Noites Do Sertão



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Noites Do Sertão
João Guimarães Rosa
Noites do Sertão

(Corpo de baile)


"Porque em todas as circunstáncias

da vida real, não é a alma dentro de

nós, mas sua sombra, o homem ex-

terior, que geme, se lamenta e de-

sempenha todos os papéis neste tea-

tro de palcos múltiplos, que é a tnra

inteira."

PLOTINO


"Seu ato é, pois, um ato de artista,

comparável ao movimento do dança-

dor; o dançador é a imagem desta

vida, que procede com arte; a arte

da dança dirige seus movimentos; a

vida age semelhantemente com o

vivente."

PLOTINO


"A pedrinha é designada pelo nome

de calculus, por causa de sua peque-

nex, e porque se pode calcar aos pés

sem disso sentir-se dor alguma. Ela

é de um lustro brilhante, rubra como

uma flama ardenle, pequena e redon-

da, toda plana, e muito leve."

RUYSBROECK, o admirável

.. Fui com Assis Chateaubriand, que é o rei dos entusiastas,

e tive de vestir também o uniforme de couro e montar a cavalo

(num esplêndido cavalo paraibano), Jórmando na `guarda

vaqueira' que foi ao campo de aviaçâo receber o Presidente

Getúlio Vargas. A mim coube `comandar' os vaqueiros de Soure

e de Cipó (!). Depoís, o desjïle, brilhante. " (Trecho da carta

que João Guimarães Rosa escreveu ao pai Florduardo Pinto Rosu,

em 15 de julho de I952.

"Do madioca quero a marta e o beiju,

do mundíu quaro a paca e o tatu;

da mulhes quero o rapato, quero o pí!

- quero a paca, quero o tatu, quero o mundí..

Eu, do pai, quero a mr?e, guero a filha:

tambím quero caras rra família

Qutro o galo, quro a galirrha do terreiro,

gutro o menino do capan a do dirrheiso.

uero o boi qutro o cbirt, qutro o guampo

 cumbuco, do balaio, quero o tampo.

Qutro a pimenta, quero o caldo, qutro o molho

- eu do guam o quaro o cb: e, quaro o boi

Qu'í dele, o ido, qu'í de o maluco?

Ëu quero o tampo do balaio, do cumbuco... '

(Coco da fe.rta, do Chico Bubós' , dito Chico Rzbecz, dico

Chico Pcecztz, Chico do Norte, Chico Mouro, Chico Ritz

- m Sirgz, Rznchuiz dz Sitgz, Veredz da Sirg, Bzixío

d Sirgz, Senlo dz Sirgz. )

Dão-Lalalão

(O devente)

SoRoriTe, a bem dizer, não esporeava o cavalo: tenteava-Ihe

leve e leve o fundo do flanco, sem premir a roseta, vezes

mesmo só com a borda do pé e medindo mínimo achego, que

o animal, so parecer, sabia e estimava. Desde um dia, sua

mulher notara isso, com o seu belo modo abaianado - o rir

um pouco rouco, não forte mas abrindo franqueza quase de

homem, se bem que sem perder o quente colorido, qual, que

é do riso de mulher muito mulher: que não se separa de todo

da pessoa, antes parece chamar tudo para dentro de si. Soropita

tomara o reparo como um gabo; e se fazia feliz. Nem dado

a sentir o frio do metal da espora, mas entendendo que o toque

da bota do cavaleiro lhe segredasse um sussurro, o cavalo

ampliava o passo, sem escorrinhar cócega, sem encolher mús-

culo, ocupando a estrada com sua andadura bem balanceada,

muito macia. Era pelo meio do dia. Saíam de Andrequicé.

