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TOM KNOX
O SEGREDO DO GÊNESIS




Tradução

Angela Pessoa




2009

Nota do Autor
O Segredo do Gênesis é uma obra de ficção. No entanto, a maioria das referências religiosas, históricas e arqueológicas é inteiramente factual e precisa.
Em particular:

Gobekli Tepe é um sítio arqueológico, talvez com 12 mil anos, que está sendo atualmente escavado no sudeste da Turquia, perto da cidade de Sanliurfa. O complexo de pedras inteiro, pilares e esculturas, foi delibe­radamente enterrado em 8.000 a.C. Ninguém sabe por quê.


Nas regiões vizinhas a Gobekli Tepe, entre os curdos do sul da Turquia e norte do Iraque, existe um grupo de religiões antigas conhecido como Culto dos Anjos. Alguns dos integrantes dessas religiões cultuam um deus chamado Melek Taus.
Agradecimentos
Eu gostaria de agradecer a Klaus Schmidt e ao resto do Instituto Ar­queológico Alemão em Gobekli Tepe; a meus editores e companheiros Ed Grenby, David Sutton, Andrew Collins e Bob Cowan; a todos na William Morris em Londres — em especial à minha agente Eugénie Furniss; e a Jane Johnson, da HarperCollins no Reino Unido.

Gostaria de agradecer também à minha filha Lucy — por continuar a me reconhecer depois que desapareci por vários meses para escrever este livro.


E estendeu Abraão a sua mão, e tomou o cutelo para imolar o seu filho.

Gênesis, 22



1
Alan Greening estava bêbado. Passara a noite toda bebendo em Covent Garden: a começar pelo Punch, onde havia tomado três ou quatro cer­vejas com seus antigos amigos da faculdade. Então foram para o Lamb and Flag, o pub na viela úmida perto do Garrick Club.

Quanto tempo haviam demorado por lá, entornando? Ele não conseguiu lembrar. Porque depois disso tinham ido para o Roundhouse e encontrado mais alguns caras do escritório. E em algum momento os rapazes passaram das canecas de lager aos destilados: vodca, gim-tônica, uísque.

E então cometeram o erro fatal. Tony havia dito: vamos dar uma olhada na mulherada. Eles riram, concordaram, percorreram metade da alameda St. Martins e molharam a mão do segurança para entrar no Stringfellows. O segurança não estava nem um pouco propenso a dei­xá-los entrar, não no começo: mostrou-se cauteloso com os seis rapazes, que obviamente haviam saído para gastar, xingavam e riam e achavam-se para lá de exaltados.

Encrenca.

Mas, Tony exibira parte de seu generoso bônus de mercado finan­ceiro, umas cem libras ou mais, e o segurança sorrira e declarara: É claro, senhor... e depois...

O que havia acontecido depois?

Era tudo um borrão. Um borrão de calcinhas, coxas e drinques. E letonianas nuas e sorridentes, piadas obscenas sobre peles russas, uma polonesa com seios incríveis e quantias imensas gastas nisso, naquilo e naquilo outro.

Alan gemeu. Seus amigos haviam partido em horas diferentes: saindo do clube aos trancos e entrando em táxis. No final restara apenas ele, o último apostador no clube, enfiando uma profusão de notas de dez no fio dental da letoniana, que girava seu corpinho enquanto ele a encarava com adoração, em silêncio, desamparada e estupidamente.

E então, às quatro da manhã, a letoniana parou de sorrir e de re­pente as luzes se acenderam e os seguranças o agarraram pelos ombros e o escoltaram firmemente rumo à porta. Ele não foi atirado na rua como os vagabundos nos bares dos velhos filmes de faroeste — mas foi quase isso.

E agora eram cinco da manhã, e o primeiro latejar da ressaca o alfinetou por trás dos olhos; ele tinha de chegar em casa. Estava na Strand e precisava ir para a cama.

Será que sobrara dinheiro suficiente para um táxi? Ele havia deixa­do os cartões de crédito em casa, mas, sim — Alan vasculhou os bolsos sonolento —, sim, ainda tinha trinta libras na carteira; dava para um táxi até Clapham.

Ou melhor, deveria dar. Mas não havia táxis. Era a hora mais de­serta do dia: cinco da manhã na Strand. Tarde demais para o povo das boates. Cedo demais para os faxineiros dos escritórios.

Alan examinou as ruas. Uma garoa branda de abril caía sobre as calçadas largas e brilhantes do centro de Londres. Um grande ônibus noturno rodava no sentido errado — na direção de St. PauFs. Para onde estaria indo? Ele lutou para diluir a névoa alcoólica da cabeça. Havia um lugar onde sempre era possível conseguir táxis. Ele podia tentar o Embankment. Claro. Sempre havia táxis ali.

Alan continuou a caminhar. Era uma rua antiga: montes de plá­cidas construções georgianas. A garoa continuava a cair. O primeiro indício de uma manhã de primavera clareava o céu por sobre o topo das chaminés antigas. Não havia vivalma por perto.

E então ele ouviu.

Um ruído.

Mas não só um ruído. Parecia: um gemido. Um gemido humano: mas de alguma forma abafado, ou distorcido. Estranho.

