Mulheres brasileiras no século XIX: primeiros passos de uma pesquisa



Baixar 101,15 Kb.
Encontro12.08.2017
Tamanho101,15 Kb.







MULHERES BRASILEIRAS NO SÉCULO XIX: PRIMEIROS PASSOS DE UMA PESQUISA

Camila Assis Lemes

Isabela Candeloro Campoi

A proposta deste texto é apresentar os primeiros passos da nossa pesquisa de iniciação científica (PIBIC) iniciada em agosto de 2012 e financiada pela Fundação Araucária. Originalmente pretendemos problematizar as impressões e observações feitas sobre as mulheres brasileiras por uma estrangeira, a inglesa Maria Graham (1785-1842) que esteve no Brasil de 1821 a 1824 e publicou um diário, em Londres, sobre sua estadia. Para tanto, nessa primeira fase realizamos leituras teóricas acerca da história das mulheres e das relações de gênero, procurando focar o século XIX.

Com o alargamento do campo da pesquisa histórica por meio da Nova História, a história das mulheres e as abordagens de gênero passaram a ter espaço na academia apenas a partir da segunda metade do século XX.

Tendo o gênero como categoria de análise histórica, é primordial considerarmos elementos como classe social e etnia em nosso estudo, principalmente por tratarmos de um Brasil escravista e patriarcal. Além disso, é preciso problematizar as origens sociais da autora que refletem nas suas observações feitas tanto a respeito do Brasil, de modo geral, quanto sobre as mulheres e as relações de gênero, especificamente. Entretanto, nessa primeira fase da pesquisa, pretendemos apontar uma discussão inicial sobre as relações de gênero e as mulheres na História.


Palavras-chaves: História das mulheres; relações de gênero; Brasil; século XIX.

MULHERES BRASILEIRAS NO SÉCULO XIX: PRIMEIROS PASSOS DE UMA PESQUISA

Camila Assis Lemes

Isabela Candeloro Campoi

O século XIX representou um período de grandes mudanças e progressos na Europa em decorrência das Revoluções Francesa e Industrial. No entanto, o século que fomentou grandes avanços representou um retrocesso em relação aos direitos e à liberdade das mulheres. O pensamento igualitário presente no seio da Revolução Francesa não se estendia ao gênero feminino, e de modo geral, os homens da Revolução não se interessavam pela sorte de suas companheiras.

O livro Palavras de Homens (1790-1793) de Elisabeth Badinter é uma obra importante de referência que traz trechos de discursos proferidos na assembleia, nas sociedades jacobinas, na imprensa, enfim, nos diversos círculos onde se debatia politicamente a participação das mulheres na vida pública no contexto da Revolução Francesa. Assim, a autora vale-se desses documentos (muitos deles escritos anonimamente) que abordam o posicionamento de homens de vida pública ou ordinária, opinando em relação à condição feminina. Banditer traz em sua obra discursos de homens que, de modo geral, partilhavam uma mesma opinião sobre o papel social das mulheres.

Um autor desconhecido declara que “a liberdade civil e política é, por assim dizer, inútil às mulheres, e, por conseguinte deve ser-lhe estranha” 1, ou seja, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade buscados pelos revolucionários franceses, como já foi dito, não se estendiam ao gênero feminino. Poucos foram os revolucionários, os políticos que se manifestavam em relação à condição feminina, menor ainda foi o número de homens que se mostraram à favor da participação política das mulheres. Entre estes podemos destacar a figura de Marie Jean Antonie Nicolas Carita, o marquês de Condorcet.

Condocert discursa sobre os direitos presentes na Declaração dos Direitos do Homem, essa declaração defendia os direitos dos homens, no entanto, a que grupo ela seria aplicada? A mesma emancipava os negros, os judeus, os trabalhadores dando-lhes o direito à cidadania, contudo renunciava os mesmos privilégios às mulheres. Destarte, Condorcet expressa sua opinião em relação à restrição presente nas entrelinhas da declaração:
Ora, os direitos dos homens resultam unicamente do fato de que são seres sensíveis, susceptíveis de adquirir ideias morais, e de raciocinar sobre essas ideias. Assim, tendo as mulheres essas mesmas qualidades, têm, necessariamente, direitos iguais. Ou nenhum indivíduo da espécie humana tem verdadeiros direitos, ou todos têm o os mesmos: e aquele que vota contra o direito do outro, seja qual for sua religião, cor ou sexo, desde logo abjurou os seus. 2

Condorcet aparece, no contexto revolucionário, partidário da igualdade dos sexos no que diz respeito aos direitos políticos. No entanto, mesmo gozando de sutileza e bom senso ao manifestar suas ideias em relação à igualdade de gêneros, os ideais de Condorcet não alcançaram muitos adeptos na França.

Mesmo não possuindo um espaço amplo, tendo variado sua participação no campo político revolucionário, as mulheres também apresentavam suas reivindicações, que poderiam se resumir basicamente em dois campos: direitos civis e cidadania política, direitos que não lhes foram garantidos na Declaração dos Direitos do Homem, devido à justificativa de que as mulheres apresentavam uma “inferioridade fisiológica, moral e intelectual.”3 Baseados nesta dita superioridade masculina, os filósofos iluministas concordavam que as mulheres deveriam ficar sob a tutela do seu pai ou do marido.

No cenário revolucionário, algumas mulheres questionaram os preceitos vigentes. Nele destaca-se a figura de Marie Olympe de Gouges, uma francesa patriota que acreditava, segundo Marand-Fouquet, na “capacidade das mulheres para salvar a França.” 4 Sendo assim, em 1791ela lança a sua Declaração dos direitos da Mulher e da Cidadã em contraposição à versão masculina de 1789. Nos 17 artigos Olympe de Gouges reivindica claramente a total igualdade política entre os gêneros. O trecho citado abaixo é parte do preâmbulo da Declaração feminina:


Considerando que a ignorância, o esquecimento ou o menosprezo dos direitos da mulher são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção do governo, resolvemos expor, numa declaração solene, os direitos naturais, inalteráveis e sagrados da mulher, a fim de que esta declaração apresentada constantemente a todos os membros do corpo social lhes lembre, incessantemente, seus direitos e deveres para que os atos do poder das mulheres e estes do poder dos homens possam ser, a cada instante, comparados com a finalidade de toda a instituição política e que sejam mais respeitados, a fim de que as reclamações das cidadãs, baseadas, daqui em diante, em princípios simples e incontestáveis se voltem para apoiar a Constituição para os bons costumes e a felicidade de todos. 5
Contudo, o apelo de Olympe de Gouges para o reconhecimento da cidadania feminina surge, segundo Itamar de Souza, “como uma mensagem dirigida às pedras do deserto.” 6 A Declaração dos Direitos da Mulher não atinge o propósito da francesa e Olympe de Gouges, representante dos girondinos, foi guilhotinada e seu processo mostra a total desqualificação das mulheres. A política não era lugar para elas.

Michelle Perrot discorre em sua obra As mulheres ou os silêncios da História sobre os mais diversos olhares, fontes e abordagens a respeito do gênero feminino e as restrições impostas às mulheres, o silêncio que elas tinham que manter para garantir a ordem social, “o silêncio é um mandamento reiterado através dos séculos pelas religiões, pelos sistemas políticos e pelos manuais de comportamento”.7 No entanto, pode-se ouvir em alguns casos os sussurros ou até mesmo grito de mulheres que não aceitavam o silêncio que supostamente elas deviam seguir.