Soropita ali viera, na véspera, lá dormira; e agora retornava

a casa: num vão, num saco da Serra dos Gerais, sua vertente

sossolã. Conhecia de cor o caminho, cada ponto e cada volta,

e no comum não punha maior atenção nas coisas de todo

tempo: o campo, a concha do céu, o gado nos pastos - os

canaviais, o milho maduro - o nhenhar alto de um gavião -

os longos resmungos da juriti jururu - a mata preta de um

capão velho - os papagaios que passam no mole e batido

vôo silencioso - um morro azul depois de morros verdes -

o papelão pardo dos marimbondos pendurado dum galho, no

cerrado - as borboletas que são indecisos pedacinhos brancos

piscando-se - o roxoxol de poente ou oriente - o deslim

de um riacho. Só cismoso, ia entrado em si, em meio-sonhada

niminação. Sem dela precisar de desentreter-se, amparava o

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cavalo com firmeza de rédea, nas descidas, governando-o nos



trechos de fofo chão arenoso, e bambeando para ceder à von-

tade do animal, ladeira acima, ou nos embrejados e estivados,

e naquelas passagens sobre clara pedra escorregosa, que as

ferraduras gastam em mil anos. Sua alma, sua calma, Soropita

flufa rfgido num devaneio, uniforme.

Por contra, porém, quando picavam súbitos bruscos incidentes

- o bugiar disso-disto de um sagüi, um paspalhar de perdiz,

o guincho subinte de um rato-do-mato, a corrida de uma preá

arrepiando em linha reta o capim, o suasso de asas de um urubu

peneirante ou o perpassar de sua larga sombra, o devôo de um

galo-do-campo de árvore alta para árvore baixa, a machadada

inicial de um picapau-carpinteiro, o esfuzio das grandes vespas

vagantes, o estalado tru de um beija-flor em relampejo - e

Soropita transmitia ao animal, pelo freio, um aviso nervoso,

enquanto sua outra mão se acostumara a buscar a cintura, onde

se acomodavam juntos a pistola sutomática de nove tiros e o

revólver oxidado, cano curto, que não raro ele transferia para o

bolso do paletó. No coldre, tinha ainda um niquelado, cano

longo, com seis balas no tambor. Soropita confiava neles, mesmo

não explicando a rapidez com que, em caso de ufa, sabiam

disparar, simultâneas, essas armas, que ele jamais largava de si.

Vez a vez, esbarrava, e átentava para a farfa da folhagem.

esperando, vigiador, até que se esclarecesse o rebulir com que

a movera algmà bicho. Seus olhos eram mais que bons. E

melhor seu olfato: de meio quilômetro, vindo o vento, captu-

rava o começo do florir do bate-caixa, em seu adejo de perfume

tranqüilo, separando-o do da flor do pequi, que cheirava a um

nojo gordacento; e, mesmo com esta última ainda encaracolada

em botão, Soropita o podia. Também poderia vendar-se e. à

cega, acertar de dizer em que lugar se achava, até pelo rumor

de pisadas do cavalo, pelo tinir, em que pedras, dos rompões

das ferraduras. Nessas direções cruzava, habitual: muita sema-

na, vinha e ia até duas vezes. Durante a mocidade afeito a

estar sempre viajando distâncias, com boiadas e tropas, agora

que se fixara ali nos Gerais o espírito e o corpo agradeciam

o bem daquelas pequenas chegadas a Andrequicé, para com

prar, conversar e saber. Do povoado do Ão, ou dos sítios perto

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alguém precisava urgente de querer vir - segunda, quarta e



sexta - por escutar a novela do rádio. Ouvia, aprendia-a,

guardava na idéia, e, retornado ao Ão, no dia seguinte, a repetia

aos outros. Mais exato ainda era dizer a continuação ao Fra-

quilim Meimefo, contador, que floreava e encorpava os capítulos,

quanto se quisesse: adiante quase cada pessoa saía recontando;

a divulga daquelas estórias do rádio se espraiava, descia a outra

aba da serra, ia à beira do rio, e, boca e boca, para o lado de

lá do São Francisco se afundava, até em sertões.

