Nas tramas da literatura infantil: olhares sobre personagens "diferentes"



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NAS TRAMAS DA LITERATURA INFANTIL: OLHARES SOBRE PERSONAGENS “DIFERENTES”1

IN THE PLOT OF CHILDREN’S LITERATURE – PERSPECTIVES ON “DIFFERENT” CHARACTERS

Autora: Rosa Maria Hessel Silveira2

Resumo:


Alteridade, anormalidade, heterogeneidade, diferença, diversidade, oposições identitárias – essas têm sido algumas das expressões mais usadas nos últimos tempos dentro dos discursos acadêmicos, escolares e dos movimentos sociais ligados a questões como multiculturalismo, estudos culturais e direitos das chamadas minorias. No cruzamento de tais discussões, os produtos culturais considerados artísticos merecem nossa atenção, reconhecendo-se seu poder de produção ou reprodução de representações, imagens e estereótipos. É a partir dessa premissa, que o presente trabalho se situa, com o objetivo de discutir as representações do “diferente” (humano ou não humano) – gênese de sua diferença, status, desfecho (cf. Amaral, 2002) – e à sua inserção no conjunto dos outros personagens da trama (os “normais”). Tal análise possibilita a discussão das diferentes formas com que a literatura infanto-juvenil tem abordado a questão, freqüentemente com intenções abertamente pedagógicas e formativas.

Abstract:

Abnormality, heterogeneity, difference, diversity, opposition identities--these are some of the expressions that have been used the most in the last years in the context of academic discussions, schools, and social movements linked to issues such as multiculturalism, cultural studies, and rights of so called minority groups. In the crossroads of these discussions can be found some cultural products considered to be artistic and that deserve our attention due to their power of production or reproduction of representations, images, and stereotypes. It is based on this premise that the present paper is inserted, with the objective of discussing the representation of what is "different" in 10 works of child-adolescent literature in circulation in Brazil in the last 10 years. Such works are examined in relation to the presentation of the "different" character ("real" or symbolic)--origin of its difference, status, outcome (cf. Amaral, 2002)--and his/her insertion into the set of other characters of the plot (the "normal" characters). This analysis opens up the discussion of the different forms that the child-adolescent literature has dealt with the issue, frequently with clear pedagogical and formative intentions.

Palavras-chave: literatura infantil- diferenças – estudos culturais – personagens

Key words: children’s literature – differences – cultural studies – characters

Introdução

Alteridade, anormalidade, heterogeneidade, diferença, diversidade e identidade têm sido algumas das expressões mais usadas nos últimos tempos dentro dos discursos acadêmicos, escolares e, mesmo, jornalísticos, freqüentemente associadas a nomeações de atitudes ora desejáveis ora abomináveis no âmbito social: discriminação, rejeição, desprezo, intolerãncia, ao lado da tolerância, aceitação, fraternidade, igualdade, empoderamento, etc. Seguramente é um sinal dos nossos tempos a emergência e/ou fortalecimento de movimentos sociais ligados a tais questões, ainda que estas não sejam novas em sentido absoluto.

Dado que a educação – entendida como o conjunto de ações que os grupos sociais empreendem para inserir de forma que julgam adequada as novas gerações em suas verdades, atitudes, conhecimentos instituídos e disposições – não está separada das tendências de seu tempo e dos grupos em que opera, entende-se que também ela esteja sendo permeada por tais preocupações, apesar da diversidade de tendências e entendimentos das diferenças. Nesse sentido, a literatura infanto-juvenil não ficou imune a esse caudal e, ainda que tradicionalmente “personagens diferentes” já integrassem o conjunto de personagens que habitavam algumas de suas histórias (e Patinho Feio, de Andersen, é das lembranças mais óbvias), na última década uma preocupação mais programática com a formação da criança para “conhecer” e aceitar o diferente vem ensejando uma proliferação de títulos dentro de várias vertentes da temática. Acresça-se a isso o estreitamento de liames entre esta literatura e o discurso pedagógico hegemônico sobre a importância da leitura como formadora de cidadãos “críticos e criativos” - para usar um chavão da área - estreitamento esse que teve repercussões objetivas no aparelhamento de bibliotecas escolares com acervos de literatura infanto-juvenil e outras ações governamentais, e teremos as condições de possibilidade para a preocupação pedagógica com o tema e a proliferação de títulos dentro do campo.

É a partir dessas premissas que o presente trabalho se situa, objetivando – sem nenhuma pretensão de exaustividade ou de rigor panorâmico – discutir as representações do “diferente” em um conjunto de dez títulos de literatura infanto-juvenil que circulam no panorama brasileiro dos últimos dez anos.



Literatura infanto-juvenil, pedagogia e diferença

Sem pretender retomar a extensa discussão já feita – em especial nos setores acadêmicos ligados à crítica da literatura infanto-juvenil – sobre o pretendido estatuto artístico e não pedagógico da literatura infantil, nos permitiremos, brevemente, pontuar a questão. Stephens (apud Silveira, 2000, p. 175) relembra que mesmo livros que não se proponham explicitamente a “ensinar” têm uma ideologia implícita “na forma de estruturas sociais assumidas e hábitos de pensamento”. Ainda que a chamada renovação da literatura infanto-juvenil das últimas décadas tenha se colocado sob a égide do abandono do padrào pedagógico explícito, padrão que se manifestava abertamente em lições de moral e em um maniqueísmo de caracteres, por exemplo, é evidente que as “novas” obras, como quaisquer produtos culturais, também são produzidas dentro de contextos, valores, quadros de referências e verdades em que seus autores e autoras se situam, os quais podem ser (ou não) partilhados por pais, mães, professores/as, psicólogos, ativistas de movimentos sociais em favor de determinadas minorias, representantes das próprias minorias, etc.

Já em se tratando dos títulos que examinamos (e de muitos outros que abordam temáticas semelhantes), é bastante evidente que seus autores estavam motivados por uma função pedagógica de uma abordagem “não preconceituosa”, mais “realista” de determinadas diferenças, historicamente identificadas como tornando seus portadores “anormais”, “deficientes”, “desviantes”. Isso é facilmente comprovável por textos que povoam as orelhas, os prefácios ou as quartas capas de tais obras, freqüentemente com apelos diretos ao leitor e à leitora, como abaixo podemos exemplificar:

O maior sucesso editorial do Armazém de Idéias é a Coleção Diferenças, destinada a crianças e pré-adolescentes. O que se quis nela foi dar alívio nas dificuldades de ajuste social por causa da gordura, por usar óculos, pela extrema magreza, pela cor, pela pobreza, por tantas outras razões. Compartilhando angústias com os personagens dos livros, o leitor descobre que pode viver feliz. (livro 7)3

Esta é a história de Joca, um menino especial, e seu amigo Tibi. Joca é surdo. Juntos, eles fazem uma descoberta que mudará as vidas de Joca e sua família. Uma descoberta que pode ser importante para você também. (livro 2)

Esse palito inventado pelo Caio Ritter chama a atenção para aqueles que são “diferentes”, que a nossa sociedade não suporta: acostumada a viver uma vida sempre igual, onde o que importa é a máscara do não-é-comigo, essa mesma sociedade olha com maus olhos qualquer pessoa que expresse a inocência de seus sentimentos e de suas idéias.(...) O texto de Caio Ritter mostra que nem sempre as aparências são o melhor termômetro: reunindo-se aos outros “diferentes”, podem sonhar um mundo mais nobre, mais digno, e onde, enfim, é possível viver a plenitude dos sentimentos. (livro 8)

Ímpar é um livro diferente dos outros, como são diferentes os garotos e garotas que você vai conhecer agora. Afinal, todos nós nos sentimos únicos. Todos nós achamos que tem uma coisinha faltando na gente ou pra gente. Espero que vocês, como eu, gostem do Zóli, da Bibiana, da Tula e de toda a galera ímpar. (livro 4)

Ainda sobre as relações entre literatura infanto-juvenil e a questão da diferença, é interessante referir a exposição que Pinsent (1997) faz dos guias de análise (americanos e ingleses) elaborados com o propósito de evitar a discriminação nas obras literárias para crianças e jovens. Em sua informativa obra, a autora assinala elementos que tais guias apontam como devendo ser analisados para este propósito, como as ilustrações, o enredo, estilos de vida, relações entre personagens, heróis e heroínas, linguagem escolhida, etc. Observa, ainda, como uma das principais limitações de tais guias (p.9) o fato de ignorarem a qualidade literária de tais livros e o seu apelo às crianças. De forma perspicaz, a autora observa que compromissos “políticos” adequados (no nosso caso, em relação à questão da diferença) não tornam inferior (em qualidade literária) um livro, assim como existem livros “pobres” cuja adesão aos princípios de tais guias não os redime de sua penúria. Embora não se trate da abordagem de diferenças, poderíamos relembrar o caso de Monteiro Lobato, cujos objetivos pedagógicos confessos não tiraram de sua obra o grande apelo e o conseqüente envolvimento de seus leitores mirins, tal a engenhosidade de fabulação, ao lado da maestria na construção de situações e personagens.

No cenário brasileiro, Amaral (2002, p.41) refere sua tese de doutorado em que analisou 47 histórias da literatura infanto-juvenil escritas por autores brasileiros entre os anos de 70 e 90, “com personagem significativamente diferente no aspecto corporal, a partir de grade analítica”4. A grade analítica é, então, apresentada de forma bastante simplificada, mas, de qualquer forma, revestida de interesse, na medida em que nos serviu de inspiração para a nossa atual discussão.

Para analisar o personagem com deficiência, Amaral (2002, p. 41) apresenta três eixos básicos: a gênese da deficiência (com presença ou não de uma “culpabilização” do próprio personagem); o status do personagem (estereotipia em vítima, herói ou vilão; presença constante de sentimentos de tristeza, desgosto, solidão, conformismo, desamparo, desesperança; presença de características nitidamente compensatórias; presença de atitudes e ações condenáveis do ponto de vista da moral vigente); desfecho da história (eliminação ou não da diferença ou do diferente, pela “cura” ou normalização, etc). Na medida em que algumas dessas possibilidades analíticas forem relevantes para nossa discussão, as utilizaremos.



Breve caracterização das obras analisadas

Sem uma preocupação maior de amostragem em relação à totalidade de títulos editados que contivessem alusão à temática, escolhemos para análise dez obras infanto-juvenis em circulação no panorama brasileiro dos últimos dez anos, embora não exclusivamente de autores brasileiros, uma vez que nelas incluímos a parábola de Umberto Eco e Eugenio Carmi “Os três astronautas” (livro 5). Escolhemos obras que focalizassem a diferença ora de forma mais geral (realista ou simbólica) ora através de narrativas específicas com protagonistas “diferentes”. Decidimos não trabalhar com narrativas que abordassem em primeiro plano diferenças de gênero e etnia, temas que entendemos como mais visitados e com estudos mais complexificados, cuja exploração tem sido empreendida com mais freqüência do que a que em seguida faremos.

Quanto à sua origem editorial, o conjunto de obras analisadas compreende títulos de dez autores/as diferentes, de nove casas editoras diversas, sediadas tanto no eixo Rio-São Paulo, quanto no Rio Grande do Sul e Minas Gerais, todas publicadas (em 1ª edição ou subseqüente) desde 1990. A maioria das obras se destina a leitores iniciantes, na medida em que têm um predomínio de ilustrações e pouquíssimo texto (livros 1, 2, 5, 6, 8, 9, 10), enquanto outras apresentam mais texto, uma fabulação mais detalhada e, portanto, exigem um leitor de competência letrada mais desenvolvida (livros 3, 4 e 7 ). A narrativa de “Tibi e Joca – uma história de dois mundos” (livro 2), inclusive, é desenvolvida primordialmente através das ilustrações, que “narram” as diferentes cenas, a serem entendidas, conforme o próprio livro diz, também por crianças surdas, para as quais a visualidade é de maior importância do que para as ouvintes.

Duas obras tematizavam especificamente o “diferente” cego: “O menino que via com as mãos” (livro 1) e “A gaivota que não podia ver” (livro 6); uma obra focaliza o “diferente” surdo: “Tibi e Joca – uma história de dois mundos” (livro 2)5; outra aborda a questão do daltonismo (livro 9): “Um guri daltônico”; um protagonista com síndrome de Down aparece no livro 3, “O menino”, enquanto um personagem deficiente físico é o personagem central de “Ímpar”, livro 4, em que, efetivamente, outros tipos de “diferentes” interagem como personagens; o homossexualismo masculino é tematizado no livro 7 – “Menino ama menino”; a questão mais ampla da diferença, concretizada na possibilidade de convivência entre astronautas de nacionalidades diferentes é mostrada no livro 5 (“Os três astronautas”), e através de um alerta às diferentes possibilidades de diferença entre pequenos amigos é trazida pelo livro 10 (“Um amigo diferente”). .



