O amor segundo Jesus Cristo



Baixar 13,35 Kb.
Encontro10.07.2018
Tamanho13,35 Kb.

O amor segundo Jesus Cristo

Maria Clara Lucchetti Bingemer

            O tempo que vivemos – o final da Quaresma, já se aproximando da Semana Santa – nos põe diante dos olhos a figura de Jesus Cristo que caminha para Jerusalém e que entra na cidade para aí viver sua Paixão e morte.  Mesmo para aqueles que não partilham a fé cristã, mas que vivem no Brasil e mesmo no Ocidente, não há como não ter sua atenção solicitada pelos símbolos e as celebrações que se dirigem aos sentidos e que falam deste mistério que há mais de dois mil anos mobiliza homens e mulheres de todas as raças e latitudes: o mistério de um Deus feito homem que se entrega até a morte pela salvação da humanidade.

            Parece-me que o central neste momento e neste tempo é aquilo em que consiste o núcleo mesmo da mensagem de Jesus: o amor.  Ou melhor, uma nova forma de amar, que ele inaugura para dentro do tempo histórico e que constitui até hoje poderoso ensinamento, sobretudo em tempos de tanto desamor e tanta violência como os que vivemos. 

Amar a Deus sobre todas as coisas e antes de tudo é a primeira revelação que o povo de Israel recebe como Lei e exigência prescritiva de seu Deus.  Amarás o Senhor teu Deus de todas as tuas forças, com todo o teu entendimento...eis a totalidade da revelação de Deus ao povo eleito, revelação que contém em si uma promessa mas também uma exigência.  Declaração que faz com que, muito antes do que ser o povo da Lei e do Livro, Israel tenha que autocompreender-se como o povo do amor.

Porém, toda a experiência de amar e ser amado que caracteriza o caminho do povo de Israel, assim como as exigências ineludíveis e exclusivas desse amor, já desde muito cedo vão mostrar-se como não somente afetivas e sensíveis.  Tem, sim, uma dimensão muito concreta e real, esse amor de Deus que vai exigir a prática , em demonstração de fidelidade a Sua pessoa a prática da justiça e do direito para com todos, em especial   em relação àqueles e àquelas mais desprovidos de força, de voz, de prerrogativas: o órfão, o pobre, a viúva, o estrangeiro.

            É desta maneira de amar a Deus que vai se ocupar o livro do Levítico, quando proclama e descreve a Lei de Santidade, ou seja, o conjunto de preceitos  que têm como denominador comum a santidade de Deus, que deve transparecer em todos os atos e em todas as circunstâncias da vida do povo que é consagrado (qadosh) ao Deus santo (qadosh), resumindo-a no preceito: Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). O  ethos do amor de Deus sobre todas as coisas se levanta como exigência primordial revelado no rosto do outro, do próximo, em quem o  povo deverá  praticar esse amor que lhe é gratuitamente dado.

            O mandamento de amar o próximo como a si mesmo  (Lv 19,18)  combinado com amar ao Senhor Deus de todo o coração, de todo o ser, de todas as forças  (Dt 6,5) será retomado por Jesus para expressar o essencial da Lei de Moisés ( cf. Mt 22,37-39).

            Revelando como seu Pai o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, que exige ser amado sem condições nem restrições, Jesus propõe algo semelhante a seus discípulos.  O Sermão da Montanha   (Mt 5,43-47), carta magna do projeto do Reino de Deus, traz algumas tintas novas sobre a maneira de amar própria que os discípulos de Jesus devem ter.

A própria configuração que Jesus dá ao seu ensinamento sobre o amor é única. Não apenas interpreta o AT, como os doutores e sábios de seu tempo, mas o ultrapassa.  Diz algo novo com base apenas em sua própria autoridade (cf Mc 1, 22.27ss; Mt 5, 21-22; 27-28 ss): " Ouvistes o que foi dito aos antigos...Eu, porém, vos digo..."  Trata-se de uma palavra ao lado ou além "do que foi dito aos antigos..." pelo próprio Deus.O "Eu, porém, vos digo" de Jesus pretende ser a palavra definitiva de Deus. 

Porém, de que tipo de amor se trata? Certamente não tem nada de uma ternura espontânea, feita de afinidade, a qual seria aliás impossível num caso destes.  O termo grego usado para exprimir de que amor se trata, o verbo agapan, mostra que este amor deriva de um querer não compelido pelo constrangimento e pelo medo ao castigo.  Mais ainda, é necessário deixar o campo puramente psicológico, pois o amor cristão - a caridade  - deve exercer-se sob forma de bondade ativa e chegar a efeitos e benefícios concretos.

Jesus, o Filho de Deus, arrasta seus discípulos a limites não suspeitados.  Pois não propõe apenas uma arte de viver neste mundo, mas uma obrigação positiva, um ministério do amor universal.  Neste sentido, vai muito além do próprio dever do perdão: apesar de incluí-lo, a exigência de Jesus de amar os inimigos vai mais longe,  rejeitando o que ainda possa subsistir de condescendência mesmo no perdão, indo até esquecer para não mais pensar senão no dom generoso de si, sem nenhum ressentimento e intenção escondida.

            Trata-se simplesmente de amar, sem inclusive pensamentos estratégicos de manutenção de uma paz utilitária para fins de política eclesiástica, nem de captação de benevolência com vistas a uma propaganda para conversão.  É, portanto, e sem dúvidas, um amor mais divino que humano.  Seria desumano, na verdade, para quem não tivesse a coragem de crer no primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas e por causa disso, “perder-se” a si mesmo a fim de “ganhar Cristo”(cf. Fil 3,8) e atingir, com ele, por ele e n’ele, a semelhança divina.

            A proposta de Jesus aos seus discípulos os convida a não conhecer nem colocar limites quando se trata de amar.  Portanto, amar sobre todas as coisas, porque é assim que Deus mesmo ama. E esse amor é inclusivo universalmente.  Aí estão compreendidos e mesmo preferidos  os pobres, os excluídos, os inimigos, os que nos perseguem, os que nos fazem mal.  Todos, sem exceção.  E isso porque na arte de amar o modelo não pode ser alguém igual a nós, com limites e defeitos.  Mas tem que ser , e é, o próprio Deus, Pai de Jesus Cristo.  

            A pessoa de Jesus, síntese perfeita entre o humano e o divino, vai ser o referencial dos discípulos  para perceber que esse amor não é impossível  aos seres humanos habitados pelo Espírito de Deus.  No final do Evangelho de João, Aquele que se encontra a um passo da Paixão dirá aos seus como testamento: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros.  Como eu vos amei, assim deveis vós amar-vos uns aos outros.  Se tendes amor uns pelos outros, todos reconhecerão que sois meus discípulos.” (Jo 13, 34-35)

            Enquanto contemplamos Jesus que sobe a Jerusalém e que vai ao encontro de sua entrega final por amor, procuremos aprender dele.  O amor é um aprendizado.  Creiamos ou não que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o Verbo Encarnado, certamente esse aprendizado nos faz fazer um bem imenso em tempos onde o amor se encontra tão barateado e distorcido.



* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É também autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.



©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal