Nina Rodrigues: comemorações do cinqüentenário de morte de Raimundo Nina Rodrigues, transcorrido em 17 de agosto de 1956



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NINA RODRIGUES: COMEMORAÇÕES DO CINQUENTENÁRIO DE MORTE DE RAIMUNDO NINA RODRIGUES, TRANSCORRIDO EM 17 DE AGOSTO DE 1956”: REFLEXÕES SOBRE A TENTATIVA DE PRODUÇÃO BIOGRÁFICA DE NINA RODRIGUES PELA ACADEMIA MARANHENSE DE LETRAS.
Vanda Fortuna Serafim (PPGH/UFSC)

Resumo: O presente trabalho propõe-se a analisar a obra “Nina Rodrigues: comemorações do cinqüentenário de morte”, produzida pela Academia Maranhense de Letras, na década de 50 do século XX, buscando compreendê-la enquanto uma tentativa de produção biográfica que pode ser entendida a partir dos gêneros discursivos: encomiástico, panegírico e epidêitico; de modo a formar o que François Dosse identifica como biografia modal. Para tanto, nossa fala se dará em quatro momentos: no primeiro momento, faremos um breve histórico da Academia Maranhense de Letras, a fim de compreender o período em que o livro estudado é publicado; no segundo momento apresentaremos a estrutura da obra e seus autores; no terceiro momento faremos uma discussão entre alguns autores que se propuseram a pensar os discursos encomiástico, panegírico e epidêitico e; por fim, analisaremos como a construção biográfica apresentada pelos autores nesta obra pode ser pensada à luz dos gêneros discursivos apresentados, constituindo-se enquanto uma biografia modal. François Dosse (2009) define a biografia modal enquanto um tempo da escrita biográfica que corresponde tanto a um momento histórico quanto à uma forma de abordagem sempre atual do gênero, consiste em descentrar o interesse pela singularidade do percurso recuperado a fim de visualizá-lo como representativo de uma perspectiva mais ampla. As biografias modais geralmente ilustram um momento, um contexto, uma categoria social, valeriam como exemplificação, ilustração de comportamentos, de crenças próprias à um meio social ou a um instante particular. Vale por sua capacidade generalizante e evoca quase a noção de tipo ideal weberiano. É nesse sentido que podemos pensar a tentativa de construção de uma biografia de Nina Rodrigues por parte da Academia Maranhense de Letras em um momento em que se buscava a legitimação da mesma, após um período de quase 50 anos à margem de um caráter institucional. Os autores da obra escolhidos por suas funções e imagens públicas, atuam sentido de construir uma narrativa que identifique o brilhantismo de Nina Rodrigues à intelectualidade maranhense, pois, como observa Bourdieu (1996), a narrativa biográfica, no que tange tanto ao biógrafo quanto ao biografado, propõe eventos que, apesar de não se desenrolarem todos, sempre, na sua estrita sucessão cronológica, tendem a, ou pretendem, organizar-se em seqüências ordenadas e de acordo com as relações inteligíveis. O sujeito e o objeto da biografia têm de certo modo o mesmo interesse em aceitar o postulado do sentido da existência contada.


Palavras-chave: Cinquentenário da Morte de Nina Rodrigues; Academia Maranhense de Letras; Biografia.

NINA RODRIGUES: COMEMORAÇÕES DO CINQÜENTENÁRIO DE MORTE DE RAIMUNDO NINA RODRIGUES, TRANSCORRIDO EM 17 DE AGOSTO DE 1956”: REFLEXÕES À TENTATIVA DE PRODUÇÃO BIOGRÁFICA DE NINA RODRIGUES PELA ACADEMIA MARANHENSE DE LETRAS.


Vanda Fortuna Serafim (PPGH/UFSC)


1. A Academia Maranhense de Letras.
A Academia Maranhense de Letras se apresentai como resultado da intensa vida literária que São Luís conheceu entre a última e a primeira década dos séculos XIX-XX. Diversas agremiações culturais foram fundadas, duas das quais tiveram particular importância: a Oficina dos Novos e a Renascença Literária. A Oficina dos Novos tinha Gonçalves Dias como seu patrono geral e o poeta Sousândrade como seu presidente honorário. O culto a Gonçalves Dias estava representado pelos propósitos, declarados em estatuto, de organizar uma estante gonçalvina que fosse a mais completa possível, além de editar a obra do poeta e, futuramente, transformar a Oficina em Grêmio Literário Gonçalviano.

A Academia Maranhense de Letras, oficialmente instituída em agosto de 1908, data do 85º aniversário de nascimento do poeta da Canção do Exílio, já demonstrava sua resolução de adotar Gonçalves Dias como seu nome tutelar. Fundada no salão de leitura da Biblioteca Pública do Estado (prédio onde, a partir de 1950, tem sua sede própria), compôs-se, inicialmente, de 20 cadeiras. Entre seus fundadores estavam Antônio Lobo, Alfredo de Assis, Astolfo Marques, Barbosa de Godois, Corrêa de Araújo, Clodoaldo Freitas, Domingos Barbosa, Fran Paxeco, Godofredo Viana, Xavier de Carvalho, Ribeiro do Amaral e Vieira da Silva.

Até a década de 40 a Academia não teve sede própria funcionando na casa ou espaços cedidos por alguns de seus membros. Nesse período adverso da Entidade houve deserções, esmorecimentos e descasos, principalmente por parte dos Poderes Públicos, apesar de entre os acadêmicos de todos os tempos, existirem deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores, prefeito e titulares de outros cargos e funções relevantes. Algumas cadeiras ficaram vagas por longos anos. As sessões, em diversas fases, eram realizadas em espaços irregulares.

Foi na presidência de Clodoaldo Cardoso que se deu o processo de revigoramento da Instituição. A Academia recebeu, por doação do Estado (Lei nº 320, de 3 de fevereiro de 1949), o prédio em que hoje se acha instalada, e que a devolveu ao lugar de sua fundação. Providenciou-se o preenchimento das cadeiras vagas, fez-se a reorganização do Quadro de Membros Titulares e adotou-se uma série de outras providências necessárias. Entre elas, a edição da Revista (de que até 1948 só haviam sido publicados três números) e a aprovação, em 3 de abril de 1948, do desenho do sinete e ex-libris, este posteriormente adotado como medalha do colar usado pelos acadêmicos em sessões solenes.

É dessa fase, a decisiva contribuição prestada pela Academia para o desenvolvimento e consolidação do ensino superior no Maranhão. A Faculdade de Filosofia de São Luís, instituição matricial dos atuais cursos de Letras, Filosofia, Geociências e História da Universidade Federal do Maranhão, contou com o apoio da Academia, em cujo salão nobre ocorreu a aula inaugural, proferida pelo acadêmico Bacelar Portela. Além disso, muitos dos professores que a Faculdade precisou, eram membros da Academia, sendo que nos primeiros anos atuaram sem vencimentos.

É neste momento de reorganização e definição da Academia Maranhense de Letras, que se produziriam as conferências em comemoração ao cinqüentenário da morte de Nina, cujos textos seriam transformados na obra estudada.


2. “Nina Rodrigues: comemorações do cinqüentenário de morte” e seus autores.
A obra aqui abordada foi produzida com o intuito de reverenciar e homenagear a memória de Nina Rodrigues. Trata-se da compilação de quatro conferências proferidas a 4 de agosto de 1956, com o intuito de comemorar o cinqüentenário da morte de Nina Rodrigues.

O primeiro texto “Nina Rodrigues Africanista” foi proferido por Domingos Vieira Filho. O autor, nascido em São Luís em 1924, foi advogado, escritor e jornalista, tendo atuado com destaque como administrador cultural e pesquisador da cultura popular maranhense. Sua produção bibliográfica registra contribuições para a cultura maranhense.

