Nick hornby alta Fidelidade Colecção Estarias



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NICK HORNBY
Alta Fidelidade
Colecção Estarias
Tradução de Maria Augusta Júdice
Teorema
© Nick Hornby
Título original: High Fidelity
Tradução: Maria Augusta Júdice
Capa: Fernando Mateus
Paginação: RMA
Impressão e acabamento: Rainho & Neves, Lda. / Santa Maria da Feira
Este livro foi impresso no mês de Maio de 1997
ISBN: 972-695-285-9
Depósito legal nº 111609/97

Todos os direitos reservados por:

EDITORIAL TEOREMA, LDA.
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1 100 Lisboa / Portugal

Telef.: 312 91 31

Fax: 352 14 80


Para a Virginia
antigamente.,
As minhas cinco namoradas mais memoráveis de todos os tempos, que levaria para uma ilha deserta, por ordem cronológica:

1) Alison Ashworth

2) Penny Hardwick

3) Jackie Allen

4) Charlie Nicholson

5) Sarah Kendrew.

Estas foram as que doeram mais. Vês o teu nome na lista, Laura? Acho que tu até entrarias no top das dez mais, mas não há lugar para ti no top das cinco mais; esses lugares estão reservados para o tipo de humilhações e corações destroçados que tu muito simplesmente és incapaz de provocar. É provável que isto soe mais cruel do que eu desejaria, mas a verdade é que somos velhos demais para fazer a vida negra um ao outro, e isso é uma coisa boa, e não uma coisa má, portanto não consideres um fracasso o facto de não entrares na lista. Esse tempo passou, que se lixe; naquela altura, a infelicidade significava alguma coisa. Agora é só uma chatice, como uma constipação

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ou não ter dinheiro. Se querias mesmo fazer-me mal, devias ter vindo mais cedo.


1) Alison Ashworth

A maioria das noites, íamos para o parque mesmo ao pé da minha casa. Eu vivia em Hertforshire, mas também podia viver em qualquer subúrbio de Inglaterra: era o tipo de subúrbio e o tipo de parque — a três minutos de casa, mesmo do outro lado da estrada onde havia uma pequena fila de lojas (um supermercado de produtos vegetarianos, uma tabacaria, uma loja de bebidas alcoólicas). Não havia ali nada que ajudasse as pessoas a encontrar as suas coordenadas geográficas; se as lojas estivessem abertas (e elas fechavam às cinco e meia, e à uma às quintas, e estavam fechadas domingo o dia inteiro), podia-se ir ao quiosque à procura do jornal da região, mas até isso podia não ajudar muito.

Nós tínhamos doze ou treze anos, e tínhamos descoberto a ironia há pouco tempo — ou pelo menos o que eu entendi mais tarde por ironia: só nos permitíamos brincar nos baloiços e no carrocel e nas outras coisas de miúdos que para ali estavam a enferrujar se conseguíssemos fazê-lo com uma espécie de distanciamento irónico constrangido. Isso implicava uma imitação de distracção (assobiar, conversar ou brincar com uma beata ou caixa de fósforos geralmente resultava) ou um namoro inócuo, por isso, saltávamos dos baloiços quando eles não podiam subir mais alto, saltávamos para o carrocel quando ele não podia andar mais depressa, ficávamos agarrados à ponta do sobe-e-desce até ele estar quase na vertical. Se conseguíssemos arranjar maneira de provar que essas diversões infantis tinham potencial para nos dar cabo dos miolos, passava a ser aceitável tomar parte nelas.

No entanto, não tínhamos ironia em relação às miúdas. Não havia tempo para desenvolvê-la. Num dado momento elas não

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existiam, pelo menos na forma que nos interessava, e no momento seguinte não podíamos deixar de vê-las; estavam em todo o lado, onde quer que fosse. Numa altura apetecia-nos dar-lhes uma marretada na cabeça por serem a nossa irmã, ou a irmã de outro qualquer, e no momento seguinte, apetecía-nos... na verdade, não sabíamos o que nos apetecia, mas era alguma coisa, alguma coisa. Quase de um dia para o outro, todas essas irmãs (não havia outro tipo de miúda, na altura) se tinham tornado interessantes, inclusivamente perturbadoras.