Evidentemente as mulheres não respeitaram essas injunções. Seus sussurros correm casas insinuam-se nos vilarejos, fazedores de boas ou más reputações, circulavam na cidade, misturados aos barulhos do mercado ou das lojas [...] Todavia sua postura normal é a escuta, a espera, o guardar as palavras no fundo de si mesmas. Aceitar, conforma-se, obedecer, submeter-se e calar-se. 8
No decorrer do século XIX, conforme afirma Michelle Perrot, o desenvolvimento da teoria das esferas definia a divisão sexual do mundo de modo a organizar racionalmente a complementaridade dos papéis das mulheres e dos homens na sociedade, definindo a vocação “natural” dos gêneros na ideia da utilidade social. Assim, houve o estreitamento do espaço feminino; o discurso era de que a mulher deveria se restringir à esfera privada, às tarefas domésticas; ao homem caberia o espaço público, o papel de provedor da família.9

Nesta perspectiva as mulheres deveriam se encaixar na idealização feminina feita por Rousseau na emblemática obra Emílio. A educação feminina deveria ser voltada para o lar e para os valores da maternidade. A personagem Sofia, parceira do seu Emílio, deveria ser submissa de corpo e alma, de inteligência e vontade, reclusa ao lar e obediente aos caprichos do marido, isto é, a mulher deveria se reservar à vida doméstica. Tais expectativas em relação ao sexo feminino se dão, segundo a filosofia iluminista, pelas diferenças fisiológicas e intelectuais dos gêneros. A mulher se tornaria inferior ao homem por ser regida pelo “predomínio do útero”, ou seja, é o útero que irá conduzir a personalidade, a forma de agir e de pensar, enfim, de ser da mulher; o homem por sua vez é regido pela razão, condição que atesta sua superioridade em relação ao gênero feminino.

Sendo assim, na perspectiva de Rousseau, a parceira ideal deveria ser submissa e agradável ao marido, se restringindo à esfera privada; seus esforços deveriam estar voltados para o cuidado do lar, dos filhos e na satisfação dos caprichos do seu marido.

Tais expectativas permearam a literatura, as doutrinas religiosas, educativas e científicas, as leis de modo geral, ou seja, a existência de conceitos normativos nas mais diversas áreas e que expressavam as representações dos papéis de gênero, e asseguravam, em seus discursos, a superioridade masculina.

Joan Scott, uma das principais teóricas no estudo de gênero como categoria para análise histórica, tem em sua concepção que “o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder.”10 Assim, Scott estabelece noções que devem ser colocadas para o estudo de gênero. Considera, nestes termos, a importância da analogia entre gênero, classe social e etnia/raça para se compreender o papel social da mulher, sendoindispensável que se conceitue esses termos. As sugestões de Joan Scott no que tange à utilização do gênero como categoria de análise são elementares:
Os (as) historiadores (as) devem, preferivelmente, examinar as maneiras como as identidades de gênero são realmente construídas e relacionar seus achados com toda uma série de atividades, organizações sociais e representações culturais historicamente situadas.11

No que diz respeito ao Brasil do século XIX, ou seja, uma sociedade escravocrata, patriarcal, uma sociedade onde o direito a cidadania era concedido a uma parcela ínfima da população e em processo de descolonização, alguns aspectos merecem ser pontuados. A transferência da corte portuguesa e a abertura dos portos em 1808 transformaram o cenário brasileiro, mas principalmente o Rio de Janeiro. As novas necessidades da cidade (burocracia e estrutura física), as novidades de produtos e de consumo (das diversões à indumentária) influenciaram profundamente a rotina da cidade. As primeiras faculdades foram criadas, surgiram teatros e foi fundada a Biblioteca Real, que contava com um grande acervo de obras trazidas na bagagem da Corte portuguesa. O Brasil especialmente o Rio de Janeiro sofre, paulatinamente, a influência do estilo de vida europeu. A imprensa foi inaugurada e com a circulação de matérias impressos, o Brasil passou a ter efetivamente um mercado editorial; as salas de leitura, as reuniões públicas, os salões da elite letrada incrementaram a entrada ideias modernas e liberais no país.

O trânsito de estrangeiros tornou-se intenso: representantes governamentais, comerciantes, artistas e naturalistas, proporcionavam uma aproximação mais efetiva com artigos, modas e ideias europeias. E as mulheres não ficaram de fora das influências europeias.

