em geral que, segundo ela não “dá conta das demandas coletivas” nem de uma escritura que permita a emergência de um “signo da relação” intersubjetiva. Para a autora, esse signo da relação seria uma narrativa dialógica, que traz marcada na sua forma as relações de que fala. Pensamos haver uma possibilidade de aproximação entre essa narrativa dialógica e o que é veiculado hoje nos principais telejornais brasileiros.
Há, no jornalismo, uma tentativa de isenção e distanciamento, que visa evitar juizos de valor. Esse distanciamento, no entanto, pode não conseguir esconder posições – muitas vezes maniqueístas – seja do próprio repórter/autor, seja da própria linha editorial do jornal, para citar uma de suas fissuras mais evidentes. Por mais que os mecanismos possam tentar esconder os sujeitos e a relação entre eles, a tendência, na contemporaneidade, é de uma impossibilidade de se ignorar as relações entre os sujeitos, que são mais fortes que as tentativas de engessamento propostas nos manuais.
Nossa tentativa inclui ainda a construção de um caminho teórico que pretende dar conta de uma análise de produtos jornalísticos audiovisuais a partir dos apontamentos de pesquisadores sobre categorias de análise do documentário. Nossa consideração parte da hipótese de que os documentários e as reportagens jornalísticas guardam traços de semelhança.
Para essa nossa empreitada, escolhemos uma série de seis reportagens especiais sobre as eleições exibidas no mês de setembro de 2002 pela Rede Minas de Televisão. A escolha das reportagens especiais deu-se por conta dos seguintes critérios: o tratamento “especial” dado aos temas, com maior tempo de produção e maior número de profissionais envolvidos; o maior espaço dado ao tema dentro do telejornal – no geral, a duração média dessas reportagens é superior às demais -, e o caráter atemporal dos temas abordados. Mesmo estando atreladas às eleições daquele ano, as reportagens, quando assistidas hoje, não perderam de todo o seu frescor. Além disso, essas reportagens obedecem às regras ditadas pelos manuais e encaixam-se no padrão adotado pela televisão brasileira.


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