Ouçam, o que é que havia em nós de diferente, que não tínhamos antes? Vozes esganiçadas, mas uma voz esganiçada não adianta muito, de facto — torna-nos ridículos, e não desejáveis. E os pêlos púbicos que começavam a surgir eram segredo nosso, eram só entre nós e os nossos troncos em ”Y”, e passariam anos até um membro do sexo oposto poder verificar que eles estavam no devido lugar. As miúdas, por seu turno, tinham seios visíveis e, ao mesmo tempo, uma nova maneira de andar: braços cruzados à frente do peito, uma posição que disfarçava e simultaneamente chamava a atenção para o que acabara de acontecer. Além disso, havia a maquilhagem e o perfume, invariavelmente barato, e aplicado inadequada e por vezes economicamente, mas mesmo assim um sinal bastante atemorizante de que as coisas tinham progredido sem nós, para lá de nós, nas nossas costas.

Comecei a andar com uma delas... não, não é verdade, porque não tive qualquer influência no processo da tomada de decisão. E também não posso dizer que ela começou a andar comigo: o problema é a expressão ”andar com”, pois sugere uma certa paridade e igualdade. O que aconteceu foi que a Alison, irmã do David Ashworth, se afastou do grupo feminino que se reunia todas as noites perto do banco, adoptou-me, meteu-me debaixo do braço e levou-me para longe do sobe-e-desce.

Não me consigo lembrar como ela fez isso. Acho que na

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altura nem sequer me apercebi, porque até metade do tempo que durou o nosso primeiro beijo, o meu primeiro beijo, lembro-me de me sentir completamente surpreendido, totalmente incapaz de explicar como é que a Alison Ashworth e eu nos tínhamos passado a ser tão íntimos. Eu nem sabia bem como tinha acabado por ir parar ao lado do parque onde ela costumava estar, longe do irmão dela e do Mark Godfrey e dos outros, nem como nos tínhamos separado das amigas dela, nem porque é que ela aproximara a cara para eu perceber que devia pousar os lábios sobre os seus. O episódio em si constitui um desafio a qualquer explicação racional. Mas todas essas coisas aconteceram, e repetiram-se, a maior parte na noite seguinte, e na noite a seguir a essa.

O que é que eu julgaria que estava a fazer? O que é que ela julgaria que estava a fazer? Agora, quando quero beijar pessoas dessa maneira, com boca, língua e tudo isso, é porque também quero outras coisas: sexo, idas ao cinema na sexta-feira à noite, companhia e conversa, redes unidas de família e amigos, Lemsips trazidos à cama quando estou doente, um par de auscultadores novos para ouvir os meus discos e CDs, talvez um rapazinho chamado Jack e uma rapariguinha chamada Holly ou Maisie, ainda não decidi. Mas eu não queria nenhuma dessas coisas da Alison Ashworth. Não queria crianças, porque nós éramos crianças, nem idas ao cinema sexta-feira à noite porque íamos aos sábados de manhã, e não queria Lemsips porque era a minha mãe que mos trazia, nem sequer sexo; especialmente não queria sexo, por favor, sexo não, a invenção mais suja e aterrorizadora do início dos anos 70.

Então o que significava o linguado? A verdade é que não significava nada; estávamos apenas perdidos no escuro. Aquilo era em parte imitação (pessoas que tinha visto dar beijos em

1972: James Bond, Simon Templar, Napoleon Solo, Barbara Windsor e Sid James ou possivelmente Jim Dale, Elsie Tanner,

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Omar Sharif e Julie Christie, Elvis e pessoas a preto-e-branco que a minha mãe gostava de ver, embora nunca abanassem a cabeça de um lado para o outro), em parte escravidão hormonal, em parte pressão para acasalar (o Kevin Bannister e a Elizabeth Barnes andavam naquilo há algumas semanas), e em parte pânico desesperado... não havia consciência, desejo nem prazer, para além de um calor estranho e moderadamente agradável nas entranhas. Éramos como animaizinhos, o que não implica que no fim da semana estivéssemos a partir a cabeça uns aos outros, mas sim que, metaforicamente falando, tínhamos começado a cheirar o rabo uns dos outros, e não achávamos o cheiro totalmente repelente.

