Mulher e esporte em perspectiva



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MULHER E ESPORTE EM PERSPECTIVA

Silvana Vilodre Goellner

1

goellner@terra.com.br



Não há duvidas que o esporte se traduz, na atualidade como um fenômeno social de

grande abrangência e visibilidade. As suas diferentes manifestações fazem parte da vida

cotidiana de cada um de nós. As modalidades esportivas, a educação física/esporte escolar, as

atividades de lazer, as competições, e as práticas corporais alternativas, por exemplo,

envolvem sujeitos de diferentes contextos culturais, seja como praticantes, seja como

espectadores. O esporte é uma prática regular que se desenvolve no cotidiano das cidades

despertando interesse, mobilizando paixões, evocando sentimentos, criando representações de

corpo e saúde, enfim, convocando nossa imediata participação. No entanto, não é criação do

presente. Resulta de conceitos e práticas há muito estruturadas no pensamento ocidental cujos

significados foram e são alterados não só no tempo mas também no local onde aconteceram e

acontecem. Em outras palavras, o esporte possui história. História feita pela ação de diferentes

homens e mulheres que a seu tempo realizaram ações que consolidaram estas prática

inspirando, de certa forma, o que hoje vivenciamos. Vou portanto, abordar o tema “Mulher e

esporte em perspectiva” contando algumas histórias acerca da participação feminina no campo

das práticas corporais e esportivas. Participação essa merecedora de nossa atenção e

reconhecimento pois nem sempre foram – e algumas vezes ainda não são – iguais as condições

de acesso e participação das mulheres, se comparada aos homens, no campo destas práticas

(no esporte de lazer, no esporte educacional, na educação física escolar, na visibilidade

conferida pela mídia, nos cargos de administração e gestão, nos valores de alguns prêmios

atribuídos aos vencedores e vencedoras de competições esportivas, entre outras.

Inicio, portanto, falando sobre o dia 26 de junho de 1932. Local: Rio de Janeiro onde a

delegação olímpica brasileira composta por 82 atletas embarca a bordo do cargueiro Itaquicê

rumo a Los Angeles, carregando na bagagem 55.000 sacas de café a serem vendidas nos

portos estrangeiros garantindo a nossa participação na nona edição dos Jogos Olímpicos. A

despedida da delegação teve a presença de Getúlio Vargas, Chefe de Governo, que se dirigiu

até o navio para participar da celebração e desejar aos atletas uma boa viagem. Todo

embandeirado, ao som de tiros de canhão, da música da banda dos fuzileiros navais e dos

aplausos, gritos e urras das pessoas que foram despedir-se, o Itaquicê lança-se ao mar sob o

comando de oficiais da Marinha de Guerra. Cercado por pequenas embarcações dirige-se

para a saída da barra levando no coração de cada atleta a o ideal de representar seu país. O

discurso oficial de despedida é proferido pelo escritor Coelho Netto, um aficcionado do

esporte, em alto e bom tom proclama “pela Bandeira do Brasil, por nós todos, pelos nossos

brios e a nossa glória, o vosso combate. Não esqueçaes, não rapazes, que é o Brasil, que é a

1

Professora da ESEF/UFRGS, Coordenadora do Centro de Memória do Esporte da mesma



instituição e Vice-Presidente do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte.



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2

Pátria, que são mais de quatro séculos de energia, de amor, de aventura, que é o Brasil que

levaes nos músculos” (Lenk, 1986, p. 29-32).

Chamo a atenção para o importante fato de que nas não são apenas rapazes os

componentes da delegação brasileira. A bordo do Itaquicê, carregando o nome do Brasil no

coração e nos músculos, encontra-se também a nadadora paulista de 17 anos Maria Lenk.

Ícone do esporte feminino brasileiro foi nossa primeira atleta olímpica e também a primeira

mulher sul-americana a participar de uma Olimpíada.

Ainda que as mulheres brasileiras não tenham começado a praticar esportes apenas a

partir desta Olimpíada, é importante registrar que a inserção feminina nas competições nacional

e internacional foi fundamental para divulgação da imagem da mulher atleta. Identificada como

de natureza muito frágil é recorrente, neste tempo, ou seja, o início do século XX, a idéia de

que à mulher correspondia mais a assistência do que a prática das atividades esportivas num

grau competitivo. Motivo pelo qual, a participação feminina nos Jogos Olímpicos foi aceita

apenas na sua segunda edição, ano de 1900, em Paris, após polêmica discussão entre seus

organizadores. Nesta competição 11 mulheres disputaram duas modalidades: o golfe e o tênis.

O próprio Barão de Coubertin, um dos seus idealizadores, era contrário à participação

feminina por considerar que as mulheres poderiam vulgarizar esse terreno tão recheado de

honras e conquistas. Apesar dos esforços em manter as mulheres fora das competições, cabe

registrar que, em 1896, houve uma competidora extra-oficial na maratona. Stamati Revithi,

grega fez o trajeto de 42 km sendo que a última volta aconteceu fora do estádio porque a

entrada lhe foi proibida. No âmbito das provas olímpicas talvez esta tenha sido a primeira

mulher a enfrentar as barreiras da tradição esportiva na era moderna (Olympic Magazine,

1997).


No mesmo período em que as Olimpíadas renasciam, ou seja, no final do século XIX,

outras mulheres desafiavam as normas vigentes e rompiam preconceitos e tradições

relacionadas às atividades físicas. Estou me referindo as mulheres que faziam exibições de força

física em casas de espetáculos, circos e music halls nos Estados Unidos e Europa. Mulheres

que tiveram certa projeção e eram reconhecidas pela atuação que faziam nesse sentido, cujo

esforço físico desmistificava várias das representações que se tinha sobre o corpo feminino

neste momento. Como por exemplo, da fragilidade, do recato e do medo de que elas

pudessem ficar com o corpo dos homens se fizessem muito esforço físico, em especial,

naqueles esportes considerados violentos. Essas mulheres, que denomino de forçudas, em sua

grande maioria casaram-se e forma mães, contrariando muito do que se falava delas (Goellner e

Fraga, 2004).

O que quero demonstrar trazendo esses dois exemplos de resistência e de ruptura é

que, mesmo que a história oficial muitas vezes pouco se refira a determinadas formas de

exercitação do corpo feminino, as mulheres há muito tempo protagonizam histórias no campo

das práticas corporais e esportivas. Ou seja, o fato de não terem muita visibilidade quando

comparado aos homens, não significa afirmar que não tenham existido ou que estiveram ao

largo de determinadas atividades esportivas. Por certo que a inserção da mulher no mundo do

esporte não foi tarefa fácil mas vale ressaltar que não é recente sua atuação nesse sentido. A



história do esporte mundial se fez e se faz também pela participação feminina.



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No Brasil, as primeiras iniciativas de participação de mulheres em práticas esportivas

podem ser observadas na segunda metade do século XIX. Até aquele momento, a estrutura

extremamente conservadora da sociedade brasileira não lhes permitia grande projeção, uma

vez que eram criadas pelos pais para serem futuras esposas e mães.

A partir de meados do século XIX, esse quadro começa paulatinamente a mudar. O

Brasil, recém independente de Portugal, se preocupa em ser reconhecido pelas grandes nações

do mundo e, atento aos avanços europeus, incentiva o consumo de bens e costumes

importados. Junto com os ventos de mudança e inovações que vinham da Europa, chegam

também os ecos das lutas femininas, que projetam novas perspectivas para as mulheres

brasileiras como, por exemplo, o cuidado com a aparência, com a saúde e com uma maior

presença na vida social das cidades.

Obviamente essa mudança foi lenta e mais significativa para as mulheres das camadas

mais ricas da sociedade, que tinham maior acesso aos bens culturais, à escolarização e às

novidades do continente europeu. Sendo assim, algumas mulheres passaram a freqüentar bares,

rodas de intelectuais e poetas, festas e eventos sociais e esportivos. (Cunha Junior, Altmann,

Goellner e Melo, 1999). No Rio de Janeiro, por exemplo, em 1908, um pequeno grupo de

mulheres da classe média, lideradas por Leonilda de Figueiredo Daltro fundou um clube de tiro

feminino na qual recebiam treinamento com armas de fogo que se denominou “Linha de Tiro

Feminino Orsina da Fonseca”, nome da então primeira-dama, esposa do Marechal Hermes da

Fonseca.. (Hahner, 1981). Em 1919, Blanche Pironnet Bezerra, uma garota de origem belga

que vivia no Brasil desde 1912, praticava a natação por divertimento e saúde sem preocupação

com competições. O que não a impediu de ter sido a vencedora, mesmo sendo a única mulher

em uma competição realizada no Clube Espéria, nas margens do rio Tietê, em são Paulo.

(Devide, 2000).

É dentro de contexto que a prática do esporte, da ginástica e da dança vai aparecer

como uma possibilidade de ampliação da participação social feminina, já que eram

consideradas de caráter aristocrático, familiar e saudável. Nas instalações e eventos de turfe e

de remo (os primeiros esportes desenvolvidos no Brasil) as mulheres estavam sempre

presentes, acompanhando seus maridos e desfilando seus vestidos de última moda. Essa

possibilidade de participação, mesmo que a princípio passiva, porque à mulher cabia o papel

de espectadora, acabou contribuindo para lhe dar maior visibilidade na sociedade brasileira da

época. Ainda assim, já no fim do século XIX podemos observar mulheres participando

ativamente como atletas nas competições, principalmente de turfe e ciclismo. (Melo, 2001)

Não há duvidas, entretanto, que será nas primeiras décadas do século XX que

acontecerá uma maior inserção das mulheres no campo do esporte seja nas dimensões do

lazer, da educação escolar e da competição. É nesse período também, que a ginástica adquire

importância na escola como uma forma de educação do corpo feminino. Considerada de

natureza frágil, à menina/mulher são recomendadas atividades físicas capazes de fortalecer seu

organismo de forma a fazer com que elas pudessem enfrentar os desafios de uma maternidade

sadia, considerada nesse período, como a função primeira de toda a mulher.

No final do século XIX, vários dos manuais e livros de educação física são escritos no

Brasil, mencionando a especificidade do trabalho físico para as mulheres em função da

regeneração e do aprimoramento da raça brasileira. Como dizia Eduardo de Magalhães, um





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médico da época: com a fraqueza das mães começa a do homem pois (...) da mulher fraca,



depauperada, nervosa, de estomago susceptivel, mal nutrida, não se espera filho bem

constituido, nem que possa amamental-o convenientemente. A predestinada a reproduzir

a especie, deve garantir a validez, habilitar o homem a ser homem, apto a luctar pela

vida utilmente para si, para a família e para a pátria e hoje ainda não é devidamente

educada entre nós para o desempenho de sua missão sublime. Ser mãe! (Magalhães apud

Cunha Júnior, 1998).

Ao corpo feminino, que se desejava forte e saudável para gerar outros corpos fortes e

saudáveis foram recomendadas determinadas atividades físicas ao mesmo tempo em que outras

foram proibidas. Dança, ginástica e natação eram consideradas como atividades que

fortaleceriam a saúde da mulher e também poderiam torná-la mais belas.

Beleza e saúde, afirmavam os incentivadores da prática esportiva feminina, não

combinavam com preguiça, ociosidade e espartilhos. Nesse momento duas são as

representações de beleza que inspiram a construção do corpo feminino: a estética clássica

divulgada pelas revistas de educação física e a estética do cinema norte-americano, veiculada

nas revistas femininas e de generalidades.

Essas duas representações estéticas valorizavam a graciosidade, a harmonia da formas e

a delicadeza, razão pela qual várias atividades esportivas foram desaconselhadas para as

mulheres por serem consideradas como atividades que poderiam masculinizar a mulher.

Território permeado por ambigüidades, o mundo esportivo, simultaneamente, fascinava e

desassossegava homens e mulheres, tanto porque contestava os discursos legitimadores dos

limites e condutas próprias de cada sexo, como porque, através de seus rituais, fazia vibrar a

tensão entre a liberação e o controle de emoções e, também, de representações de

masculinidade e feminilidade. (Goellner, 2003)

Esse temor fez com que, em 1941, o General Newton Cavalcanti apresentasse ao

Conselho Nacional de Desportos, algumas instruções que considerava necessária para a

regulamentação da prática dos esportes femininos. Estas serviram de base para a elaboração

de um documento

2

que oficializou a interdição das mulheres a algumas práticas esportivas, tais



como as lutas, o boxe, o salto com vara, o salto triplo, o decatlo e o pentatlo.

Outras foram permitidas desde que praticada dentro de determinados limites. O remo,

por exemplo, poderia ser praticado desde que não fosse competitivo e objetivasse a correção

de defeitos orgânicos; várias provas do atletismo poderiam ser exercitadas desde que

exigissem menos esforços que as masculinas. Como finaliza o documento: “deve ser

terminantemente proibida a prática do futebol, rugby, polo, water-polo, por constituírem

desportos violentos e não adaptáveis ao sexo feminino” (Revista Educação Physica, 1941).

Mesmo que esse documento e outros criados posteriormente se tornassem oficiais é

pertinente dizer que a vida lhes escapa. As práticas esportivas seduziam e desafiavam muitas

mulheres que indiferentes às convenções morais e sociais aderiram a sua prática independente

do discurso hegemônico da interdição. Incentivadas ou não a participarem de determinadas

2

Decreto-Lei n.º 3199, do Conselho Nacional de Desportos, de 14 de abril de 1941.





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modalidades a ampliação da participação feminina no esporte possibilitou a emergência de

algumas competições de grande porte destinadas exclusivamente as mulheres.

Em 1935, por exemplo, surgiram os “Jogos Femininos do Estado de São Paulo”, que

reuniram mulheres em atividades poliesportivas (Tavares e Portela, 1998). Organizados por

Mário Filho, Os “Jogos da Primavera” foram criados em 1949 e acontecem até hoje na cidade

do Rio de Janeiro, envolvendo clubes, escolas, associações, etc.(Mourão, 1998). Em Porto

Alegre, Túlio de Rose criou, em 1954, os Jogos Abertos Femininos que aconteceram até

meados da década de 60. Na abertura dos Jogos em 1958, por exemplo, compareceram mais

de 30.000 pessoas para prestigiar o início do evento cujas provas que duraram meses e

mobilizaram a cidade (Folha Esportiva, 1957).

Essas competições possibilitaram a emergência de atletas mais qualificadas para

disputar eventos nacionais e internacionais. Muitas das garotas que participaram destas edições

dos Jogos Femininos eram ou se tornaram atletas de equipes nacionais e estaduais. Um

exemplo dessa afirmação é a seleção feminina que disputou, em 1963, os Jogos Mundiais

Universitários, na cidade de Porto Alegre e que ganharam a medalha de ouro (exposta). A

seleção era basicamente gaúcha que foi a base da seleção brasileira deste período.

No final dos anos 50 e no início dos 60 o Brasil viu despontar outra expressão feminina

no esporte nacional. A tenista Maria Esther Bueno conquistou espaço no cenário esportivo

internacional ao vencer o Campeonato de Winbledon nos anos 1959, 1960 e 1965, na

categoria individual, e em 1958, 1960, 1963, 1965 e 1966, na categoria de duplas Em 1964,



Aida dos Santos, única mulher da delegação brasileira que foi aos Jogos Olímpicos de Tóquio

conquista o 4 lugar no salto em altura, sem que tivesse técnico nem mesmo as sapatilhas

adequadas para a competição.

A partir da segunda metade do século XX modalidades como voleibol, basquetebol,

natação, tênis e atletismo tornam-se cada vez mais praticadas possibilitando que a participação

das mulheres nas competições nacionais e internacionais tivesse, também, um significativo

avanço. Os campeonatos nacionais, sul-americanos, pan-americanos e mundiais contaram

sempre com a participação das mulheres, cujos resultados começaram a destacar-se, em

especial, nos esportes coletivos. No voleibol as brasileiras já foram vitoriosas nos campeonato

pan-americano e mundial. No basquete foram campeãs mundiais em 1971 e não raras vezes

figuraram entre as seis primeiras colocadas em campeonatos internacionais, inclusive nos Jogos

Olímpicos (Cunha Junior, Altmann, Goellner e Melo, 1999).

A participação das atletas brasileiras nos Jogos Olímpicos cresceu significativamente a

partir dos anos 70, e a primeira premiação com o ouro olímpico aconteceu em Atlanta, no ano

de 1996 através das atletas Jacqueline e Sandra conquistaram medalha de ouro no voleibol de

praia em dupla e as atletas Mônica e Adriana a medalha de prata na mesma prova. Nesta

mesma olimpíada a seleção de basquetebol conquistou a medalha de prata e o voleibol

feminino trouxe a medalha de ouro. Os anos 80 e 90 caracterizam-se pela maior inserção

das mulheres em esportes antes considerados como violentos para a participação feminina. O

judô, o pólo aquático, o handebol e futebol são exemplos a serem considerados.

Apesar da sempre crescente presença feminina na vida esportiva do país, a situação

atual das mulheres deve ser avaliada com cautela. Mesmo que sua participação como

esportistas seja significativa, ainda é consideravelmente menor que a dos homens. Esta



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diferença pode ser identificada nas mais diversas instâncias onde se praticam as atividades

corporais e esportivas, tais como, nos Jogos Olímpicos, nos clubes esportivos, nas atividades

escolares, nas áreas de lazer, na presença em estádios e ginásios como espectadoras e também

nos meios de comunicação de massa, que destinam aos atletas homens maior destaque e

projeção.

O futebol – principal modalidade esportiva praticada no país – exemplifica bem esta

situação. O numero de mulheres brasileiras que hoje praticam o futebol em clubes e área de

lazer aumentou se comparado à década anterior; e os campeonatos regionais e nacionais

proliferam a cada momento. Porém, não há um número considerável de mulheres nas

comissões técnicas dos clubes de futebol feminino, nem no nível administrativo das entidades

que regem este esporte. Além disso vários preconceitos e estereótipos ainda cercam a pratica

das mulheres desta modalidade, tais como a associação de sua imagem a homossexualidade ou

os perigos do choque da bola para sua saúde reprodutiva.

Vale aqui lembrar as inúmeras barreiras que Lea Campos enfrentou, na década de 70,

para se transformar em árbitra de futebol. Mineira de Belo Horizonte realizou um curso de oito

meses na escola de árbitros da Federação Mineira de Futebol, em 1967, mas só em 1971 teve

seu diploma reconhecido pela FIFA. Para tanto não poupou esforços recorrendo até mesmo

ao então presidente, Emílio Garrastazzu Médici para conseguir tal reconhecimento pois a

Confederação Brasileira de Futebol, Constituição não permitia sua atuação (Schumaher e

Brazil, 2000).

No mesmo período, outra Lea traçava o mesmo percurso para ser reconhecida no

campo dos esportes tidos como masculinos. Lea Linhares, judoca gaúcha com grande

projeção da mídia da época, primeira mulher faixa preta no Rio Grande do Sul não teve seu

título reconhecido porque era mulher.

Outro campo de atuação ainda muito restrito para as mulheres quando comparada aos

homens é a atuação como técnicas esportivas. Esse ainda é um espaço de domínio masculino,

em especial, nas equipes de alto nível. E essa não é uma luta recente das mulheres. Vale

ressaltar aqui o trabalho de Benedicta Oliveira, a pioneira no comando de uma equipe

esportiva de alto nível - que começou a atuar como técnica das equipes femininas do Clube

Espéria, em São Paulo no ano de 1963. Em 1965 foi convidada para ser técnica da seleção

brasileira de atletismo e venceu o campeonato sul-americano disputado no Rio de Janeiro. Foi

técnica da seleção paulista e técnica da seleção brasileira nos campeonatos sul-americanos de

1965 a 1975. Foi supervisora das equipes femininas brasileiras de atletismo nos Jogos Pan-

americanos de 1971, 1975 e 1983 e nos Jogos Olímpicos de Montreal em 1976. Atuou como

técnica até 1995, quando se aposentou (Oliveira, 2002).

Para finalizar gostaria de chamar a atenção para uma questão que merece nossa

atenção se estamos pensando o tema mulher e esporte em perspectiva. Trata-se da

inexpressiva participação da mulher nos setores de organização e de direção do esporte, como

por exemplo, nas federações e confederações esportivas e no Comitê Olímpico Brasileiro,

cujos cargos permanecem sob o domínio dos homens mesmo após a indicação do Comitê

Olímpico Internacional, em 2000, de que os Comitês Nacionais procurassem promover

estratégias de inserção da mulher nos cargos de comando de forma a se aproximar do

percentual de 10%. (Pfister, 2003)





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Enfim, ainda que a participação feminina tenha aumentado significativamente nos últimos

vinte anos que respeita a sua atuação como atleta de alto nível ainda é muito restrita sua

inserção na gestão esportiva. No Brasil das 53 Confederações Esportivas apenas 1 é dirigida

por mulher: A Confederação Brasileira de Ginástica cuja presidente é Vicélia Angela

Florenzano

3

. Quando se pensa nas Federações Esportivas o índice não chega a 1%.



Enquanto no século XIX a participação das mulheres em eventos esportivos restringia-

se basicamente a assistência e ao acompanhamento de seus maridos, com pouca participação

ativa nas provas, ela é hoje muito mais ampla e diversificada. Todavia, isso não significa afirmar

que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades no campo esportivo ou que

preconceitos quanto a participação feminina inexistam. Não é raro, ainda hoje, encontrar nas

escolas de primeiro e segundo graus disparidades relevantes no que se refere ao acesso de

meninas e meninos nas atividades físicas realizadas nas aulas de educação física e/ou no âmbito

do esporte educativo.

Se o esporte se traduz como um importante elemento para a promoção de uma maior

visibilidade das mulheres no espaço público e se, ao longo da história do esporte nacional,

houve a projeção de vários talentos esportivos femininos, vale registrar que essas conquistas

resultam muito mais do esforço individual e de pequenos grupos de mulheres (e também de

homens) do que de uma efetiva política nacional de inclusão das mulheres no âmbito do

esporte e das atividades de lazer. Reconheço como importante os processos que ultimamente

estão sendo colocando em ação como, por exemplo, a organização da Conferência Nacional

de Esportes que apresenta o eixo temático “Mulher e Esporte”, a tentativa de ampliação de

recursos para incentivar o futebol feminino, entre outros. No entanto, como estamos pensando

em “perspectiva”, acredito que se muito já foi feito ainda há um universo a se fazer.

Nesse sentido penso que pelo menos três ações seriam fundamentais em especial nesse

momento em que está em construção a Conferência Nacional do Esporte: a realização de um

amplo diagnóstico sobre a participação das mulheres no esporte (compreendendo aqui as

manifestações do lazer e do esporte educacional), a organização de um debate nacional

específico sobre o tema envolvendo diversos segmentos profissionais e, por fim, a elaboração

e implementação de políticas capazes de incentivar, promover e fortalecer a participação

feminina neste fenômeno de grande significação cultural.

Assim poderemos pensar, que muitas mulheres poderão exercer seu direito de

participar de diferentes práticas corporais e esportivas seja em campeonatos nacionais e

internacionais, seja nas escolas, associações comunitárias, parques, praças, academias, clubes,

praias, montanhas, zonas rurais, comunidades indígenas.... enfim num sem limites de espaços e

tempos.


3

A listagem das Confederações Esportivas pode ser encontrada no site do Comitê Olímpico

Brasileiro. http://www.cob.org.br/default2.asp.



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8

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História do esporte, Lazer e Educação Física. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 1998.



Page 11

Esporte e Mulher em perspectiva

1

Lino Castellani Filho

2

Motivado pela definição, por parte do Governo LULA, de 2004 como o Ano da



Mulher, associada à participação do Ministério do Esporte nas comemorações alusivas

ao 8 de março — Dia Internacional da Mulher — programadas pelo Espaço Cultural



Anatel através do projeto Março Mulher, assumimos o desafio de tecermos

considerações acerca da relação da Mulher com o Esporte, prática social alvo de nossa

intervenção profissional.

Ao aceitarmos fazê-lo, tivemos a percepção de que estaríamos nos

comprometendo a refletir sobre uma das facetas da história da luta da Mulher pela sua

emancipação social. Isto porque entendemos o Esporte como um dos fenômenos

culturais mais significativos do mundo contemporâneo.

3

E quando falamos de cultura,



nos referimos ao espaço vital que os seres humanos constroem; ao locus onde projetam

suas aspirações, num constante esforço de perceberem-se no mundo, relacionando-se

com aquilo que os rodeiam. Deste modo, podemos conceber a atividade humana

externada através do Esporte, como uma das formas que se colocam para nós de nos

apropriarmos do mundo.

Mas em que medida o estudo das relações entre a Mulher e Esporte pode refletir

um pedaço da luta por ela travada na busca da construção de um outro arquétipo que a

desvencilhe do estigma da imagem feminina caracterizada pelo comportamento

inexpressivo, apático, submisso e servil?

4

A resposta para esta e outras perguntas da



mesma natureza encontra-se, ao nosso ver, no desafio de buscarmos dar conta do

entendimento da dimensão sócio-antropológica de Consciência Corporal liberta das

amarras reducionistas relativas à sua definição bio-psicologizante.

5

Busquemos explicitar melhor o já dito. Para nós, Consciência Corporal não



significa saber tão somente a respeito da anatomia do corpo humano. Nem tampouco se

prender unicamente ao estudo de sua biomecânica. Mas sim, e essencialmente,

entendermos que aquilo que a define, é a nossa compreensão a respeito dos signos

tatuados em nosso corpo pelos aspectos sócio-culturais de momentos históricos

determinados. É sabermos que nosso corpo sempre estará expressando o discurso

hegemônico de uma época, e que a compreensão do significado desse ‘discurso’, bem

como dos seus determinantes, é condição essencial para que possamos vir a participar

do processo de construção do nosso tempo e, por conseguinte, da elaboração dos

1

Este texto reflete conclusões de estudos realizados pelo autor, já publicados em outras ocasiões.



2

Docente da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp;

Secretário Nacional de Desenvolvimento do Esporte e do Lazer do Ministério do Esporte;

Sócio e ex-presidente (1999/2003) do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, CBCE.

3

Entendemos que Educação Física e Esporte constituem-se em dois fenômenos culturais distintos, porém



não antagônicos. Por isso mesmo, em muitos momentos, suas histórias se confundem e se interpenetram,

tornando-se impossível dar conta da compreensão de um fenômeno, ignorando o outro. Tentativas de

análises distintas de um e outro fenômeno têm se afigurado artificial, ahistórico. É por causa desse

entendimento que, embora o cerne da questão presente neste Artigo seja a relação Mulher / Esporte, nos

sentimos bastante a vontade para passearmos de um fenômeno a outro.

4

Tal imagem foi detectada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, na análise dos livros



didáticos. Conforme matéria publicada à página a-24 da Folha de São Paulo de 24 de Agosto de 1987.

5

Segundo Aurélio Buarque de Holanda, reduzir significa “o ato ou efeito de subjugar...”. Reducionismo



psicologizante significa reduzir, subjugar o estudo do ser humano à sua parte bio-psicológica,

dissociando-a da totalidade na qual se integra, como se o ‘todo’ significasse a soma das partes e não a sua

interação.



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signos que serão gravados em nosso corpo. Quem nos abre a perspectiva para esta

construção do conceito de Consciência Corporal é o antropólogo francês Marcel Mauss,

citado por Sueli Kofes quando diz que “... o corpo aprende e é cada sociedade

específica, em seus diferentes momentos históricos e com sua experiência acumulada

que o ensina (...) nele marcando as diferenças que ela reconhece e/ou estabelece...”

6

Notem que dissemos não se tratar “... tão somente de saber a respeito da



anatomia do corpo humano...” Tão somente” significa dizer que não descartamos a

necessidade de darmos conta de tal entendimento. O mesmo queremos dizer quando

falamos “... nem tampouco nos prendermos unicamente ao estudo de sua

biomecânica...” Trata-se de um convite a extrapolarmos os limites de tais enfoques.

Percebam ainda que a nossa compreensão “... a respeito dos signos tatuados em nosso



corpo pelos aspectos sócio - culturais de momentos históricos determinados...”, bem

como da idéia de que ele “... sempre estará expressando o discurso hegemônico de uma



época...”, não é por nós considerado Ponto de Chegada, fim último a ser alcançado.

Pelo contrário, constitui-se em Ponto de Partida para que possamos vir, de posse dessa

consciência, “... a participar do processo de construção do nosso tempo e, por

conseguinte, da elaboração dos signos a serem gravados em nosso corpo”. Nessa

direção é correto dizer que, em última instância, é a correlação de forças presente num

momento histórico determinado que definirá a quem caberá identificar os sinais a serem

gravados nos corpos, cabendo esta tarefa àquele segmento social que se estabelecer

hegemonicamente.

Isto posto, podemos agora voltar nossos olhos para a análise das concepções de

corpo construídas ao longo da história da sociedade brasileira — é este o nível de

totalidade que pretendemos abarcar — em seus diferentes momentos históricos,

buscando com este proceder, identificarmos relações entre essas concepções e a história

de como vem se dando a presença da Mulher no Esporte.

6

Esta fala de Sueli Kofes está publicada na coletânea “Conversando sobre o corpo”, sob o título “E



sobre o corpo não é próprio corpo que fala ? Ou o discurso deste corpo sobre o qual se fala”, à p.47.



Page 13

É de 1941 o primeiro documento legal a sistematizar o Esporte em nível

nacional, em nosso país. Vivíamos então, desde 1937, sob a égide do Estado Novo,

regime político de índole ditatorial implementado sob o jugo da batuta do caudilho

Getúlio Vargas. Conjugou-se naquele período histórico dois arquétipos de corpo: o

primeiro deles — o Corpo Higiênico — construído pela classe dirigente das primeiras

décadas do século passado, quando dele lançaram mão para consolidar o processo de

reordenamento social implementado a partir do assumir da posição de ex-colônia

portuguesa — contando para tanto com a ajuda dos médicos higienistas —, tão logo se

deram conta de que o projeto de sociedade arquitetado pelos portugueses para o Brasil,

não atendia aos interesses dos brasileiros. O protótipo do Corpo Higiênico foi então

vinculado ao projeto de higienização e eugenização da raça brasileira, que tinha na

política de embranquecimento da raça brasileira seu principal trunfo para o

estabelecimento de uma outra correlação de forças que viesse a impedir os portugueses

com vocação recolonizadora, de manipularem o contingente populacional de negros

cativos — que em 1850 atingia a casa dos dois milhões e meio, quase a metade da

população de então — no sentido de alcançarem seus objetivos colonialistas.

O segundo modelo, o do Corpo Produtivo, teve incorporado aos valores ético-

políticos acima mencionados, que tatuavam o corpo do brasileiro, outros valores que

fizeram por reforçar sua relação com a questão da eugenia da raça, à medida que o

colocaram a serviço da defesa da pátria frente aos denominados inimigos internos,

questionadores do ordenamento social vigente (lembram-se do movimento batizado

pelos governantes de intentona comunista?), e aos inimigos externos, face à eminência

da eclosão da segunda guerra mundial e do envolvimento brasileiro naquele conflito

bélico. Passaram também, os que detinham os meios de produção, a nele, corpo,

tatuarem uma outra marca, qual seja, aquela que o concebia como instrumento de

produção — em razão do processo de industrialização que se dava em nosso modelo

econômico —, buscando no trabalhador brasileiro a sua capacidade produtiva, sua força

de trabalho que, se melhor preparada fisicamente, renderia mais e melhor.

Bem... a esta altura, certamente muitos de vocês estarão pensando: "E agora? O

que isso tem a ver com a Mulher e o Esporte?" Ah! Tudo, diríamos. Pois a história da

Mulher no Esporte reflete, no seu interior, a maneira como ela, Mulher, era concebida

nos mais distintos momentos históricos nos quais o Esporte foi pensado, construído,

organizado e praticado.

Foi assim em 1882. Naquela ocasião, Rui Barbosa foi o relator do projeto nº

224, que tratava da Reforma do Ensino Primário e várias instituições complementares

da Instrução Pública. Em seu parecer, Rui deixou patente sua assimilação dos

princípios defendidos pelos higienistas com relação à definição dos papéis destinados

aos homens e às mulheres, na sociedade em construção. Referia-se tal Parecer, (1) à

instituição de uma sessão especial de Ginástica em cada Escola Normal e (2) à sua

extensão obrigatória a ambos os sexos, na formação do professorado e nas Escolas

primárias de todos os graus, tendo em vista, em relação à Mulher (atenção, aí vem!) a

harmonia das formas feminis e as exigências da maternidade futura.

Configurava-se, portanto — no tratamento dado à prática, pelas mulheres, da

Educação Física e do Esporte —, o reforço ao pensamento dominante a respeito do

papel da Mulher na sociedade brasileira, preparando-a fisicamente para a maternidade,

concebendo a idéia de Mulher quase que somente associada à de Mãe.

Indo ao encontro das afirmações acima mencionadas, Fernando de Azevedo, 24

anos após aquele Parecer, como que atendendo ao enunciado por Rui Barbosa e

seguindo a trilha por ele traçada, alude à maneira através da qual a Educação Física

deveria incorporar-se aos hábitos de vida da Mulher:



Page 14

... A educação Física da Mulher deve ser, portanto, integral, higiênica e

plástica, e, abrangendo com os trabalhos manuais os jogos infantis, a ginástica

educativa e os esportes, cingir-se exclusivamente aos jogos e esportes menos violentos e

de todos compatíveis com a delicadeza do organismo das mães...”