O segundo texto “Vida de Nina Rodrigues” é de autoria de Odilon da Silva Soares, médico maranhense e membro fundador da Academia Maranhense de Medicina. O terceiro texto “Nina Rodrigues Médico Legista”, foi produzido pelo médico, professor e político maranhense Pedro Neiva de Santana (1907 - 1984). Este foi deputado federal e prefeito de São Luís em 1938, indicado pelo interventor Paulo Ramos, e governador do estado do Maranhão durante a ditadura militar, indicado pelo presidente Emílio Garrastazu Médici.

O quarto e último texto, “O sábio Nina Rodrigues”, foi escrito por João Bacelar Portela, também maranhense, foi médico e professor. Colaborou na imprensa maranhense e em revistas especializadas sobre os assuntos mais variados. Além destes quatro artigos, a obra traz também um tópico organizado por Domingos Vieira Filho sobre a “Bibliografia de Nina Rodrigues” e um último tópico sobre “Fontes bibliográficas sobre Nina Rodrigues”.

Interessante notar que os autores que se propõem a “reverenciar” e “homenagear” a memória de Nina Rodrigues em nome da Academia Maranhense de Letras são, todos posteriores a Nina Rodrigues e ligados ao Direito ou a Medicina, todos maranhenses, e todos atuantes na vida pública no Maranhão. É em virtude disso, que buscaremos agora atentar as peculiaridades de três gêneros discursivos que nos parecem elucidativos ao entendimento da obra.
3. Discursos encomiásticos, panegíricos e epidêiticos.
A fim de compreender como a obra “Nina Rodrigues: comemorações do cinqüentenário de morte” foi construída, é preciso partir de três gêneros discursivos. O primeiro refere-se ao encomiástico, para Ivan Teixeira (1999), o encômio é abordado como manifestação do verso lírico, pois se destina ao louvor do soberano, e seus eleitos, por ser, entendidos como escolhidos por Deus, direta ou indiretamente. O encômio pode manifestar-se mediante uma odeii, uma elegiaiii, uma éclogaiv, ou um ditirambov.

Ao se reportar ao termo “encomiástico”, Farias Jr (2007) cita a antiquista Paula Winsor Sage, segundo a qual, a emergência desses aspectos discursivos aponta para as normas de procedimento representantes de tópicos e organização de discursos encomiásticos em manuais de retórica. A pesquisadora complementa tal proposição ao arrolar os tópicos que os manuais de retórica prescrevem para exprimir os vários tipos de “encomia”, a saber: genos (descendência, localização geográfica), gênesis (fatos notáveis adjacentes ao nascimento), anatrophe (circunstâncias da juventude, e manifestações de caráter e habilidade natural), paidéia (educação, amor ao saber, à erudição), epitedia (inclinações e ocupação profissional) e práxis (ilustração de fatos da epitedia e combinação das virtudes: sabedoria, temperamento, justiça e coragem).

Farias Jr (2007) considera a idéia de que a retórica permaneceu um importante elemento no pensamento biográfico, do ponto de vista do gênero, e sobreviveu separado dos estilizados louvores ou discursos encomiásticos. Na prática, a distinção dos tipos de textos relacionados à literatura epidêitica não são tão claros, por exemplo, biografias são geralmente panegíricos e panegíricos são, ao menos em parte, biográficos. Por essa razão, retórica e literatura foram certamente convergentes.

Sobre o segundo gênero discursivo, ou seja, a idéia de literatura pangenírica, de acordo com Carlos Ceia, refere-se ao discurso, em prosa ou verso, em louvor duma pessoa, acontecimento, lugar ou objeto. Entre os seus subgêneros encontram-se o epitalâmio (sobre bodas), o epicédio (sobre mortos) e o encómio paradoxal (sobre pessoas indignas de louvor). .