Mas escuta, Laura. Na quarta noite da nossa relação eu apareci no parque, e a Alison estava sentada no banco com o braço à volta do Kevin Bannister, sem que se vissem sinais da Elizabeth Barnes. Ninguém disse nada: nem a Alison, nem o Kevin, nem eu, nem os atrasados mentais sem iniciação sexual que estavam agarrados à ponta do sobe-e-desce. Senti uma dor aguda e corei, e de repente esqueci-me de como se andava sem ter consciência de cada parte do corpo. O que havia de fazer? Para onde havia de ir? Não queria discutir; não queria ficar ali sentado com os dois; não queria ir para casa. Então, concentrando-me intensamente nos pacotes vazios de nº 6 que marcavam o caminho entre as miúdas e os rapazes, e sem olhar para cima nem para trás nem para os lados, regressei às fileiras de machos sozinhos agarrados ao sobe-e-desce. Quando ia a caminho de casa, cometi o meu único erro de avaliação: parei e olhei para o relógio, embora jure pela minha saúde que não sei o que queria dizer ou quem estava a tentar enganar. Afinal de contas, que horas podiam fazer um rapaz de treze anos desandar de ao pé de uma miúda e ir para o recreio de palmas das mãos suadas e coração acelerado, tentando desesperadamente não desatar a chorar? Com certeza que não haviam de

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ser as quatro de uma tarde de fins de Setembro.

Cravei um cigarro ao Mark Godfrey e fui sentar-me sozinho no carrocel.

— Horroroso — lançou David, o irmão de Alison, e eu sorri para ele, agradecido.

E acabou-se. Onde é que eu teria falhado? Primeira noite: parque, cigarro, linguado. Segunda noite: idem. Terceira noite: idem. Quarta noite: trocado. Está bem, está bem. Se calhar, devia ter visto os sinais. Se calhar, estava a pedi-las. Por volta do segundo ”idem”, devia ter detectado que estávamos a entrar na rotina, que deixara as coisas chegar ao ponto em que ela começara a andar à procura de outra pessoa. Mas ela podia ter tentado dizer-me! Podia ao menos ter-me dado mais uns dias para endireitar as coisas!

A minha relação com a Alison Ashworth tinha durado seis horas (o espaço de duas horas entre a escola e o Nationwide, vezes três), por isso, não podia queixar-me de não saber o que fazer de mim. Na verdade, agora não me lembro de quase nada em relação a ela. Cabelos pretos compridos? Talvez. Pequena? Mais pequena do que eu, de certeza. Olhos amendoados, quase orientais e pele escura? Tanto podia ser ela como outra qualquer. Tanto faz. Mas se esta lista fosse feita por ordem de sofrimentos e não por ordem cronológica, punha-a logo em segundo lugar. Seria agradável pensar que à medida que fui envelhecendo as coisas foram mudando, as relações tornaram-se mais sofisticadas, as mulheres menos cruéis, as peles menos grossas, as reacções mais agudas, os instintos mais desenvolvidos. Mas ainda parece haver um pouco daquela tarde em tudo o que me aconteceu desde então; todas as minhas outras histórias românticas parecem ser uma versão chapada da primeira. É evidente que nunca mais tive de andar aquele longo trajecto, e as minhas orelhas nunca mais arderam com a mesma fúria, e nunca mais tive de contar os pacotes de nº 6 para

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evitar olhares trocistas e rios de lágrimas... Nem por isso, de facto não, não dessa forma. Só que às vezes sinto-me assim.
2. Penny Hardwick (1973)