Soropita pousava em Andrequicé na casa de Jõe Aguial, que

se mudara para o Ão mas conservava aquela moradia ali,

desocupada constantemente. Soropita lá deixava guardada sua

rede. Sobre o seguro: casa antiga, mas de boas portas, que

se fechavam com tranca, tramela e chave. Tinha uns buracos,

disfarçados - agulheiros, torneiras e portilhas - nos tremós

e debaixo das janelas, por onde se pingar para fora o bico do

revólver. Se, de noite, muitos a assaltassem, havia escape pelos

quatro lados, a porta-da-cozinha dando para o bem sabido de

um bamburral, que corria até à estrada. Tinha ganchos em

todos os cômodos, num lugar diferente cada dia a rede podia se

armar. Ainda que, por si, Soropita gostasse mais de dormir

em jirau ou catre. Mesmo com os sonhos: pois, em cama qu,e

a sua não fosse, costumeira, amiúde ele sonhava arrastado,

qnando não um pesadelo de que pusera a própria cabeça

escondida a um canto - depressa carecia de a procurar; e

amanhecia de reverso, virado para os pés; de havia algum

tempo, era assim.

Doralda, sua mulher, nunca pedira para vir junto. O mimo

que alegava: - "Separaçãozinha breve, uma ou outra, meu

Bem, é a regra de primor: tu cria saudade de mim, nunca tu

desgosta..." Desconfiança dela, sem bases. Quisesse o acom-

panhar, ele fazia prazer. Todos no Andrequicé a obsequiavam,

mostravam-lhe muito apreço, falavam antenome: "Dona Do-

ralda". Doralda era formoso, bom apelativo. Uma criancice ela

caprichar: - "Bem, por que tu não me trata igual minha mãe

me chamava, de Dola?" Dizia tudo alegre - aquela voz livre,

firme, clara, como por aí só as moças de Curvelo é que têm.

0 outro apelido - Dadã - ela nunca lembrava; e o nome

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que lhe davam também, quando ele a conheceu, de Sucena, era



poesias desmanchadas no passado, um passado que, se a gente

auxiliar, até Deus mesmo esquece.

Soropita na baixada preferia esperdiçar tempo, tirando anbha

volta em arco, para evitar o brejo de barro preto, de onde o

ansiava o cheíro estragado de folhas se esfíapando, de água

podre, choca, com bichos gosmentos, filhotes de sapos, frias

coisas vivas mas sem sangue nenhum, agarradas umas nas

outras, que deve de haver, nas locas, entre lama, por esconsos.

A nessas viagens, no chapadão, ou quando os riachos cortam,

muita vez se tinha de matar a sede com águas quase assim,

deitadas em feio como um veneno - por não sermos senhores

de nossas ações. Mal mas o píor, que podia ser, de fim de um,

era se morrer atolado naquele ascoso.

Doralda dizia que não, não vínha ao Andrequícé: que aluir

dali, do Ão, só para cidade grande, Pirapora, &lorizonte,

Corinto, com cinema, bom comércio, o chechego do trem-de-

ferro. O resto era roça. - "Mas aqui eu estou de minha, Bem,

estou contente, tu é companhia. . ." Falava sincera, não formava

dúvida. A gente podia fiar por isso, o rompante certo, o riso

rente, o modo despachado. Doralda não tinha os manejos de

acanhamento das mulheres de daquí, que toda hora estão ocul-

tando a cara para um lado ou espiando no chão. Sertaneja do

Norte, encarava ds pessoas, falava rasgado, já tinindo de perto

da Bahia; nunca dizia "não" com um muxoxo. Ralhava que ele

tomasse muito cuidado consigo, pelos altos, pelos matos.

- "Tomo não, Bem. Um dia sucuriú me come. . ." - ele ca-

çoava em responder. Doralda então ficava brincando de olhar

para ele sem píscar, jogando ao sérío: os olhos marrons, mo-

lhavam lume os olhos. Nesses brejos maiores de vereda, e nos

corguinhos e lagoas muito limpas, sucuri mora. As vezes ela

se embalança, amolecida, grossa, so embate da água, feito

escura lingüiça presa pelas pontas, ou sobeja serena no chão

do fundo, como uma sombra; tem quem escute, em certas

:pocas, o chamado dela - um zumbo cheio, um ronco de porco;

mas se esconde é mais, sob as folhas Iargas, raro um pode ver

quando ela sai do poço, recolhendo sol, em tempo bom.

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Nem tudo era perigo: fazia um barulhinho, o cavalo mesmo



tirava de banda, entortado, as orelhas em amurcho, encostadas

no pescoço - conhecia seu cavaleiro. E não era azo de coisa.