Será que havia imaginado? Alan verificou as calçadas, as portas, as janelas. A pequena rua lateral continuava deserta. Todos os prédios ao redor eram escritórios. Ou casas muito antigas convertidas em es­critérios. Quem poderia estar ali àquela hora da madrugada? Um dro­gado? Um sem-teto? Algum bêbado velho, caído em uma sarjeta nas sombras?

Alan optou por ignorar. Era o que os londrinos faziam. Ignoravam. A vida já era bastante complicada naquela cidade imensa, frenética e confusa sem acréscimos ao estresse diário decorrentes de investigar ge­midos estranhos à noite. E além do mais, Alan estava bêbado: estava imaginando o barulho.

Então ouviu novamente: nítido. O lamento terrível e assustador de alguém com dor. Parecia quase alguém dizendo "socorro". Exceto pelo fato de que a palavra saíra parecendo "ooôôlrro".

Que porra era aquela? Alan estava transpirando. Estava assustado agora. Não queria saber que tipo de pessoa — que tipo de coisa — pro­duziria um som como aquele. Ainda assim, precisava descobrir. Todos os seus reflexos morais ordenavam-lhe que ajudasse.

Sob a chuva branda, Alan pensou em sua mãe. No que ela diria. Ela lhe diria que não tinha escolha. Aquilo era um imperativo moral: Alguém Está Com Dor: Portanto, Você Ajuda.

Ele olhou para a esquerda. A voz parecia vir de uma fileira de casas georgianas de tijolos vermelho-escuros e janelas antigas elegantes. Havia uma placa diante de uma das casas, um letreiro de madeira que brilhava sob a chuva e a luz do poste. Museu Benjamin Franklin. Ele não tinha ideia exata de quem fora Benjamin Franklin. Um americano; escritor ou algo assim. Mas na verdade aquilo não importava. Ele tinha certeza de que o gemido partira daquela casa: porque a porta estava aberta. Às cinco da manhã de um sábado.

Alan avistou uma luz fraca do outro lado da porta semiaberta. Fe­chou os punhos uma vez, então duas. Em seguida rumou para a porta e a empurrou.

A porta se abriu por completo. O hall estava silencioso. Havia uma caixa registradora a um canto, uma mesa repleta de folhetos e uma placa onde se lia: Sala de vídeo à direita. O hall achava-se iluminado — pre­cariamente — por luzes noturnas.

O museu parecia tranquilo. A porta estava aberta, mas o interior, perfeitamente silencioso. Não parecia a cena de um roubo.



Ooôôlrro...

Lá estava novamente. O gemido estrangulado. E dessa vez o local de onde vinha era evidente: o porão.

Alan sentiu as garras do medo apertarem seu coração. Mas repri­miu o nervosismo e caminhou com determinação até o final do hall, onde uma porta lateral conduzia a uma escada de madeira que levava ao andar de baixo. Alan desceu, os degraus rangendo sob seu peso, e penetrou em uma adega baixa.

Uma lâmpada exposta pendia do teto. A luz era fraca, mas a cla­ridade, suficiente. Ele olhou em torno. O lugar nada tinha de especial — à exceção de uma coisa. Um dos cantos, no chão, havia sido recente e exaustivamente cavado, a terra estava revolvida — produzindo um grande buraco negro de um metro ou mais no escuro solo londrino.

Foi então que Alan viu o sangue.

Não dava para não notar: a grande mancha pegajosa era nítida e es­carlate, e respingara sobre algo muito branco. Um monte de brancura.

O que era aquela brancura? Penas? Penas de ganso? O quê?

Alan aproximou-se e cutucou a brancura com a ponta do sapato. Era cabelo: cabelo humano talvez. Um monte de cabelo humano raspa­do. E o sangue respingara pavorosamente sobre o topo, como calda de cereja sobre sorvete de limão. Como o aborto de uma ovelha na neve.



Ooôôlrro!

O gemido estava bem próximo agora. Vinha do aposento vizinho. Alan lutou contra o medo uma última vez e atravessou a pequena porta rebaixada que conduzia ao cômodo seguinte.

O interior estava bastante escuro, exceto pela pequena nesga de luz lançada pela lâmpada atrás dele. O gemido sinistro reverberava pelo aposento. Tateando ao lado da porta, Alan deu um tapa no interruptor e inundou o cômodo de claridade.

No centro do aposento, no chão, jazia um velho nu. Sua cabeça havia sido completamente raspada. Brutalmente raspada — a julgar pe­los arranhões e cortes. Alan percebeu que era dali que o cabelo deveria ter saído. Eles haviam raspado o cabelo dele. Quem quer que fossem eles.

Então o velho se mexeu. Seu rosto estava voltado para longe da porta, mas quando as luzes se acenderam, ele virou-se e olhou para Alan. A visão era inquietante. Alan hesitou. O pavor nos olhos do velho era indescritível. Arregalados e vermelhos, seus olhos fitavam o espaço, delirantes de dor.

A embriaguez havia desaparecido: Alan agora se sentia nausean­temente sóbrio. Podia ver por que o homem sentia dores terríveis. Seu peito havia sido marcado, retalhado com uma faca. Um desenho fora gravado em sua pele branca frágil, velha e enrugada.

E por que ele estava gemendo de forma tão estranha? Tão incoe­rente? O homem gemeu novamente. E Alan cambaleou de fraqueza.

