Nham escamas ou línguas bifurcadas, mas ainda assim estão aí, mostrando os dentes, acotovelando-se e tentando nos vender suven



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A Cor da Magia – Terry Pratchett (Discworld 1)

NOTA DA EDIÇÃO BRASILEIRA

TERRY PRATCHETT USA DE MUITO HUMOR E SUTILEZA também na hora de dar nomes aos personagens e lugares de suas histórias. Isso é um desafio para a tradução: como recriar em português os mesmos trocadilhos que o autor faz, contando com a cumplicidade do leitor que os decifra e se diverte com as referências a seu cotidiano? Por exemplo, Morpork, a cidade pestilenta, pode soar em inglês como more pork, “mais porco”. Decidimos traduzir os nomes mais óbvios, como Cercaferência (Circumfence) e Duasflor (Twoflower). Deixamos no original os que assim soam melhor (como Discworld em vez de Mundo do Disco) e não alteramos os que perderiam o sentido subentendido (como o wyrm de Wyrmberg, que tanto se refere a verme quanto é uma palavra antiga para designar dragão). Morte também nos deu trabalho: o gênero do personagem, masculino, fica mantido nesta edição, embora possa soar estranho para nós, brasileiros, que nos referimos à morte usando o gênero feminino. Esperamos que você também explore os significados que Pratchett escondeu nos nomes de A Cor da Magia.

Boa leitura!

SUMÁRIO

A cor da magia: prólogo 13



1.A cor da magia 15

A emissão de oito: prólogo 77

2. A emissão de oito 81

3. O fascínio de Wyrm 117

4. Perto da beira 169

A Cor da Magia

PRÓLOGO

NUM DISTANTE CONJUNTO DE DIMENSÕES de segunda mão, num plano astral que não fora destinado a voar, a névoa estelar flutua e se dissipa...



Veja...

Grande A’Tuin, a Tartaruga, surge lentamente nadando pelo abismo interestelar, com gelo de hidrogênio nas patas pesadas e crateras meteoríticas na enorme e primitiva carapaça. Com olhos do tamanho de oceanos cobertos de lágrimas e poeira de asteróide, olha fixamente para o Alvo.

No cérebro maior do que uma cidade, e em lentidão geológica, Ela pensa somente no Peso.

É claro que a maior parte do peso se deve a Berilia, Tubul, Grande T’Phon e Jerakeen, os quatro elefantes gigantescos cujos ombros largos e bronzeados pelos astros sustentam o imenso mundo do disco, o Discworld, rodeado pela longa queda-d’água em sua vasta circunferência e coroado pela abóbada azul-bebê do Paraíso.

A astropsicologia ainda não conseguiu determinar o que pensam os quatro animais.

A Grande Tartaruga era uma mera hipótese até o dia em que o pequeno e obscuro reino de Krull, cujas montanhas se projetam sobre a beira, construiu uma enorme grua com roldanas na ponta do penhasco mais íngreme e por esse mecanismo vários observadores desceram pela Borda, numa nave de bronze com janelas de quartzo, para que enxergassem através da cortina de névoa.

Os antigos astrozoólogos, puxados de volta por enormes grupos de escravos, conseguiram retornar com muitas informações acerca da forma e da natureza de A’Tuin e dos elefantes, mas isso não resolveu questões fundamentais da essência e do propósito do universo.

Por exemplo, qual era afinal o sexo de A’Tuin? Essa pergunta vital, diziam os astrozoólogos cada vez mais respeitados, só seria respondida quando uma grua maior e mais potente fosse construída para uma nave espacial. Enquanto isso não acontece, podiam apenas especular sobre o cosmo.

Havia, por exemplo, a teoria de que A’Tuin viera de lugar nenhum e continuaria a se arrastar de maneira regular, em marcha constante rumo a lugar nenhum, para todo o sempre. A teoria era muito bem-aceita entre os acadêmicos.

