Mulheres no limite



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Encontro24.07.2018
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MULHERES NO LIMITE


Para a advogada, escritora e feminista Rosiska Darcy de Oliveira, as mulheres se dedicam demais ao trabalho e sacrificam a vida privada

Advogada por formação, escritora por vocação e feminista por ideologia, a carioca Rosiska Darcy de Oliveira é uma defensora contumaz dos direitos da mulher. Aos 56 anos, ela defende idéias com o mesmo ardor de quando se engajou na causa feminista. Lá se vão pouco mais de três décadas. "Perdi a cidadania no exílio, mas ganhei uma pátria que é o país das mulheres." Rosiska entrou na luta quando trocou o Brasil pela Suíça. Foi lá, no exílio, que ela abraçou a idéia para não mais largar. Autora de quatro livros, dois lançados só no Exterior, a escritora já pôs o ponto final no seu próximo título: Outono de ouro e sangue, com lançamento previsto para agosto. No livro, Rosiska levanta uma nova bandeira. "É preciso recuperar a vida privada através da reengenharia do tempo.Não podemos continuar hipotecando nosso tempo às empresas", diz a ex-presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, acusando as empresas de promoverem um movimento predatório na vida dos trabalhadores, homens e mulheres. "A reengenharia do tempo terá o mesmo impacto que teve o fim da escravidão."


Rosiska está convencida de que, apesar das vitórias conquistadas, as mulheres acabaram criando uma armadilha para si. "Durante muito tempo, brigamos para ser iguais aos homens. Foi uma formulação equivocada que comprometeu em muito nosso movimento. O correto teria sido a luta pela igualdade de direitos civis." A autocrítica foi feita em entrevista a ISTOÉ.


ISTOÉ - O movimento feminista conquistou muitas vitórias nas últimas décadas. Os homens evoluíram na mesma proporção?

Rosiska Darcy de Oliveira - Indiscutivelmente houve uma mudança no comportamento dos homens, não necessariamente uma evolução. Antes, o machismo se manifestava de forma inconsciente. Hoje, ninguém mais ignora haver um problema de desigualdade na relação entre os sexos. Não é para menos. As mulheres da minha geração viveram três séculos em um. A vida dos homens continuou parada ou mudando muito mais lentamente. Alguns homens reconhecem isso e se esforçam, sinceramente, para reformular suas posições, mas outros se sentem ameaçados pelas mulheres e reagem matando ou espancando. Há ainda os que usam da violência simbólica, verbal, supostamente mais suave do que um bofetão. Os homens hoje vivem uma crise de identidade muito parecida com a que as mulheres viveram no passado.

ISTOÉ - Depois de três décadas de luta, o movimento feminista tem alguma autocrítica a fazer?

Rosiska - Durante muito tempo brigamos pela igualdade com os homens. Essa foi uma formulação totalmente equivocada, que comprometeu em muito nosso movimento. O correto teria sido a luta pela igualdade de direitos civis. Quando a minha geração negociou a entrada no mundo dos homens, falávamos do lugar da transgressão. No mundo do trabalho, dizíamos para nossos patrões: "Me aceite, você nem sequer vai perceber que sou uma mulher." Na vida privada, dizíamos aos maridos: "Eu vou sair para trabalhar e você nem sequer vai perceber que saí de casa. Nada vai mudar aqui dentro." Queríamos garantir nossos espaços sem prejudicar o santo patrão nem o santo marido. Com esse discurso, ocultamos um fato social fundamental, que só agora está vindo à tona: as vidas pública e privada estão indissoluvelmente imbricadas. No momento em que a mulher conquista seu espaço no mercado e esconde que a vida privada dá trabalho e consome seu tempo, ela oculta que a vida privada prejudica o desempenho profissional. Na
luta pela igualdade de oportunidades, é inevitável deixar claro que a vida privada é algo a ser negociado. Não negociamos, assumimos tudo e transformamos nosso tempo em algo elástico. É por isso que as mulheres estão esgotadas.

ISTOÉ - O que a sra. propõe?

Rosiska - Precisamos mudar a organização da sociedade, seus horários e sua produção. Se queremos evitar que as crianças fiquem abandonadas na rua ou em frente à televisão, se queremos dar um contexto familiar para os idosos, a sociedade precisa fazer uma reengenharia de seu tempo. Quando eu era pequena, minha mãe se ocupava unicamente da casa. Hoje, os horários escolares são idênticos aos daquele tempo, só que maioria das mulheres trabalha fora. A escola não atentou para o fato de que suas crianças não têm mais uma mãe disponível 24 horas. A reengenharia do tempo é, para mim, o ponto número 1 de uma nova agenda do feminismo. Se não temos tempo para a família, mais cedo ou mais tarde vão aparecer as conseqüências, seja através de uma gravidez precoce, seja dos filhos drogados, e por aí vai. Quero deixar claro que não estou responsabilizando as mulheres por isso. Não são apenas as mulheres que estão precisando de tempo, mas toda a família.

