O amanuense belmiro – Cyro dos Anjos



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O AMANUENSE BELMIRO – Cyro dos Anjos
I- CONSIDERAÇÕES GERAIS
O amanuense Belmiro é um livro de um burocrata lírico. Um homem sentimental e tolhido, fortemente tolhido pelo excesso de vida interior, escreve o seu diário e conta as suas histórias. Para ele, escrever é, de fato, evadir-se da vida; é a única maneira de suportar a volta às suas decepções, pois escrevendo-as, analisando-as, o amanuense estabelece um movimento de báscule entre a realidade e o sonho.

O amanuense é infeliz. Chegou quase aos quarenta anos sem nada ter feito de apreciável na vida. Sonha, carrega nas costas a enorme trouxa de um passado de que não pode se desprender, porque dentre dele estão as doces cenas da adolescência. De repente, uma noite de carnaval lhe traz a imagem de uma donzela gentil. O amanuense ama, mas à sua maneira: identificando a moça de carne e osso, que mal enxerga de quando em vez, com uma imagem longínqua da namorada da infância, ela própria quase um mito – um mito como a donzela Arabela.

Não é difícil perceber o mal de Belmiro, lírico não realizado, solteirão nostálgico. A sua desadaptação ao meio levou-o à solução intelectual; esta, que falhou como solução vital, permanece como fatalidade, e o amanuense, a fim de encontrar um pouco de calor e de vida, é empurrado para o refúgio que lhe resta – o passado – uma vez que o presente lhe escapa das mãos.

O drama é que o presente se insinua no passado. Se fosse possível viver integralmente no mundo recriado pela memória, haveria a possibilidade de um modus vivendi, quase normal, a seu jeito, como o do narrador do Tempus Perdu (Proust). Acontece, porém, que a sensibilidade de Belmiro, jogando-o como uma bola entre o passado e o presente, perturbado este com arquétipos daquele, desmanchando a pureza daquele com a intromissão das imagens deste, não lhe permite uma existência atual.

Belmiro, então, se entrega ao presente; mas não vive. Submete-se, e readquire o equilíbrio da auto-análise. Sabe que não lhe adianta pensar em como as coisas seriam se não fossem o que são, e concluindo que “a verdade está na Rua Erê”, isto é, na sua casinha modesta e o seu cotidiano, recita com o poeta:

“Mundo mundo, vasto mundo

Se eu me chamasse Raimundo

Seria uma rima, não seria uma solução

Mundo mundo, vasto mundo

Mais vasto é o meu coração.”



Belmiro é o homem que chegou ao estado de paralisia por excesso de análise.
II – PERSONAGENS


  • Belmiro Borba - funcionário público,

-medíocre, tímido, fracassado, tenta evadir-se para o passado escrevendo um diário. - Nele coexistem o lírico e o analista

  • ( “A vida estrangulada pelo conhecimento.”)




  • Silviano - intelectual mergulhado em profundas questões filosóficas.

- Tem tendências aristocráticas.

- Apesar de ser casado, tem vários relacionamentos amorosos.

- Extravagante, de imaginação inquieta, tem facilidade em mentir “A mentira é a base da ordem doméstica.”

- Proximidade com Quincas Borba.




  • Francisquinha e Emília - Constituem o lado louco e rústico da família Borba.

- Constituem o lado rural e interiorano na casa da Rua Erê.


  • Florêncio - Flor de pessoa, homem simples.

  • Incorrigível bebedor de chope.

  • “Homem sem abismos, homem linear.”




  • Jandira - “Mel de Abelha”

  • Belmiro nunca tentou conquistá-la “mais por timidez do que virtude.”

  • Belmiro é seu confidente.

  • Glicério - “Doce, amável.”

  • Bem mais jovem do que Belmiro.

  • Trabalhou na secretaria de Fomento.

  • Tornam-se confidentes e apaixonados pela mesma mulher.




  • Redelvim - “O revolucionário”- esquerdista.

  • Inconformado com as idéias aristocratizantes de Silviano e a vida burguesa de Belmiro.

  • Preso, na revolta comunista do Rio.




  • Outros - Destacam-se, ainda, o vizinho Prudêncio, com sua mania de falar inglês; o vizinho Giovanni e seu filho Pietro, encarnando o sentimentalismo melodramático dos italianos; Carmélia Miranda, responsável pela criação do mito de Arabela; Carolino, o contínuo da secretaria que ganha amizade de Belmiro e de Emília; Jerônimo, estudioso da filosofia de S. Tomás de Aquino; Jorge Figueiredo, noivo de Carmélia, e alguns eventuais amigos de Jandira – além de sua tia Hortênsia - , o Barroso, a professora Alice e o doutorando Dr. Leão.