Uma alternativa, preferida pelos religiosos, era a de que A’Tuin rastejava do Lugar de Origem à Época de Acasalamento - bem como todas as estrelas no céu, obviamente também carregadas por tartarugas gigantescas. Quando chegasse o momento, se acasalariam com enorme paixão e por pouco tempo, pela primeira e última vez. Dessa ardente união nasceriam novas tartarugas, que originariam novos modelos de mundo. Essa hipótese era conhecida como Big-Bang.

E foi assim que um jovem cosmoquelônio da facção Marcha Constante, testando o novo telescópio com que esperava medir as dimensões exatas da córnea do olho direito de A’Tuin nessa noite agitada, acabou sendo a primeira pessoa de fora a ver fumaça subir em direção ao Centro, vinda do incêndio da cidade mais antiga do mundo.

Naquela noite, mais tarde, o jovem se viu tão compenetrado nos estudos que se esqueceu completamente do ocorrido. Não obstante, ele foi o primeiro.

Houve outros...

O FOGO RUGIA NA CIDADE GEMINADA de Ankh. No Bairro dos Magos, ardia uma chama azul e verde mesclada por estranhas centelhas da oitava cor, a octarina. Nos tanques e nos depósitos de combustível da Rua do Mercado as chamas avançavam, provocando uma série de explosões de onde subiam jorros flamejantes. Nas ruas dos fabricantes de perfume, a fumaça era mais doce. Nos depósitos dos curandeiros, atingia molhos de raras ervas secas e fazia os homens enlouquecerem e falarem com Deus.

A essa altura, todo o centro da cidade de Morpork estava iluminado e os habitantes mais ricos e ilustres de Ankh reagiam bravamente, demolindo as pontes com fervor para que o fogo não avançasse. Mas os navios nas docas de Morpork - carregados de cereais, algodão e madeira e cobertos de alcatrão - já queimavam e, como as amarras viraram pó, avançavam na maré baixa do Rio Ankh, incendiando palácios e caramanchões à medida que eram levados para o oceano como vagalumes prestes a se afogar. As fagulhas voavam com a brisa e caíam por toda parte, até muito além do rio, em jardins escondidos e campos remotos.

A fumaça do incêndio subia vários quilômetros numa coluna negra esculpida pelo vento que se podia entrever por todo o Discworld.

Era verdadeiramente impressionante avistá-la da colina fria e escura a quilômetros de distância. Era dali que aqueles dois indivíduos a observavam com considerável interesse.

O mais alto da dupla comia uma coxa de frango e se apoiava numa espada que era só um pouco menor do que um homem de tamanho médio. Se não fosse pelo ar de inteligência que apresentava, poderíamos imaginar que se tratava de um bárbaro dos desertos da Centrolândia.

Seu companheiro era bem mais baixo e estava coberto dos pés à cabeça com uma capa marrom. Mais tarde, quando ele tiver oportunidade de andar, veremos que se move com leveza, de modo quase furtivo.

Os dois mal haviam se falado nos últimos vinte minutos, a não ser pela breve discussão a respeito do barulho de uma explosão particularmente forte na direção de um depósito de combustível ou da oficina de Kerrível, o Mágico. Havia dinheiro em jogo.

Agora o homem grande acabava de roer o osso e jogava os restos na grama, sorrindo com pesar.

- Lá se vão todos aqueles becos - lamentou. - Eu gostava dos becos.

-Todos os tesouros - disse o homem pequeno. E então acrescentou, pensativo: - Pedra preciosa queima? Tenho minhas dúvidas. Dizem que as pedras são da mesma família do carvão.

- Todo o ouro derretendo e correndo pelas valas - continuou o maior, ignorando o outro. - E todo o vinho fervendo nos barris.

- Tinha ratos - argumentou o companheiro.

- Ratos, é verdade.

- Não era lugar para passar o alto verão.

- Eu sei. Mas não posso deixar de sentir um... bem, uma espécie de...

Ele se deteve, então pareceu mais animado.

- A gente devia oito moedas de prata ao Fredor da Sanguessuga Carmesim - acrescentou.

O pequeno concordou.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo, enquanto novas explosões riscavam um traço vermelho numa parte até então escura da maior cidade do mundo. O homem grande se agitou.

- Manhoso?