Quanto ao gênero discursivo epidêitico, Ramos (2006), explica que nos discursos retóricos, a invenção seria a parte na qual o orador vai buscar argumentos para convencer e persuadir seu auditório. O epidêitico seria um gênero de discurso centrado em temas contemporâneos e na avaliação de se determinado indivíduo ou acontecimento merecem louvor, são culpados ou devem ser censurados. As formas clássicas de retórica epidêiticas são as orações fúnebres e as cerimônias de premiação.

Expostos estes três gêneros discursivos, buscaremos articular os tópicos até agora apresentados, na tentativa de compreender de que forma a Academia Maranhense de Letras por meio dos quatro autores escolhidos e das temáticas abordadas, buscou construir uma biografia de Nina Rodrigues.


4. “Nina Rodrigues: comemorações do cinqüentenário de morte” enquanto uma tentativa de construção biográfica.

Conselheiro Pedro Calmon - Não era baiano, era do Maranhão. Não nasceu na Bahia mais lá ocupou uma cadeira na Escola de Medicina, que foi a de medicina legal.

Conselheiro Gilberto Freyre - Mas se tornou intelectualmente baiano. Ademais, há um equívoco, porque não afirmei que Nina Rodrigues era baiano, eu sabia que ele era maranhense.

A epígrafe utilizada para iniciar este tópico refere-se a um ponto crucial na vida e trajetória profissional de Nina Rodrigues, embora nascido no Maranhão, e de lá ter vivido a infância, adolescência, e os anos iniciais de sua vida adulta, ficou conhecido intelectualmente, tanto no Brasil como na Europa, como o “médico baiano”.

Raimundo Nina Rodrigues nasceu em 4 de dezembro de 1862 em Vila da Manga, atualmente sede do Município de Vargem Grande no Maranhão e faleceu em 17 de julho de 1906, em Paris. Em 1882 Nina Rodrigues iniciou o curso de medicina na Faculdade de Medicina da Bahia, sendo que fez o quarto e o sexto ano na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em final de 1887 defendeu sua tese de doutorado, sobre três casos de paralisia progressiva cujo título era “Das Amiotrofias de Origem Periférica”. Em 1888, Nina Rodrigues, clinicou em São Luis do Maranhão e escreveu uma série de artigos sobre higiene pública com atenção especial para o regime alimentar inadequado da população maranhense. Nesta ocasião, começou a colaborar com a Gazeta Médica da Bahia, mediante um conjunto de trabalhos acerca da lepra no Maranhão. Nesse extenso trabalho introduziu um quadro classificatório das raças no Brasil. Em 1889, prestou concurso para a Faculdade de Medicina da Bahia, tornando-se adjunto da 2º Cadeira de Clínica Médica, cujo titular era o Conselheiro José Luiz de Almeida Couto, que viria a tornar-se sogro de Nina Rodrigues. (CORRÊA, 2001).

Nina Rodrigues é considerado iniciador dos estudos sobre os negros no Brasil e foi após tornar-se professor da Faculdade de Medicina da Bahia que passou a se dedicar intensivamente aos estudos dos costumes de antigos escravos africanos e seus descendentes. O caráter de seus trabalhos acadêmicos transcende sua figura e posição médica, rendendo-lhe adjetivos diversificados1 e impondo sua obra como pressuposto básico a quem ambicione estudar as religiões e a cultura africana no Brasil.

Dado o caráter multifacetado da obra de Nina Rodrigues, é interessante atentar às formas como foi utilizado na obra analisada. Em “Nina Rodrigues Africanista”, Domingos Vieira Filho inicia expondo sua dificuldade em aprofundar sua fala sobre Nina Rodrigues, por reconhecer seu despreparo cientifico para tal feito. De forma encomiástica, faz uso de uma fala laudatória, destacando o caráter epidêitico de Nina Rodrigues no que se refere à inclinações e ocupação profissional, citando o autor:

Nina Rodrigues foi um desses espíritos-fonte, uma dessas cerebrações que de tempos em tempos projetam o nome de um país, numa projeção que não tem a instantaneidade, o brilho fugace de um meteoro. Viver, todos sabem, numa época de intenso preconceito racial, numa terra de densa escravidão africana, num meio cientifico acanhado e num país que se afundava num lamentável atrazo material e intelectual. (VIEIRA FILHO, 1956, p.5).