7

Proféticas palavras as suas! Em 1941, é promulgado o Decreto-lei nº 3.199, que

até o ano de 1975 estabeleceu as Bases de Organização dos Desportos em todo o país.

Em seu artigo 54

o

, encontramos referências à prática do Esporte pelas Mulheres.



Preceituava o referido artigo:

... Às mulheres não se permitirá a prática dos esportes incompatíveis com as



condições de sua natureza, devendo para este efeito, o Conselho Nacional dos

Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país...”

Anos mais tarde, em 1965, o CND baixou através da Deliberação nº 7,

instruções às entidades desportivas do país sobre a prática de Esporte pelas mulheres:

... Nº 1 – Às mulheres se permitirá (!) a prática de desportos na forma,



modalidade e condições estabelecidas pelas entidades internacionais dirigentes de cada

desporto, inclusive em competições, observado o disposto na presente deliberação”.

Nº 2 – Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol



de salão, futebol de praia, pólo, halterofilismo e baseball...”

Não resta a menor dúvida que a simples leitura desses documentos nos conduz à

constatação de que tal legislação explicitava uma distinção entre as atividades físicas a

serem praticadas pelos homens daquelas a serem executadas pelas mulheres,

culminando por viabilizar aos primeiros, maiores oportunidades de desenvolverem-se

em destrezas físicas. Leva-nos ainda, tal leitura, a detectar a intenção, nele contida, de

se adaptar nossa juventude ao padrão de masculinidade e feminilidade vigente em nossa

sociedade, vindo dessa forma ratificar a expectativa da nossa cultura no que concerne à

suposta superioridade do sexo masculino sobre o feminino.

Como decorrência dessa forma de pensar evidenciou-se em um outro documento

legal concernente à Educação Física, o transparecer do entendimento da existência de

determinadas tarefas a serem desincumbidas exclusivamente pelas mulheres e outras

pelos homens. É assim que interpretamos o preceituado na lei nº 6.503/77 que dispõe

sobre a Educação Física em todos os graus e ramos de ensino, ao lermos em seu artigo



1

o

, letra F:

Art. 1º - É facultativa a prática da Educação Física em todos os graus e ramos

de Ensino(...)

Letra F – à aluna que tenha prole.

Ao facultar à mulher com prole, o direto de isentar-se da prática da Educação

Física, obrigatória em todos os níveis e ramos de escolaridade por força do Decreto-Lei

n º 705/69, deixa transparecer o pensamento de que a educação da prole é de

responsabilidade única e exclusiva das mães. Caso o entendimento fosse outro, homem

com prole também deveria merecer o mesmo tratamento oferecido à mulher. Acontece

que a ele é imputada outra tarefa que não a de cuidar dos afazeres domésticos (a

educação dos filhos aí incluída). Seria dele a responsabilidade de garantir o sustento da

família. É dele a incumbência de dar conta da atividade produtiva.

Nos parece que foi a utilização indevida do equivocado princípio da

naturalização do fato social — sob o qual se apóia a compreensão de que as atitudes

femininas são determinadas pela influência de suas características biológicas —, que

serviu de anteparo à idéia dominante da superioridade do sexo masculino sobre o

7

Fernando de Azevedo, “Da Educação Physica”, p.96 da edição de 1920, a segunda de uma série de três.



A primeira edição data de 1916, 24 anos após, portanto, o Parecer de Rui Barbosa ao Projeto nº 224/1882.

A terceira é de 1960.





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feminino, sendo, por conta dele, afastada qualquer alusão ao fato de estar tal

superioridade calcada essencialmente em determinantes sócio-culturais e não bio-

fisiológicos.

Pois é dentro de um quadro mais amplo da luta travada pela Mulher, de se livrar

do estigma de naturalmente inferior ao homem, vinculado às alterações substantivas

ocorridas no campo econômico brasileiro no final dos anos 50, início dos 60, que vamos

encontrar as bases para a gradativa alteração — que passou a ocorrer — da forma de se

perceber a participação da mulher no fenômeno cultural chamado Esporte.

Reflete essa alteração, a luta da mulher pela sua emancipação, a luta por ela

entabulada no sentido de passar a ser considerada um ser social que pudesse vir a ter,

em síntese, na maternidade, uma opção e não uma fatalidade — pela qual teria

necessariamente que passar — que tatuava naquela que não se tornasse mãe, o signo da

anormalidade. Passou ela a buscar ocupar — aproximadamente a partir da segunda

metade deste século —um outro lugar na sociedade que a identificasse como um ser

capaz de — em condições de igualdade em relação ao homem — envolver-se em

tarefas que até então somente a ele pertencia.

O quadro para este feito era ideal. O modelo nacional-desenvolvimentista do final dos

anos 50, início dos 60, acelerava o processo de industrialização do país, construindo as

condições materiais objetivas para que ela viesse a se inserir no mercado de trabalho,

ávido por um maior contingente de mão-de-obra.

Para tanto, foi preciso pensar um outro padrão estético para seu corpo, distante

daquele que a identificava com o protótipo da Mulher-mãe. O corpo gordinho,



rechonchudo, símbolo da fertilidade,

8

padrão de beleza feminina até as primeiras



décadas deste século, se confundia com a imagem da mulher protetora de sua família, de

seus filhos, dos filhos de todos, ao mesmo tempo que significava também, pureza,

benevolência, corpo bonachão, sinônimo de corpo indolente, incapaz de produzir. Era

preciso um modelo de corpo que a identificasse com os valores inerentes à sociedade

industrial. O corpo ágil, lépido, dinâmico, com plena capacidade de rendimento,

produção. Eis o arquétipo de corpo a construir. E assim foi.

Os documentos legais pertinentes à Educação Física e o Esporte refletem esse

quadro. Em 1979, o CND revogou a Deliberação nº 7/65, colocando em seu lugar a de

nº 10. Num primeiro momento a permissão — contida na resolução 10/79 — para a

mulher praticar modalidades esportivas até então a ela coibidas, deu-se por conta de um

caso fortuito, mas que já espelhava em seu interior a mulher em luta.

9

Nove anos depois,



porém, em 1986, o CND baixou a Recomendação Nº 2, na qual dizia reconhecer “... a

necessidade do estímulo à participação da mulher nas diversas modalidades

desportivas no país...”. Para entendermos o porquê de tal recomendação, citamos, en

passant, um dos pontos mencionados na exposição de motivos que a acompanha: “...o

papel determinante que cabe a mulher desempenhar nos programas nacionais de

8

Sob o título “Gordura pode determinar fertilidade”, a Folha de São Paulo publicou em 1º de Abril de



1988, matéria segundo a qual “...cientistas norte-americanos descobriram que existe uma ligação entre a

porcentagem de gordura no corpo de uma mulher e sua fertilidade...”

9

Segundo a matéria “Mulheres neste esporte (judô) só a oito anos” (Folha de São Paulo, caderno de



esportes, 21/9/87, p. A-17), “...foi uma atitude insólida ousada do carioca Joaquim Mamed, então diretor

da Confederação Brasileira de Judô, que provocou a liberação...”. Segundo a reportagem, “...Mamed

trocou os nomes de quatro meninas, relacionando-as como homens na comunicação que fez ao CND para

assegurar passagens à Delegação que disputaria um campeonato sul-americano na Argentina em 1979.

Sua trama foi descoberta depois, mais ele saiu-se vitorioso.

...Quando voltei ao Brasil — disse Mamed, ainda conforme a reportagem — já havia uma intimação

para que comparecesse no CND. Fui lá com as meninas, todas de quimono (...) e de medalhas no peito.

Houve discussão, mas o CND acabou aprovando a entrada da Mulher no judô...”



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desenvolvimento econômico, social, cultural e desportivo...” Preponderava, até então —

segundo essa Recomendação — como impedimento de acesso à esse último

(desportivo), “...as restrições dos costumes e do convencionalismo, e as rotinas dos

afazeres domésticos e familiares...”

Mais teríamos a dizer se não fosse para tão entusiasmante assunto, tão limitado o

espaço destinado.

Assim optamos, a título de definirmos um final para este artigo, por tomar de

empréstimo do professor e filósofo português Manuel Sérgio, algumas de suas palavras,

contidas em seu Manifesto para o Desporto do Futuro”. Fiquemos, pois, com elas:

... Escreve-se por aí, que o mundo está cansado de guerras. Não é verdade!

Enquanto houver super-homens e sub-homens, superiores e inferiores; enquanto o

prestígio se buscar principalmente no Ter e no Poder, em detrimento do Ser, a guerra é

a essência mesma do estar no mundo, tanto ao nível nacional quanto internacional.

Também enquanto houver o vitorioso glorificado e o derrotado vilipendiado e

esquecido; enquanto poucos forem superiores a muitos; enquanto a alta competição

surgir como a guerra... por outras formas, o Desporto continuará acendendo paixões

inúteis, onde o diálogo, a liberdade e a solidariedade tombam desfeitos em cinzas”.

Um Desporto com apurada consciência moral e um razoável grau de



maturidade cultural e cívica, como forma de os homens terem consciência e

exercitarem sua dignidade, os seus direitos e obrigações, há de rejeitar o pensamento e

a política do totalitarismo e do individualismo, os dois grandes elos da opressão...”



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Referências Bibliográficas

* Azevedo, Fernando de. Da Educação Pysica; o que ela é; o que tem sido; o que

deveria ser. 2ª edição, Rio de Janeiro, edição Weiszflog, 1920.

* Castellani Filho, Lino. Educação Física no Brasil : A história que não se conta. 9ª

edição, Campinas, Papirus, 2003.

__________________Diretrizes Gerais Para o Ensino de 2º Grau – Núcleo Comum –

Educação Física. Projeto SESG/MEC-PUC/SP, MEC, 1988.

__________________Ensaio sobre a Mulher Brasileira face a Legislação da Educação

Física e do Desporto. In Desporto & Lazer, ( 8): 18 –21, 1982.

* Kofes, Sueli. E sobre o corpo não é o próprio corpo que fala? Ou o discurso desse



corpo sobre o qual se fala. In Bruhns, Heloisa Turini ( org), Conversando sobre o

corpo, 4 ª edição, Campinas, Papirus, 1992.

* Sérgio Manuel. Manifesto para o Desporto do Futuro. In Corpo & Movimento, ano 1

(4), 1985.

Documentos Legais

- Parecer nº 224/1882 – Reforma do Ensino Primário e várias Instituições

Complementares da Instrução Pública.

- Decreto Lei nº 3.199 de 14/4/41 – Estabelece as Bases de Organização dos

Desportos em todo o país.

- Deliberação CND nº 7/65 – Baixa instruções às Entidades Desportivas do país sobre

a prática de desportos pelas mulheres.

- Decreto-lei n

o

705/69 – Torna obrigatória a Educação Física em todos os graus e



ramos de ensino.

- Lei nº 6.503 de 13/12/77 – Dispõe sobre a Educação Física em todos os graus e

ramos de ensino.

- Deliberação CND nº 10/79 – Baixa instruções a entidades desportivas do país para a

prática de desportos pelas mulheres.

- Recomendação CND nº 02/86 – Reconhece a necessidade de estímulo à participação



da mulher nas diversas modalidades desportivas no país.



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