- O quê?


- Fico imaginando quem começou esse fogo.

O pequeno espadachim conhecido por Manhoso não disse nada. Ele observava a estrada sob o clarão avermelhado. Poucos tinham vindo dali, já que o Portão Deosil fora o primeiro a desmoronar numa avalanche de brasas.

Mas agora vinham dois. Os olhos de Manhoso, sempre mais aguçados no escuro e à meia-luz, distinguiram os vultos de dois homens a cavalo e algum outro animal baixo indo atrás. Sem dúvida, um comerciante rico fugindo com a maior quantidade de bens em que conseguira pôr as mãos ávidas. Manhoso falou isso para o companheiro, que suspirou.

- A fama de assaltante não nos cai nada bem - disse o bárbaro -, mas, como você diz, são tempos difíceis. Esta noite não vai ter moleza.

Então mudou a empunhadura da arma e, quando o cavaleiro que vinha à frente se aproximou, avançou para a estrada com a mão erguida e o rosto exibindo um sorriso bem calculado, para tranqüilizar ao mesmo tempo em que ameaçava.

- Com licença, senhor... - começou ele.

O cavaleiro puxou as rédeas e tirou o capuz. O homem grande viu o rosto cheio de queimaduras superficiais e os tufos de barba chamuscada. Até as sobrancelhas haviam desaparecido.

- Dê o fora-disse o cavaleiro. -Você é Bravd de Centrolândia, não é?



Aqui, talvez valha a pena fazer algumas observações sobre a forma e a cosmologia do sistema do Discworld.

Existem, é claro, dois sentidos principais no disco: o centro e a borda. Mas como o próprio disco gira à velocidade de uma vez a cada oitocentos dias (de acordo com o Reforgule de Krull, com o objetivo de distribuir o peso de maneira justa entre os paquidermes que o sustentam), também há dois sentidos secundários, que são o horário e o anti-horário.

Como o pequenino sol do Discworld mantém uma órbita fixa enquanto o imponente disco gira lentamente abaixo dele, podemos deduzir que o ano no Discworld consiste não em quatro, mas em oito estações. Verão é quando o sol nasce ou se põe perto da Borda. Inverno, a época em que nasce ou se põe num ponto cerca de 90 graus ao longo da circunferência.

Assim, nas regiões ao redor do Mar Círculo, o ano começa no Reveillon dos Porcos, passa pela Primavera em Flor até o primeiro verão (Véspera dos Pequenos Deuses), seguido por Auge do Outono e - atravessando o meio exato do ano, Cruelmaré - Inverno Secundus (também conhecido por Rocainverno, já que, nessa época, o sol nasce no sentido de rotação). Então vem a Primavera Secundus, com Verão II no encalço, e o marco dos três quartos do ano é a noite de Inatividade Geral - de acordo com as lendas, única noite do ano em que bruxas e feiticeiros não saem da cama. Depois, folhas trazidas pelo vento e noites frias se arrastam para Rocainverno de Efeito e um novo Reveillon dos Porcos se aconchega como uma jóia gelada em seu coração.

Como o Centro nunca é aquecido de perto pelo sol fraco, a região está sempre gelada. A Borda, por sua vez, é um local de ilhas ensolaradas e dias deliciosos. Existem, é claro, oito dias na semana do Discworld e oito cores em seu espectro visível. Oito é um número de grandes significados ocultos no disco e jamais deve ser dito por um mago.

O motivo exato do que foi dito acima ser dessa forma não está claro, mas explica um pouco por quê, no Discworld, os Deuses são mais criticados do que venerados.

Bravd se deu conta de que não fora feliz na iniciativa.

- Suma daqui - ordenou o cavaleiro. - Não tenho tempo para você, entendeu?

Então olhou ao redor e acrescentou:

- E isso também serve para aquele seu parceiro pulguento que vive no esgoto, onde quer que esteja se escondendo.

Manhoso surgiu na frente do cavalo e encarou a figura descabelada.

- Ora, é o mago Rincewind, não é? - perguntou com ar satisfeito, enquanto registrava na memória a descrição que o mago fizera dele, para uma futura vingança. - Achei que tinha reconhecido a voz.

