No interesse de reescrever meu



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Jornal A Tarde, sexta-feira, 06/11/1982

Assunto:


BRINQUEDOS DE MENINO

No interesse de reescrever meu Namoro à antiga, que alguns leram com agrado e que confesso também me dá certo gosto, tendo lido algo sobre costumes do nosso passado. E do passado de outras gentes, particularmente no que tange ao casamento, à escolha de cônjuges, à família.

Um dos livros que me deram mais satisfação, estes dias, foi o de Carol Adams sobre “Vidas ordinárias um Século Atrás” na Inglaterra.

Essa e outras leituras me recordaram, entre outras coisas, os namoros que testemunhei “no Hospício”, a rua em que nasci e vivi até os 12 anos, e os brinquedos de minha adolescência. No Colégio Antônio Vieira, ao Portão da Piedade cedo me desiludi do futebol devido a uma violenta bolada que tomei no peito; também não aprendi o jogo de barra, uma espécie de beisebol que os alunos internos praticavam orientados pelos padres e irmãos portugueses. Tomei parte, entretanto, em aulas de esgrima com o Prof. Bussoni, um velho italiano simpático apesar de severo. Era em casa e em nossa rua que dava largas ao gosto por determinados brinquedos. Antes da adolescência divertíamo-nos, os meninos daquela sossegada rua, organizando batalhõezinhos, que marchavam cantando e fazendo evoluções com chapéus irritando os gorros dos soldados do Exército, que víamos manobrando no Largo Dois de Julho, com cintos e talabartes e espadas de madeira preparados pelo Dr. João Gonçalves Tourinho (conhecido como Boou, pai do Dr. José Vicente Guimarães Tourinho, provedor benemérito da Casa Pia e Colégio dos órfãos de São Joaquim); Dr. Tourinho era um dos mais ilustres moradores dos sobrados do Hospício e tinha conosco um cuidado que vim a admirar quando a idade me permitiu julgar aqueles saudosos tempos que para mim terminaram bruscamente em 1916 com a morte súbita de meu pai, em sua Farmácia Piedade. Nossos brinquedos, principalmente, na quadra, antes que começássemos a mudar de voz, a crescer e a desenvolver novos interesses, eram o pião, o jogo de gude e as arraias. Fui um hábil manejador do pião e um viciado na bola de gude que começava a jogar no recreio do colégio e continuava no quintal de casa, a tal ponto que tinha furada a unha do polegar direito com as esferas brancas e grandes, de vidro fosco que, comprimidas contra um anel de borracha, tapavam as garrafas das gasosas Fratelli Vita. Bebia com prazer as fervilhantes gasosas de limão e de maçã porém o que mais me interessava era queixar suas garrafas para tirar aquelas cobiçadas bolas.

Outro divertimento - daquela fase de afirmação de força e de vontade - eram as arraias que nós mesmos fazíamos com tiras de flecha e goma de farinha-do-reino, as pequenas, de papel fino colorido; as maiores, de papel arengueiro. Umas empinadas com linha dos carrinhos da fábrica Pedra, outras com barbante ou linha mais grossa. O vento favorecia a subida para os lados da Preguiça e do mar, por cima dos altos sobrados, soprando suavemente na direção leste. Apostávamos quem levava mais longe e mais alto, movimentando o fio para fazer a arraia dirigir-se graciosamente, dançando, para um lado e outro, aproximando-se das outras e às vezes embaraçando-se com elas nas pegadas mais decisivas. Aprendemos, depois de algum tempo, a temperar com goma arábica e vidro moído o rabo e a linha das maiores, para cortar o fio dos adversários que nos desafiavam do Largo Dois de Julho e do Areal de Baixo e de Cima. A certa altura começou o emprego de “lâminas de gilete”, partidas ao meio longitudinalmente, para o mesmo fim. O rabo era feito de algodão e às vezes de troços de papel, conforme o tamanho dos lindos objetos voadores. Estes tinham contrapartida, para divertimento dos meninos menores, no periquito, de papel pardo dobrado, sem armação de flecha e, nalguns casos, de piaçava, também com uma cauda que contrabalançava a tendência a rodopiar ou a descer logo que alçado. Na arraia como no periquito um problema era acertar a chave, de que dependia o equilíbrio.



Para comprar o papel, a flecha, a linha - na venda da esquina - sacrificávamos o gosto pelos queimados, economizando os tostões que nossos pais nos davam semanalmente, num tempo em que o dinheiro valia, mesmo parco.

Nos intervalos desses juvenis esportes, jogávamos picula, lutávamos, dávamos intermináveis correrias, atirávamos pedradas nos trapiches da Preguiça, roubávamos tamarindo e cajá no terreno do Colégio Americano, lançávamos fogos nos pés dos transeuntes estranhos e nas portas de algumas casas ... Não havia então rádio e muito menos televisão. Íamos ao Cinema Ideal, na Ladeira de São Bento, com os cupons que as mães e tias de alguns recortavam num dos jornais da cidade, assistindo - como a mim sucedeu nos primeiros meses de 1916 - ver pela primeira vez uma fita do cômico francês Max Linder no Cinema Avenida, perto do Largo de Sant'Ana, ao Rio Vermelho. Mais adiante, passado o interesse pelo “Tico-Tico”, distraía-me e instruía lendo os livros policiais de Raffles, de Sherlock Holmes, de Arsene Lupin, as aventuras das personagens de Júlio Verne, não deixando de empinar arraias e de jogar bola de gude senão ao fim do curso de preparatórios. Lembro com saudade tudo aquilo, detestando o linguajar moderno, com vocábulos como pipa, pandorga, papagaio e outros trazidos de fora, que deturpam o gostoso falar genuinamente baiano! Arraia é o tradicional para os baianos.



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