Os personagens “diferentes”

Apesar da diversidade de estilos das obras e de formas de apresentação dos personagens “diferentes”, em algumas dimensões eles coincidem. Assim, predomina uma forma naturalística de referência à gênese das diferenças (à exceção do livro 6, adiante analisado): no caso dos personagens surdo, cegos, daltônico, com síndrome de Down, ou simplesmente é referido um “nascimento desse jeito”, ou se soma a esta referência uma explicação de caráter científico:

Pediu uma enciclopédia. A bibliotecária trouxe um livro de bela encadernação azul. Procurou a letra D bem vermelha no meio da página. Encontrou a tal expressão, a famosa palavra DALTONISMO. É uma afecção hereditária. Passa de pai para filho. (...) No tipo mais comum de daltonismo, é provável que as terminações nervosas do olho para a percepção do vermelho estejam ausentes, porque o olho desse tipo de daltônico só percebe a cor complementar, que é o verde. (livro 9)

Nesse caso, tais informações são inseridas no texto como ensinamentos que servirão de instrumento para que o personagem central (daltônico) melhor se compreenda e empreenda um plano para viver de forma mais “ajustada”; já no livro 3, informações de natureza similar têm outra função. Efetivamente, tal obra (“O menino”) apresenta, à diferença da maioria das outras examinadas, um caráter declaradamente formativo e informativo. Escrita pela mãe do personagem apresentado, a obra – ilustrada por fotos e outros documentos - inicia com a pergunta “Você conhece o Felipe?”, tecendo, a partir daí, uma quase-narrativa de tom confessional, pessoal, que congrega a apresentação de momentos do cotidiano familiar (plenos de sentimentos vividos), mesclada a observações sobre preconceitos e dificuldades encontradas, e informações de caráter médico. “O menino”, efetivamente, se caracteriza como uma apresentação de um menino diferente, toda ela escrita com verbos no Presente, estratégia que, de certa forma, coloca os leitores no mesmo tempo vivido pelo menino; apenas na última página, breve referência verbal no passado é feita ao desaparecimento do menino: “Felipe foi embora (...)”.

No caso do personagem Toni, raro exemplo de menino homossexual na literatura infanto-juvenil (livro 7), a autora habilmente coloca na voz de uma personagem, as explicações sobre a gênese do homossexualismo. E quem é esta personagem ? Na própria voz do menino, tia Elza é uma

pessoa franca, que lê sobre tudo. Entende as pessoas, sabe escutar. É tida como a fada boa da família. (...) Atualizada, sabe dos assuntos da hora e manifesta sua opinião sobre tudo. Religiosa, também. Mas jamais deixou que o fanatismo a cegasse ou impedisse de ver as coisas como são. (livro 7, p. 30)

o que significa dizer – uma pessoa autorizada, intelectual e moralmente. Pois bem: no diálogo com o sobrinho, tia Elza apresenta o que define como posição científica (o caráter inato da homossexualidade), como a dupla posição religiosa (intolerância “atrasada” e respeito para com os homossexuais) e como a “solução” para o “problema”: ser uma pessoa “bem resolvida”.

Já no livro de Eco e Carmi (livro 5), as diferenças são simultaneamente nomeadas e, através da nomeação, se define sua gênese: trata-se de uma questão de nacionalidade, com matizes culturais. O livro 106 alude rapidamente à questão da gênese da diferença, através de uma das numerosas perguntas que o personagem-narrador faz ao leitor: “Como eu sou? Será que nasci diferente ou fiquei diferente depois ? Arrisque, vamos.” Aliás, tal obra consiste em um grande monólogo em que um personagem, que se autodenomina “seu amigo diferente”, coloca para o leitor e a leitora várias possibilidades de concretização dessa “diferença”, dentro do espectro de “deficiências corporais”: portador de síndrome de Down? Cego? Surdo? Gago? Colostomizado? Cadeirante? etc...