Bravd cuspiu e guardou a espada. Não valia a pena se meter com magos - até porque nunca tinham qualquer coisa de valor.

- Ele fala com bastante arrogância para um simples mago - Bravd sussurrou.

- Você não entendeu nada - disse Rincewind, cansado. - Tenho tanto medo de você que meus ossos viraram geléia. Quando essa overdose de terror passar, vou poder ficar apavorado de maneira mais decente.

Manhoso apontou para a cidade em chamas.

- Passou por lá? - perguntou.

O mago esfregou os olhos com a mão em carne viva.

- Eu estava lá quando tudo começou. Está vendo ali atrás?

Ele apontou para o ponto da estrada onde o companheiro de viagem se esforça para chegar, tendo adotado um método de equitação que consistia em cair da sela a cada poucos segundos.

- O que é que tem? - perguntou Manhoso.

- Foi ele quem começou - respondeu Rincewind direto.

Bravd e Manhoso olharam para o rapaz, agora pulando na estrada com um pé no chão e outro no estribo.

- Incendiário? - perguntou Bravd, afinal.

- Não - respondeu Rincewind. - Não exatamente. Digamos que, se o caos completo e absoluto descesse sobre nós, ele seria do tipo que, durante uma tempestade, sobe à montanha usando armadura de cobre e grita “Todos os deuses são uns cretinos!” Tem comida?

- Tem um pouco de frango - disse Manhoso. - Em troca de uma história.

- Qual é o nome dele? - quis saber Bravd, que costumava ficar para trás nas conversas.

- Duasflor.

- Duasflor? - surpreendeu-se o bárbaro. - Que nome engraçado!

- Vocês - disse Rincewind, descendo do cavalo - não sabem nem da metade. Frango, é?

- Bem temperado - informou Manhoso.

O mago soltou um gemido.

- Isso me faz lembrar de uma coisa - acrescentou Manhoso, estalando os dedos. - Teve uma explosão forte mais ou menos meia hora atrás...

- Foi o depósito de combustível do porto indo pelos ares - informou Rincewind, estremecendo com a lembrança da chuva ardente.

Manhoso se virou e sorriu para o companheiro, que resmungou e lhe passou uma moeda tirada do bolso. Então houve um grito, abruptamente interrompido, vindo da estrada. Rincewind não tirou os olhos do frango.

- É uma das coisas que ele não sabe fazer, não sabe andar a cavalo - explicou.

Então ficou duro, como se acometido por uma súbita recordação, deu um gritinho de horror e saiu em disparada na escuridão. Quando voltou, carregava o indivíduo chamado Duasflor no ombro. O rapaz era pequeno e franzino e estava vestido de um jeito muito estranho, com uma camisa e uma calça que lhe descia até os joelhos - num contraste tão forte e violento de cores, que feriu os olhos sensíveis de Manhoso mesmo à meia-luz.

- Até onde dá para sentir, não quebrou nenhum osso - avaliou Rincewind.

O mago respirava com dificuldade.

Bravd piscou para Manhoso e foi investigar o vulto que os dois imaginavam se tratar de um animal de carga.

- É melhor esquecer - avisou o mago, sem desviar os olhos do inconsciente Duasflor. - Pode acreditar. Existe uma força que protege isso.

- Um feitiço? - perguntou Manhoso, agachando-se.

- Nã-ã-ão. Mas acho que é uma espécie de magia. Não dessas comuns. Quer dizer, pode transformar ouro em cobre apesar de, ao mesmo tempo, continuar sendo ouro. Deixa que homens ricos destruam suas posses, faz os fracos andarem sem medo entre bandidos, e atravessa as portas mais pesadas para derreter os tesouros mais protegidos. Até mesmo eu fui escravizado, de modo que preciso acompanhar esse maluco a contragosto e defendê-lo do perigo. É mais forte do que você, Bravd. E imagino que seja mais esperto até do que você, Manhoso.

- Então qual é o nome dessa magia tão poderosa? Rincewind encolheu os ombros.

- Na nossa língua, é chamada de som-refletido-de-espíritos-ocultos, Tem vinho?

- Você deve saber que não me ligo muito em magia - disse Manhoso. - Só no ano passado, com a ajuda do meu amigo aqui, fiz o Arquiadivinho de Ymitury se despedir dos empregados, do cinto de jóias lunares e da vida, mais ou menos nessa ordem. Não tenho medo desse som-refletido-de-espíritos-ocultos de que você está falando. Mas - acrescentou ele - fiquei interessado. Quem sabe você pode contar mais...

Bravd olhou para o vulto na estrada. Já estava mais próximo e visível sob a luz que antecedia a alvorada. Parecia exatamente uma...

- Uma caixa com pernas? - perguntou ele.

- Vou contar para vocês - disse Rincewind. - Se tiverem vinho, é claro.

Lá embaixo, no vale, houve um estrondo e um zumbido. Alguém mais imaginoso do que o resto da população havia mandado fechar as grandes comportas do rio, que ficavam no ponto em que o Ankh deixava a cidade gêmea. Impossibilitado de escoar, o rio transbordara e se alastrava pelas ruas incendiadas. Logo o continente de chamas se transformou numa série de ilhas, cada qual diminuindo de tamanho à medida que a maré negra se elevava. E acima da cidade tomada pela fumaça, subiu a nuvem quente de vapor que cobriu as estrelas. Manhoso achou que parecia um cogumelo ou um fungo escurecido.

A cidade formada pela orgulhosa Ankh e pela pestilenta Morpork, da qual todas as outras cidades no tempo e no espaço são mero reflexo, sofreu muitos ataques em toda a sua longa e tumultuada história e sempre conseguiu reflorescer. Portanto, o incêndio e depois a enchente - que destruiu tudo o que restava e que não tinha sido queimado, acrescentando ainda um cheiro terrível aos problemas dos sobreviventes - não assinalaram seu fim. Foram antes um sinal de pontuação, uma vírgula em brasa ou um ponto-e-vírgula em chamas, numa história que prossegue.

Vários dias antes desses acontecimentos, um navio chegou a Ankh na maré matutina e parou, entre muitos outros, na confusão de cais e docas na costa de Morpork. Levava um carregamento de pérolas rosadas, nozes-lácteas, pedras-pomes algumas cartas oficiais para o Patrício de Ankh e um homem.

Foi o homem que chamou a atenção de Cego Hugh, um dos mendigos de plantão no Porto Pérola aquela manhã. Ele cutucou Coxo Wa na altura das costelas e apontou em silêncio.

Agora o forasteiro estava no cais, observando os diversos marinheiros que se esforçavam para carregar uma grande arca de bronze pela prancha de desembarque. Outro homem, obviamente o capitão, estava a seu lado. Todos os nervos no corpo de Cego Hugh, que vibravam mesmo na presença da menor quantidade de ouro impuro, alertavam seu cérebro para um certo ar misterioso nos marinheiros. Um ar de quem antevê o enriquecimento iminente.

De fato, quando a arca foi depositada no chão, o forasteiro meteu a mão numa bolsa e houve um barulho de moeda. Várias moedas. Ouro. Cego Hugh, chiando como gordura quente em água fria, assobiou. Então cutucou Wa outra vez e mandou que fosse às pressas ao centro da cidade através de um beco próximo.

Quando o capitão voltou ao navio, deixando o recém-chegado meio que aturdido no cais, Cego Hugh pegou a caneca de mendigar e atravessou a rua com um olhar insinuante. Ao vê-lo, o forasteiro se pôs a revirar a bolsa de dinheiro, apressado.

- Bom dia, excelência - começou Cego Hugh, então se dando conta de que estava enxergando um rosto com quatro olhos.

Ele se virou para correr.

- ! - fez o estranho e lhe segurou o braço.

Hugh notou que os marinheiros alinhados na amurada do navio riam dele. Ao mesmo tempo, seus sentidos especiais detectaram um sinal muito forte de dinheiro. Ele parou. O forasteiro o soltou e logo corria o dedo pelo livrinho preto que havia tirado do cinto. Então disse:

- Oi.