A boca do sujeito estava abarrotada de sangue. O sangue escorria-lhe da boca, como se ele tivesse se empanturrado de morangos. Sangue vermelho escoava dos lábios envelhecidos, pingando no chão. Quando ele gemia, mais sangue subia em golfadas e borbulhava, respingando o queixo de sangue coagulado.

E havia um último horror.

O homem segurava alguma coisa. Ele abriu lentamente a mão e estendeu o objeto, sem dizer uma palavra: como se o oferecesse gentil­mente. Um presente.

Alan baixou os olhos para os dedos estendidos.

A mão agarrava frouxamente uma língua humana decepada.


2
O Mercado Carmel estava movimentado. Cheio de vendedores de es­peciarias iemenitas discutindo com sionistas canadenses, donas de casa israelenses examinando costelas de carneiro e judeus sírios armando estandes de CDs de cantoras românticas libanesas. O povo aglomerava-se entre tabuleiros de pimenta, pilhas de latas de azeite de oliva extravirgem e a imensa barraca de bebidas alcoólicas que vendia bons vinhos das Colinas de Golan.

Entre eles achava-se Rob Luttrell, abrindo caminho rumo ao pon­to mais distante do mercado. Queria tomar uma cerveja na cervejaria e charutaria Bik Bik, seu local favorito em Tel Aviv. Rob gostava de ob­servar as celebridades israelenses com seus óculos escuros para enganar os paparazzi. Uns dias atrás, uma atriz novata bem bonitinha até sorrira para ele. Talvez tivesse adivinhado que era um jornalista.

Rob também gostava da cerveja tcheca no balcão de embutidos do Bik Bik: servida em grandes canecos de plástico, caía muito bem com pedaços de salame caseiro e minúsculos pães árabes com kebab apimentado.

— Shalom — disse Samson, o charuteiro turco do Bik Bik. Rob apressou-se a pedir uma cerveja. Então se lembrou das boas maneiras e disse Por favor e Obrigado. Perguntou-se se não estaria ficando ente­diado. Voltara havia seis semanas, e estava de pernas para o ar depois de seis meses no Iraque. Não seria tempo demais?

Sim, ele precisava do descanso. Sim, havia gostado de voltar a Tel Aviv — adorava a alegria e a aura da cidade. E seu editor em Londres fora generoso ao conceder-lhe a licença para se "recuperar". Mas agora estava pronto para a ação novamente. Talvez outro posto em Bagdá. Ou Gaza — as coisas estavam explodindo por lá. As coisas sempre estavam explodindo em Gaza.

Rob tomou um gole de cerveja do copo plástico e caminhou até a varanda do bar para observar ao longe a costa cinza-azulada do Me­diterrâneo. A cerveja estava gelada, dourada e excelente. Rob viu um surfista enfrentando as ondas rumo ao mar aberto.

Seu editor não telefonaria nunca? Rob verificou o celular. A imagem digital de sua filhinha devolveu seu olhar. Sentiu uma severa pontada de culpa. Não a via desde... quando? Janeiro ou fevereiro? Na última vez que estivera em Londres. Mas o que podia fazer? Sua ex-mulher continuava mudando os planos, como se quisesse negar a Rob qualquer acesso. A ânsia de Rob em ver Lizzie era como a fome ou a sede. Havia a sensação cons­tante de que alguma coisa — alguém — estava faltando em sua vida. Às vezes, ele se pegava sorrindo para a filha, e, claro, ela não estava lá.

Rob devolveu o copo de cerveja vazio ao bar.

— Te vejo amanhã, Sam. Vê se não come todos os kebabs!

Samson riu. Rob pagou os shekels que devia e dirigiu-se à praia. Atravessou correndo as pistas movimentadas do trânsito de quinta-fei­ra, esperando não ser morto pelos violentos motoristas judeus tentando lançar uns aos outros ao mar.

A praia de Tel Aviv era seu lugar favorito para pensar. Com os ar­ranha-céus atrás e as ondas e o vento quente e estimulante à frente. E, naquele instante, ele queria pensar na mulher e na filha. Sua ex-mulher e sua filha de 5 anos.

Desejara voltar imediatamente a Londres depois que o jornal or­denou-lhe que deixasse Bagdá. Mas Sally arranjara de repente um novo namorado e anunciara que precisava de "espaço", então Rob decidira permanecer em Tel Aviv. Não queria ficar na Inglaterra sem ver Lizzie. Era torturante demais.

Mas na realidade, de quem era a culpa de tudo aquilo? Rob per­guntava-se até que ponto não fora ele quem causara o divórcio. Sim, ela tivera os casos..., mas ele estivera longe o tempo todo. Mas esse era seu trabalho! Ele era correspondente estrangeiro: e passara dez anos lutando por isso em Londres. Era assim que ganhava dinheiro. E agora estava bem profissionalmente, com 30 e poucos anos, cobrindo todo o Oriente Médio — e não sabia o que fazer com tanta matéria.

