O alimento dos Deuses



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H.G.WELLS
O ALIMENTO DOS DEUSES

Tradução MARCOS SANTARRITA
Editora Francisco Alves

1984



SUMÁRIO

LIVRO UM — A AURORA DO ALIMENTO

A Descoberta do Alimento 9

A Fazenda Experimental 19

Os Ratos Gigantes 47

As Crianças Gigantes 79

A Minimificência do Sr. Bensington .......... 105
LIVRO DOIS — O ALIMENTO NA ALDEIA

A Chegada do Alimento 119

O Moleque Gigante 137
LIVRO TRÊS — A COLHEITA DO ALIMENTO

O Mundo Alterado 155

Os Amantes Gigantes 177

O Jovem Caddles em Londres.......... 195

Os Dois Dias de Redwood 209

O Cerco Gigante 227


LIVRO UM

A AURORA DO ALIMENTO
A DESCOBERTA DO ALIMENTO
1
Em meados do século dezenove, tornou-se abundante, pela pri­meira vez nesta nossa terra, uma classe de homens, em sua maioria já tendendo para a velhice, conhecidos como "cientistas", embora eles detestem extremamente essa classificação. Detestam tanto a palavra que ela foi cuidadosamente excluída das colunas de Na­tureza, publicação particular e representativa da classe desde o início, como se fosse... aquela outra palavra que serve de base a toda linguagem realmente indecente deste país. Mas o grande público e a imprensa sabem o que fazem, e "cientistas" ficou, e quando eles recebem qualquer tipo de publicidade, o mínimo que os cha­mamos é de "distintos cientistas", "eminentes cientistas" e "conhe­cidos cientistas".

Sem dúvida, tanto o Sr. Bensington quanto o Professor Redwood já eram bastante merecedores de quaisquer dessas clas­sificações antes de chegarem à maravilhosa descoberta de que trata esta história. O Sr. Bensington era membro da Real Sociedade e ex-presidente da Sociedade de Química, e o Professor Redwood ensinava Fisiologia na Faculdade de Bond Street da Universidade de Londres e já fora rudemente atacado, repetidas vezes, pelos antiviviseccionistas. Ambos viviam uma vida de distinção acadêmi­ca desde a juventude.

Eram, decerto, pessoas de aparência nada imponente, como de fato o são todos os verdadeiros cientistas. Há mais imponência pessoal no ator de maneiras mais contidas do que em toda a Real Sociedade. O Sr. Bensington, baixo e muitíssimo calvo, andava li­geiramente encurvado; usava óculos de aros de ouro e botas de feltro cheias de furos, devido aos seus numerosos calos, e o Pro­fessor Redwood tinha uma aparência absolutamente comum. Até descobrirem o Alimento dos Deuses (como devo insistir em chamá-lo), levavam vidas de tão eminente e estudiosa obscuridade que é difícil encontrar alguma coisa para contar aos leitores.

O Sr. Bensington ganhara suas esporas (se se pode empregar tal expressão para um cavalheiro que usava botas de feltro esbura­cadas) pelas esplêndidas pesquisas sobre os Alcalóides Mais Tóxicos, e o Professor Redwood ascendera à eminência... não me lembro exatamente como ascendera à eminência. Só sei que era muito eminente, só isso. Mas imagino que se tratava de um volumoso tra­balho sobre Tempos de Reação, com numerosas lâminas de gráfi­cos esfigmográficos (submeto-me a correcões) e uma admirável ter­minologia nova que fez o trabalho por ele.

O público em geral pouco ou nada via de qualquer desses dois cavalheiros. Às vezes, em lugares como o Real Instituto e a Socie­dade das Artes, via-se algo do Sr. Bensignton, ou pelo menos de sua rosada calvície e uma ponta do colarinho e do casaco, e ouviam-se fragmentos de uma conferência ou relatório que ele imaginava ler audivelmente; e lembro-me de uma vez — um meio-dia no irre­cuperável passado — quando a Associação Britânica estava em Dover, em que fui à seção C. ou D., ou qualquer outra letra, que instalara sua sede num bar, e acompanhei por mera curiosidade duas senhoras de aparência muito séria e com embrulhos, que en­traram por uma porta marcada "Bilhar" e "Sinuca" para uma cho­cante escuridão, quebrada apenas pelo círculo de uma lanterna mágica com os gráficos de Redwood.