- O quê? - perguntou Hugh.

O homem parecia hesitante.

- Oi - repetiu ele mais alto do que o necessário e com tanto cuidado que Hugh pôde ouvir as vogais tinirem.

- Oi, você - rebateu Hugh.

O forasteiro abriu um sorriso e mexeu de novo na bolsa. Dessa vez, tirou uma grande moeda de ouro. Na verdade, era um pouco maior do que a de 8 mil dólares ankhianos, e o desenho não era nada familiar, mas, na cabeça de Hugh, tratava-se de uma língua que ele entendia perfeitamente. Meu dono atual, dizia o objeto, precisa de socorro e auxílio. Por que não dar isso a ele e então podemos ir a algum lugar e nos divertir?

Mudanças sutis na postura do mendigo fizeram o forasteiro se sentir mais à vontade. Então ele consultou o livrinho outra vez.

- Eu gostaria de ser levado a um hotel, albergue, abrigo de caravanas ou a uma hospedaria, pensão, pousada - pediu ele.

- O quê? A tudo isso? - perguntou Hugh, surpreso.

- ? - fez o forasteiro.

Hugh notou que um pequeno grupo de peixeiros, catadores de mariscos e palermas autônomos vinha observando a conversa com interesse.

- Olhe só - disse ele. - Eu conheço uma boa pensão, pode ser?

Então se arrepiou só de pensar na idéia da moeda de ouro lhe escapar das mãos. Ficaria com essa, mesmo que Ymor confiscasse todo o resto. E, de qualquer modo, a grande arca que compreendia a maior parte da bagagem do recém-chegado parecia estar cheia de ouro.

O homem de quatro olhos investigou o livro.

- Eu gostaria de ser levado a um hotel, local de repouso, pensão, a...

- Está bem, já entendi. Então vamos - propôs Hugh, com pressa.

Pegou uma das trouxas e saiu a toda. O forasteiro, depois de uns instantes de hesitação, foi atrás.

Um pensamento correu pela cabeça de Hugh. Levar o recém-chegado a Tambor Quebrado com tanta facilidade foi sem dúvida um golpe de sorte e ainda era provável que Ymor o recompensasse. Mas, apesar de toda a candura do rapaz, havia qualquer coisa nele que incomodava Hugh, mesmo que ele não conseguisse descobrir o que era. Não se tratava dos dois olhos extras, apesar de serem estranhos. Havia alguma outra coisa. Ele deu uma olhada para trás.

O rapazote caminhava no meio da rua, observando tudo à volta com uma expressão de enorme interesse.

Outra coisa que Hugh viu quase o fez gritar. A grande arca de madeira, que ele havia visto pela última vez solidamente assentada no cais, estava seguindo os passos do dono num andar suave e gingado. Devagar, como se um movimento súbito de sua parte pudesse abalar o frágil controle que tinha sobre as pernas, Hugh se inclinou um pouco para olhar debaixo da arca. Havia uma infinidade de perninhas.

Cauteloso, Hugh se virou e seguiu com todo o cuidado para a Tambor Quebrado.

- Estranho - disse Ymor.

- Ele tinha uma arca enorme de madeira - acrescentou Coxo Wa.

- Deve ser comerciante ou espião - avaliou Ymor.

Então arrancou um pedaço da costeleta que tinha na mão e atirou para cima. A carne não chegara a atingir o ponto mais alto de seu arco quando um vulto negro saiu das sombras de um canto da sala e se atirou sobre o naco, pegando-o no ar.

- Comerciante ou espião - repetiu Ymor. - Eu prefiro que seja espião. Com espião, ganhamos duas vezes porque tem sempre a recompensa quando o entregamos. O que você acha, Withel?

De frente para Ymor, o segundo maior ladrão de Ankh Morpork fechou o único olho pela metade e encolheu os ombros.

- Investiguei a embarcação - disse ele. - É um navio mercante autônomo. De vez em quando vai até às Ilhas Morenas. Lá só tem selvagens. Não entendem nada de espiões e imagino que comam comerciantes.