Se nos voltarmos para a análise do status dos personagens diferentes dessas dez obras, outras observações podem ser feitas. Em primeiro lugar, cremos que cabe indagar – mesmo na simplicidade necessária às obras para leitores iniciantes – sobre o quanto o autor ou autora mergulha nas características ou traços da “diferença” desses personagens, indo além da singela nomeação deles (como surdo, cego, etc)7. Dessa forma, o livro 6 nos chama a atenção por apresentar o personagem central (uma gaivota cega) desde o seu título – “A gaivota que não podia ver” – pelo ângulo da falta, da carência, que acarreta ao narrador onisciente uma atitude de comiseração na apresentação do personagem. Nada que possa caracterizar o “positivo” do “não ver” é trazido. Vejamos alguns trechos (os grifos são nossos):

Logo a mãe de Vivi compreendeu. A gaivotinha não podia ver. Por isso, mamãe Gaivota precisava dar atenção redobrada para ela. Ela ajudava em todas as tarefas e dava muito carinho. Vivi jamais poderia ver a cor do céu, das árvores, do mar... (p.6)

Quando ficava sozinha, Vivi chorava baixinho.


  • Por que todos podem ver e eu não ? Por que Deus do céu me fez nascer assim ?

A mamãe Gaivota consolava Vivi:

  • Quando Deus nos faz diferentes por algum motivo, nos dá em dobro capacidades que os outros não têm. Você pode ver com o coração e um dia vai descobrir um dom maravilhoso! (p. 7)

O “dom especial” profetizado pela mamãe Gaivota se traduz em uma aptidão para realizar “vôos diferentes”, que as “gaivotas comuns” não conseguiam fazer. E a obra assim é finalizada:

Ainda hoje, quando vamos à praia, podemos ver Vivi, voando como ninguém pelos céus, pescando seus peixes e sentindo o sabor do vento nas asas longas. E aí sabemos que Vivi, mesmo sem poder ver, é uma gaivota muito, muito especial. (p. 10)

A explicação religiosa da “distribuição dos dons”, o matiz de melancolia predominante na trama, a evidente solução compensatória – objetivada em uma característica que, devido à simbolização do personagem, não se relaciona com a “realidade” do grupo dos cegos – marcam a obra. Vale a pena aqui um breve cotejo com o livro 1 – “O menino que via com as mãos”. A simples comparação dos títulos evidencia a diversidade de enfoques: “... que não podia ver” VERSUS “... que via com as mãos”; a falta VERSUS a possibilidade diferenciada. O tom da obra 1 – perceptível não só no texto como nas ilustrações em que o menino aparece sorridente, ouvindo música (essa referência não é feita no texto), tocando animais, bonecos, flores, frutas, rosto de pessoas, curtindo a chuva – não é da busca da compensação, mas da apresentação, em primeiro plano, das potencialidades do cego.

Também “Um palito diferente” – livro 8 – nos traz um personagem fantasioso, simbólico, cuja diferença em relação aos outros palitos é ter “expressões em seu rosto”: “Ria, chorava, zangava, sorria, se alegrava... e tudo aparecia naquela carinha simpática”. No desenrolar da trama, a escola é apresentada em sua face mais normalizadora e repressora e as ações subseqüentes seguem o melhor padrão fascista de intolerância: o palito diferente e um palito amigo, também já “diferente” pelo contato com o primeiro, são afastados dos pais, julgados, condenados, deportados... mas, por uma reviravolta do enredo, acabam chegando a uma outra terra de palitos, onde todos também têm expressões em suas caras. Seguramente, a diferença escolhida é, por si só, uma diferença já culturalmente considerada como positiva – “capacidade de expressar emoções” e, neste sentido, a eficácia da obra para problematizar as diferenças “reais” parece bastante esvaziada. Nada que se aproxime ao desconforto dos “normais” frente a um surdo, a um cego, a uma criança com síndrome de Down, a um “deficiente físico”, etc.

Já os livros 2, 4, 7 e 9, possivelmente em função de um convívio mais estreito de seus autores com as “diferenças” envolvidas, trazem – com maior ou menor eficácia - uma visão “de dentro” das mesmas; não por acaso tais livros fogem, em maior ou menor grau, à simplificação dos sentimentos envolvidos na trama. “Tibi e Joca – uma história de dois mundos” (livro 2), obra escrita com a participação de um surdo8, apresenta uma narrativa de vida, feita em 1a. pessoa, de um menino surdo, desde a felicidade pelo seu nascimento, a descoberta da surdez pelos pais, a solidão vivida pelo menino dentro de um mundo falante e sonoro, até seu resgate por um personagem que o leva para um grupo de surdos e onde o menino aprende a Língua de Sinais. As dificuldades de os pais aprenderem a Língua dos Sinais é ultrapassada, ao final, pelo sentimento de amor, simbolizado no abraço do menino surdo e de seus pais, que formam uma ponte visual sobre os dois “mundos” (o dos ouvintes e o dos surdos).

