Movimento mundial pelas florestas tropicais movimiento mundial por los bosques tropicales



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MOVIMENTO MUNDIAL PELAS FLORESTAS TROPICAIS

MOVIMIENTO MUNDIAL POR LOS BOSQUES TROPICALES

Secretaria Internacional

Maldonado 1858, Montevideo, Uruguay

Correio eletrônico: wrm@wrm.org.uy

Página web: http://www.wrm.org.uy

Editor: Ricardo Carrere

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BOLETIM 83 do WRM

Junho 2004 - Edição em português


TEMA CENTRAL DESTE NÚMERO: OS IMPACTOS DA PRODUÇÃO DE CELULOSE

A produção de celulose e papel tem estado por muito tempo associada com o desmatamento e a poluição ambiental. Mais recentemente, tem sido o motor da expansão das monoculturas de árvores de crescimento rápido para alimentar o crescente consumo de papel e papelão. Como as árvores crescem mais rapidamente nos países tropicais e subtropicais –onde as terras, a água e a mão de obra são baratas e onde a proteção ambiental é menos rigorosa que no Norte- a indústria também tem começado a levar a produção de celulose para o Sul.

Em virtude do caráter destruidor das plantações de árvores para a produção de celulose, pensamos que seria útil para as pessoas vinculadas às plantações ou afetadas por elas ou pela poluição relacionada com a celulose, dedicar um boletim inteiro do WRM a esse assunto. A primeira parte do boletim visa a clarificar os aspectos gerais da produção da celulose e seu consumo, enquanto a segunda parte focaliza situações específicas por país.
Neste número:
* NOSSA OPINIÃO


  • A maculada brancura de uma folha de papel


* O CENÁRIO DA CELULOSE E DO PAPEL


  • A evolução do papel: da necessidade à cobiça

  • O processo de produção da celulose

  • Plantas de celulose e plantios de árvores: uma dupla no poder

  • Como a industria da celulose tenta manejar a resistência

  • Livros escolares, lojas e subsídios: renegociação do consumo de papel

  • O mito de identificar alfabetismo e consumo de papel

  • Árvores geneticamente manipuladas: a perigosa "solução" da indústria da celulose


* OS IMPACTOS LOCAIS DAS FÁBRICAS DE CELULOSE
AMÉRICA DO SUL

  • Brasil: mais celulose para exportação gera mais exclusão

  • Algo cheira mal no sul do Chile

  • Uruguai: ou com as fábricas de celulose e o florestamento ou com o povo

ÁFRICA

  • África do Sul: transformando pessoas e lugares em celulose


  • Quênia: a Pan African Paper Mills espalhe doenças

ÁSIA


  • China: nova estrutura da área papeleira para se adaptar à indústria globalizada

  • A indústria da celulose e do papel na Indonésia: um desastre crescente

  • Tailândia: uma planta de celulose com uma longa história

  • Vietnã: uma comunidade dividida ao redor da planta de papel Tan Mai

NOSSA OPINIÃO


  • A maculada brancura de uma folha de papel

A brancura de uma folha de papel encobre escuras histórias de degradação ambiental e desapossamento social. No entanto, essas histórias são raramente conhecidas pelos consumidores que moram longe dos locais onde a matéria-prima –a madeira- é obtida e onde a celulose e o papel são produzidos. Portanto é importante conhecer –e contar- a história.

A história geralmente começa numa floresta que é cortada rente para fornecer de matéria-prima a uma fábrica de celulose –e depois é deixada crescer novamente ou replantada com uma única espécie- ou é cortada para ser substituída por uma plantação de uma monocultura de árvores de crescimento rápido. Em alguns casos, não se destroem florestas mas pradarias para dar lugar a plantações em grande escala para produzir celulose. Em qualquer um desses casos, os impactos sobre a biodiversidade local, a água e os solos são enormes.

Esses efeitos ambientais também produzem impactos sociais. As florestas e as pradarias não estão vazias. Pelo contrário, estão habitadas por milhões de seres humanos, que dependem desses ecossistemas para sua sustentação. A história portanto continua com comunidades locais desapossadas que sofrem as conseqüências. Sempre que for possível, essas comunidades defendem seus direitos e têm que enfrentar a repressão das autoridades governamentais que tomam o partido do setor da celulose. Às vezes têm sucesso, às vezes não, mas na maioria dos casos têm que suportar as conseqüências de sua resistência.