- Ele parece comerciante - sugeriu Wa. - Só que magro.

Houve uma agitação de asas na janela. Ymor se levantou e cruzou a sala, voltando com um corvo grande nas mãos. Então, tirou a cápsula com a mensagem da perna do animal, que voou para se juntar aos companheiros escondidos nas vigas do telhado. Withel observou a ave sem qualquer afeição. Os corvos de Ymor eram notoriamente leais ao dono. A ponto de na única tentativa de Withel - que era seu braço direito - para atingir o posto de maior ladrão de Ankh-Morpork ter lhe custado o olho esquerdo. Mas não a vida. Ymor jamais censurava as ambições de alguém.

- B12 - anunciou Ymor, jogando fora o frasquinho e estendendo o minúsculo rolo de papel que havia dentro.

- Gorrin, o Gato - disse Withel de maneira automática. - Estação da torre do gongo, no Templo dos Pequenos Deuses.

- Diz que Hugh levou o forasteiro para a Tambor Quebrado. Até aí, tudo bem. Grandão é nosso amigo, não é?

- É - respondeu Withel. - Se ele sabe o que é bom para os negócios.

-Aliás, um dos fregueses dele é o seu amigo Gorrin - constatou Ymor com prazer - porque ele fala aqui sobre uma caixa com pernas, se é que estou entendendo o garrancho.

Ele encarou Withel por sobre a folha. Withel desviou o olhar.

- Ele vai ter o que merece - disse com indiferença.

Wa olhou para o homem recostado na cadeira - vestido de preto descansando com tanta indolência quanto um puma da Bordalândia num canto qualquer da selva- e concluiu que Gorrin, no alto do Templo dos Pequenos Deuses, logo se uniria àquelas pequeninas divindades nas múltiplas dimensões do Além. E ele devia três moedas de cobre a Wa.

Ymor amassou o bilhete e atirou num canto.

- Withel, acho que mais tarde vamos dar uma volta até a Tambor. E quem sabe provamos a cerveja que os seus amigos acham tão irresistível.

Withel não disse nada. Ser braço direito de Ymor era como ser açoitado suavemente até a morte com cordas perfumadas.

A cidade gêmea de Ankh-Morpork, mais do que qualquer outra às margens do Mar Círculo, dava guarida a um grande número de gangues, associações, sindicatos e outras organizações de bandidos. Essa era uma das razões da sua riqueza. A maioria das pessoas mais humildes, que morava no lado menos favorecido do rio - no emaranhado de becos de Morpork - complementava a renda minguada fazendo serviços para uma ou outra das gangues rivais. E foi assim que, quando Hugh e Duasflor entraram no átrio da Tambor Quebrado, líderes de várias dessas associações já sabiam que havia chegado à cidade alguém que parecia ser muito rico. O relato dos espiões mais observadores incluía detalhes sobre um livro que mostrava ao forasteiro como falar e uma caixa que andava sozinha. Esses fatos logo foram descartados. Nenhum mágico capaz de tais feitiços jamais se aproximara das docas de Morpork.

Como ainda era àquela hora da manhã em que a maioria das pessoas estava acabando de se levantar ou indo para a cama, poucas viram Duasflor descer a escada. Quando a Bagagem surgiu por trás dele e desajeitadamente começou a descer os degraus, os fregueses nas toscas mesas de madeira olharam com desconfiança para as bebidas.

Grandão estava ameaçando o duende que varria o bar quando os três passaram por ele.

- O que é isso? - ele perguntou.

- Não diga nada - sussurrou Hugh.

Duasflor já corria o dedo pelo livro.

- O que está fazendo? - perguntou Grandão, com as mãos na cintura.

- O negócio diz a ele como falar. Sei que parece ridículo - murmurou Hugh.

- Como é que um livro pode dizer a alguém como falar?

- Preciso de acomodação, quarto, alojamento, pensão, casa e comida. Os quartos são limpos, têm vista, quanto é a diária? - disse Duasflor de um fôlego.

Grandão olhou para Hugh. O mendigo encolheu os ombros.