“Ímpar”, livro 4, é, dentre os analisados, o mais complexo – uma novela juvenil de 134 páginas – e, como o próprio nome indica, pretende focalizar um grupo de garotos e garotas “ímpares”, diferentes9, a partir de uma narrativa em 1a. pessoa do personagem principal, um menino que perdeu um braço em um acidente. Toda uma multiplicidade de dificuldades cotidianas, de sentimentos dos Ímpares (raiva, tristeza, perseverança, culpa, alegria, etc), de seus familiares, de reações dos Pares (como são chamados os “não diferentes”), de vitórias, de derrotas, de lutas por direitos, de questões típicas do mundo adolescente atual (decisões e dúvidas sobre “ficar”, p.ex.) está presente na obra; tal variedade pode advir de fatos que o próprio autor nos relata em espécie de prefácio à obra:

Um dia eu fiquei conversando com um garoto que começou a me contar como a vida dele tinha mudado depois de um acidente de carro. Ele me contou como era antes, como ficou depois e tudo que ele falava me fazia sentir mais e mais parecido com ele. E foi daí que surgiu essa história. Ímpar é um livro diferente dos outros, como são diferentes os garotos e garotas que você vai conhecer lendo o livro. (...)

Eu me emocionei, mas também me diverti e gostei muito de escrever Ímpar. E eu acho mesmo que, de um jeito ou de outro, todo mundo se sente ímpar. (p.7)

Em “Menino ama menino” (livro 7), a questão do menino homossexual é abordada de uma forma polifônica e sensível. Ainda que haja um narrador onisciente, sua voz é entremeada pelo discurso indireto livre de sete personagens: o menino, a mãe, o pai, a empregada que o criou, o irmão, o amigo e a tia. Vários pontos de vista são, então, reconstruídos pela autora, numa trama em que os sentimentos de afeto, de estranhamento, de raiva, de angústia se entretecem e secundam atitudes e reações tão conhecidas por nós todos que vivemos em uma sociedade onde o diferente homossexual é, ainda, tão fundamente discriminado.

No livro 9, “Um guri daltônico”10, uma diferença menos estigmatizante do que outras é focalizada, o que não significa que o personagem também não viva situações em que seja objeto de escárnio e se entristeça, até que, através da auto-aceitação e manejo adequado das dificuldades do cotidiano, encontre um modus vivendi mais satisfatório e... até divertido.

Ao abordarmos o status dos personagens diferentes, de certa maneira já apontamos o caráter de alguns desfechos das obras analisadas. Para o exame dos mesmos, é necessário considerar que, efetivamente, o desfecho só existe se há uma trama, um enredo, em que haja uma “complicação” a ser resolvida. As obras 3 e 10, por exemplo, não apresentam propriamente “complicações” de enredo; já no livro 1 – “O menino que via com as mãos” – a complicação não diz respeito à própria questão da diferença, mas a uma travessura do menino, convenientemente punida pela mãe (neste sentido, o desfecho aponta para uma não diferenciação de atitude materna, adulta, em relação à criança diferente). Também em “Ímpar”, um pouco a exemplo dos capítulos finais de telenovelas em que se apresenta o destino de todos os personagens, o autor faz um breve recorrido sobre os membros da turma dos Ímpares e seus destinos. De forma panorâmica, nas obras analisadas despontam as seguintes tendências de “solução” da problemática do deficiente/diferente:

- uma solução pelo sentimento, pela amizade ou pelo amor: tal é o caso de “Tibi e Joca”, em que inclusive se estampa a palavra “Amor”; caso também da parábola “Os 3 astronautas”, em que as diferenças de nacionalidade e de planeta (terráqueos e marcianos) se apagam pela descoberta da “humanidade” comum (no primeiro caso) e pelo partilhamento da compaixão por um passarinho sofredor (no segundo);

- a inserção do diferente em grupos de também diferentes – também é o caso do menino surdo de “Tibi e Joca”, do menino “ímpar” em “Ímpar”, do palito diferente em “Um palito diferente”;

- a aceitação da diferença ora pelo próprio personagem (caso do menino daltônico, no livro 9, e do menino homossexual, no livro 7), ora pela família (também é o caso do menino surdo, do menino homossexual, do menino com síndrome de Down [livro 3]). Freqüentemente, neste caso, a “diferença” é relativizada ou minorizada em face de outra qualidade maior: a vida (no caso do menino homossexual), o carinho (no caso do menino com síndrome de Down).