Rob perguntou-se se não deveria voltar ao Bik Bik para tomar ou­tra cerveja. Olhou para a esquerda. O hotel Dan Panorama se projetava contra o céu azul — um imenso bloco de concreto, com átrio de vidro chamativo. O estacionamento ficava atrás, quilômetros de vagas para carros estranhamente localizadas no meio da cidade. Ele lembrou-se da história por trás do estacionamento: em 1948, quando a guerra árabe-israelense estourou, aquele havia sido o principal front no conflito ur­bano entre a Tel Aviv judaica e a Jaffa árabe. Então os israelenses ganha­ram e derrubaram as favelas restantes, devastadas pela guerra. E agora aquilo era só um grande estacionamento.

Rob tomou uma decisão. Já que não podia ver Lizzie, podia ao menos ganhar algum dinheiro para mantê-la alimentada e segura. Por­tanto decidiu voltar direto para seu pequeno apartamento em Jaffa e fazer um pouco de pesquisa. Descobrir mais perspectivas a explorar na matéria dos libaneses. Ou correr atrás daqueles garotos do Hamas que haviam se escondido numa igreja.

A cabeça de Rob fervilhava de idéias enquanto ele caminhava pela praia, rumo às antigas casas em frente ao porto: o porto da antiga Jaffa.

Seu celular tocou. Rob verificou a tela, esperançoso. Era um núme­ro inglês, mas não era Sally nem Lizzie nem nenhum dos seus amigos.

Era o seu editor, em Londres.

Rob sentiu a adrenalina subir. Isso! Era esse o momento que ele mais amava em seu trabalho: a ligação inesperada de seu editor. Vá para Bagdá. Vá para o Cairo. Vá para Gaza. Vá Arriscar Sua Vida. Rob adorava esse momento. O fato de nunca saber onde estaria. A sensação assustadora de teatro improvisado: como se ele só fosse um ser humano pleno quando estava ao vivo na TV. Não era de admirar que não conse­guisse sustentar um relacionamento. Atendeu o telefone.



  • Robbie!

  • Steve?

  • Wotcher.1

Como sempre, o forte sotaque cockney2 de seu editor desconcertou Rob por um segundo. Ele ainda era suficientemente americano médio para presumir que os editores do Times sempre falavam o legítimo inglês de Oxford. Mas seu editor estrangeiro falava como um estivador de Tilbury

— e praguejava ainda mais. Às vezes Rob perguntava-se se Steve não exa­gerava um pouco — o sotaque cockney — para se destacar de seus afetados colegas de Oxford. Todos no jornalismo eram muito competitivos.



  • Robbie, parceiro! Tá fazendo o que agora?

  • Na praia, conversando com você.

  • Caralho. Eu queria ter o seu emprego.

  • Você tinha. Mas foi promovido.

— Ah, é — riu Steve. — Mas o que eu queria dizer é, o que é que você tem pra fazer agora? A gente te passou alguma coisa?

— Não.


— Tranquilo, tranquilo. Tá se recuperando daquela merda... da­quela porra daquela bomba.

  • Eu tô bem agora.

Steve assoviou.

  • Aquilo foi foda. Bagdá.

Rob não queria pensar no bombardeio.

  • Então... Steve... onde...

  • Curdistão.

  • O quê? Uau!

Rob ficou imediatamente entusiasmado e também meio assustado. O Curdistão iraquiano. Mosul! Nunca estivera lá, e a região certamente era repleta de matérias. O Curdistão iraquiano!

Mas Steve o interrompeu:

— Não se anima tanto...

Rob sentiu o entusiasmo baixar. Alguma coisa na voz de Steve entregava que não se tratava de uma reportagem de guerra.



  • Steve?

  • Rob, meu parceiro. O que você sabe sobre arqueologia? Rob observou o mar. Um parapente planava sobre as ondas.

  • Arqueologia? Nada. Por quê?

— Bom, é que tem uma... escavação... no sudeste da Turquia. Na parte curda da Turquia.

  • Uma escavação?

  • Isso. Bem interessante. Uns arqueólogos alemães andaram...

— Pinturas nas cavernas? Ossos antigos? Merda... — Robbie sen­tiu uma pungente decepção.

Steve riu.



  • Calma, calma. Peraí.

  • O quê?

— Não dá pra cobrir Gaza o tempo todo. E eu não quero você em nenhum lugar perigoso. Não no momento. — Ele parecia preocupado, quase fraternal. Bastante inesperado. — Você é um dos meus melhores repórteres. E Bagdá foi uma porrada e tanto. Você já se fodeu o suficien­te por um tempo, não acha?

Rob esperou. Sabia que Steve não havia terminado. E, claro, ele explicou:

— Então estou pedindo, muitíssimo educadamente, que você vá até lá e dê uma olhada na porra da escavação na Turquia. Se não tiver problema pra você.

Rob detectou o sarcasmo: não foi difícil. Riu.

— OK, Steve. E você quem manda! Vou dar uma olhada lá numas pedras. Quando você precisa que eu vá?

— Amanhã. Vou mandar as instruções por e-mail.



Amanhã? O tempo era curto. Rob começou a pensar em marcar voo e arrumar malas.

— Tô dentro, Steve. Obrigado.

O editor fez uma pausa, então retornou à linha:


  • Mas, Rob...

  • O quê?

  • Essa matéria é coisa séria. Não é chatice de pedra antiga, não...

  • Como é que é?

  • A escavação já virou notícia por aqui. Você deve ter perdido.