A Penny Hardwick era boa rapariga e, hoje em dia, sou totalmente a favor das boas raparigas, embora na altura não estivesse assim tão certo. Ela tinha um bom pai e uma boa mãe, e uma boa casa, afastada, com um jardim e uma árvore e um tanque de peixes, e um corte de cabelo de boa rapariga (ela era loura, e tinha o cabelo de tamanho médio, desportivo, limpo, forte, entroncado), e olhos simpáticos e sorridentes, e uma irmã mais nova que também era boa rapariga e sorria delicadamente quando eu tocava à campainha e desaparecia quando nós queríamos. Ela tinha boas maneiras — a minha mãe adorava-a — e tinha sempre boas notas. A Penny era gira, e os seus cinco cantores preferidos eram a Carly Simon, a Carole King, o James Taylor, o Cat Stevens e o Elton John. Imensa gente gostava dela. Por acaso, ela era tão boazinha que não me deixava pôr a mão por baixo nem por cima do soutien, e por isso eu acabei com ela, embora não lhe tenha dito porquê, evidentemente. Ela chorou, e odiei-a porque ela me fez sentir mal.

Imagino que tipo de pessoa a Penny Hardwick se tornou: uma boa pessoa. Sei que ela foi para a faculdade, teve bons resultados, e arranjou trabalho como produtora de rádio na BBC. Imagino que é inteligente, séria, talvez demasiado, às vezes, e ambiciosa, mas não de um modo que dê vontade de vomitar; ela era uma versão de todas estas coisas quando andávamos juntos, e noutra altura da minha vida teria achado todas essas virtudes atraentes. Mas naquela época eu não estava interessado em virtudes, mas apenas em seios, e portanto, ela não me servia.

Gostava de conseguir dizer-vos que tínhamos longas conversas

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interessantíssimas, e que ficámos bons amigos ao longo da adolescência — ela daria uma excelente amiga — mas acho que nunca conversámos. íamos ao cinema, a festas e a clubes, e brigávamos. Brigávamos no quarto dela, e no meu quarto, e na sala-de-estar da casa dela, e na minha sala-de-estar, e em quartos nas festas, e em salas-de-estar nas festas, e no Verão brigávamos em vários relvados. Estávamos sempre a brigar acerca do mesmo assunto. Às vezes, eu ficava tão farto de tentar tocar-lhe nos seios que tentava tocar-lhe entre as pernas, um gesto que tinha um certo espírito de auto-ironia: era como tentar pedir-lhe 5 libras emprestadas, ouvir uma recusa, e pedir

50 libras a seguir.

Eram estas as perguntas que os rapazes faziam aos outros rapazes na minha escola (uma escola só para rapazes): ”Tens tido sorte?”; ”Já fizeste alguma coisa?”; ”Até onde é que ela te deixa ir?” e assim sucessivamente. Algumas vezes, as perguntas eram ridículas, e já incluíam como expectativa a resposta ”Não”: ”Não estás a conseguir nada, pois não?”; ”Não tiveste sorte nenhuma, pois não?” Entretanto, as raparigas tinham de se contentar com a voz passiva. A Penny usava a expressão ”assaltada”: ”Ainda não quero ser assaltada”, explicava ela pacientemente e talvez com alguma tristeza (parecia saber que um dia — mas não agora — teria de ceder, e quando isso acontecesse ela não ia gostar) quando me tirava a mão do peito pela centésima vez. Ataque e defesa, invasão e repulsa... era como se os seios fossem pequenos bens que tinham sido anexados ilicitamente pelo sexo oposto — eles pertenciam-nos por direito, e nós queríamo-los de volta.

Felizmente, porém, havia traidores no campo rival. Alguns rapazes sabiam de outros rapazes cujas namoradas os ”deixavam” fazer o que eles quisessem; às vezes até se dizia que essas raparigas tinham tido participação activa na sua automolestação. Mas nunca ninguém tinha ouvido falar de uma

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rapariga que tivesse chegado ao ponto de se despir, ou apenas de tirar ou desapertar a roupa interior, claro. Isso seria levar a colaboração demasiado longe. Tanto quanto me parecia, essas raparigas tinham-se simplesmente colocado numa posição que encorajava a aproximação. ”Ela até encolhe o estômago e tudo”, comentou o Clive Stevens com ar de aprovação a propósito da namorada do irmão; levei quase um ano a perceber o alcance dessa manobra. Não admira que ainda me lembre do nome da encolhedora-de-estômago (Judith); há uma parte de mim que continua com vontade de se encontrar com ela.