Vieira Filho parte de uma justificativa do caráter racista do pensamento de Nina Rodrigues como próprio de seu tempo, para em seguida, destacar seu brilhantismo intelectual, como algo que não poderia ser compreendido no Maranhão, o que justificaria sua partida do Estado, porém, tampouco poderia ser compreendido no Brasil, é apenas fora dele que as idéias de Nina Rodrigues encontrariam espaço para discussão. Ao relatar de tal forma, o autor sugere que nem mesmo o Rio de Janeiro ou a Bahia, locais onde Nina Rodrigues estudou, seriam bons o suficiente para lidar com as idéias de um espírito à frente de sua época e país, na fala de Vieira Filho “Nina Rodrigues não podia encontrar no Brasil e nem tampouco no Maranhão, onde só colheu dissabores, o ambiente ideal para a receptividade de seus estudos científicos sobre o negro”. (1956, p.5).

O gênero epidêitico enquanto discurso centrado em temas contemporâneos e na avaliação de se determinado indivíduo ou acontecimento merecem louvor, são culpados ou devem ser censurados, assume um caráter de defesa da memória de Nina Rodrigues, afirmando que este reservaria grande parte de seu tempo “para estudar carinhosamente os velhos africanos da Bahia, matrizes preciosas, que estavam em via de desaparecer” (VIEIRA FILHO, 1956, p.6). Também defende Rodrigues no sentido de que teria endossado a idéia de Silvio Romero no sentido de não encarar o negro pura e simplesmente como máquina de trabalho, destinada à servir o branco para todo sempre. Tal defesa é apenas em partes verdadeira, uma vez que Nina Rodrigues é incisivo em sua postura anti-abolicionista, pois via a escravidão como um estágio fatal dos povos e as campanhas abolicionistas em seu ver, nada teriam feito, além de forjar aos negros a organização psíquica dos brancos.

Assim, a proposta de Vieira filho é destacar os grandes feitos de Nina Rodrigues, enquanto pioneiro de uma corrente de africanologia no Brasil e pioneiro nos estudos dos negros na Bahia, ou seja, foi preciso que um maranhense se propusesse à estudar os africanos na Bahia e no Brasil.

No mesmo tom de Vieira Filho, prosseguem os artigos subseqüentes. Em “Vida de Nina Rodrigues” a atenção de Odilon da Silva Soares é voltada especificamente à obra do homenageado. Inicia sua vida falando de sua morte em Paris e as repercussões da mesma no Brasil, que teria perdido um grande intelectual que “quando estudava, esgotava o assunto, dissecava-o, esquadrinhando por todos os ângulos” (1956, p. 21). Embora considere que a vida de Nina Rodrigues decorria entre os estudos, os amigos e a família, apenas ao primeiro é dada atenção. Como falar da vida de Nina Rodrigues pressupõe remeter-se à Bahia, o autor é perspicaz ao enfatizar que lá viverá “quase” metade de sua curta existência, ficando no ar que a porcentagem maior de sua existência teria sido vivida em algum outro lugar. A idéia que um maranhense iniciou na Bahia um estudo inovador, também é destacado “Nina Rodrigues descobrira êsse mundo ignorado e misterioso, constituído pelos negros escravos” (VIEIRA FILHO, 1956, p.22).