A seguinte parte da história começa numa fábrica de celulose. A matéria-prima barata –extraída com um grande custo social e ambiental- é trazida à fábrica para seu processamento. Esse processo resulta em poluição da água e do ar que afeta a saúde e a qualidade de vida de comunidades que moram perto da fábrica. Aqui também os povos locais são forçados a defender-se e enfrentar as conseqüências.

A história acaba com a produção e consumo do papel produzido no processo. O que faz com que o final seja ainda mais triste é que a maior parte desse papel não está destinado a satisfazer necessidades humanas reais mas a criar um consumo desnecessário para garantir a rentabilidade da indústria da celulose e do papel.

No entanto, a história poderia ter um final totalmente diferente. O consumo poderia ser diminuído drasticamente sem que isso resultasse em escassez de papel. Um cidadão francês consome agora aproximadamente 190 kgs de papel e papelão ao ano, em grande medida utilizado em embalagens. Por que os finlandeses não poderiam diminuir seus 430 kgs de consumo anual para esse número? Por que não poderiam os norte-americanos fazer o mesmo com seu consumo atual per capita de 330 kgs? Mas até as cifras francesas implicam um consumo excessivo, e poderiam ser levadas para os 40 kgs consumidos por um cidadão uruguaio comum –cujo consumo também poderia diminuir ainda mais.

No entanto, a diminuição do consumo não é um assunto de escolha individual; é um assunto político. A indústria da celulose e do papel, junto com seus muitos associados –fornecedores de maquinário, consultoras, agências de crédito às exportações, bancos privados e multilaterais e outros- reagirão aos esforços para diminuir o consumo. Portanto uma oposição bem sucedida precisa reunir todos aqueles que sofrem os impactos das plantações, do desmatamento e da produção da celulose/papel com a oposição organizada nos países consumidores e fazer campanhas exigindo tanto respeito pelos direitos das comunidades locais afetadas pelo ciclo do papel quanto mudanças nas políticas nacionais e globais a respeito do uso do papel.

A folha branca de papel não precisa estar maculada; pode estar socialmente e ambientalmente limpa. Esse é o desafio. E o objetivo desta edição do Boletim do WRM é contribuir nesse sentido.


O CENÁRIO DA CELULOSE E DO PAPEL


  • A evolução do papel: da necessidade à cobiça

Há muito tempo, a necessidade de nossos primeiros antepassados de transmitir palavras e imagens foi plasmada em paredes de pedra, tábuas de argila, tábuas recobertas de cera, peles de animais e outros meios. Depois, aproximadamente 3000 anos AC, os egípcios começaram a escrever em papiros. Os hastes do papiro eram laminados em tiras (como as lascas de bambu na China). Atribui-se a Ts’ai Lun, um funcionário chinês a invenção do primeiro papel real aproximadamente em 105 DC, transformando amoreiras, redes de pesca de cânhamo e trapos num material que permitia à caligrafia numa superfície lisa. Os rolos de pergaminho continuaram sendo a unidade de armazenagem de informação standard até o aparecimento do códex ou caderno de folhas dobráveis no século quarto DC.

As técnicas de fabrico de papel foram transferidas para o Oeste quando um exército árabe venceu às forças chinesas em 751 DC e capturou entre seus prisioneiros de guerra uns poucos fabricantes de papel que foram estabelecidos depois para exercer seu ofício em Samarkand. Então a capacidade de fazer papel espalhou-se devagar da Ásia Islâmica para a Europa. A Idade Média na Europa foi uma época de analfabetismo, finalmente interrompida pela invenção no século XV do tipo móvel por Gutenberg. A publicação da Bíblia de Gutenberg em 1455 e o aumento subseqüente de livros produzidos em massa facilitaram a ampla disseminação de idéias e informação. Isso provocou o aumento na demanda de papel. Naquela época, os trapos proporcionavam a principal fonte de fibra.