Eu via as transparências da lanterna irem e virem, e ouvia uma voz (esqueci o que dizia), que julgo fosse a do Professor Redwood, o chiado da lanterna e outro som, que me mantiveram ali, ainda por pura curiosidade, até que as luzes se acenderam inesperada­mente. E então percebi que o tal som era o mastigar de pãezinhos,, sanduíches e outras coisas que os Associados Britânicos reunidos tinham ido comer ali, ocultos pela escuridão da lanterna mágica.

E Redwood, lembro-me, continuou falando depois que as luzes se acenderam, e indicando o lugar onde seu diagrama devia estar visível na tela — e lá estava mesmo, assim que se restaurou a es­curidão. Lembro-me dele como do homem moreno mais comum, parecendo ligeiramente nervoso, com um ar de quem está preocupa­do com outra coisa e fazendo aquilo naquele momento apenas por um inexplicável senso de dever.

Também ouvi Bensington certa vez — nos velhos tempos — numa conferência educacional em Bloomsbury. Como os químicos e botânicos mais eminentes, era muito autoritário em relação ao ensino — embora eu ache que ele perderia o juízo, de medo, diante de uma classe de internato comum, em meia hora — e até onde posso me lembrar hoje, propunha um aperfeiçoamento do método heurístico do Professor Armstrong, pelo qual, ao custo de trezen­tas ou quatrocentas libras de aparelhos, total abandono de outros estudos e atenção integral de um professor de talento excepcional, uma criança média poderia, com uma forçada e completa dedicação, aprender em dez ou doze anos quase tanta química quanto se pode aprender num desses duvidosos livrinhos didáticos de alguns xelins, tão comuns na época...

Pessoas bastante comuns, como vêem, os dois, fora de suas ciências. Ou, quando muito, do lado imprático do comum. E vocês descobrirão que assim são os "cientistas", como classe, em todo o mundo. O que é grande neles constitui uma dor de cabeça para seus colegas cientistas e um mistério para o grande público; e o que não é, é evidente.

Não há dúvida quanto ao que não é grande neles, pois nenhuma raça humana tem tão óbvia pequenez. No que se refere às relações humanas, vivem num mundo tacanho; suas pesquisas im­plicam infinita atenção e uma reclusão quase monástica; e o que sobra não é muito. Ver algum descobridorzinho de grandes coisas, estranho, tímido, deformado, grisalho e cheio de importância, ri­diculamente enfeitado com a larga fita de uma ordem de Cava­lheiros e oferecendo uma recepção a seus irmãos humanos; ler o desespero de Natureza diante da "negligência para com a ciência" quando o anjo das homenagens natalícias esquece a Real Sociedade; ouvir um incansável liquenologista comentar o trabalho de outro incansável liquenologista — essas coisas obrigam-nos a compreen­der a invariável pequenez dos homens.

E além disso o recife de ciência que esses "cientistazinhos" construíram e estão construindo é tão maravilhoso, tão portentoso, tão cheio de misteriosas promessas apenas entrevistas para o po­deroso futuro da humanidade! Eles não parecem compreender o que estão fazendo. Mesmo o Sr. Bensington, quando escolheu há muito tempo sua vocação, quando consagrou sua vida aos alcalói­des e compostos afins, teve sem dúvida algum sinal da visão—- mais que um sinal. Sem uma grande inspiração, em busca de glórias e posições que só um cientista pode esperar, que jovem daria sua vida a essa obra, como os jovens dão? Não, eles devem ter visto a glória, devem ter tido a visão, mas tão de perto, que os cegou. O esplendor cegou-os piedosamente, e pelo resto de suas vidas eles podem segurar a luz do saber confortavelmente — para que pos­samos ver.

Talvez isso explique o toque de preocupação de Redwood, e o fato de ele ser — disso não pode mais haver dúvida hoje — diferente entre seus colegas; e essa diferença era que ainda guarda­va algo da visão.
2

O Alimento dos Deuses é o nome que dou à substância que o Sr. Bensington e o Professor Redwood criaram juntos; e, levan­do-se em conta o que ele já fez, e tudo que certamente ainda fará, não há dúvida de que não exagero. Mas o Sr. Bensington não gos­taria mais de chamá-lo por esse nome, calmamente, do que de sair de seu apartamento na Sloane Street vestindo escarlate real e com uma coroa de louros. A expressão foi apenas um primeiro brado de entusiasmo dele. Chamou-o de Alimento dos Deuses em seu en­tusiasmo, e durante mais ou menos uma hora, no máximo. Depois disso, concluiu que estava sendo absurdo. Quando pensou pela primeira vez naquilo que via, percebeu, por assim dizer, um pano­rama de enormes possibilidades —- possibilidades literalmente enor­mes — mas diante de tal visão deslumbrante, após um olhar de pasmo, fechou decididamente os olhos, como cabia a um "cientista" consciencioso. Depois disso, Alimento dos Deuses pareceu-lhe um nome tão berrante que chegava à indecência. Surpreendeu-se por ter usado a expressão. Mas apesar de tudo isso permanecia nele algo daquele momento de descortino, que brotava de vez em quando

— Realmente, sabe — disse, esfregando as mãos e rindo nervoso — isso tem um interesse mais que teórico. Por exemplo — confiou, aproximando o rosto do professor, e baixando muito a voz — talvez, se adequadamente tratado, vendesse... Precisamen­te — disse, afastando-se — como Alimento. Ou pelo menos como um ingrediente alimentar. Supondo-se, é claro, que seja palatável. Algo que não podemos saber enquanto não o prepararmos.



Voltou-se no tapete diante da lareira e estudou cuidadosamen­te os buracos em seus sapatos de pano.

O nome? — disse, erguendo o olhar em resposta a uma


pergunta. — De minha parte, inclino-me à boa e velha alusão clás­sica. Torna... torna a res científica... Dá-lhe um toque de velha dignidade. Estive pensando... não sei se você achará um absurdo meu... De vez em quando pode-se usar sem dúvida um pouco de fantasia... Herakleoforbia. Hem? O Alimento de um possível Hércules? Sabe que poderia. . . É claro que, se acha que não...

Redwood refletia, fitando o fogo, e não fez objeção.

Acha que serviria?

Redwood balançou a cabeça gravemente.



— Podia ser Titanoforbia, sabe. Alimento de Titãs... Prefe­re o primeiro? Tem mesmo certeza de que não acha um pouco...

  • Não.

  • Ah! Isso me agrada.

E assim, deram-lhe o nome de Herakleoforbia durante toda a pesquisa e no relatório — o relatório, que jamais foi publicado, devido aos inesperados acontecimentos que perturbaram todos os seus arranjos — está invariavelmente escrito assim. Preparam subs­tâncias afins, antes de darem com aquela que suas especulações ha­viam previsto, e referiram-se a elas como Herakleoforbia I, Hera­kleoforbia II e Herakleoforbia III. É à Herakleoforbia IV que eu — insistindo no nome original dado por Bensington — chamo aqui de Alimento dos Deuses.

A idéia fora do Sr. Bensington, mas como havia sido sugerida por uma das contribuições do Professor Redwood à publicação Transações Filosóficas, ele muito corretamente consultara esse ca­valheiro antes de levá-la adiante. Além disso, tratava-se, como pes­quisa, de um trabalho tanto fisiológico quanto químico.

O Professor Redwood era um desses cientistas viciados em grá­ficos e curvas. Vocês sabem — se são da espécie de leitor que eu gosto — o tipo de documento científico a que me refiro. É um tra­balho no qual não se pode ver pé nem cabeça, e no fim vêm cinco ou seis longos diagramas dobrados, que se abrem e apresentam traços peculiares em ziguezague, raios exagerados ou coisas sinuosas inexplicáveis chamadas "curvas suavizadas", traçadas sobre ordena­das e partindo de abcissas — coisas assim. A gente fica intrigado olhando aquilo um longo tempo, e termina desconfiado de que não apenas não entende, mas de que o próprio autor tampouco enten­de. Mas na verdade, sabem, muitos desses cientistas compreendem muito bem o significado de seus relatórios, e é simplesmente um defeito de expressão que cria o obstáculo entre nós.

Inclino-me a achar que o pensamento de Redwood se processava em traços e curvas. E após seu monumental trabalho sobre Tempos de Reação (pede-se ao leitor não científico que aguente um pouco mais, pois tudo ficará claro como a luz do dia) e ele começou a produzir curvas suavizadas e esfigmografias sobre o Crescimento, e foi na verdade um de seus relatórios sobre isso que deu a idéia ao Sr. Bensington.

Redwood, como sabem, estivera medindo todo tipo de coisas que crescem: gatinhos, cachorrinhos, girassóis, cogumelos, feijoeiros e (enquanto a esposa não pôs um fim à coisa) o seu bebê, e de­monstrara que o crescimento se desenvolvia não num ritmo regular, ou, nos termos dele, assim:
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mas com impulsos e intervalos desse tipo:


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e que ao que parecia nada crescia regular e constantemente; mais ainda: até onde podia perceber, nada podia crescer assim: era como se primeiro toda coisa viva precisasse acumular força, crescesse com vigor apenas por um determinado tempo, e depois tivesse de esperar um período para poder tornar a crescer. Na linguagem obscura e altamente técnica do "cientista" deveras minucioso, Redwood sugeria que o processo do crescimento provavelmente exi­gia a presença no sangue de considerável quantidade de alguma substância necessária que se formava muito devagar, e quando essa substância era consumida pelo crescimento, só se renovava com muita lentidão; enquanto isso, o organismo tinha de marcar passo. Comparara essa substância desconhecida ao óleo nas máquinas. Um animal em crescimento é mais ou menos como uma máquina, dizia ele, que pode mover-se por um certo tempo, e tem de ser reabastecido para poder tornar a funcionar. ("Mas por que não se pode abastecer a máquina de fora?" dissera o Sr. Bensington, quando lera o relatório.) E talvez se descobrisse que tudo isso, dissera Redwood, com a deliciosa e nervosa falta de sequência de sua classe, muito provavelmente lançava alguma luz sobre o mistério de certas glândulas desprovidas de duetos. Como se elas tivessem alguma coisa a ver com aquilo!

Num comunicado posterior, Redwood fora mais adiante. Fornecera uma abundância de diagramas — exatamente como trajetórias de foguetes — e a essência — até onde havia alguma — era que o sangue dos cachorrinhos e gatinhos, a seiva dos girassóis e o suco dos cogumelos, no que ele chamava de a "fase de cresci­mento", diferiam na proporção de certos elementos de seu sangue e seiva quando não estavam crescendo.

Quando o Sr. Bensington, após virar os diagramas de lado e de cabeça para baixo, começara a perceber qual era a diferença, fora tomado de grande espanto. Porque, sabem, era provável que a diferença se devesse à presença da mesmíssima substância que ele tentara isolar recentemente, em suas pesquisas sobre os alcalóides mais estimulantes para o sistema nervoso. Depusera o comunicado de Redwood na prancheta de leitura, que oscilava inconveniente­mente no braço da poltrona, tirara os óculos de aros de ouro, ba­fejara-os e limpara-os com muito cuidado.

Por Júpiter! — dissera.



Depois, recolocando os óculos, voltara-se para a prancheta de leitura, que no mesmo instante, ao tocar o seu braço o braço da poltrona, emitira um rangido canalha e jogara o comunicado, com todos os seus diagramas misturados e amassados, no chão.

Por Júpiter! — dissera o Sr. Bensington, comprimindo a


barriga contra o braço da poltrona, com paciente indiferença aos seus hábitos de conforto, e depois, estando o panfleto ainda fora de seu alcance, pusera-se de quatro para pegá-lo. E fora no chão que lhe ocorrera a idéia de chamá-lo Alimento dos Deuses...

Pois, sabem, se ele estivesse certo e Redwood também, então, injetando-se ou administrando-se aquela sua nova substância no alimento, acabar-se-ia com a "fase de repouso", e em vez de o crescimento processar-se assim:
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continuaria sempre (se estão me acompanhando) assim:
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4
Na noite que se seguiu à sua conversa com Redwood, o Sr. Bensington mal pôde pregar o olho. Pareceu mergulhar numa espécie de modorra, mas foi apenas um momento; depois sonhou que cavava um enorme buraco na terra e despejava toneladas e toneladas de Alimento dos Deuses, e a terra inchava e inchava, e todas as fronteiras dos países explodiam, e toda a Real Sociedade de Geografia trabalhava, como uma poderosa corporação de alfaia­tes, afrouxando o equador.

Foi sem dúvida um sonho ridículo; mas mostra o estado de excitação mental em que entrara o Sr. Bensington — e o verdadeiro valor que dava à sua idéia — muito melhor que qualquer das coisas que disse ou fez quando desperto e em guarda. Senão, eu não o teria mencionado, porque em geral não acho nenhum inte­resse em as pessoas contarem seus sonhos umas às outras.

Por uma singular coincidência, Redwood também tivera um sonho naquela noite, e seu sonho fora assim:
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Era um diagrama traçado em fogo sobre o longo pergaminho de um abismo. E ele (Redwood) achava-se de pé num planeta, diante de uma negra plataforma, fazendo uma conferência sobre o novo crescimento agora possível, para o Mais que Real Instituto de Forças Primordiais, forças que anteriormente, mesmo no cresci­mento das raças, impérios, sistemas planetários e mundos, tinham sido assim:


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E mesmo, em alguns casos, assim:



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E explicava-lhes muito lúcida e convincentemente que tais métodos lentos, retrógrados, sairiam de moda muito rapidamente, com sua descoberta.

Ridículo, sem dúvida! Mas também isso mostra...

Não sugiro nem por um momento que os sonhos devem ser encarados como significativos ou proféticos de qualquer modo, a não ser como já afirmei categoricamente.
A FAZENDA EXPERIMENTAL
1
O Sr. Bensington propôs originalmente experimentar o mate­rial, assim que pudesse prepará-lo de fato, em girinos. Para come­çar, sempre se experimenta esse tipo de coisa em girinos; pois para isso é que os girinos existem. E combinou-se que seria ele quem realizaria as experiências, e não Redwood, porque o laboratório deste estava ocupado com o aparato balístico e animais necessá­rios para uma pesquisa sobre a Variação Diurna na Frequência das Marradas dos Bezerros Machos, um estudo que proporcionava cur­vas de um tipo anormal e desnorteante, e a presença de aquários com girinos era extremamente indesejável enquanto essa pesquisa estivesse em andamento.

Mas quando o Sr. Bensington comunicou à sua prima Jane algo que tinha em mente, ela impôs um imediato veto à entrada de qualquer número considerável de girinos, ou de quaisquer dessas cobaias, no apartamento deles. Não fazia qualquer objeção ao uso, por ele, de um dos quartos do apartamento para experiências quí­micas não explosivas, que no que lhe dizia respeito não davam em nada; e deixara-o ter um fogão a gás, uma pia e um armário her­meticamente trancado, a salvo da tempestade semanal de limpeza da qual ela não abria mão. Tendo conhecido pessoas viciadas em bebida, encarava a preocupação dele em obter distinção nas socie­dades eruditas como um excelente substituto para a outra forma mais vulgar de depravação. Mas qualquer tipo de coisas vivas em quantidade, "coleantes" quando vivas, e malcheirosas quando mortas, ela não podia e não iria suportar. Disse que essas coisas certa­mente seriam insalubres, e Bensington era notoriamente um homem frágil — bobagem dizer que não. E quando Bensington tentara ex­plicar a enorme importância da possível descoberta, ela dissera que estava tudo muito bem, mas se consentisse em deixá-lo bagunçar a casa, tornando-a desconfortável (e tudo se resumia a isso), tinha certeza de que ele seria o primeiro a queixar-se.

O Sr. Bensington pôs-se a andar de um lado para outro da sala, indiferente aos calos, e falou-lhe com muita firmeza e raiva, sem o menor efeito. Disse que nada devia obstruir o Progresso da Ciên­cia, ao que ela respondeu que o Progresso da Ciência era uma coisa, e ter um monte de girinos no apartamento, outra; ele disse que na Alemanha era fato indiscutível que um homem com uma idéia da­quelas teria imediatamente à disposição vinte mil pés cúbicos de la­boratório perfeitamente equipado, ao que ela respondeu que se sen­tia e sempre se sentiria feliz por não ser alemã; ele disse que aqui­lo o tornaria famoso para sempre, ao que ela respondeu que o mais provável era que adoecesse, tendo um monte de girinos num apar­tamento como o deles; ele disse que era o senhor em sua casa, ao que ela respondeu que, a cuidar de um monte de girinos, preferia ir ser zeladora numa escola; e então ele lhe pediu que fosse razoá­vel, ao que ela pediu que ele fosse razoável, e desistisse daquela bobagem de girinos; ele disse que ela devia respeitar suas ideias, ao que ela respondeu que, se fossem malcheirosas, não as respeitaria; e então ele perdeu todo controle e disse — apesar das observações clássicas de Huxley sobre o assunto — um palavrão. Não muito feio, mas o suficiente.

E depois disso ela ficou muitíssimo ofendida e exigiu des­culpas, e a perspectiva de algum dia experimentar-se o Alimento dos Deuses em girinos, no apartamento deles, desapareceu completamente no pedido de desculpas.

Portanto, o Sr. Bensington teve de pensar numa outra forma de realizar as experiências sobre alimentação necessárias para demons­trar sua descoberta, assim que isolasse e preparasse a substância. Por alguns dias, meditou na possibilidade de hospedar os girinos com alguma pessoa digna de confiança, mas depois, vendo casualmente uma frase num jornal, desviou os pensamentos para uma Fazenda Experimental.

E frangos. Assim que pensou na coisa, idealizou-a como uma granja de aves. Teve uma súbita visão de frangos crescendo desen­freadamente. Imaginou um cenário de gigos e galinheiros, gigos cada vez mais desmesurados e galinheiros cada vez maiores. Os frangos são tão acessíveis, tão facilmente alimentados e observados, tão mais enxutos para segurar e medir, que para esse fim os girinos lhe pareciam agora, em comparação, animais muito selvagens e descontrolados. Ficou muito intrigado tentando compreender por­que não pensara em frangos, em vez de girinos, desde o início. En­tre outras coisas, isso teria poupado toda aquela encrenca com a prima Jane. E quando sugeriu isso a Redwood, o outro concordou inteiramente com ele.

Redwood disse estar convencido de que os fisiologistas experimentais cometiam um grande erro trabalhando tanto com animaizinhos imprestáveis. Era exatamente como fazer experimentos em química com uma quantidade insuficiente de material; os erros de observação e manipulação tornavam-se desproporcionalmente gran­des. Era extremamente importante agora que os homens de ciência afirmassem seu direito a ter material grande. Por isso é que ele fazia sua atual série de experiências com Bezerros Machos na Fa­culdade de Bond Street, apesar de certas inconveniências para os estudantes e professores de outras matérias, causadas por sua in­cidental imprudência nos corredores. Mas as curvas que estava obtendo eram excepcionalmente interessantes, e quando publicadas justificariam sobejamente sua escolha. De sua parte, não fosse pela inadequada verba destinada à ciência no país, jamais trabalharia, se pudesse, com algo menor que uma baleia. Mas receava que um Viveiro Público em escala suficiente para tornar isso possível fosse no momento, pelo menos no país, uma exigência utópica. Na Ale­manha ... Etc.

Como os bezerros de Redwood exigiam sua atenção diária, a escolha e preparação da Fazenda Experimental couberam em gran­de parte a Bensington. Todas as despesas também, ficou subenten­dido, correriam por sua conta, pelo menos enquanto não se conse­guisse uma verba. Conseqüentemente, ele alternava seu trabalho no laboratório do apartamento com a procura da fazenda, subindo e descendo as linhas férreas que partem de Londres para o sul, e seus óculos, sua simples calvície e suas botas de feltro laceradas encheram de vãs esperanças muitos donos de inúmeras propriedades indesejáveis. Ele punha anúncios em vários jornais diários e em Natureza, procurando um casal responsável (casado), pontual, ativo e acostumado com aves para administrar inteiramente uma Fazenda Experimental de três acres.

Encontrou o lugar que parecia precisar em Hickleybrow, perto de Urshot, em Kent. Era um lugarzinho isolado e estranho, num vale cercado por velhos bosques de pinheiros, negros e intimidan­tes à noite. Um montinho bossudo isolava-o do crepúsculo, e um sombrio poço com um telheiro caindo aos pedaços apequenava a casa. A pequena habitação não tinha trepadeiras, várias janelas es­tavam quebradas e o galpão da carroça lançava uma mancha negra ao meio-dia. A casa ficava a dois quilómetros e meio da aldeia, e sua solidão era muito duvidosamente aliviada por uma ambígua família de ecos.

O lugar impressionou Bensington como eminentemente adequa­do às exigências da pesquisa científica. Ele percorreu as instalações desenhando gigos e galinheiros com o braço estendido, e achou que a cozinha podia acomodar uma série de incubadeiras e chocadei­ras com um mínimo de alterações. Ficou com o lugar na hora; no caminho de volta a Londres, parou em Dunton Green e contratou um casal aceitável que atendera aos anúncios, e naquela mesma noite conseguiu isolar uma quantidade suficiente de Herakleoforbia I que mais que justificava tais compromissos.

O casal aceitável que se destinava a ser, sob a supervisão do Sr. Bensington, os primeiros distribuidores na terra do Alimento dos Deuses, era não apenas visivelmente muito idoso, mas tam­bém extremamente sujo. O Sr. Bensington não notou esse último ponto, porque nada destrói tanto os poderes de observação geral quanto a vida da ciência experimental. Chamavam-se Skinner, Sr. e Sra. Skinner, e o Sr. Bensington entrevistou-os numa salinha de janelas hermeticamente fechadas, com um espelho de consolo de lareira manchado e algumas raquíticas calceolárias.

A Sra. Skinner era uma mulherzinha bem velha, sem touca, com os cabelos brancos, sujos, muito puxados para trás, esticando um rosto que começara sendo principalmente — e agora, com a perda dos dentes e do queixo, e o engelhamento de tudo mais, ter­minara sendo quase exclusivamente — nariz. Vestia-se de cor de ardósia (até onde seu vestido tinha alguma cor), remendado num lu­gar com flanela vermelha. Recebera-o e falara com ele reservada­mente, olhando-o pelos lados e por cima do nariz, enquanto o Sr. Skinner fazia, segundo ela, alguma alteração em sua aparência. A velha tinha um dente que lhe atrapalhava a fala, e juntava nervo­samente as duas engelhadas mãos compridas. Disse ao Sr. Bensing-ton que cuidara de galinhas durante anos, e sabia tudo sobre incubadeiras; na verdade, eles próprios haviam dirigido uma granja de aves em certa época, e a empresa só fracassara no final por falta de alunos.

— É os aluno que paga — disse a Sra. Skinner.



O Sr. Skinner, quando apareceu, revelou ser um homem de cara larga, com um cicio e uma vesguice que o obrigava a olhar por cima da cabeça dos outros, chinelos esburacados que despertaram a simpatia do Sr. Bensington, e uma manifesta falta de botões. Fe­chava o casaco e a camisa com uma das mãos e riscava desenhos na toalha preta e dourada da mesa com o indicador da outra, enquanto o olho livre observava a espada de Dâmocles, por assim dizer, com uma expressão de triste distanciamento.

Não quer etha fathenda pra ganhar dinheiro. Não, thenhor.


Dá no methmo, thenhor. Ethperiênthia. Prethithamente.

Disse que podiam ir para a fazenda imediatamente. Não faziam nada em Dunton Green, a não ser um pouco de costura.

Não é o bom lugar que eu achava que era, e o que eu ganho mal vale a pena — disse. — Athim, the for conveniente pro thenhor que a gente vá...



E dentro de uma semana o Sr. e a Sra. Skinner achavam-se instalados na fazenda, e o carpinteiro de Hickleybrow diversificava o trabalho de construir gigos e galinheiros com uma sistemática discussão sobre o Sr. Bensington.

  • Ainda não vi muito ele — disse o Sr. Skinner. — Math
    até onde pude ver, me parethe meio maluco.

  • Eu achei ele um pouco doido — disse o carpinteiro de
    Hickleybrow.

  • Pegou a mania de galinha — disse o Sr. Skinner. — Ó
    meu Deuth! É como the ninguém maith thoubethe nada de galinha, thó ele.

Ele parece com uma galinha — disse o carpinteiro de
Hickleybrow. — Com aqueles óculo dele.

O Sr. Skinner aproximou-se do carpinteiro de Hickleybrow e falou de um modo confidencial, um olho triste olhando a aldeia distante, enquanto o outro reluzia de maldade.

Elath tem de ther medida todo thanto dia... todo thatito


dia, ele dithe. Pra ve rthe tão cretendo direito. Ora, theu... hem? Todo thanto dia... todo thanto dia.

E o Sr. Skinner erguia a mão para rir por trás dela de uni modo refinado e contagioso, e sacudia muito os ombros — e só o outro olho não participava da risada. Então, duvidando que o car­pinteiro houvesse pegado a essência da coisa, repetiu num murmú­rio penetrante:

  • Medida.

  • É pior que nosso antigo governador; macacos me morda
    se não é — disse o carpinteiro de Hickleybrow.


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