O capítulo “Nina Rodrigues médico legista” é o que trata do assunto mais complicado no que se refere à edificação da memória de Rodrigues, pois é neste campo que mais se desenvolvem os usos da teorias racistas, principalmente as que concernem à Cesare Lombroso e a Escola Italiana. No entanto, Pedro Neiva de Santana é eficiente ao dizer que a originalidade de Nina Rodrigues está em estudar o Brasil


Nina Rodrigues assume, no cenário da Ciência Médica Brasileira, uma posição singular, justificando a denominação que, certa feita, lhe deu o senhor Arthur Ramos, de ‘caso Nina Rodrigues’. Era ele, com efeito, professor adjunto da clínica Médica da Faculdade de Medicina da Bahia, sem jamais haver palmilhado o campo da especialidade quando por volta de 1891, foi chamado a ocupar a cadeira de Medicina Legal da velha Escola; ao fim de breve prazo, quase de improviso, transforma-se no maior mestre que tivemos da disciplina que há pouco se iniciara. (SANTANA, 1956, p.27).


Na fala de Santana, vemos a construção da idéia de que Nina Rodrigues ao ir pra Bahia, conseguiu lá enorme feito, em um curto espaço de tempo, conquistando autonomia à disciplina de Medicina-Legal. Sua narrativa é sempre no sentido de mostrar como Nina Rodrigues se destaca em tudo o que se propõe à fazer, inclusive em seus diálogos com teóricos racista, Rodrigues não teria, como de fato não fez, transposto teorias estrangeiras ao Brasil sem antes comparar, experimentar e investigar.

Por fim, no último artigo, “O sábio Nina Rodrigues”, de Bacelar Portela a questão Maranhão fica nítida na indagação do autor: “Haverá patrimônio maior de idéias que o de Gonçalves Dias, o de Gomes Souza, o de Nina Rodrigues?” (1956, p. 38). A resposta para tal questão não fica à revelia do tempo ou do leitor, é imposta por Portela, é talvez o elo de todos os artigos que compõe a obra, é talvez o que revele a intenção da Academia Maranhense de Letras ao propor as comemorações do cinqüentenário da morte de Nina Rodrigues. Segue a resposta de Bacelar Portela:

Nina Rodrigues não é um fenômeno excepcional na Maranhão: resultou do mesmo panorama geo-bio-cultural de tantos outros. Na realidade é ilimitada a escala dos fatos que influem na organização da personalidade; e o homem surge uniforme e regular, como síntese objetiva, contextura do que há de incoerente na extraordinária variabilidade dos valores do meio. De quando em quando aparecem personalidades invulgares com extraordinária capacidade de superar velhas formas, criando formulas novas de cultura. Nina Rodrigues foi uma dessas personalidades. (1956, p.38).


E assim, Portela fecha o raciocínio edificado no decorrer da obra, enquanto maranhense, Nina Rodrigues teve uma trajetória de vida comum à intelectualidade de seu meio, seu destaque maior foi possível justamente por sua ida à Bahia, onde teve possibilidade de dedicar-se à temas ignorados pelos intelectuais do estado como a cultura negra, e, mesmo sem experiência alguma, alcançar à disciplina de medicina Legal, um estatuto até então inexistente.

Assim, os gêneros discursivos do encômio e epidêitico, são fundamentais na construção da trajetória de Nina Rodrigues, assumindo consonância com uma literatura pangenírica, em louvor duma pessoa (Nina Rodrigues), acontecimento (cinqüentenário de morte), lugar (Maranhão) ou objeto (a intelectualidade de Nina Rodrigues).
Considerações finais
François Dosse (2009) define a biografia modal enquanto um tempo da escrita biográfica que corresponde tanto a um momento histórico quanto à uma forma de abordagem sempre atual do gênero, consiste em descentrar o interesse pela singularidade do percurso recuperado a fim de visualizá-lo como representativo de uma perspectiva mais ampla. As biografias modais geralmente ilustram um momento, um contexto, uma categoria social, valeriam como exemplificação, ilustração de comportamentos, de crenças próprias à um meio social ou a um instante particular. Vale por sua capacidade generalizante e evoca quase a noção de tipo ideal weberiano. É nesse sentido que podemos pensar a tentativa de construção de uma biografia de Nina Rodrigues por parte da Academia Maranhense de Letras em um momento em que se buscava sua legitimação, após um período de quase 50 anos à margem de um caráter institucional.