No século XIX, os proprietários de fábricas francesas e inglesas, lutando para superar o poder que tinham os artesãos do papel em virtude de seu conhecimento especializado começaram a desenvolver, com a ajuda das novas indústrias de maquinário da revolução industrial, máquinas de papel com a técnica para fazer papel centralizada em mãos capitalistas. O surgimento de produção de pasta originada em árvores proporcionou uma fonte de fibras mais barata e mais disponível (contudo, a rejeição do papel baseado em madeira foi tão intenso entre os moradores locais, que as entregas da polpa de papel tinham que ser realizadas à noite). A descoberta do cloro elementar em 1774 e a invenção da máquina de fabricação de papel de forma continua de Fourdrinier patenteada em 1807 eventualmente permitiu aos fabricantes extrair quimicamente polpa e branquear as fibras de madeira e aumentar drasticamente a produção criando rolos, em vez de lâminas individuais.

Na presente fase, o paradigma baseado em árvores, globalmente orientado, veio a dominar a produção de papel do século XX enquanto os processos de fabricação industriais e os métodos florestais se expandiam. O uso global do papel tem crescido 423% de 1961 até 2002.

Em meados da década de 80, o impacto ambiental da fabricação de papel baseada em árvores foi submetida a intenso escrutínio público. Os cientistas perceberam que o cloro elementar, o principal químico utilizado para separar e branquear as fibras da madeira, combinado com a dioxina produzida pela lignina, era um dos cancerígenos mais potentes e perturbadores de hormônios (depois da incineração, as fábricas de celulose e papel são a segunda maior fonte de dioxina e a maior fonte de poluição da água pela dioxina). O papel virou associado com problemas de saúde pública e o envenenamento dos peixes.

A indústria internacional respondeu investindo em tecnologias que poderiam levar à redução da poluição. A substituição do dióxido de cloro (processo ECF) pelo cloro gás tem reduzido significativamente, mas não tem eliminado a poluição por dioxina. Além disso, implementaram-se tecnologias totalmente livres de cloro (TCF) –apesar de que sua porção do mercado é marginal. A pasta ECF domina o mercado mundial de pasta branqueada quimicamente com mais de dois terços da porção mundial do mercado (75%), seguida pelo cloro gás elementar tradicional com aproximadamente 20% enquanto apenas pouco mais de 5% é branqueado pelo processo TCF (cifras de 2002).

No entanto, novas evidências mostram que os problemas persistem em todas as tecnologias. Aparentemente não há correlação entre os AOX (compostos halogenados adsorvíveis), os níveis de despejo e os impactos ambientais em estudos de respostas específicas de peixes. Além disso, outras observações têm documentado uma série de lesões numa amostra de peixes adjacentes a uma fábrica que usa hidrossulfito de sódio como agente branqueador, sem utilizar químicos baseados em cloro. Também constatou-se que as concentrações de metais presentes em águas residuais TCF são mais altas que em outros efluentes de branqueamento. Sobretudo, esses estudos demonstraram que enquanto as melhorias ambientais poderiam ser atingidas por mudanças de processo -e a eliminação de químicos baseados em cloro era um fator chave nessas melhorias- os efluentes de todos os processos eram tóxicos em algum grau. Além disso, cada etapa da produção do papel, desde o corte das árvores até o despejo do papel em depósitos de resíduos, ajudam significativamente aos gases de efeito estufa da atmosfera. Todos esses riscos estão sendo magnificados pela crescente escala das novas fábricas.

Um quinto de toda a madeira colhida no mundo acaba transformando-se em papel e leva 2 a 3,5 toneladas de árvores para fazer uma tonelada de papel. Por outro lado, a indústria da celulose e do papel é a quinta maior consumidora de energia no mundo. Além disso, em países do Norte, o papel é responsável de quase 40% de todos os resíduos sólidos municipais. Com um crescimento global anual previsto de 2,5%, a indústria e seus impactos negativos poderiam duplicar-se para o ano 2025.

Todos esses dados preocupantes deveriam fazer com que considerássemos a razão última para expor o ambiente e as pessoas a esses riscos. É o custo inevitável que a sociedade humana deve pagar em favor do alfabetismo, da informação e da cultura? Ou o consumo atual de papel está vinculado ao padrão descartável da vida moderna?