Só somente uma pega, que veio dar na ramada, espreguiçava as

asas, pousou no gonçalo-alves, encarquilhando a cauda. Custou

a se dizer, e piou pouco. - "Quase pássaro nenhum canta

agora, na seca..." O cavalo era de fiança: um sviso bastava

com ele antes se falar - e a gente podia desfechar tiro, a

bala passando entre as orelhas dele, que esperava, quieto,

testalto, calmo, nem fitando. O braço de Soropita esbarrara

num dos alforjes; estava bem abotoado, afivelado em seguro.

Ali dentro, trazia para a mulher o presente que a ele mais

prazia: um sabonete cheiroso, sabonete fino, cor-de-rosa.

Do cheiro, mesmo, de Doralda, ele gostava por demais, um

cheiro que ao breve lembrava sassafrás, a rosa mogorim e palha

de milho viçoso; e que se pegava, só assim, no lençol, no

cabeção, no vestido, nos travesseiros. Seu pescoço cheirava a

menino novo. Ela punha casca-boa e manjericão-miüdo na roupa

lavada, para exalar, e gastava vidro cte perfume. Soropita

achava que tanto perfume não devia de se p8r, desfazia o

próprio daquela frescura. Mas ele gostava de se lembrar, deva-

garinho, que estava trazendo o sabonete. Doralda, sinda mal

enxugada do banho, deitada no meio da cama. Tinha ouvido

èontar da casca da cabriúva: um almíscar tão forte, bebente,

encantável, que os bichos, galheiro, porco-do-mato, onça, vi-

nham todos se esfregar na árvore, no pé... Doralda nunca

o contrariava, queria que ele gostasse mesmo de seu cheiro:

- "Sou sua mulher, &m, sua mulheninha sozinha. . ." A eada

palavra dela, seu coração se safa.

Ela tinha sempre um tento de estar perto, quando ele chegava

de volta em casa. Não na porta-da-rua, nem em janela; mas

também não se eneafúava, na cozinha ou em quintal, nem se

desmazelava, como outras, mesmo pouquinho tempo depois de

casadas, costumavam ser. Que era dona-de-casa, quem referia

era ele, que jurava. Comida gostosa, apimentada, temperos for-

tes. Para a saúde, vai ver não fosse bom, era reimoso; mas a

mulher se ria, perto dela não se podia pensar em coisas mofinas.

Achava fio de cabelo dela, não tinha repugnância, não se

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importava. - "&m: eu cuspisse dentro da sopa, você tinha



escrúpulo de tomar? Você gosta de mim de todo jeito?" Asco

nenhum. O cuspe dela, no beijar, tinha pepego, regosto bom,

meio salobro, cheiro de focinho de bezerro, de horta, cheiro

como cresce redonda a erva-cidreira. Antes nem depois. Soro.

pita nunca tínha beijado em boca outra mulher nenhuma. Nèm

comer comida babujada. Voltar para casa, as horas correndo

bem, era o melhor que havia.

Mas enjoòso esse estirão de estradas de areia, espigão a fora,

no cerrádo: se sumiam os cascos, se enterrando, de esloxo, com

esforço o cavalo puxava, acacundado. Pior, porém, se traz o

frío, o vento frio até no umbigo, desenrolado de nüm, que não

esbarrava de ventar - a ver as árvores ali tremem sempre.

Podia fazer mal, moleza maldita era a dum defluxo, o bambo

que depois a gente ficava. Soropita sofreou, mexia na capanga

dos remédiost que tinha comprado vários: láudano, bálsamo

de ungüento, desinfetante lisol. Doralda não tomava reméd:o,

tinha embirrância. Vez que outra, com jeito, Soropita dava

assím por entender que convínha se usar depurativos; mas ela

fincava que não - nunca tinha tido nenhuma doença, não

carecia. Mal havia? Prae ali era mesmo as pessoas sãs comerem

carne de gambá, saudável para o sangue; outros se remedeiam

com águas de ervas, caroba-do-campo, caroba-do-brejo. Doralda

gostava de bebidas de regalo. Se dava por um cálice de vinho.

Queria uma garrafa de genebra; no Andrequicé nãa se achava.