Os autores escolhidos por suas funções e imagens públicas, atuam sentido de construir uma narrativa que identifique o brilhantismo de Nina Rodrigues à intelectualidade maranhense, pois, como observa Bourdieu (1996), a narrativa biográfica, no que tange tanto ao biógrafo quanto ao biografado, propõe eventos que, apesar de não se desenrolarem todos, sempre, na sua estrita sucessão cronológica, tendem a, ou pretendem, organizar-se em seqüências ordenadas e de acordo com as relações inteligíveis. O sujeito e o objeto da biografia têm de certo modo o mesmo interesse em aceitar o postulado do sentido da existência contada.


Referências bibliográficas


ACADEMIA MARANHENSE DE LETRAS. Nina Rodrigues: comemorações do cinqüentenário de morte de Raimundo Nina Rodrigues, transcorrido em 17 de agosto de 1956. São Luis, 1956.
BOURDIEU, Pierre. “A ilusão biográfica”. In: Razões práticas: sobre a teoria da ação. Trad. Mariza Corrêa. Campinas, SP, Papirus, 1996.
CORRÊA, Mariza. As ilusões da liberdade: a Escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil. 2.ed. Bragança Paulista: EDUSF, 2001.
DOSSE, François. O desafio biográfico: escrever uma vida. Trad. Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo, Edusp, 2009.
FARIAS JÚNIOR, José Petrúcio de. Sofistas e filósofos na administração imperial: o olhar de Eunápio sobre a unidade política do Império Romano no século IV d. c. Dissertação (mestrado). UNESP-Franca, História, Faculdade de História, Direito e Serviço Social, 2007.
Pagenírico. In: E-Dicionáio de termos literários. CEIA, Carlos (org). Disponível em: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/P/panegirico.htm . Acesso em: 13/06/2010.
RAMOS, Milton Guilherme. Linguagem e argumentação na produção escrita de vestibulandos. Dissertação (mestrado). UFRN, Lingüística Aplicada, Programa de Pós Graduação em Estudos d Linguagem, 2006.
Site da Academia Maranhense de Letras. Disponível em: http://www.academiamaranhense.org.br/index.php . Acesso em: 13/06/2010.
TEIXEIRA, Ivan. Mecenato Pombalino e Política Neoclássica. São Paulo, Edusp, 1999.


1 Por exemplo, “pioneiro dos estudos das religiões africanas no Brasil” e “teórico racista”. Vide: Thomas E. Skidmore (1976), Carl N. Degler (1976), Lilia Moritz Schwarcs(1979), Mariza Corrêa(2001).


i As informações apresentadas a seguir estão presentes no Site da Academia Maranhense de Letras. Disponível em: http://www.academiamaranhense.org.br/index.php . Acesso em: 13/06/2010.

ii Ode é uma composição poética que surgiu na Grécia Antiga, e era cantada e acompanhada pela lira. Ode, em grego significa canto.

iii Modernamente, elegia é um poema de tom terno e riste. Geralmente é uma lamentação pelo falecimento de um personagem público ou um ser querido. Vale ressaltar que na elegia também há digressões moralizantes destinadas a ajudar ouvintes ou leitores a suportar momentos difíceis. Por extensão, designa toda reflexão poética sobre a morte: a elegia, assim como a Ode, tem extensões variadas. O que as difere é que a elegia trata de acontecimentos infelizes do próprio autor ou da sociedade.

iv Écloga é um pequeno poema pastoral que apresenta, na maioria das vezes, a forma de um diálogo entre pastores ou de um solilóquio.

v Ditirambo ("hino em uníssono") consistia numa ode entusiástica e exuberante dirigida ao deus, dançada e representada por um Coro de 50 homens (cinco por cada uma das tribos da Ática) vestidos de sátiro (meio homem, meio bode, uma espécie de servo de Dioniso).





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