III - ENREDO

O enredo de “O Amanuense Belmiro é simples. São passagens do cotidiano ocorridas em determinadas épocas do ano e destacadas por datas significantes tais como Natal, Ano Novo, Carnaval, São João, etc.

Tudo se inicia com uma nova rodada de chope numa véspera de Natal entre amigos Belmiro (o protagonista), Florêncio, Silviano, Jerônimo, Glicério e Redelvim. Após alguns chopes, cada um vai para seu lado despedindo-se e desejando “Merry Christmas”.

Belmiro chega a sua casa que fica a Rua Erê, onde mora com duas velhinhas: Emília e Francisquinha, adotadas por ele. Elas resmungam, xingam-no de “Excomungado”, mas gostam dele. Ele ignora esse comportamento das velhinhas por saber que já estão caducas.

No Ano-Novo revê Jandira, uma antiga paixão que nunca se concretiza. Durante toda a história vamos encontrando reflexões do protagonista sobre a vida, o comportamento das pessoas, enfim, o mundo. No Carnaval, mistura-se à massa dos foliões e entre muitas fantasias descobre um braço com uma mão branca e fina que o enlaça.

Era Carmélia Miranda que Belmiro chama de Arabela. É quando o amanuense descobre o amor. Reencontra Jandira que diz estar pretendida por um candidato ao qual não quer corresponder. Belmiro então diz a ela que esta à disposição.

Francisquinha piorou em sua demência cuidando de uma ninhada de ratos que descobriu sob o assoalho.

Chegam as festas juninas e Belmiro fica refletindo sobre a poesia própria que esses dias suscitam.

Em 25 de Agosto de 1935 Belmiro completa 38 anos e apesar da loucura de Emília, ela ainda lembra da data e fala para Belmiro, o que o deixa emocionado. Belmiro pressente que seu grupo de amigos está se dissolvendo, como consolo ainda pensa em Carmélia.

Francisquinha piora de saúde.

Mais alguns encontros com os amigos e velhas filosofias que retornam. No entanto, Belmiro está fazendo um grande esforço para mantê-los unido. Novembro, dia de Finados. Belmiro resolve dar uma volta pelo cemitério e tem um mau pressentimento. Francisquinha volta do hospital, mas durante três dias seu quadro piora.

Emília cuida dela como se cuidasse de uma criança. Francisquinha não resistiu uma semana e Emília foi mais forte que Belmiro, até mesmo na hora de arrumar o corpo para o enterro. Redelvim foi preso sob alegação de se apresentar como comunista. Belmiro é envolvido no problema, mas sem grandes complicações consegue sair do envolvimento.

Na manhã de 3 de Dezembro é anunciado o casamento de Carmélia Miranda com Dr. Jorge de Figueredo. Belmiro surpreende-se com a calma que recebeu a notícia. Achou que quando isso acontece, ficaria muito abalado, porém, não. Novas conversas com os amigos e mais filosofia.

No capítulo 64 há um flash-back que mostra Belmiro, Francisquinha e Emília enfrentando problemas com a Revolução de 30.

Casamento de Carmélia. Belmiro anuncia o fim do grupo chegando às seguintes conclusões: Redelvim é um anarquista, Jandira, socialista; Silviano, um intelectual que não se mistura; Florêncio, um simples burguês que não opina; Glicério, um aristocrata.

Belmiro fica mais resignado e reflete sobre a dissolução do grupo: “Por que hão de os homens separar-se pelas idéias? De bom grado, eu sacrificaria minha idéia mais nobre para não perder um amigo. Neste mundo sou apenas um procurador de amigos”.

Mais um natal. Belmiro está em casa e Emília volta da missa. Nada de novo.

O casamento de Carmélia está marcado para o dia 15 de janeiro do ano seguinte (1936). “Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela a minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico”. São as palavras de Belmiro para mostrar seu desabafo diante da vida.

Belmiro está na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e diz que os cariocas não sabem o valor que tem o mar para os mineiros.

Passa por alguns lugares citados nas obras machadianas.

Volta para Minas Gerais e constata mais uma vez que “a verdade está na Rua Erê”(local em que mora). Sentindo a angústia da solidão, Belmiro vai procurar Silviano. Após alguma ausência, ele surge e os dois têm uma conversa filosófica.

Manhã de 28 de Fevereiro de 1936, Belmiro dá um passeio e observa os jovens alegres nas ruas. Sente também uma alegria e seus olhos se iluminam como se fosse jovem outra vez. Os amigos voltam a se reunir para um chope. Belmiro fica um tempo sem escrever em seu diário e afirma que sente novamente a vida vazia.