E foi 1821, no contexto da Revolução do Porto (1820) e da instabilidade na relação entre Portugal e Brasil, que a inglesa Maria Graham chegou ao Brasil acompanhada de seu marido Thomas Graham, oficial da Marinha Real britânica designado para patrulhar os portos do Brasil. Graham embarcou como professora de literatura de uma turma de marinheiros rumo ao Novo Mundo. Quando da morte de seu marido durante viagem ao Chile, Maria Graham ficou sob a proteção do capitão Thomas Cochrane, oficial escocês que comandou as forças navais pela Independência do Brasil.

Para além de testemunhar nosso processo de Independência, essa inglesa letrada descreveu paisagens, visitas a usinas de açúcar, mercados de escravos, aldeias indígenas e sua estadia em casa de gente simples. Escreveu sobre seu círculo social, sobre as visitas e os bailes oferecidos pela elite carioca. Além de relatar, desenhou e pintou paisagens e cenas urbanas. Bastante disciplinada ao seu diário, publicou em Londres seus escritos sobre o Brasil e o Chile em 1824. Tal obra só foi publicada em língua portuguesa no ano de 1956, em tradução de Américo Jacobina Lacombe, renomado historiador brasileiro, formado em Direito e que, além da tradução do diário de Maria Graham, possui várias obras sobre história geral do Brasil e trabalhos sobre Rui Barbosa.

Além de gênero literário, as narrativas de viagem servem como fonte para a história social, pois são depoimentos a respeito de situações testemunhadas e vivenciadas. Da mesma forma que em seus escritos, os autores informam, analisam e tecem juízos de valor a partir das suas experiências, do seu ponto de vista histórico-cultural. As narrativas de viagem são reveladoras de impressões do viajante/narrador das mais variadas ordens. A esse respeito Miriam Moreira Leite escreve:



Apesar dessas diferentes reações, os viajantes foram responsáveis por uma série de representações, que se incorporaram à historiografia do século XIX, possivelmente por reforçarem as representações nacionais.12

Na obra A condição feminina no Rio de Janeiro, século XIX, Miriam Leite realiza um levantamento de relatos de viajantes que passaram pelo Brasil no século XIX, entre eles o de Maria Graham, e que testemunharam a condição da mulher em diferentes círculos sociais. Podemos destacar aqui a noções de classe e raça/etnia que Joan Scott traz como sendo imprescindíveis para os estudos de gênero. Ao organizar o relato de diferentes viajantes em espaços distintos da sociedade brasileira Miriam Leite atesta o que escreve Scott. Não se deve estudar o gênero de forma isolada, deve-se ter em mente que as relações de gênero vêm acompanhadas dos conceitos já citados. Miriam Leite escreve que:


Apesar dessas diferentes reações, os viajantes foram responsáveis por uma série de representações, que se incorporaram a historiografia do século XIX, possivelmente por reforçarem as representações nacionais. Algumas das mais conhecidas são: a reclusão da mulher brasileira, considerar a “condição” unicamente a branca rica [...]13
Assim, nosso projeto de pesquisa, estando em fase inicial, tem como fonte o diário escrito por Maria Graham durante sua estadia no Brasil e tem por objetivo verificar as observações e comentários feitos por ela a respeito das relações de gênero. Como primeiro passo da pesquisa estamos fazendo um levantamento de artigos e publicações que tratam das mulheres brasileiras no século XIX.