  • Não leio a imprensa arqueológica.

  • Eu leio. Tá muito na moda.

  • E daí?

O ar marinho estava quente. Steve prosseguiu:

— O que eu tô querendo dizer é: esse lugar na Turquia, isso que esses alemães encontraram...

Rob esperou que Steve explicasse os detalhes. Houve uma longa pausa. Por fim, seu editor disse:

— Bom... não é só conversa fiada de ossos, Robbie. É um negócio bem estranho, realmente.


3
No avião para Istambul, Rob bebericou seu gim-tônica aguado em um pequeno copo de plástico transparente com um minúsculo palito. Leu a cópia impressa do e-mail de Steve e algum material que havia encon­trado na internet sobre a escavação turca.

O sítio que estava sendo escavado chamava-se Gobekli Tepe. Rob disse em voz alta:



Gobekli Tepe. — E então mastigou um minipretzel.

Ele continuou a ler.

O sítio era aparentemente apenas mais um de vários assentamentos muito antigos que estavam sendo escavados na Turquia curda. Nevali Çori, Çayönü, Karahan Tepe. Alguns deles pareciam incrivelmente an­tigos. Oito mil anos ou mais. Mas isso era de fato tão antigo? Rob não fazia idéia. Quantos anos tinha a Esfinge? Stonehenge? As pirâmides?

Seu gim-tônica havia terminado, e ele recostou-se c pensou em sua falta de conhecimentos gerais. Por que não sabia a resposta para pergun­tas como aquelas? Porque, é claro, não tinha formação universitária. Ao contrário de seus colegas que possuíam diplomas de Oxford, Londres e UCLA, ou Paris, Munique, Kyoto, Austin ou fossem quais fossem, Rob nada tinha a não ser seu cérebro e sua aptidão para a leitura dinâmica — para digerir informações com rapidez. Fugira dos estudos aos 18 anos. Apesar dos gritos de desespero de sua mãe solteira, ele havia declinado a proposta de várias faculdades e universidades e, em vez disso, entrara dire­to no jornalismo. Mas quem poderia criticá-lo por isso? Rob engoliu outro minipretzel. Ele não tivera escolha. A mãe estava sozinha; seu pai perma­necera nos Estados Unidos, como o canalha sovina e violento que era; Rob crescera na pobreza nos subúrbios mais distantes e sombrios de Londres. Desde muito novo, sempre quisera dinheiro e status tão logo estivessem disponíveis. Ele nunca seria como aqueles garotos ricos que invejava quan­do era rapaz, que podiam perder quatro anos da vida para consumir dro­gas, ir a festas e deixar-se conduzir em ritmo tranquilo rumo a carreiras confortáveis. Ele sempre sentira necessidade de andar logo com tudo.

O mesmo desejo por progresso rápido governara sua vida emo­cional. Quando Sally surgiu, risonha, bonita e inteligente, agarrou-se à felicidade e estabilidade que ela oferecia. O nascimento da filha deles, pouco depois de seu casamento prematuro, pareceu um sinal de que o que ele havia feito fora uma Coisa Muito Boa. Só então percebeu, tarde demais, que sua cinética carreira poderia ser incompatível com a tranquilidade doméstica sedentária.

O assento da classe econômica da El Al estava tão desconfortável como sempre. Rob recostou-se e esfregou os olhos. Então pediu à aero­moça outro gim-tônica. Para revigorar e ajudar a esquecer.

Enfiando a mão na mochila sob seus pés, Rob puxou dois livros da melhor livraria de Tel Aviv, um sobre arqueologia turca e outro sobre evolução humana. Faria uma escala de três horas em Istambul, então pegaria outro voo para Sanliurfa, o longínquo e agreste leste da Anató­lia. Tinha metade do dia para fazer um pouco de leitura dinâmica.

Quando chegaram a Istambul, Rob estava bastante bêbado — e completamente informado sobre a história arqueológica recente da Ana­tólia. Ao que parecia, um local chamado Çatalhüyük era particularmente importante. Descoberto nos anos 50, era um dos povoados mais antigos já escavados — talvez 9 mil anos. As muralhas dessa antiga povoação acha­vam-se cobertas de desenhos de touros, leopardos e falcões. Muitos falcões. Sinais muito antigos da existência de religião. Imagens muito estranhas.

Rob olhou para as fotos de Çatalhüyük. Folheou mais algumas páginas. Então o avião aterrissou no aeroporto de Istambul e Rob pe­gou suas malas na esteira e abriu caminho através da multidão de gordos empresários turcos, parando em uma lojinha onde comprou um jornal americano com uma das últimas notícias a respeito de Gobekli Tepe. Em seguida, dirigiu-se ao terminal para esperar por seu próximo vôo. Sentado no saguão de embarque, leu um pouco mais sobre a escavação.

A história moderna de Gobekli Tepe havia começado em 1964, in­formava o jornal, quando uma equipe de arqueólogos americanos vascu­lhava uma longínqua província do sudeste da Turquia. Os arqueólogos haviam descoberto vários montes de aparência estranha, recobertos por milhares de sílices quebrados: indicação segura de atividade humana antiga. Apesar disso, não fizeram escavações. Como formulou o jornal: "Esses sujeitos agora devem estar se sentindo como o editor que rejeitou o primeiro original de Harry Potter."