Mas Soropíta trazia umas três, de conhaque boa marca, que

encomendara. Só às menos das vezes Soropita bebiá qualquer

espírito; tirava um prazer muitò grande daquilo, da bebida, não

devia-de. Mas, cheiro de cachaça, de distância de uns cinco

palmos já o afendia. Se lembrava do velho. Ainda era mocinho,

priméira ocasião em que estava provando aguardente: num

pouso, de manhã, com muito frio, já tinha botado no copo,

quando o velho escarrou, mesmo encostado nele - até sua

mão ficou respingada - uma escréia feia - eh, arrepiava,

se encolhia. Ou, então, quando molhado de chuva, engolir a

cachaça tapando nariz, para não sorver o cheiro - modo do

seo Vivim, um medidor-de-terras, que já estava branco visfvel

e magro de esfarinhar a pcle, e não comia mais, nem tinha

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fome, e bebia o tempo todo, mas apertando o nariz, por ele



mesmo, se o cheiro sentisse, não romitar a cachaça. Conhaque,

tomava três dedos, com gengibre e leite, mas como remédio,

por atalhar resfriado. Cordas de vento. Desembrulhou o bastão-

zinho, foi passando a manteiga-de-cacau nos beiços. Esfregava

devagarinho, comprazido. O vento diabrava. Aquele ar, os frios

mordem, era uma miséria, vinha da Serra Geral, de além,

os ares.

A palma-da-mão tocou na cicatriz do queixo; rápido, reti-

rou-a. Detestava tatear aquilo, com seu desenho, a desforma:

nâo podia acompanhar com os dedos o relevo duro, o encrôo

da pele, parecia parte de um bicho, se encoscorando, conha de

olandim, corcha de árvore de mata. A bala o maltratara muito,

rachara lasca do osso, Soropita esteve no hospital, em Januária.

Até hoje o calo áspero doía, quando o tempo mudava. Repu-

xava. Mas doíam mais as da coxa: uma bala que passara por

entre a carne e o couro,. a outra que varara, pela reigada.

Quando um estreito frio, ou que ameaçava chuva, elas davam

anúncio, uma dor surda, mas bem penosa, e umas pontadas.

As oütras, mais idosas, não atormentavam - uma, de garrucha,

na beirada da barriga e no quadril esquerdo; duas na braço:

abaixo do ombro, e atravessada de quina, no meio. Soropita

levava a mão, sem querer, à orelha direita: tinha um buraco,

na concha, bala a perfurara; ele deixava o cabelo crescer por

cima, para a tapar dum jeito. Qüe não lhe perguntassem de

onde e como tinha aquelas profundas marcas; era urn martírio,

o que as pessoas acham de especular. Não respondia. Só pensar

no passado daquilo, já judiava. "Acho que eu sinto dor mais

do que os outros, mais fundo. . . ' Aquela sensiência: quando

teve de agüentar a operação no queixo, os curativos, cada vez

a dor era tanta, que ele já a sofria de véspera, como se já

estivessem bulindo nele, o enfermeiro despegando as envoltas,

o chumaço de algodão com iodofórmio. A ocasião, Soropita

pensou que nem ia ter mais ânimo para continuar vivendo;

tencionou de se dar um tiro na cabeça, terminar de uma vez,

não ficar por aí, sujeito a tanto machucado ruim, tanto desastre

possível, toda qualidade de dor que se podia ter de vir a curtir,

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no coitado do corpo, na carne da gente. Vida era uma coisa



desesperada.

Doralda era corajosa. Podia ver sangue, sem deperder as

cores. Soropita não comia galinha, se visse matar. Carne de

porco, comia; mas, se podendo, fechava os ouvidos, quando

o porco gritava guinchante, estando sendo sangrado.  o sangue

fedia, todo sangue, fedor triste. Cheiros bons eram o de limão,

de café torrado, o de couro, o de cedro, boa madeira lavrada;

