Na madrugada fria do dia 20/6 o educador e mestre Carlos Mota f



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Encontro15.12.2017
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Sr. Presidente, Sras. e Srs. Parlamentares. Venho a tribuna para divulgar a decisão do julgamento, por júri popular, de três dos quatro acusados de matar o professor e mestre Carlos Mota, 44 anos, diretor do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 4, no Lago Oeste.

O juiz Daniel Mesquista Guerra declarou as penas de Carlos Lima do Nascimento (conhecido como Gabiru), 22 anos, Benedito Alexandro do Nascimento, 20, e Alessandro José de Sousa, 19. Os três réus confessos foram condenados pelo crime.

Benedito foi condenado pela autoria do crime do homicídio duplamente qualificado com motivo torpe e por não ter dado chance de defesa à vítima. A pena foi de 20 anos de prisão, diminuída para 18 porque o condenado tinha 19 anos à época.

Alessandro pegou 16 anos pela co-autoria do assassinato de Mota. Ele foi condenado a 16 anos por homicídio qualificado sem chance de defesa à vítima. Pelo mesmo crime, o júri também considerou Carlos co-autor do crime. A pena dele foi de 18 anos.

Gilson de Oliveira, conhecido como "Gaúcho", é acusado pelo Ministério Público de ser o mandante do assassinato do professor, e será julgado separadamente. A defesa dele recorreu da decisão de ele ser julgado no Tribunal do Júri, com os demais acusados. O recurso ainda não foi analisado. Segundo as investigações do Ministério Público e da Polícia Civil, mesmo não sendo aluno do CEF 4, Gilson frequentava a escola para cobrar dívidas do tráfico de drogas.

Conhecido por lutar contra o tráfico de drogas na escola, Carlos Mota foi assassinado no jardim de sua própria residência, no dia 20 de junho de 2008.

Na ocasião solicito a gentileza de publicar nos veículos de comunicação da Casa, a carta escrita a próprio punho – endereçada a meu e-mail institucional –, pela senhora Rita de Cássia: viúva do professor Mota.

Segundo a carta, o assassinado “interrompeu uma vida, muito curta, mas plena de experiências e serviços prestados. Ex-servidor da Imprensa Nacional e ex-presidente da sua Associação dos Servidores, Carlos Mota ingressou formalmente para o campo acadêmico em 1989. Foi um dos formuladores do projeto Escola Candanga – uma lição de cidadania – implementado na Rede Pública do DF durante o governo Cristovam Buarque. Foi Diretor do Departamento de Pedagogia da Secretaria de Educação e Coordenador do PIE – Pedagogia para Início de Escolarização da UnB, que qualificou mais de 1000 docentes da fase escolar inicial. Lecionou em faculdades particulares. Sua mais nova paixão era a direção do Centro de Ensino Fundamental do Lago Oeste, para o qual foi eleito, após demonstrar competência em processo seletivo. Prometeu a si mesmo que ela seria a melhor escola pública da América Latina. E, certamente, conseguiria isso. Em apenas seis meses, Carlos Mota implantou a escola integral, um piloto que serviu de modelo para as demais, instituiu a rotina de recitais, às sextas-feiras, com a presença da equipe da Escola de Música de Brasília e artistas da região, projetos de horta comunitária, de informática e leitura dirigida, o dia de formação dos professores (área em que defendeu, pela UnB, tese de mestrado e caminhava para o doutorado), promoveu uma ampla reforma na escola, que passou a ter água filtrada, cores alegres, jardins e muito verde e com vegetação da região. Estimulou a criação do Grêmio pelos estudantes”.

De acordo com a senhora Rita, “todos os dias, Carlos Mota recebia, pessoalmente, 1300 alunos. Mais de 400 iam brincar, ouvir música clássica, jogar xadrez, soltar pipa, jogar futebol, lanchar, almoçar. Estudar matemática a partir de quantos gols foram feitos no jogo, ler e redigir na sala de aula e na biblioteca lembrando a última brincadeira, a última musica ouvida. Enfim, a contextualização pedagógica, emotiva e cognitiva era exaustivamente trabalhada. Um verdadeiro militante social, defensor das causas justas do mundo. Carlos Mota proibia o uso de drogas no colégio. Foi assassinado por 4 delinqüentes, sendo dois ex-alunos e um aluno de sua tão amada escola. Foi grande a comoção no Lago Oeste e em Brasília: carreatas, atos públicos em sindicatos, da Secretaria de Educação, de faculdades particulares, muita divulgação na TV, em jornais, rádio e revistas. O mestre receberá da Câmara Legislativa o título de cidadão honorário pós-morte e sua tão querida escola recebeu, no dia em que completaria 45 anos (12 de setembro), o nome de Centro de Ensino Fundamental Professor Carlos Mota. Sua morte levou a Secretaria de Segurança Pública a reabrir o posto policial do Lago Oeste”.

Rita enfatiza que é “necessário transformar esse luto em luta, contribuindo para que a educação pública se torne digna, de qualidade, respeitada e acima de tudo, segura. Permitindo que os profissionais, verdadeiros educadores, possam trabalhar nesta grandiosa missão. A falta do Mestre e Professor Carlos Mota somente poderá ser amenizada se ela tiver servido ao processo educativo, com a permanente luta em defesa das causas sociais e educacionais. Esta luta não é só minha. É de toda a sociedade, particularmente dos docentes e dos estudantes, que precisam de segurança para que a escola seja o centro vivo da comunidade. Espero que o resultado deste julgamento seja um marco”.



Esta é a carta escrita por Rita de Cássia: herdeira da luta de Mota e defensora também das causas educacionais.



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