Em termos de usos do papel, as embalagens hoje ultrapassam os graus de comunicação. Apesar de que o papel está tradicionalmente identificado com a leitura e a escrita, as comunicações têm sido substituídas agora pelas embalagens como a única maior categoria de uso do papel. A real expansão nas embalagens de papel tem aparecido desde a década de 50, com a difusão dos supermercados e alimentos embalados (apesar de que em alguns casos está declinando tanto em decorrência de reduções gerais em embalagens quanto em decorrência da substituição por outros materiais, como o plástico). A revolução da informação eletrônica tem multiplicado em vez de substituir o uso do papel, e um número de outros fatores, tais como a publicidade, a venda no varejo de alimentos também influenciam padrões específicos do consumo de papel, principalmente a demanda de papel de jornal e papel de embalagem. A esmagadora maioria do papel é utilizada como insumo para outros setores de fabricação: a demanda é portanto filtrada através de outras indústrias e é raramente uma resposta direta pelos consumidores finais. Nos Estados Unidos, apenas 15% da produção de papel é comprada diretamente pelos consumidores finais.

Do ponto de vista do consumo, a tendência está de acordo com as graves desigualdades que levam em consideração o padrão de acumulação e centralização da globalização do mercado e um abismo separa o consumo de papel no Norte e no Sul: o norte-americano médio consome 27 vezes a quantia de papel utilizada cada ano pelo habitante comum do Sul; muitos países africanos consumem atualmente menos papel per capita que em 1975. Os Estados Unidos são de longe o maior produtor e consumidor de papel. O consumo de papel per capita nos Estados Unidos é mais de seis vezes maior que a média mundial e aproximadamente 25% maior que em Japão, o segundo maior consumidor de papel per capita do mundo.

Um norte-americano médio consome 331 kg de papel ao ano e um europeu consome 196 kg por pessoa, enquanto na Índia o consumo anual é 3,8 kg e na maior parte da África menos de 1 kg (cifras de 1999). Estima-se que o trabalhador administrativo médio dos Estados Unidos, usa uma folha de papel cada 12 minutos e joga fora 100-200 libras de papel cada ano e em termos gerais a introdução do email tem causado um aumento de 40% no consumo de papel.

O consumismo e a pobreza convivem num mundo desequilibrado onde não há vontade política para frear o esbanjador consumo exagerado de algumas pessoas e para melhorar o standard de vida daqueles que mais o necessitam. O atual consumo exagerado de papel está baseado em penhorar o futuro da humanidade, e principalmente para beneficiar umas poucas corporações que controlam o mercado global através da manipulação dos mercados, acordos de cartel, fixação de preços e outras práticas similares. O tamanho das grandes empresas do papel –as cifras de vendas de somente a International Paper ultrapassam o Produto Interno Bruto de mais de 75 países- faz com que elas influenciem os atores políticos e econômicos, cujas operações orientadas ao lucro são principalmente responsáveis pela atual crise ambiental, social e econômica. Os grandes supermercados e shopping centers são as novas catedrais da moderna sociedade de consumo que alberga apenas uma elite –28% da população mundial, principalmente de países do Norte, cujos hábitos de consumo têm levado a uma situação insustentável em virtude do grande consumo de água, energia, madeira, minerais, solo e outros recursos e à perda de biodiversidade, poluição, desmatamento e à mudança climática.

Artigo baseado em informação de: “Guide to Tree-Free, Recycled and Certified Papers”, http://www.watershedmedia.org/paper/paper-aconcise.html ; “Towards Zero-Effluent Pulp and Paper Production: The Pivotal Role of Totally Chlorine Free Bleaching”, http://archive.greenpeace.org/toxics/reports/tcf/tcf.html#BIOLOGICAL IMPACTS ; “Rethinking Paper Consumption”, Nick Robins e Sarah Roberts, International Institute for Environment and Development (IIED), http://www.iied.org/smg/pubs/rethink3.html ; “Paper Cuts: Recovering the Paper Landscape”, Janet N. Abramovitz e Ashley T. Mattoon, World Watch Paper 149, Dezembro 1999 ; “Trends in World Bleached Chemical Pulp Production: 1990-2002”, http://www.aet.org/reports/market/2002_trends.pdf ; “La sociedad de consumo”, José Santamaría, World Watch, www.nodo50.org/worldwatch, e-mail: worldwatch@nodo50.org, enviado pelo autor; “The Pulp Pollution Primer”, Delores Broten e Jay Ritchlin, Reach For Unbleached! Foundation, http://www.rfu.org/PulpPrimer.pdf ; “Paper Consumption Statistics”, www.njheps.org/drewpp.ppt

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  • O processo de produção da celulose

As fábricas de celulose se dedicam ao processamento da madeira para a obtenção da principal matéria-prima para a produção de papel: a polpa ou pasta. Trata-se geralmente de grandes fábricas localizadas nas mesmas áreas onde a madeira é colhida, isto é, perto de florestas ou plantações de monoculturas de árvores, onde se facilite o transporte de troncos, abaratando desse jeito as despesas com o transporte.