Basta lermos qualquer revista feminina, que encontramos sempre a mesma queixa: os homens — esses rapazinhos de dez, vinte ou trinta anos — são uma desgraça na cama. Estão-se nas tintas para os preliminares; não gostam de estimular as zonas erógenas do sexo oposto; são egoístas, ambiciosos, desajeitados, demasiado simples. Essas queixas, não conseguimos deixar de senti-lo, são um bocado irónicas. Naquela altura, a única coisa que nós queríamos era os preliminares, e as raparigas não estavam interessadas. Não queriam ser tocadas, acariciadas, estimuladas, excitadas; de facto, até nos davam para trás se tentássemos. Por isso, não é de admirar que não sejamos muito bons em tudo isso. Passámos dois ou três anos longos e muito extremamente educativos a ouvir dizer com grande veemência para nem sequer pensarmos nisso. Entre os catorze e os vinte e quatro, os preliminares passam de uma coisa que os rapazes querem fazer e as raparigas não, para uma coisa que as mulheres querem e à qual os homens não ligam nenhuma. (Ou então é só o que dizem. Cá por mim, gosto dos preliminares — principalmente porque as vezes em que a única coisa que eu queria era tocar continuam perigosamente frescas na minha memória.) Se querem saber a minha opinião, o par ideal seria uma mulher Cosmo e um rapaz de catorze anos.



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Se alguém me tivesse perguntado porque é que eu estava tão decidido a agarrar o peito da Penny Hardwick, não teria sabido que responder. E se alguém perguntasse à Penny porque é que ela estava tão decidida a impedir-me, aposto que ela também embatucava. Que é que eu tinha a ganhar com isso? Afinal de contas, eu não pedia qualquer tipo de reciprocidade. Porque é que ela não queria que as suas zonas erógenas fossem estimuladas? Não faço ideia. Só sei que se quiséssemos, podíamos encontrar as respostas para todo o tipo de perguntas difíceis enterradas nesse interregno guerreiro entre o primeiro pêlo púbico e o primeiro Durex usado.

E em todo o caso, talvez eu não tivesse tanta vontade como julgava de pôr a mão debaixo do soutien da Penny. Talvez outras pessoas quisessem mais que eu lhe tocasse do que eu próprio. Ao fim de um ou dois meses de lutas em sofás por toda a cidade, com a Penny, fartei-me: tinha confessado a um amigo, por insensatez, vejo-o agora, que não estava a conseguir nada, e o meu amigo contou a outros amigos, e fui objecto de uma quantidade de anedotas cruéis e desagradáveis. Dei à Penny uma última tentativa, no meu quarto enquanto os meus pais estavam na câmara a ver uma interpretação da sociedade dramática de Toad of Toad Hall; usei um grau de força que teria ultrajado e aterrorizado uma mulher adulta, mas não consegui nada, e quando a fui levar a casa mal falámos.

Fui brusco com ela na próxima vez que saímos, e quando ela me ia dar um beijo, ao fim da noite, afastei-a. ”Para quê?” perguntei eu. ”Nunca dá em nada.” Na vez seguinte ela perguntou se eu ainda queria vê-la, e eu virei a cara. Andávamos juntos há três meses, que era a coisa mais parecida com uma relação permanente que se podia esperar ter no quarto ano. (Os pais dela até tinham sido apresentados aos meus. Os quatro tinham gostado de se conhecer.) Então, ela desatou a chorar, e eu odiei-a por me fazer sentir culpado, e por me fazer acabar com ela.

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Comecei a andar com uma rapariga chamada Kim, que eu por acaso sabia que já tinha sido invadida e que (não me enganei ao supô-lo) não se importava de ser invadida outra vez: a Penny começou a andar com o Chris Thomson da minha turma, um rapaz que já tinha tido mais namoradas do que nós todos. Eu estava fora de pé, e ela também. Uma manhã, cerca de três semanas depois da minha última briga com a Penny, o Thomson entrou aos berros na nossa sala. ”Olá, Fleming espástico. Adivinha a quem fiz a folha a noite passada.”

Senti a sala andar à roda.