Com efeito, a solução das dificuldades por virtudes compensatórias – presente apenas no livro 6 – parece ter dado lugar à primazia da aceitação da diferença, da aprendizagem de superação das dificuldades do cotidiano e, em alguns casos mais específicos, da importância da adesão a um grupo de diferentes, ainda que com matizes e compreensões diferenciadas. Na medida em que – na literatura infanto-juvenil – os desfechos têm um caráter inegavelmente pedagógico, já que mostram soluções possíveis para problemas ocorridos na trama, subentendendo uma lógica, o aprofundamento de tais elementos poderia ser feito inclusive em outro estudo.

Palavras finais

Nessa breve incursão pelo conjunto das dez obras escolhidas, estamos cientes de que mais levantamos questões do que as respondemos, talvez porque, precisamente, no momento em que vivemos, de tantas discussões sobre o “outro”, a “diferença”, a “diversidade”... , tenhamos perdido nossas parcas certezas prévias sobre o assunto. Esse é o momento, apenas, de chamar a atenção para dois aspectos ainda.

Embora, deliberadamente, não tenhamos adentrado a tão visitada diferença de gênero na presente análise, não pôde deixar de nos chamar a atenção no conjunto de obras analisadas o fato de que os “diferentes” sejam focalizados predominantemente no gênero masculino. À exceção da obra 6, em que uma gaivota (macho ou fëmea?), animal simbólico, é focalizada, e de uma personagem feminina – importante, mas não protagonista – do livro 4, todos os demais “diferentes” são meninos, o que é, inclusive, reforçado pelos títulos; em três deles, aparece a palavra “menino”; em um, “guri” (de acordo com o uso gaúcho), em um, “amigo”. Estaríamos frente à reafirmação de uma identidade de referência? Ou melhor: uma vez focalizada a deficiência ou a diferença (surdez, deficiência física, mental, etc...), seria mais “econômico”, politicamente falando, não acrescentar outra dimensão dificultadora à personagem em foco ? .

Além dessa, outras questões ficam dessa nossa breve discussão, algumas já pontuadas no capítulo em que Pinsent (1997, p. 123 e ss.) analisa obras inglesas e norte-americanas que tematizam as “deficiências” e “falta de habilidades”. É impossível deixarmos de nos perguntar sobre o papel e os efeitos que diferentes tipos de obras infantis que tematizam os “diferentes” podem ter em seus leitores e leitoras. E, decididamente, se reconhecemos como socialmente legítima tal tematização, que estratégias seriam literariamente mais efetivas para a apresentação desses “diferentes”, os quais, por sua vez, também reivindicam seu espaço de auto-representação ? O quanto de etnocentrismo, de marcação rígida de diferenças (surdos versus ouvintes, por exemplo) ou de esmaecimento de limites (“todos somos diferentes, a questão é apenas de grau...”) corresponde a quais entendimentos de convivência com o “outro” ? Finalmente, cremos que as corajosas (e polêmicas?) asserções de Pinsent sobre a questão também merecem uma reflexão mais detida (1997, p. 142)11:

A maioria das pessoas talvez não tenha problemas em relação à necessidade de livros mostrarem pessoas “incapacitadas” como pessoas reais, com direito a tanta dignidade quanto qualquer outra pessoa. O risco aqui é o de a simpatia tornar-se proteção, com a produção resultante de livros inferiores. Livros sobre temáticas mais obviamente políticas podem ser problemáticos, mas tentar evitar que as crianças os encontrem seria também um erro (...).

[As crianças] devem estar cientes de que um autor, com um espectro de preconceitos humanos normais, escreveu o livro, de que um editor decidiu que valia a pena economicamente publicá-lo e de que um livreiro achou que valia a pena vendê-lo. Elas precisam entender que nada é livre de valores, nem os livros, nem os programas de TV, nem as revistas, e que ninguém é livre de preconceitos, nem seus professores, nem seus pais, nem elas mesmas.