Basicamente a madeira está constituída por lignina e fibras de celulose e o primeiro passo para a obtenção da pasta consiste em triturar a madeira sólida. De acordo com os processos utilizados, distinguem-se dois tipos de pasta:



  • A pasta mecânica. Os processos mecânicos trituram a madeira e liberam as fibras. Esse procedimento transforma até 95% da madeira em pasta, mas conserva a lignina, o que depois fornece uma coloração amarronzada ou amarelenta ao papel. Esse tipo de pasta utiliza-se principalmente para papel de jornal e outros produtos nos que a qualidade de impressão não é tão importante.

  • A pasta química. A madeira é transformada primeiramente em pequenas lascas e depois submetida a cozimento com produtos químicos, seguido por um processo de refinação. A extração química separa a lignina da celulosa para que ela fique como produto final. Isso se consegue através de hidrólise (reação com água) sob condições de maior temperatura, com uso de produtos químicos e com grande consumo de energia. Conforme o produto químico utilizado, distingue-se: 1) o processo “kraft” ou “ao sulfato” (atualmente o mais comum) que coze as lascas de madeira com soda cáustica; 2) o processo “ao sulfito” (que prevaleceu na indústria do papel desde o final do século XIX até meados do século XX), que coze as lascas de madeira numa solução ácida; e 3) o processo termomecânico químico, onde as lascas são aquecidas ao vapor e tratadas com produtos químicos antes de serem moídas.

Conforme o processo e o tipo de madeira utilizada, obtêm-se diferentes tipos de pasta: de fibra longa (coníferas) e de fibra curta (o resto, com algumas exceções). A importância dessa diferença com relação ao papel é que o de fibra longa é mais flexível e portanto é utilizado geralmente para papel de jornal. A pasta produzida, tanto por processos mecânicos quanto químicos, geralmente deve ser branqueada. Existem diferentes métodos para isso: 1) com cloro gás (também chamado cloro elementar), 2) livre de cloro elementar (ECF), que utiliza dióxido de cloro (dentro dessa técnica desenvolveu-se também o ECF que emprega ozônio nas etapas iniciais do processo de branqueamento e dióxido de cloro na etapa final, e o ECF “melhorado”, que elimina a maior parte da lignina que dá a cor amarelada antes do branqueamento, reduzindo assim a utilização de energia e de produtos químicos para o mesmo) e 3) “totalmente livre de cloro” (TCF), isto é, trata-se de um branqueamento sem compostos clorados, que utiliza oxigênio e peróxido de hidrogênio ou ozônio.

Em meados da década de oitenta começou a discussão pública a respeito do processo de branqueamento da celulose. As análises revelaram uma alta concentração de AOX (um parâmetro que mede a concentração total de cloro vinculado a compostos orgânicos em águas residuais) nos despejos de fábricas de celulose; depois também foram achadas dioxinas. Dioxina é o nome comum para uma família de compostos químicos (existem 77 formas diferentes de dioxinas), que apresentam propriedades e toxicidade similares; aparecem como conseqüência de processos térmicos que envolvem produtos orgânicos em presença de cloro e têm graves efeitos sobre a saúde e o ambiente que se agravam por suas propriedades de persistência e acumulação.



A produção mundial de pasta química branqueada tem aumentado nos últimos 15 anos de 56 milhões de toneladas para aproximadamente 90 milhões de toneladas. De acordo com cifras do ano 2002, aproximadamente 20% da produção mundial de celulose é branqueada quimicamente com o tradicional cloro gás e aproximadamente 75% é branqueada com dióxido de cloro no processo ECF, enquanto apenas pouco mais de 5% é branqueado pelo processo TCF.


  • Os problemas das fábricas de celulose

As fábricas de celulose aumentam cada vez mais seu tamanho e capacidade de produção, agravando ainda mais os impactos de seu processo industrial, que de fato apresenta sérios riscos ambientais. Alguns fatores de risco podem ser identificados:

  • o tamanho (a escala)

As fábricas atuais de pasta de papel são megafábricas, cujo tamanho já constitui um risco. Num processo industrial no que são utilizados tantos produtos químicos tóxicos, qualquer pequeno detalhe que for alterado, qualquer vazamento mínimo, transforma-se em grande pela escala da fábrica. Por outro lado, os despejos poderão ser pequenos em comparação com os volumes que se processam, mas não em comparação com os volumes que a natureza pode suportar. Os despejos de uma fábrica grande de 600.000 toneladas métricas são de aproximadamente 1000 litros por segundo.

  • o cheiro (emissões)

As emissões aéreas das fábricas de celulose (decorrentes da incineração de toneladas de resíduos que ficam do processo e são utilizados na geração de energia), contêm produtos químicos cancerígenos (fenoles clorados, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e Compostos Orgânicos Voláteis), compostos de enxofre oxidado que provocam danos à vegetação, compostos que provocam transtornos hormonais (como por exemplo fenoles clorados) e compostos de enxofre reduzido, que causam o característicos cheiro penetrante de “ovo podre” que se transforma num problema para os povoadores vizinhos. Estudos epidemiológicos recentes têm evidenciado possíveis efeitos na saúde como conseqüência da exposição a esses compostos a níveis geralmente presentes nas vizinhanças de uma fábrica de celulose. Um estudo finlandês (The South Karelia Air Pollution Study) mostra que a exposição a compostos fétidos do enxofre aumenta o risco de infeções respiratórias graves.

  • problemas com a própria produção dos agentes branqueadores

Muitos branqueadores químicos são reagentes e perigosos de transportar, e portanto devem ser produzidos in situ ou nas proximidades. Esse é o caso do dióxido de cloro (ClO2), um gás amarelo esverdeado extremamente reagente que explode facilmente, o que representa um grande perigo, em caso de acidente, para os trabalhadores da fábrica e os povoadores vizinhos. Um outro agente utilizado, o cloro elementar (Cl2), é muito tóxico; trata-se de um gás de cor esverdeada que vira corrosivo em presença de umidade.

  • os despejos e a poluição da água

A gigantesca demanda de água das fábricas de celulose pode chegar a reduzir os níveis de água e os despejos podem aumentar sua temperatura, o que é crítico para o ecossistema fluvial. Geralmente as fábricas se instalam perto de um curso de água caudaloso onde possam não apenas abastecer sua demanda (com menos custos), mas também despejar seus efluentes depois. A indústria da celulose é a segunda consumidora mundial de cloro e a maior fonte de despejo direto de organoclorados tóxicos nos cursos de água.

Dos processos de produção de celulose, os que potencialmente mais poluição podem produzir são os métodos químicos, principalmente os de produção de pasta kraft, cujos despejos do processo de branqueamento podem conter compostos orgânicos presentes na pasta e compostos de cloro, cuja mistura pode formar uma série de produtos tóxicos, tais como dioxinas, furanos e outros organoclorados (também conhecidos como “compostos halogenados adsorvíveis” ou AOX, por sua sigla em inglês), cada um deles com diferente grau de toxicidade. O grave problema com esses compostos é que sua capacidade de biodegradabilidade é muito baixa, o que determina sua presença na biosfera, até muitos anos depois de ter sido liberados, acumulando-se nos tecidos dos seres vivos (bioacumulação). Isso determina que as concentrações nos tecidos grassos dos organismos superiores (incluído o ser humano) sejam superiores às concentrações presentes no ambiente no que foram expostos, o que os transforma num importante problema de salubridade humana. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a exposição a baixos níveis de dioxinas (medidos em milionésimas de miligramas) pode provocar no ser humano alterações do sistema imunológico, do sistema hormonal endócrino, incluindo a atividade de regulação dos esteróides sexuais e o crescimento e mudanças genéticas hereditárias, sem esquecer o câncer. Entre as fontes principais de emissão de dioxinas está o branqueamento de celulose como cloro elementar.