Tu nem conseguiste apalpar uma mama decentemente em três meses, e eu dei-lhe uma queca logo na primeira semana. Eu tinha sido humilhado, vencido, ultrapassado; sentia-me estúpido, e pequeno, e muitíssimo mais novo do que aquele imbecil desagradável, matulão e fala-barato. Não me devia ter importado tanto. O Thomson estava à vontade em questões do baixo ventre, e havia imensos parvinhos no 4ºB que nunca tinham sequer posto o braço à volta de uma rapariga. A minha própria posição na questão, por mais inaudível que fosse, deve ter-lhes parecido demasiado elaborada. Eu não estava a perder assim tanto a cara. Mas continuava sem saber o que tinha acontecido. Como se dera aquela transformação na Penny? Como é que a Penny tinha passado de uma rapariga que não fazia nada para uma rapariga que fazia tudo o que havia para fazer? Talvez fosse melhor não pensar demasiado nisso; não queria ter pena de mais ninguém além de mim.

Espero que a Penny tenha acabado por ter sorte, e sei que eu tive sorte, e desconfio que o próprio Chris Thomson não é a pior pessoa do mundo. Pelo menos, não consigo imaginá-lo a chegar ao local de trabalho, ao banco ou ao escritório da companhia de seguros ou stand de automóveis, pousar a pasta e informar um colega com um riso rouco que ”deu uma queca” à mulher doutro colega qualquer. (No entanto, é bastante possível

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imaginá-lo a dar uma queca à mulher. Já naquela altura ele tinha ar de dormir com as mulheres dos outros.) As mulheres que criticam os homens — e há muito a criticar — deviam lembrar-se da maneira como nós começámos, e do caminho que tivemos de percorrer.


3. Jackie Allen (1975)

A Jackie Allen era a namorada do meu amigo Phil, e eu namorisquei-a, devagar, pacientemente, ao longo de vários meses. Não foi fácil. Exigiu muito tempo, muita aplicação e muitas decepções. O Phil e a Jackie começaram a andar juntos na mesma altura que a Penny e eu, só que continuaram: ao longo do quarto ano dos risinhos e das hormonas, e o quinto ano do ”fim-do-mundo”, dos ”O”-levels e último do liceu, até à sobriedade do primeiro nível do sexto ano, a imitar os adultos. Eles eram o nosso par de ouro, os nossos Paul e Linda, os nossos Newman e Woodward, prova rematada de que, num mundo infiel e instável era possível envelhecer, ou pelo menos ficar mais velho, sem cortes e mudanças de mês a mês.

Não sei bem porque raio é que queria foder-lhes o esquema a eles e a toda a gente que precisava que eles andassem juntos. Sabem como é quando se vê t-shirts amontoadas numa loja de roupa e se compra uma? Nunca parece a mesma quando se chega a casa. Só parecia boa na loja, descobrimos tarde demais, porque tinha as outras à volta. Bem, foi mais ou menos assim. Eu esperava que, se saísse com a Jackie, parte da sua dignidade de mulher-de-Estado-mais-velha passasse para mim, mas é claro que sem o Phil ela não tinha dignidade nenhuma. (Se era aquilo que eu queria, talvez devesse ter tentado arranjar maneira de andar com os dois, mas esse tipo de coisa já é suficientemente difícil quando se é adulto; aos dezassete anos, era capaz de chegar para apanhar uma pedrada mortal.)

O Phil começou a trabalhar numa boutique de roupa masculina

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aos sábados, e aí entrei eu. Aqueles de nós que não trabalhavam, ou que, como eu, trabalhavam depois das aulas mas não aos fins-de-semana, encontrávamo-nos ao sábado à tarde para andar para trás e para a frente na High Street, perder demasiado tempo e dinheiro com discos da Harlequin Records, e ”permitíamo-nos” (sem querer, tínhamos apanhado o vocabulário das nossas mães, marcado pelas carências do pós-guerra) um café de saco, que considerávamos o último grito. Às vezes, entrávamos para ir ver o Phil; de vez em quando, ele deixava-me aproveitar dos descontos para o pessoal. Isso não me impediu de lhe foder a namorada por trás das costas.