- Ele tem muito dinheiro.

- Então, diga a ele que são três moedas de cobre. E essa Coisa vai ter de ficar com os animais.

- ? - perguntou o forasteiro.

Grandão ergueu três dedos grossos e vermelhos e logo o rosto do rapaz se iluminou, mostrando que havia entendido. Meteu a mão na bolsa e pôs três grandes moedas de ouro na palma de Grandão.

O homem olhou para elas. Era quatro vezes o valor da Tambor Quebrado, incluindo os empregados. Ele voltou os olhos para Hugh. Não ajudou em nada. Então encarou o forasteiro. E disfarçou.

- Isso mesmo - falou, com a voz aguda e afetada. - E é claro que tem as refeições. Entende? Comida. Você come, não é?

Então fez os gestos apropriados.

- Cumira? - perguntou o rapaz.

- Isso mesmo - respondeu Grandão, já começando a suar. - Dê uma olhada no livro.

O homenzinho abriu o pequeno volume e correu o dedo por uma página. Grandão, cuja capacidade de ler era sofrível, examinou a capa. O que viu não fazia nenhum sentido.

- Comiiida - disse o forasteiro. - Sim. Costeleta, picadinho cozido, guisado, fricassê, ensopado, carne moída, suflê, bolinho, manjar branco, frapê, mingau, lingüiça, não comer lingüiça, feijão, sem feijão, quitute, gelatina, geléia, miúdos.

E sorriu para Grandão.

- Tudo isso? - perguntou o dono da hospedaria, abalado.

- E só o jeito de ele falar - explicou Hugh. - Não pergunte por quê. Mas é assim.

Todos no recinto observavam o forasteiro - à exceção do mago Rincewind, que estava sentado no canto mais escuro da sala, embalando uma caneca de cerveja muito, muito fraca.

Ele observava a Bagagem.

Observe Rincewind.

Olhe para ele. Magrelo, como a maioria dos magos, vestia-se com um manto vermelho-escuro em que alguns símbolos místicos foram bordados com lantejoulas foscas. É provável que algumas pessoas o tomassem por um simples aprendiz de feiticeiro que havia fugido do mestre por rebeldia, tédio, medo ou uma persistente inclinação à heterossexualidade. Todavia, ele tinha no pescoço a corrente com o octógono de bronze que o distinguia como ex-aluno da Universidade Invisível, a grande escola de magia cujo campus - que transcende o tempo e o espaço - nunca está rigorosamente nem Aqui nem Ali. Em geral, os alunos deixavam a instituição sabendo tudo sobre mágica, mas Rincewind - depois de um episódio infeliz - saíra apenas com o conhecimento de um feitiço e ganhava a vida mal e porcamente obtendo dinheiro com o dom que tinha para línguas. Em regra, evitava o trabalho, mas tinha uma presença de espírito que levava seus conhecidos a compará-lo a um rato esperto. E podia reconhecer a madeira sábia de pereira quando via uma. Era o que estava vendo agora e mal conseguia acreditar.

Com muito esforço e tempo investido, um grande mágico talvez acabasse conseguindo uma varinha feita com a madeira sábia de pereira - que só crescia em locais de magia antiga. Mas era muito provável que não houvesse mais de duas em todas as cidades do Mar Círculo. Uma grande arca feita com o material... Rincewind tentou calcular e concluiu que, mesmo se o baú estivesse cheio de opalas estelares e bastões de auricolato, o conteúdo não valeria um décimo do valor da arca. Uma veia começou a lhe saltar na testa.

Ele se levantou e foi até onde estavam os três homens.

- Posso ajudar? - arriscou.

- Dê o fora, Rincewind - resmungou Grandão.

- Só achei que poderia ser útil falando com o cavalheiro na língua dele - disse o mago com polidez.

- Ele está se saindo bem sozinho - alegou o hospedeiro, mas se afastou um pouco.

Rincewind sorriu com toda a educação para o forasteiro e soltou algumas palavras em quimerês. Ele se vangloriava da fluência que tinha no idioma, mas o rapaz pareceu confuso.



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