Ignorando os roncos da senhora turca adormecida no sofá do aero­porto, bem ao seu lado, Rob continuou a ler.

Três décadas depois do furo dos americanos, um pastor local cui­dava de seu rebanho quando avistou uma coisa esquisita: várias pedras com formatos estranhos na poeira iluminada pelo sol. Eram as pedras de Gobekli Tepe.



Te-pe, disse Rob consigo mesmo. Te-pe. Ele perambulou até en­contrar uma máquina de refrigerantes, comprou uma Coca Diet, então voltou e continuou a ler.

A "redescoberta" do sítio chegou aos ouvidos dos curadores do museu na cidade de Sanliurfa, a 50 quilômetros de distância. As auto­ridades do museu contataram o ministério pertinente que, por sua vez, entrou em contato com o Instituto Arqueológico Alemão em Istambul. E então, em 1994, "o experiente arqueólogo alemão Franz Breitner" foi nomeado pelas autoridades turcas para escavar o sítio.

Rob examinou o restante do artigo. Inclinou o jornal para ver me­lhor. Havia uma foto de Breitner no jornal americano. E, sob a foto, uma citação dele: "Fiquei intrigado. O sítio já possuía um significado emocional para os aldeões. A árvore solitária no monte mais alto é sagrada. Achei que talvez tivéssemos descoberto alguma coisa importante."

Munido dessa intuição, Breitner dera uma olhada melhor. "Em menos de um minuto compreendi que, se não partisse imediatamente, pas­saria o resto de minha vida aqui."

Rob olhou para a foto de Breitner. Ele certamente parecia um pinto no lixo. Seu sorriso era o de um homem que havia ganhado na loteria.

A Turkish Airlines anuncia a partida do vôo TA628 para Sanliurfa...

Rob pegou seu passaporte e seu cartão de embarque e dirigiu-se à fila para entrar no avião, que estava meio vazio. Era evidente que pouca gente ia para Sanliurfa. Lá nos confins do selvagem leste da Anatólia. Lá nos confins do perigoso, empoeirado e insurrecionista Curdistão.

Durante o voo, Rob leu o restante dos documentos e livros sobre a história arqueológica de Gobekli. As estranhas pedras descobertas pelo pastor revelaram-se os topos achatados e oblongos de megálitos, grandes pedras ocres frequentemente esculpidas com imagens extravagantes e delicadas — sobretudo de animais e pássaros. Falcões, abutres e estra­nhos insetos. Serpentes sinuosas eram outro tema frequente. As próprias pedras pareciam representar homens, segundo especialistas — as pedras possuíam "braços" estilizados que se dobravam nas laterais.

Até então, 43 pedras haviam sido escavadas. Achavam-se dispostas em círculos de 5 a 10 metros de diâmetro. Ao redor dos círculos, havia bancos de pedra, pequenos nichos e paredes de tijolo de barro. Rob refletiu sobre o que havia descoberto. Tudo aquilo era razoavelmente interessante. Mas fora a idade do sítio o que de fato deixara as pessoas alvoroçadas. Gobekli Tepe era incrivelmente antiga. De acordo com Breitner, o complexo tinha pelo menos 10 mil, talvez 11 mil anos. Em outras palavras, datava de 8.000-9.000 a.C.

Onze mil anos de idade? Aquilo parecia incrivelmente antigo. Mas seria? Rob voltou ao seu livro de história para comparar essa idade com a de outros locais. Stonehenge foi construído aproximadamente em 2.000 a.C. A Esfinge, talvez em 3.000 a.C. Antes da descoberta e datação de Gobekli Tepe, o "mais antigo" complexo megalítico situava-se em Mal­ta — e datava de 3.500 a.C. aproximadamente.

Gobekli Tepe era, portanto, 5 mil anos mais velha do que qualquer estrutura comparável. Rob dirigia-se a uma das mais antigas constru­ções humanas. Talvez a mais antiga.

Ele sentiu sua Antena Jornalística disparar. A Construção Mais An­tiga do Mundo Descoberta na Turquia? Hmmm. Talvez não rendesse a primeira página, mas era bastante provável que lhe rendesse a terceira. Um grande destaque. Além disso, a despeito das notícias no jornal, ao que parecia nenhum jornalista ocidental de fato fora a Gobekli Tepe. Todos os artigos na mídia ocidental eram de segunda ou de terceira mão, através de agências de notícias turcas. Rob seria o primeiro a chegar.

Sua viagem havia por fim terminado. O avião se inclinou, mergu­lhou e girou até parar no aeroporto de Sanliurfa. A noite estava escura e límpida. Tão límpida que, pelas janelas do avião, na verdade parecia fria. Mas quando a porta se abriu e a escada do avião foi baixada, Rob sentiu uma rajada de ar quente e opressivo. Como se alguém tivesse acabado de abrir um imenso forno. Aquele era um lugar quente. Muito quente. Afinai de contas, eles achavam-se às margens do grande Deserto Sírio.

O aeroporto era minúsculo. Rob gostava de aeroportos minúsculos. Sempre possuíam uma personalidade que faltava aos aeroportos moder­nos, gigantescos e impessoais. E o de Sanliurfa era particularmente idios­sincrático. As malas eram carregadas até o saguão de desembarque por um sujeito gordo e barbado, com colete manchado, e o Controle de Passapor­tes consistia em um sujeito semi-adormecido diante de uma mesa bamba.

No estacionamento do aeroporto, uma brisa morna e poeirenta agitava a folhagem das palmeiras dispersas. Vários motoristas o obser­vavam da fileira de táxis. Rob olhou e escolheu.

— Sanliurfa — disse a um dos mais jovens.

O homem de cavanhaque incipiente sorriu. Sua camisa de brim estava rasgada, mas limpa. Ele parecia amistoso. Mais amistoso do que os outros motoristas, que bocejavam e cuspiam. Melhor ainda, o rapaz parecia saber falar inglês. Depois de um rápido diálogo sobre a tarifa e a localização do hotel de Rob, o motorista pegou a bagagem de Rob e a enfiou, decidido, na mala do carro, então se sentou na frente, balançou a cabeça e disse:

— Urfa! Não Sanliurfa. Urfa!

Rob recostou-se no assento do táxi. Sentia-se bastante cansado a essa altura. Havia sido uma longuíssima viagem desde Tel Aviv. No dia seguinte iria ver a estranha escavação. Mas por ora precisava dormir. O motorista de táxi, contudo, estava disposto a mantê-lo conversando.

— Você quer cerveja? Conheço lugar bom.

Rob gemeu internamente. Campos escuros passavam correndo.



  • Não, obrigado.

  • Mulher? Conheço boa mulher!

  • Hmm, não. Não mesmo.

  • Tapete. Você quer tapete. Eu tenho irmão...?

Rob suspirou e olhou para o retrovisor. Então viu o rosto do moto­rista encarando-o. O sujeito estava sorrindo. Estava brincando.

— Muito engraçado.

O taxista riu.

— Malditos tapetes! — E, sem tirar os olhos da estrada, virou-se e estendeu a mão. Rob a apertou.



  • Meu nome Radevan — disse o motorista. — Você?

  • Robert. Rob Luttrell.

  • Olá, sr. Robert Luttrell.

Rob riu e disse olá. Estavam nos arredores da cidade agora. Pos­tes de luz e lojas de pneus demarcavam a rua vazia, repleta de lixo. A placa de um posto de gasolina Conoco brilhava vermelha na escuridão sufocante. Blocos de concreto de apartamentos erguiam-se de ambos os lados. A sensação de calor estava em toda parte. Ainda assim, Rob via mulheres atrás das janelas em cozinhas afastadas: ainda usando véus.

— Você precisa motorista? Você aqui negócios? — perguntou Radevan.

Rob pensou a respeito. Por que não? O sujeito era amistoso, tinha senso de humor.

— Claro, preciso de um motorista e de um intérprete. Para ama­nhã? Talvez mais.

Radevan esmurrou alegremente o volante com a palma de uma das mãos enquanto acendia um cigarro com a outra. Nenhuma de suas mãos se achava de fato no volante. Rob pensou que fossem sair da estra­da, indo de encontro a uma mesquita iluminada com néon, mas Rade­van moveu o volante e eles voltaram aos trilhos. Entre baforadas em seu cigarro forte, o motorista conversava.

— Posso ajudar você. Eu bom tradutor. Falo curdo, inglês, turco, japonês, alemão.



  • Você fala alemão?

  • Nein.

Rob riu novamente. Estava começando a simpatizar com Radevan, não só por este haver acelerado 16 quilômetros em dez minutos sem bater, como porque já estavam no meio da cidade. Havia barracas fe­chadas de kebab e lojas de baclavá que ficavam abertas até tarde da noite por toda parte. Um homem de terno e um homem com vestimentas árabes. Dois garotos passaram acelerados em um ciclomotor. Mulheres jovens de jeans e lenços vivamente coloridos na cabeça riam de uma piada. Motoristas buzinavam nas proximidades de um cruzamento. O hotel de Rob era bem no centro da cidade.

Radevan estava olhando para Rob pelo retrovisor.

— Sr. Rob, você inglês?

— De certa forma... — disse Rob. Não desejava envolver-se em uma longa discussão sobre sua origem precisa; não naquele momento. Estava cansado demais. — Um pouco.

Radevan forçou um sorriso.

— Eu gosto de ingleses! — Esfregou o indicador e o polegar, como se pedisse dinheiro. — Eles são ricos. Ingleses muito ricos!

Rob deu de ombros.

— Bem... alguns.

Radevan insistiu.

— Dólares e euros! Dólares e libras! — Outro sorriso. — OK, pego você amanhã. Aonde você vai?



  • Gobekli Tepe. Conhece?

Silêncio. Rob tentou novamente.

  • Gobekli Tepe?

Radevan nada disse e parou o carro de repente.

  • Seu hotel — anunciou, sem rodeios. Seu sorriso subitamente desaparecera.

  • Hmm... você me encontrar amanhã? — perguntou Rob, pas­sando ao inglês pidgin. — Radevan?

Radevan assentiu com um aceno de cabeça. Ajudou Rob a carregar suas malas até as escadas do hotel e então retornou ao táxi.

  • Você diz... você diz você querer Gobekli Tepe?

  • Isso.

Radevan franziu as sobrancelhas.

— Gobekli Tepe lugar ruim, sr. Rob.

Rob estava diante da entrada do hotel, com a sensação de estar em uma adaptação cinematográfica de Drácula, de Bram Stoker.

— Ei, é só uma escavação, Radevan. Você pode me levar ou não?

Radevan cuspiu na rua. Então entrou no táxi e se inclinou para fora da janela.

— Nove horas amanhã.

O táxi desapareceu, as rodas girando vigorosamente rumo ao tu­multo sufocante das ruas de Sanliurfa.
Na manhã seguinte, depois de um café da manhã composto de ovos co­zidos, queijo de cabra e três tâmaras, Rob entrou no táxi. Eles saíram da cidade. Enquanto seguiam viagem, Rob perguntou a Radevan o porquê de sua atitude em relação a Gobekli.

A princípio o motorista pareceu irritado. Dava de ombros e res­mungava. Mas à medida que as estradas ficaram mais vazias e os vastos campos irrigados predominaram, ele se abriu, tal qual a paisagem.



  • Não é bom.

  • Me conte.

  • Gobekli Tepe podia ser rica. Podia enriquecer povo curdo.

  • Mas?

Radevan tragou com raiva seu terceiro cigarro.

— Olha esse lugar, essas pessoas!

Rob olhou de relance pela janela. Estavam passando por um vila­rejo de casas de barro e esgoto a céu aberto, com crianças sujas brincan­do no lixo. As crianças acenaram para o carro. No outro lado do vilarejo havia uma plantação de algodão, onde mulheres com lenços arroxeados na cabeça curvavam-se sobre a colheita, na terra e na lama, em meio ao calor abrasador. Ele tornou a olhar para seu motorista.

Radevan emitiu um sonoro muxoxo.

— Povo curdo pobre. Eu, eu motorista de táxi. Mas eu falo lín­guas! Ainda assim, eu motorista de táxi.

Rob assentiu com um aceno de cabeça. Estava ciente da insatisfa­ção curda. Da campanha em prol da separação.



  • Governo turco, eles nos mantêm pobres...

  • OK, claro, certo — disse Rob. — Mas não estou entendendo o que isso tem a ver com Gobekli Tepe.

Radevan jogou a guimba do cigarro pela janela. Rodavam nova­mente em campo aberto, o Toyota maltratado chocalhando sobre a es­trada indistinta e suja. À distância, montanhas azuis tremeluziam com o vapor produzido pela quentura.

— Gobekli Tepe podia ser como pirâmides ou como... Stonehenge. Mas eles deixam tudo parado. Podia ter muitos, muitos turistas aqui, pagar dinheiro povo curdo, mas não. Governo turco diz não. Não colocam avisos nem constroem estrada aqui. Igual segredo. — Ele tossiu, cuspiu pela janela e então tornou a levantar o vidro para evitar a poeira ascendente. — Gobekli Tepe lugar ruim — disse novamente, então se calou.

Rob não soube o que dizer. À sua frente, baixas encostas marrom-amareladas passavam continuamente em direção à Síria. Ele viu outro vilarejo curdo, com delgados minaretes erguendo-se acima dos telhados de zinco, como uma torre de vigia sobre um campo de prisioneiros. Rob gostaria de dizer que, se havia algo atrasando os curdos, provavelmente eram suas tradições, seu isolamento e sua religião. Mas não achava que Radevan fosse querer ouvir.

Eles rodaram em silêncio. A estrada piorou e o semi-árido tornou-se mais hostil. Por fim Radevan fez o carro derrapar em outra curva e Rob ergueu os olhos e avistou uma amoreira solitária, absoluta contra o céu sem nuvens. Radevan balançou a cabeça e disse Gobekli, então esta­cionou bruscamente. Girou no assento e sorriu, seu bom humor tendo aparentemente voltado. Em seguida saltou do carro e abriu a porta para Rob, como um chofer, e Rob sentiu-se ligeiramente constrangido. Não queria um chofer.

Radevan voltou para o carro e pegou um jornal que exibia uma grande fotografia de um jogador de futebol. Era evidente que ia esperar. Rob despediu-se e disse três horas? Radevan sorriu.

Girando, Rob subiu a encosta e alcançou o topo. Por trás dele, es­tendiam-se 30 quilômetros de vilarejos poeirentos, deserto desocupado e campos de algodão queimados. À frente, revelava-se uma cena im­pressionante. Em meio à árida desolação, havia sete elevações abruptas. E dezenas de trabalhadores e arqueólogos espalhavam-se ao longo da maior encosta. Os escavadores e trabalhadores erguiam baldes de rochas e trabalhavam a terra com seriedade. Havia barracas, escavadoras mecânicas e teodolitos.

Rob continuou a caminhar, sentindo-se um intruso. Alguns dos escavadores haviam parado de trabalhar e se virado para olhar para ele. Justo quando estava ficando realmente constrangido, um europeu simpático, na casa dos 50 anos, aproximou-se. Rob reconheceu Franz Breitner.

Wilkommen — disse jovialmente o alemão, como se já conhe­cesse Rob. — Você é o jornalista da Inglaterra?


  • Sou.

  • Você é um homem de muita sorte.



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