ISTOÉ - Como sair dessa armadilha?

Rosiska - Reestruturando o tempo social para que homens e mulheres, e não apenas as mulheres, possam se ocupar mais de suas famílias. Os filhos da classe média passam o dia na frente da televisão; os dos pobres, na rua. Essa situação não é mais sustentável. A jornada de oito horas é completamente anacrônica numa era virtual. A maioria esmagadora das situações de trabalho continua sendo a da sociedade industrial, cujo ritmo e as cadências eram dados pelas máquinas do século 19. Se a era virtual revoluciona o tempo e o espaço, existe uma possibilidade real de se pensar o uso de toda essa inovação tecnológica para reorganizar a sociedade. Isso só vai ser possível quando o tema constar da agenda política, e cabe às mulheres fazê-lo. Elas precisam denunciar o fato de que estão sendo extremamente exploradas.

ISTOÉ - Como as mulheres estão chegando mais perto do poder, essa situação pode mudar?


Rosiska - Gostaria de dizer que estou abismada com as cenas de machismo explícito. De repente, descobre-se que o eleitorado brasileiro quer votar numa mulher. As mulheres cogitadas vieram do mundo da própria política: são governadoras, deputadas ou senadoras. Por isso, fico estupefata quando ouço que uma mulher ser escolhida para candidata a vice-presidente é uma estratégia de marketing. Isso é um absurdo. Em eleições passadas, conversei com um político e ouvi a seguinte barbaridade: "As mulheres votam com os maridos." Tive pena dele.

ISTOÉ - Os partidos políticos acompanharam a evolução da sociedade?




Rosiska - Ainda se acredita que os partidos são o principal canal da vida política. Absolutamente. Os partidos são estruturas anacrônicas, viciadas, clientelistas e velhas. Não tenho mais adjetivos para mal qualificá-los. As mulheres então foram obrigadas a arrombar a porta dessas instituições. A sociedade está cansada de só ver homens no poder. A política goza hoje de um imenso descrédito. Estou convencida de que a população está cobrando respostas mais positivas aos problemas do cotidiano. Além do mais, cresce a percepção de que o importante não é saber se a Bolsa de Valores sobe ou desce. É claro que não ignoro sua importância, mas o comum dos mortais quer é saber se ele vai ter ou não uma vida cotidiana tranqüila e saudável. No imaginário dessas pessoas, essas qualidades são representadas pelas mulheres. Portanto, não vamos atribuir a ascensão das mulheres só ao descrédito que os homens deram à política. O sucesso delas não se deve ao fracasso deles.

ISTOÉ - Como a sra. analisa o discurso das mulheres ditas liberadas?




Rosiska - Há uma busca equivocada da liberdade sexual. O padrão sexual moderno é o que o filósofo alemão Herbert Marcuse chamava de dessublimação repressiva. Explico: antigamente, as mulheres tinham de andar todas vestidas; agora, elas se despem. No passado, elas não podiam se exibir; hoje, elas se exibem. Não falavam de sexo, e agora esse é o único assunto das rodas. Não posso achar nada mais melancólico. Essas mulheres vestiram o figurino do homem e adotaram comportamentos masculinos. Elas hoje estão tentando ser como o homem. Ao adotar esse comportamento, as mulheres estão deixando de buscar a autoria do feminino. Não considero nenhum progresso mulheres de negócios recebendo rapazes de programa em seus escritórios. Seria uma desvirtuação total daquilo que foi o projeto do feminismo. Nós, feministas, sempre defendemos o entendimento respeitoso e amoroso entre seres humanos.

ISTOÉ - Não pára de crescer no Brasil o índice de famílias chefiadas por mulheres. É para comemorar?




Rosiska - Obviamente que não. É uma grande agressão. Significa simplesmente a desresponsabilização dos homens na vida privada. As mulheres têm, sim, o mérito de segurar a barra, mas isso é um absurdo total. A luta hoje é pela responsabilização dos pais pela família, ou seja, do pai e da mãe, do homem e da mulher.

ISTOÉ - E as chamadas produções independentes de filhos?




Rosiska - Acredito muito na liberdade das mulheres sobre seu corpo. Mas sempre achei que, para as crianças, é mais forte crescer num meio familiar. Não necessariamente uma família convencional do tipo papai-mamãe e irmãozinhos. Não é isso. Defendo que a criança deva crescer num ambiente em que haja um referencial mais amplo. Deve ser extremamente difícil criar um filho sozinha. Eu, por exemplo, jamais faria uma escolha desse tipo, mas respeito quem o faça.
Acho que é uma opção de foro íntimo e acredito que todas as pessoas são capazes de criar seu próprio código moral. Não existem regras, tudo vai depender da biografia de cada um.