Os despejos de celulose branqueada com dióxido de cloro contêm clorofórmio, ácidos clorados e sulfonas. O branqueamento com dióxido de cloro produz grandes quantias de clorato, que atua como herbicida. Comprovou-se que apesar de que os despejos são mais biodegradáveis que os da técnica de cloro elementar e de que foi reduzida a presença de organoclorados, continuam sendo produzidos e afetando o ambiente. Apesar de que os despejos líquidos são menos tóxicos que há dez anos, ainda são perigosos, porque como foi dito, são poluentes persistentes, isto é, vão acumulando-se permanentemente e não se degradam.

Por outro lado, além dos efeitos dos organoclorados, no final de 1994 materializou-se a convicção de que substâncias da madeira transformam-se em compostos problemáticos durante o processo de extração da celulose, já que se manifestaram efeitos tóxicos em peixes afetados por despejos de produção de celulose branqueada e não branqueada. As substâncias da madeira dissolvida, os resíduos químicos e os compostos produzidos por reações entre as substâncias químicas e as substâncias da madeira produzem poluentes que podem reduzir os níveis de oxigênio dos cursos de água aos que forem vertidos, chegando a ser letais para os peixes.

Os efluentes do processo de branqueamento contêm geralmente entre 40 e 50 quilos de substâncias orgânicas (principalmente lignina) por tonelada de pasta. Estudos realizados no Canadá e na Suécia no final da década de oitenta e no início da década de noventa sobre os efeitos tóxicos crônicos dos despejos das fábricas de celulose nos peixes dos cursos de água vizinhos, revelaram alterações reprodutivas, aumento do metabolismo e mudanças na estrutura das populações de peixes. Outros estudos revelaram danos genéticos, mudanças hormonais, alterações hepáticas, problemas da função celular, mudanças na composição do sangue, lesões na pele e brânquias e reações do sistema imunológico dos peixes. Um estudo realizado em 2003 revelou que 80% das fêmeas do peixe Gambusia que habitava águas abaixo de uma fábrica de celulose manifestaram uma masculinização parcial (alteração das barbatanas anais, uma característica relacionada com a atividade hormonal masculina) e 10% dos peixes manifestaram uma masculinização total. Apesar de que os pesquisadores não identificaram um componente hormonal masculino específico nos despejos da fábrica de celulose, subseqüentes provas produziram uma variedade de reações nos receptores de hormônios masculinos.

Em virtude dos problemas apresentados, cabe perguntar-se se os riscos listados associados às fábricas de celulose para a produção de papel estão justificados em favor de algum bem geral, se trata-se de uma atividade destinada a satisfazer necessidades humanas autênticas ou se tem contribuído a reverter a pobreza. Os relatórios e os depoimentos que apresentamos a seguir dizem que não. As fábricas de celulose são apenas um outro elo da cadeia de atividades de um “desenvolvimento” insustentável com o que os grandes interesses econômicos garantem seu poder

Artigo baseado em informação fornecida pelo consultor Rune Leithe-Eriksen, email: rune@rle.se, o Engenheiro Químico Camilo Barreiro, email: camilobarreiro@yahoo.com; e em informação obtida de: “Industria del papel y de la pasta de papel: sectores basados en recursos biológicos”, Enciclopedia de Salud y Seguridad en el Trabajo, http://www.mtas.es/insht/EncOIT/pdf/tomo3/72.pdf ; Compuestos Organoclorados como Contaminantes Persistentes: el caso de las dioxinas y los bifenilos policlorados http://es.geocities.com/pirineosjuan/organoclorados.html ; “The Case Against Chlorine Dioxide”, Miranda Holmes, Georgia Strait Alliance e Delores Broten, Reach for Unbleached, http://www.bcen.bc.ca/bcerart/Vol7/thecasea.htm , “Missing Monitoring What should be monitored but isn't”, Reach for Unbleached!, http://www.rfu.org/MonMiss.htm ; “Towards a Sustainable Paper Cycle”, preparado para o World Business Council for Sustainable Development pelo Internacional Institute for Environment and Development (IIED), 1996 ; “Causes for Concern: Chemicals and Wildlife”; preparado para o WWF por Valerie Brown, M.S., dezembro 2003, http://www.wwf.org.uk/filelibrary/pdf/causeforconcern01.pdf ; “Trends in World Bleached Chemical Pulp Production: 1990-2002”, http://aet.org/reports/market/aet_trends_2002.html

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