Referências bibliográficas

AMARAL, Lígia Assumpção. Pela voz da literatura, pensando preconceitos em relação à diferença . Leituras compartilhadas. Leia Brasil, Programa de Leitura. Fascículo 4. Agosto de 2002. P. 40-41.

PINSENT, Pat. Children’s literature and the politics of equality. London: David Fulton Publishers, 1997.

SILVEIRA, Rosa Hessel. Contando histórias sobre surdos(as) e surdez. In: COSTA, Marisa Vorraber (org.) Estudos culturais em educação. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 2000.



Livros analisados

  1. AZEVEDO, Alexandre. O menino que via com as mãos. São Paulo: Paulinas, 1996. Ilustrações Grego.

  2. BISOL, Cláudia. Tibi e Joca – uma história de dois mundos. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2001. Ilustrações Marco Cena. Participação especial de Tibiriçá Vianna Maineri.

  3. COSTA, Antonia. O menino. Rio de Janeiro, São Paulo: Editora Record, 2000.

  4. CUNHA, Marcelo Carneiro da. Ímpar. Porto Alegre: Editora Projeto, 2002.

5 . ECO, Umberto; CARMI, Eugenio. Os três astronautas. São Paulo: Editora Ática, 2000.

6. FERNANDES, Paulo Dias. A gaivota que não podia ver. Erechim: Edelbra, s/d.

7. GODINHO, Marilene. Menino ama menino. Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 2000.

8. RITER, Caio Dussarrat. Um palito diferente. Porto Alegre: Editora Interpreta-Vida, 1994.

9. URBIM, Carlos. Um guri daltônico. Porto Alegre: Editora Mercado Aberto, 1998. Ilustrações Eloar Guazelli.

10. WERNECK, Cláudia. Um amigo diferente? Rio de Janeiro: WVA, 1996. Ilustrações Ana Paula.



Endereço eletrônico: rosamhs@terra.com.br



1 Trabalho apresentado no II Seminário Internacional “Educação Intercultural, gênero e movimentos sociais”, realizado de 8 a 11 de abril de 2003, em Florianópolis, em promoção do Projeto Rizoma e UFSC.

2 Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da ULBRA e Professora Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS, Rio Grande do Sul, Brasil.

3 As dez obras que examinamos serão identificadas, em suas citações, por números correspondentes à sua listagem no final do estudo.

4 Infelizmente, não tivemos acesso à tese de doutorado da referida autora e nem a artigos mais desenvolvidos produzidos a partir da mesma, apesar de nossos esforços. Tomamos como base, portanto, apenas o artigo referido na bibliografia.

5 Em artigo intitulado Contando histórias sobre surdos(as) e surdez (ver referências bibliográficas), empreendi uma análise de sete livros destinados a crianças onde a questão da surdez ou dos/das surdos/as estivesse implicada. Na época, a obra aqui analisada ainda não fora publicada.



6 O referido livro faz parte de um conjunto de obras da mesma autora, Cláudia Werneck, que focaliza a questão da síndrome de Down, como Meu amigo Down; Meu amigo Down em casa; Meu amigo Down na rua e Meu amigo Down na escola.

7 Reconhecemos, de imediato, nossa falta de legitimidade institucional e pessoal para proceder a um exame mais acurado da presença/ausência de tais traços, considerando a variedade de “diferenças” abordadas nas obras. Entretanto, um breve exame nos parece possível.

8 Embora seu nome não conste da ficha catalográfica da obra, há na capa e na última folha a referência à participação especial de Tibiriçá Vianna Maineri, surdo, instrutor de Libras e acadêmico de Pedagogia.

9 Em um enredo que mostra um grupo de “ímpares” – meninos e meninas - se unindo, fazendo programas juntos e lutando também em grupo por seus direitos, cabe perguntar se simplesmente a apresentação de qualquer diferença/deficiência, como cegueira, surdez, deficiência física, nos personagens, iria redundar em tal associação, conforme é apresentado no livro. Ao menos do ponto de vista da comunidade surda, o mais verossímil seria a união dos surdos e surdas, considerando que a luta por sua identidade se cifra em uma cultura surda, permeada pelo uso da Língua de Sinais, a qual não tem nenhuma relação direta com qualquer outra diferença/deficiência..

10 Embora isso não esteja referido na obra, salvo engano, o autor se baseia em sua experiência pessoal.

11 Tradução minha.




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