No II centenário da publicaçÃo do método, de ribeiro sanches)



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PLANO PARA A EDUCAÇÃO DE UMA MENINA PORTUGUESA NO SÉCULO XVIII

(NO II CENTENÁRIO DA PUBLICAÇÃO DO MÉTODO, DE RIBEIRO SANCHES) (l)

por


LUÍS DE PINA

Em 7 de Março de 1699 nascia em Penamacor aquele que viria a chamar-se António Nunes Ribeiro Sanches e lograr, por seus méritos singulares — mormente fora das fronteiras pátrias — o crédito e a notoriedade que o alçariam a uma das maiores figuras médicas do seu tempo e um dos mais fervorosos promotores do progresso cultural português.

De cepa judaica, circunstâncias políticas do tempo, defensivas da religião tradicional, compeliram-no a deixar o país em 1726, com 27 anos. Chega a Paris. E de Paris procura a Holanda, em cuja Universidade de Leida é discípulo dilecto do grande Mestre de Medicina Hermann Boerhaave, que o Sr. D. João V preten­dera trazer para a cátedra coimbrã, com ordenados que só aquela opulenta bolsa régia poderia conceder.

Era já médico então Ribeiro Sanches, que estudara em Coimbra e Salamanca. A Imperatriz da Rússia Ana Ivanova, pretendendo reformar os serviços médicos do seu Império, solicitara de Boer­haave a indicação de discípulos seus, que tal pudessem ali co­meter. E logo o nosso Ribeiro Sanches foi escolhido, com mais dois colegas, o que originou a sua chegada à Rússia em 1731.



(1) Conferência na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com a colaboração do Centro de Estudos Humanísticos, em 11 de Dezembro de 1963.

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Aí foi médico da Corte e dos Exércitos imperiais; tomou, como tal, parte nas campanhas russo-turcas; ascende a conselheiro de Estado da nova Imperatriz Isabel e enfim regressa a Paris em 1747, dezasséis anos depois de ter deixado Leida e o seu mestre Boerhaave, que jamais esqueceu e de quem se mostrou, como homem leal e bom e justo — que tudo é o mesmo —fidelíssimo discípulo (2).

Sabe-se que o seu projecto de Reforma do Ensino médico por­tuguês, que publicou há 200 anos, e concomitante plano da orga­nização da Universidade Nacional ou Real, independente de qualquer foro ou influência religiosa — quanto à sua administra­ção ou governo; sabe-se, dizia, que o projecto de reforma sete­centista do ensino da Medicina no nosso país se baseava nos métodos práticos, assentes na observação e experiência de Hermann Boerhaave, que ele propunha; como propôs e foram aceites por textos de aula as obras desse que foi o maior médico do mundo desse tempo. Verney teria também sugerido este projecto.

Recolhido a Paris, breve abandonaria a clínica a preocupar-se com o estudo, a investigação e a publicação de suas obras (3). Cha­mou-lhe Kicardo Jorge o criador da Higiene político-social, mercê do seu Tratado da Conservação da Saúde dos Povos (4). Educador, devem-se-lhe as Cartas sobre a educação da Mocidade, de 1760 (5).

Será a esta obra de Sanches que também dedicarei nestes momentos a modesta nota que estou a ler-vos, elucidada, de modo particular, com o manuscrito, creio que inédito, que pude ler e copiar recentemente na Biblioteca Nacional de Madrid, graças a subsídio do Instituto de Alta Cultura; manuscrito em que trata, muito especialmente, da educação de uma menina portuguesa (carta a um seu amigo).

Não se desligam facilmente estas duas obras da outra sua com o título, modernizando a grafia: Método para aprender e estudar a Medicina, ilustrado com os Apontamentos para estabelecer-se urna Universidade Real na qual deviam aprender-se as Ciências huma­nas de que necessita o Estado civil e político, publicado em Paris em 1763 (6) (sem nome do autor).

Por isso entendi aproveitar publicamente este ensejo para, embora modestissimamente, homenagear o autor e esta última obra que no corrente ano perfaz dois séculos certos, homenagem tanto mais compreensiva quanto sobre um e outra, ao que sei, dentro ou fora das nossas Universidades, se não ter feito nesta

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data a justa consagração que merece, bem como a crítica que ainda possa exigir (7).

Preito tanto mais justo quanto, como veremos, Bibeiro Sanches foi um grande e indefectível patriota que jamais deixou de pensar na Nação portuguesa, nos seus problemas educativos e nas suas necessidades, apontando e corrigindo erros, indicando soluções, posto que nem sempre boas ou curiais, por vezes incompletas, políticas, docentes, religiosas. Tanto e por tal forma que o Governo português o desejou, como dissemos, para ensinar em Coimbra e que o Rei de Portugal lhe concedera valiosa bolsa de estudo, durante muitos anos, mesada que inteligentemente patrocinavam proeminentes figuras de ministros e diplomatas, leais servi­dores do Rei, como D. Rodrigo de Sousa Coutinho e D. Luís da Cunha.

Pois desse seu amor pátrio, nunca diminuído por vis ressen­timentos, é prova incontestável e nobilíssima a sua doutrina da defesa do poder Real; o seu combate às influências estrangeiras (no falar, no vestir, no viver) na vida portuguesa; e a sua obra sobre o modo de conservar as conquistas e colónias portuguesas, onde se lêem palavras que bem merecem hoje a nossa medita­ção (8). Sem esquecer quanto propugnava, na Reforma da Uni­-versidade — que veio a fazer-se em 1772, nove anos depois, a necessidade e obrigação do conhecimento directo das nossas províncias Ultramarinas pelos estudantes que se formassem em Coimbra e sob a direcção da mesma Universidade (9).

É esse passo que leio já, para vincar o sentido patriota de Ribeiro Sanches. Aí o tendes na íntegra:

«Quando tratarmos das viagens que devem fazer os que tivessem acabado os seus estudos, por ordem desta Univer­sidade, e com quem se corresponderia, então proporemos a necessidade que tem o Reino de médicos versados na His­tória natural para indagarem o que têm as nossas conquistas e colónias de útil para a Medicina, para as Artes e para o comércio: método de que têm usado todas as Nações da Europa com tanto aumento das Ciências e dos seus Estados. O que seria da incumbência da Universidade...»

E quanto ao que escreveu sobre o nosso Ultramar — com pontos

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MÉTODO


PARA APRENDER E ESTUDAR

A MEDICINA,



I L LUSTRADO

Com os Apontamentos para estabelecerse huma Uni-verei Jade Real naqual deviam aprender-se as Sciencias humanas de que necessita o Estado Civil e Político.

**


M. D C C, LXll L





FIG. l


Portada do Método, de Ribeiro Sanches. Paris, 1763. Exemplar da secção Reservados da Faculdade de Medicina do Porto

discutíveis, naturalmente — basta que se colha e recolha o sentido geral da sua doutrina neste trecho:

«Se a Inglaterra tivesse usado com a sua América seten­trional como os romanos com as suas colónias e reinos e repúblicas conquistadas, não estaria agora em guerra civil com os americanos revoltados...»

Escrevia ao tempo das guerras da independência dos actuais Estados Unidos.

B em outro ponto escreveu Sanches:



«Portugal devia incorporar as suas colónias e organizá-las de modo que entre os habitantes nenhuma outra distinção houvesse que não fosse a que resultava do campo que desem­penhassem».

Este conselho de integração nacional, felizmente satisfeito, é núcleo da nossa melhor defesa contra os que não conhecem estas e outras expressivas páginas que escreveram os melhores Portugueses sobre o sagrado património ultramarino que nos compete salvaguardar.

*

Dissera Camilo Castelo Branco um dia, ao referir-se a figuras relevantes do Setecentos português:



«Tem sido exclusiva e superabundantemente encomiado Luís António Verney, e quase esquecidos os seus cooperadores Francisco Xavier de Oliveira, e mais ainda ingratamente olvidado na Pátria quanto honrado no estrangeiro, António Ribeiro Sanches, e Alexandre Gusmão» (10).

Por seu turno, quando o nosso Ministro Sousa Coutinho pedia o patrocínio ao Governo português para Ribeiro Sanches, exilado voluntariamente em Paris, onde custosamente vivia, assim se referia ao ilustre médico:

«um português de tanto préstimo que nós abandonámos e que estimam tanto os estrangeiros» (11).

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Exactamente por isso é que em Portugal surgiria outra insigne figura de médico e historiador, o Prof. Maximiano Lemos (a quem tive a honra de suceder na cátedra) que devotara grande parte da sua vida e do seu dinheiro ao estudo da biografia de Ribeiro Sanches, pelo que o Governo português o incumbira de missão especial em Paris, por diploma de l de Agosto de 1909.

Saldou-se, dessa feita e desse jeito, uma grande dívida. E hoje, corrido mais de meio século sobre a publicação da biografia de Ribeiro Sanches. que mencionámos — editada pelo livreiro por­tuense Eduardo Tavares Martins, evocam-se nesta sala e nesta Universidade as obras com que também concorreram, de modo curioso, para o progresso da Pedagogia no nosso país.



Parece-me que numa Faculdade de Letras, em que estão inte­grados os estudos das Ciências pedagógicas, fica bem ajustada esta nota que preparei com o sentido de ser útil à História da Educação no nosso país.
*
Publicava em 1909 o mirandês Dr. Manuel Ferreira Deusdado um curioso volume que intitulou Bosquejo histórico de puericul­tura. Educadores portugueses, que dedicou à Nação brasileira. Foi nesse prólogo que o ilustre académico escreveu estas palavras:

«Não se serve a Pátria, unicamente, afrontando a morte nas fileiras dos exércitos; serve-se também a Pátria, quando pela educação, doutrinando a verdade e o bem, se lhe for­mam filhos capazes de exercitaram com nobreza os deveres domésticos e sociais...»

Servia a Pátria, ele próprio Deusdado, «escrevendo a História dos nossos Educadores Nacionais e tornando conhecidos os seus ensinamentos».

O Prof. Delfim Santos, apontando-o como filósofo neo-kantiano e posteriormente tomista, afirma (no que concordo inteiramente) que o inesquecível estudioso procurara no seu livro Educadores portugueses, através da História, «a linha directriz de uma peda­gogia nacional» (12).

Todavia, este distinto mestre que foi no Curso Superior de Letras de Lisboa e que aí regeu um curso de Psicologia aplicada

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Fig. 2


À esquerda, retrato de Ribeiro Sanches, segundo o único conhecido, como o traçara um artista clássico. À direita, como seria na realidade o ilustre médico, que usava cabeleira (vide o que sobre isto explica, segundo infor­mações nossas, na sua tese de Licenciatura, em 1957, o Dr. José Calheiros Lobo, Ribeiro Sanches e a Higiene Militar, elaborada no serviço de
História da Medicina, que dirigimos).

à Educação; que era doutor Tionoris causa da Universidade de Lovaina; este distinto mestre não insere devidamente Ribeiro Sanches, nem suas obras, como as Cartas sobre a educação da Mocidade, de há 201 anos, livro que, no entanto, lhe dá incon­testável direito a essa honra. Esquecimento esse tanto mais sin­gular quanto nas suas páginas aponta outros nomes de muitíssimo menor valia.

Já o mesmo não sucede com outros historiadores da Cultura nacional, pois pode ler-se na História da Literatura do ilustre mestre e Reitor do Liceu de Sá Miranda, em Braga, Dr. Feliciano Ramos: «a sabedoria e a distinção científica do médico Ribeiro Sanches honram a inteligência portuguesa do século XVIII» (13).

Ricardo Jorge viria a ser, de sua banda, um dos mais notáveis comentadores da obra desse ilustre português.

Como acertadamente disse Paul Monroe (14), Rousseau havia gerado ideário para a reforma social, familiar e política do Homem.

O Emílio é o expoente singular desse ideário em muito o que roça a educação da Infância e da Juventude. Surge e vinca-se a marca naturalista desses processos pedagógicos de onde brotaria a educação nova e, nela inclusa, a Escola Nova do século pretérito, a dar particularíssima atenção às tendências naturais da criança.

Basedow, Pestalozzi, Froebel ou Herbart, como outros messias, explicam-se por esse fenómeno setecentista.

Os fogosos revolucionários do século XVIII, um Mirabeau, Condorcet ou Talleyrand riscam audazes planos de educação humana, firmes nos pilares mores da Liberdade e da Igualdade.

A Pedagogia revolucionária do período agónico de setecentos está toda no plano de Condorcet, de 1792, com seus graus de ensino sistematizados, com os que universalmente hoje se aceitam.

Verney e Sanches já não eram deste mundo para exultarem com as bases do ensino para as Mulheres, previsto no projecto condorcetiano.

Se não faltaram adversários da instrução feminina e até do próprio sexo feminino — a triste empresa encontraria singular paladino em Albino Forjaz de Sampaio, entre mais — também não escassearam os defensores da Mulher, em todos os tempos e em vários aspectos.


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