Eu sabia, porque tanto a Alison como a Penny me tinham ensinado, que não ter sorte nenhuma com uma pessoa pode ser uma desgraça, mas o que não sabia era que ter êxito com alguém podia ser igualmente triste. Mas a Jackie e eu éramos tristes de um modo excitante e adulto. Encontrávamo-nos em segredo e telefonávamo-nos em segredo e íamos para a cama em segredo e dizíamos coisas como ”O que é que vamos fazer?” em segredo e falávamos de como ia ser bom quando deixássemos de ter de fazer coisas em segredo. Nunca pensei a sério se isso era verdade ou não. Não havia tempo para isso.

Tentei não deitar muito abaixo o Phil —já me sentia suficientemente mal por andar a foder-lhe a namorada e tudo o mais. Mas foi inevitável, porque quando a Jackie exprimia dúvidas em relação a ele, eu tinha de alimentar aquelas dúvidas como se fossem gatinhos enfezados, até elas se transformarem em razões de queixa robustas e saudáveis, com as suas portinhas para poderem entrar e sair das nossas conversas à vontade.

Até que numa noite, numa festa, vi o Phil e a Jackie enroscados num canto, e o Phil estava nitidamente desolado, pálido e quase a chorar, e a seguir ele foi para casa, e na manhã seguinte ela telefonou-me e perguntou-me se eu queria ir dar um

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passeio, e fomos, e já não estávamos a fazer as coisas em segredo, e aquilo durou cerca de três semanas.

Tu dirias que isto foi infantil, Laura. Dirias que é uma estupidez comparar o Rob e a Jackie com o Rob e a Laura, que estão a meio dos trinta, estabelecidos, a viver juntos. Tu dirias que o adultério adulto ultrapassa aos pontos o adultério adolescente, mas estarias enganada. Já estive numa ponta do triângulo várias vezes desde então, mas a primeira foi o mais agudo. O Phil nunca mais me falou; a multidão das compras de sábado também não teria muito a ver connosco. A minha mãe recebeu um telefonema da mãe do Phil. Durante algumas semanas, senti-me mal na escola.

Comparemos e contrastemos com o que acontecerá se eu fizer uma dessas agora: eu posso ir a pubs e bares diferentes, deixar o atendedor ligado, sair mais, ficar mais por casa, brincar com o meu compasso social e desenhar um círculo de amigos (de qualquer modo, os meus amigos nunca são os amigos dela, quem quer que ela seja), evitar todo o contacto com pais desaprovadores. Mas esse tipo de anonimidade não nos era possível na altura. Tínhamos de ficar ali, fosse em que situação fosse.

O que me fez ficar mais perplexo foi a sensação de decepção pura que me atacou quando a Jackie me telefonou naquele domingo de manhã. Não era capaz de entendê-lo. Eu andava a planear aquela captura há meses, e quando chegou a capitulação, não senti nada — ainda menos que nada. Eu não podia dizer isto à Jackie, é evidente, mas por outro lado fui perfeitamente incapaz de mostrar o entusiasmo que sentia que ela precisava, por isso resolvi tatuar o nome dela no meu braço direito.

Não sei. Fazer uma escarificação que duraria até ao fim da vida parecia muito mais fácil que ter de dizer à Jackie que aquilo tinha sido um erro grotesco, que tinha estado só a brincar;

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se eu lhe mostrasse a tatuagem, prosseguiu a minha lógica peculiar, não teria de ter de me preocupar para encontrar palavras que me ultrapassavam. Explicaria que não sou tipo de fazer tatuagens; não sou, nem era, decadente desbragado nem musculoso e entroncado. Mas nessa altura havia uma mania desastrosa na nossa escola, e sei que vários homens que estão agora na casa dos trinta, contabilistas e professores, gestores de pessoal e programadores de computador, têm mensagens terríveis (”MUFE KICK TO KILL”, ”LYNYRD SKYNYRD”) dessa época queimadas na carne.

Eu ia só tatuar um ”J (coração) R” discreto no antebraço direito, mas o Victor, o tatuador, impediu-me.

— Quem é ela? O ”J” ou o ”R”?




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