Belmiro ganha um bloco de papéis para continuar a escrever de Carolino, um amigo, mas diz a ele que já não precisa desse material, porque já não há mais nada para escrever.

IV- LINGUAGEM E FOCO NARRATIVO





  • Romance narrado em primeira pessoa.

  • Uso de linguagem depurada, com uso de coloquialismo.

  • Belmiro, como literato, usa muitas expressões eruditas em latim e francês.

  • Atento à linguagem do outro, Belmiro reproduz a fala italiana de Giovanni, as expressões em inglês do vizinho Gouveia e de um português que o salvou de um acidente no Rio, além da linguagem rústica de suas irmãs, do interior de Minas.



V- CONTEXTO HISTÓRICO, ESPAÇO E TEMP0





  • A história toda se desenvolve em Belo Horizonte, nos anos 30.

  • É feita uma viagem ao Rio de Janeiro, onde o narrador é invadido por imagens machadianas.

  • As recordações de Belmiro estão relacionadas com a Vila Caraíbas, interior do estado de onde veio.

  • A obra apresenta tempo cronológico, iniciando-se no Natal de1934 e encerrando-se depois do carnaval de 1936.

  • Não se pode descartar o uso do tempo psicológico.

  • O ano de 1935 foi marcado por manifestações comunistas.

  • Surge a Aliança Nacional Libertadora, com Luís Carlos Prestes como presidente.

  • Estouram algumas revoltas em Recife e Olinda, quando Getúlio Vargas manda fechar a ANL.

  • É retratado no livro a revolta no Rio, quando Redelvim ( anagrama de “vem líder”) é preso.

  • São citadas ainda a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932.



VI- BIBLIOGRAFIA



MACIEL, Luiz Carlos Junqueira. XAVIER, Gilberto.

Cadernos de Literatura Comentada. Vestibular 2002\UFMG.

Edições Horta Grande Ltda.


LITERATURA - PROF. GILMAR

O AMANUENSE BELMIRO

“Mundo mundo, vasto mundo


Se eu me chamasse Raimundo

Seria uma rima, não seria uma solução

Mundo mundo, vasto mundo

Mais vasto é o meu coração.”


Belmiro é o homem que chegou ao estado de paralisia por excesso de análise.

II - PERSONAGENS





  • Belmiro Borba - Nele coexistem o lírico e o analista




  • Silviano - Extravagante, de imaginação inquieta tem facilidade em mentir “A mentira é a base da ordem doméstica.”




  • Francisquinha e Emília - Constituem o lado louco e rústico da família Borba.




  • Florêncio -“Homem sem abismos, homem linear.”




  • Jandira - “Mel de Abelha”




  • Glicério - Tornam-se confidentes e apaixonados pela mesma mulher.




  • Redelvim - “O revolucionário”- esquerdista.




  • Outros - Carolino, o contínuo da secretaria que ganha amizade de Belmiro e de Emília.

III - ENREDO





  • Diário em que encontramos um Belmiro ora declaradamente apaixonado e romântico, ora um Belmiro irônico.

  • A vida com as duas velhas.

  • As conversas filosóficas com Silviano, no qual Belmiro descobre que o problema é fáustico.

  • Os encontros com Jandira.

  • O desespero do vizinho italiano Giovanni.

  • Os chopes tomados com Florêncio.

  • A prisão de Redelvim.

  • O noivado e casamento de Carmélia com Jorge.

IV- LINGUAGEM E FOCO NARRATIVO





  • Romance narrado em primeira pessoa.

  • Uso de linguagem depurada, com uso de coloquialismo.

“- Mais amor e menas confiança, disse o magro, fingindo-se zangar.

- Mancou, mesmo, prosseguiu. A sodade apertou, veio ver a nega e foi encanado. (...)”
“Miudinha, interessante, potelée ( gorda, roliça ). Sim, potelée é o termo justo, continuou, preocupado com a precisão vocabular: só os franceses é que classificam bem as mulheres.”

V- CONTEXTO HISTÓRICO, ESPAÇO E TEMPO





  • A obra apresenta tempo cronológico, iniciando-se no Natal de 1934 e encerrando-se depois do carnaval de 1936.

  • Não se pode descartar o uso do tempo psicológico.

  • A história se desenvolve em Belo Horizonte, com passagens na cidade natal de Belmiro e uma viagem ao Rio de Janeiro.

  • Surge a Aliança Nacional Libertadora.

“Enquanto Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo, Redelvim e Jandira tendem para a esquerda. Só eu e Florêncio ficamos calados à margem.”


“Dissipado o receio da remessa para o Rio( Você compreende que seria bem pau, disse. Aqui, pelo menos, não há pedicuros. Lá arrancando unhas, extraem da gente o que querem.)”



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