Pudemos perceber que a presença da Corte no Rio de Janeiro e o incremento da vida nos salões provocaram mudanças significativas na educação das meninas da elite. Além do canto, da dança e da música, o estudo do francês e da literatura instruíam as jovens para o mundo dos eventos sociais: exigia-se desenvoltura e brilho nos salões. As jovens mulheres tinham as incumbências, no âmbito privado, de bem-receber, ostentando habilidades ligadas às regras de etiqueta e à arte recreativa, mas também de cumprir o papel de colaboradoras dos pais, maridos ou irmãos para inserção ou permanência nos círculos sociais da elite urbana. No entanto, sua formação educacional e de instrução estavam ligadas ao exercício de sua função social, ou seja, a de atuar como esposa e mãe. A instrução da mulher estava voltada para a esfera privada, para a formação da “Sofia”, boa esposa e boa mãe. June Hahner, em sua obra Emancipação do sexo feminino: a luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850-1940, escreve:


A educação das mulheres concentrava-se na preparação para o seu destino último: esposas e mulheres [...] Basicamente as meninas deveriam aprender a cuidar bem de suas casas, pois lhe cabia a obrigação de garantir a felicidade dos homens. Todavia, alguma educação era bem acolhida, pois se tornariam melhores mães para os filhos e melhores esposas para os maridos.14
Contudo, as ideias do Velho Mundo, em decorrência principalmente da transferência da Corte portuguesa para o Brasil, vieram na bagagem dos estrangeiros vindos da Europa. A inauguração da imprensa no Brasil foi um marco importante e foi também através dos jornais que as mulheres brasileiras passaram a expressar suas ideias

A elaboração de jornais e periódicos próprios surge como uma novidade importante naquele período. Assim, desde meados do século XIX a imprensa tem sido espaço para a manifestação dos anseios e reivindicações das mulheres no Brasil.

June Hahner ainda em seu trabalho sobre a emancipação do sexo feminino analisa os principais jornais desse período, mostrando as pequenas nuances de seus conteúdos. De um modo geral, a instrução feminina reivindicada pelas redatoras visava aperfeiçoar o papel feminino de esposa e mãe: a educação adequada ajudaria as mulheres a cumprirem com as suas sagradas obrigações. Algumas viam na educação de seus filhos o caminho necessário para que a mulher alcançasse sua emancipação.
A nobre tarefa de educar as crianças era uma responsabilidade que atribuía um novo valor as mulheres. Além disso, modelar a mente dos meninos seria um modo de mudar a mentalidade dominante. Ao desarraigar esse preconceito funesto do espírito dos seus filhos, essa ideia de uma superioridade injusta, as mães estariam ajudando a todas as mulheres.15

Tendo como objetivo a emancipação feminina, “ao longo do século XX, aumentou o número de mulheres brasileiras que recebiam alguma instrução, e as portas das instituições nacionais de educação superior finalmente se abriram para elas.” 16

Durante o século XIX a imprensa passou, de forma constante, a receber a colaboração feminina, seja nos jornais dirigidos por homens ou nos jornais criados e mantidos por mulheres. “Estas tiveram uma quota considerável de responsabilidade no despertar da consciência das mulheres brasileiras, um papel fundamental”17 A partir das publicações dessas mulheres em jornais e periódicos aquelas que tinham acesso a esse meio de comunicação passaram a ter em mente a ideia de direitos femininos. As mulheres passam paulatinamente a ganhar voz na sociedade patriarcal.

“Em torno de 1890, o número de mulheres que editavam ou escreviam em jornais sobre os direitos femininos era suficientemente amplo para permitir apoio mútuo e maior intercâmbio intelectual”.18

Assim, amplia-se o rol das reivindicações: educação, profissão e voto. Um exemplo dessa participação feminina na imprensa pode ser observado na figura da escritora Josefina Álvares de Azevedo e seu periódico A Família (1888-1897), que de acordo com Josefina não tinha o objetivo de ensinar as mães a educar seus filhos, mas sim educá-las para vida, ou seja, A Família procurou estabelecer um novo pensamento entre as mulheres e abrigou em suas páginas um número considerável de mulheres favoráveis à emancipação feminina.

Era comum encontrar nas páginas dos periódicos femininos reivindicações acerca do sufragismo. Escritoras como Josefina passaram a questionar em seus escritos o direito da mulher ao voto, ou seja, uma mudança na ordem social que até então limitava a atuação feminina.