ISTOÉ - Algumas mulheres em cargos executivos andam abrindo mão da licença-maternidade em razão do trabalho. O que a sra. acha disso?




Rosiska - Um absurdo, além de uma enorme falta de solidariedade. Primeiro porque é uma violência com elas mesmas. Afinal, se a mulher decide ter filhos, há de ser para criá-los. Segundo, porque a licença-maternidade foi uma das maiores conquistas das mulheres. Foi a primeira vez que houve um reconhecimento público de que as mulheres são diferentes dos homens, mas têm direitos iguais. Quando uma mulher renuncia à licença-maternidade, está levando ao extremo o faz-de-conta de que não é mulher.

ISTOÉ - A mulher, hoje, quer ser boa profissional, mãe dedicada, esposa-amante e ainda eternamente bela. Não é exigência demais?




Rosiska - Existe uma cobrança das próprias mulheres que é introjetada da sociedade. Esses conflitos só existem porque a realidade está insustentável. A vida, como está organizada hoje, não cabe em 24 horas. Em vez de abrirem espaços de liberdade, as novas tecnologias estão sendo usadas para acelerar o trabalho. Isso está criando um problema de insustentabilidade. Quem discute hoje desenvolvimento sustentado deveria estar preocupado com a sustentabilidade psíquica das famílias. Recentemente, li num artigo de um jornal inglês que uma em cada cinco crianças na Grã-Bretanha é delinquente. É uma indicação clara de que algo não está funcionando. Suspeito que seja um tempo mal trabalhado, que não deixa sobrar espaço para os filhos.

ISTOÉ - Isso não poderia levar a um movimento de volta ao tanque?


Rosiska - Não vejo esse risco. Existe uma estigmatização da mulher, mas não será fácil tirá-la do mercado de trabalho e devolvê-la ao lar, por vários motivos. O primeiro deles é econômico. Muitas mulheres são chefes de família ou dividem as despesas em igualdade de condições com o companheiro. Não acredito que o homem queira voltar à posição de provedor único. Além do mais, por serem grandes consumidoras, as mulheres interessam muito à economia. O segundo motivo é psíquico. Por mais que se queixem de cansaço, as mulheres evoluíram muito e não aceitariam voltar a viver da mesada dos maridos. Até porque elas já perceberam que a dependência econômica cria situações bastante humilhantes. As mulheres querem estar na polis e não mais apenas dentro do domus.


ISTOÉ - É comum ouvir comentários do tipo: as crianças estão se drogando porque as mulheres não estão mais em casa. Isso não seria uma forma velada de forçar um retrocesso?




Rosiska - Costumo responder da seguinte forma: talvez as crianças estejam se drogando porque estão sendo mal educadas. Isso não tem nada a ver com o fato de a mulher não estar em casa. Se a mulher não está, o homem poderia estar. Só que essa cobrança é jogada apenas no colo da mulher. Foi a mulher que não educou a criança do jeito que deveria educar. Pouco importa se ela está trabalhando 14 horas por dia porque o marido foi embora e não dá nenhuma ajuda financeira. Esse discurso, reacionário ou não, pesa sobre as mulheres. Elas se assustam com isso.

ISTOÉ - Como feminista, o que a sra. acha do termo sexo frágil?




Rosiska - Esse sexo frágil vestia o uniforme do seu tempo. O termo foi forjado num período em que se estendia a fragilidade física das mulheres a todo um contexto existencial: econômico, psicológico e social. As mulheres continuam sendo mais frágeis, mas só fisicamente. A expressão sexo frágil é, antes de tudo, démodé.

ISTOÉ - Que mensagem a sra. deixaria para as mulheres?




Rosiska - Precisamos recuperar a simplicidade. A mulher está se dedicando ao trabalho e suprimindo o tempo para a vida privada. Há uma necessidade de recuperar as coisas simples da vida e não apenas de trabalhar e ganhar dinheiro. O modelo vigente hoje é o seguinte: ganhar muito, ao preço do seu tempo, para muito consumir. Mas consumir o quê? Estamos perdendo um tempo caro da nossa vida em troco do quê? São inquietações que cada uma das pessoas deveria estar vivendo. As pessoas no mundo inteiro estão sofrendo uma pressão terrível para ganhar muito, consumir muito e isso vai junto com o sacrifício de vários outros valores. Existe hoje pouca generosidade nas relações pessoais. Todas essas questões eu só vi serem discutidas em profundidade no movimento feminista.

(Liana Melo / Revista Isto É, nº 1707)



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