angelim-umburana - que dá essência de óleo para os cabelos

das mulheres claras. Por dizer que o cheiro do jatobá fedia

seco, muitos companheiros homens dormindo juntos num ran-

cho, em noite de meio calor. Mesmo a mulher não indagava

donde ele arranjara aqueles sinais de arma alheia; ela adivi-

nhava que ele não queria. Mas, quando estavam deitados em

cama, Doralda repassava as mãos nas grossas costuras, numa

,

por uma, ua mão fácil, surpresas de macia, passava a mão



em todo o corpo, a gente se estremecia, de cócega não: de

ser bom, de ânsia. Mel nas mãos, nem era possível se ter um

mimo de dedos com tanto meigo. Todá mulher gosta de es-

premer espinhas e cravos, tomar sorrateira conta de corpo de

homem, da cara do homem. Doralda o respeitava: - "Um dia

eu deixar de gostar de você, Bem, tu me mata?" "- Não fala

tontagem, coisas com ponta. . ." - ele quase zangava. - "En-

tão, Bem, não truge cara pra a tua mulherzinha, você é meu

dono, macho.. .Eu precisar,. tu pode dar eni mim." Nisso

não havia de pensar. Doralda parecia uma menina grande;

menina ajuizada. Nunca estava amuada, nem triste: "Nunca

um pensamento dela doeu em mim. . . Nunca me agrediu com

um choro falso. .." Uma mulher emburrada, que suspira, era

coisa desgraçável: tinha visto, as de outros, quase todas; sina

sem sorte, um se casar com mulher assim. Ela, Doralda, não:

ela já vinha de olhos livres, coração contente. A hora que se

sentia o coração dela bater até nas palmas de suas mãos, quando

ele pegava, apertava, as mãos, por suave, finas, uma fazenda;

e o pé encostava na perna dele, debaixo das cobertas: pé assim.

liso, branquinho - quente ou frio - ela nunca tinha andado

descalça. O que condenava, em gracejo, era ele não querer

beber, vez em quando, nem um gole. - "E bom, Bem: faz

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um calor de se querer-bem mais vagaroso, mais encalcado. . ."



Trejeitava. - "Tu põe a mão em mim, eu arrupeio toda. Eu

viro água..." Ela queimava alecrim, caatiguá, cipó-de-sempre

,

no quarto, de noite, antes de irem se deitar. Ouassava a chega-



dinha, para borrifar na roupa de cama, ou para fumigar. Outra

ocasião, encomendava pitada de incenso ou resinas de breu-

branco, que oficiava de arder em todos os cômodos: a levar

do ar os quebrantos, qualquer pego de má-sorte; a casa almis-

crava que nem igrejas, de remanente espairecendo santo assim,

semana, pelos cantos. Um dia, falou no pozinho alvo que algu-

mas pessoas na cidade chupavam pelo nariz, por prazeres.

- "Cocaína, meu Bem. Experimentei só uma vez, só umas

duas vezinhas, na unha, açucaral, um tico. Tem gente que bota

no cigarro. Boca fica um frio, céu-da-boca dormente, aquela

cânfora boa. Dá vontades emendadas, não acaba. . ." Segredava

a singeleza: - . . .A gente provar, Bem, e eu te beijar tua

língua, em estranho, feito um gelo. . . ' Mas estava falando só

por divertimento, de caçoada. Sabia que aquilo, ah, o vício,

produzia mal, perigoso. No curto dum prazo, nem não valia

mais para o realce do efeito, umas mulheres terminavam até

loucas, de morrer. Era uma pena. . . "Mas, diz que tem um

cinema. . . ' Soropita não a encarava. Aí foi ela mesma que

loo explicou - que tinha conhecido a cocaína na terra dela,

nas Sete-Serras, perto de Canabrava, mais adiante do Brejo-

das-Almas. Ah, mas pouco possível, então, naquele lugarejo

distrito, sem civilização dessas coisas. . . - e fugia de Soropita

a coragem de perguntar quem a ela tinha ensinado. Subentendia,

até a frouxo, num perturbo, torvado de que ela fosse falando

à tonta, dizer uma gravidade pior. Mas Dorald, , que nunca

tirava os olhos dele, acrescentou: que uma vüinha, senhora

séria, dona viajosa, até casada... Mas Doralda não mentia,

nunca houve, se algum fato ele perguntava. No que transfor-

mava a verdade de seus acontecidos, era para não ofender a

ele, sabia como se ser.

- "Ainda é nada não, Caboclim. Vamos. . ." Juriti que pas-



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