Ao contrário de outras defensoras dos direitos da mulher, Josefina de Azevedo proclamava, ainda antes da queda da monarquia, que o direito ao voto da mulher era uma “necessidade latente” [...] Impulsionava as mulheres brasileiras “da esfera restrita em que eram mantidas, e agir como ser completo, intelectual, moral e materialmente considerado [...] As mulheres tinham direitos a defender também e com o voto poderiam melhorar sua posição dentro e fora do lar.19

A imprensa abriu a “brecha” necessária para a voz feminina. Vemos o florescer da consciência feminina: de saída da esfera privada, reservada às mulheres, para a conquista de espaços ditos como masculinos.

Enfim, verificar a condição geral das mulheres de elite na sociedade patriarcal e escravista do Brasil do século XIX é parte do nosso primeiro passo nessa pesquisa. O levantamento e a análise de trabalhos que tratam da condição da feminina no século em questão é uma etapa fundamental para entendermos as observações feitas por Maria Graham em seu diário sobre o Brasil.

REFERÊNCIAS
BADINTER, Elisabeth. Palavras de Homens (1790-1793). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1991.

BONACCHI, Gabriela. GROPPI, Angela (org.). O dilema da cidadania: direitos e deveres da mulher. Trad. Álvaro Lorencini. São Paulo: Editora da Unesp, 1995.

HAHNER, June. E. A luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850-1940. Florianópolis: Editora Mulheres/EDUNISC, 2003.

LEITE, Miriam Moreira (org.) A condição feminina no Rio de Janeiro: século XIX. São Paulo: Editora Hucitec, 1981.

PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. São Paulo: EDUSC,2005.

_______, Michelle. Ecos de uma história silenciosa das mulheres. Estudos Feministas, Florianópolis, jan/abr. 2008. p.253-256.

MUZART, Zahidé Lupinacci. Uma Espiada na imprensa das mulheres no século XIX. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, vol.11, no.1, Jan/jul 2003.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. In: SOS CORPO: gênero e cidadania.Tradução: Cristine Rufino Dabat e Maria Betânia Ávila. 3a edição. Recife, abril de 1996.



SOUZA, Itamar de. A mulher e a Revolução Francesa: participação e frustração. Revista da FARN, Natal, vol.2, no.2, p. 111-124, jan/jul. 2003. p.111-124.

1 BADINTER, Elisabeth. Palavras de Homens (1790-1793). Rio de Janeiro: Editora nova sem fronteira, 1991, p. 65.

2 Cf. Idem p. 45-46.

3 SOUZA, Itamar de. A mulher e a Revolução Francesa: participação e frustração. Revista da FARN, Natal, vol.2, no.2, p. 111-124, jan/jul. 2003. p.116

4 Cf. Idem, Ibdem.

5 BONACCHI, Gabriela. GROPPI, Angela (org.). O dilema da cidadania: direitos e deveres da mulher. Trad. Álvaro Lorencini. São Paulo: Editora da Unesp, 1995, p.302.

6 SOUZA, Op. Cit., p.119.

7 PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. São Paulo: EDUSC,2005, p.9

8 Idem. p. 10

9 Idem. p. 279.

10 SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. In: SOS CORPO: gênero e cidadania.Tradução: Cristine Rufino Dabat e Maria Betânia Ávila. 3a edição. Recife, abril de 1996, p. 11.

11 Idem, p.12

12 LEITE, Miriam Moreira (org.) A condição feminina no Rio de Janeiro, século XIX. São Paulo: Editora Hucitec, 1981, p.31

13 Idem. p.31

14 HAHNER, June. E. A luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850-1940. Florianópolis: Editora Mulheres/EDUNISC, 2003, p.123

15 Idem. p. 88

16 Idem. p. 172.

17 MUZART, Zahidé Lupinacci. Uma Espiada na imprensa das mulheres no século XIX. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, vol.11, no.1, Jan/jul 2003.

18 Idem. p.89

19 Hahner. Op. Cit., p.163





©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal